ARTIGO – Mulher é tudo de bom. Por Marli Gonçalves

circulo mulherEu sei que você já sabia disso. Todo mundo sabe ou deveria saber porque sempre tem uma por perto. Mas de vez em quando – ou melhor, sempre – é bem bom relembrar o fato pisando com o saltinho agulha, sambando com toda a ginga nas cabeças e corações dos que ainda não se deram conta da plenitude desse significado: mulher é tudo de bom. Não adianta bater, sufocar, espezinhar, humilhar, discriminar, matar: isso cada vez nos fará mais fortes. Vingamos umas às outras, tanto aqui na Terra quanto no Céu.mulher!

Falo com conhecimento de causa, sim, senhores. Não faz muito tempo que conseguimos sair por aí para dizer tudo isso bem na lata de quem teima em não reconhecer a extrema e diferenciada força das mulheres. Inclusive outras mulheres – ainda há muitas apegadas na barra de alguma perna de calça como se dizia antigamente. Ou ainda adormecidas aguardando o beijo redentor. A novidade é que esse beijo agora pode vir tanto de um príncipe quanto de uma princesa. Mulheres que amam mulheres hoje são visíveis. Brotam.

(Aliás, os movimentos LGBTS e outras letrinhas – com elas formando a palavra chave diversidade – estão dando de dez nos feministas. Vitórias reais como o uso do nome social, casamento civil, rede de proteção).

Nada disso era assim, gente, até há muito pouco tempo atrás, três, quatro décadas, no máximo. Vivi para ver e acompanhar uma parte dessas passadas largas, que vieram para acelerar o andar das primeiras heroínas que carregavam essa luta com seus sapatos apertados. Foram pulos, saltos – os bons e os errantes; vivi para ver o mundo se transformando de uma maneira magnífica. Minha geração foi especialmente privilegiada nisso, e como fui atrás desses caminhos desde bem cedo, logo pós-adolescência, posso dizer que ainda deu para aproveitar um pouco, embora ainda falte, e muito, para conquistar. Mas ainda tenho tempo e é muito legal ser precursora. Dá orgulho. Devo até ter sido importante para muitas mulheres. Continuarei.

Pois bem, as coisas estavam indo muito bem assim até que aqui no Brasil, que pelo menos é de onde acompanho, surgem alguns grupos específicos jogando brasa perigosa na questão feminina. Perigosa, porque os identifico como grupos essencialmente moralistas, maternais e assistencialistas; infelizmente só virtualmente em redes sociais: se tem uma coisa de que toda mulher precisa é de real assistência, seja social, moral, profissional ou de saúde.

Mulher, defenda-se. Como puder.Essas novas tipas creem firmemente que sem elas, nós, as coitadas das outras mulheres, não veremos a luz, não conseguiremos a libertação. A lanterna delas tem uma direção só. A tal luz já chega cheia de ranços políticos, posições intelectuais arcaicas, preconceitos ao contrário, com regras além das menstruais, e palavras de ordem difusas, muito difusas. Chegam a ser infantis. Gostam de causar, esse é o foco 1, provocação.

Nessa toada tem até marchinhas que não se poderia cantar. Outro dia uminha fez um tratado sobre turbantes-emponderamento-pertencimento-e-apropriação digno, este sim, do samba da crioula doida que teve seu antepassado histórico aviltado pelas patricinhas ambulantes brancas e alienadas. E aí aquilo vira uma massa que a galera passa para lá, passa para cá, inunda nosso caminho com essas bobagens, faz com que percamos tempo. Falam em diversidade, mas são rainhas do homogêneo. A esquerda estranhamente gosta muito de exércitos, tropas. Não entendo.Pela sobrevivência da mulher

As mulheres vão bem, sim, muito obrigada. De todas as cores, formatos, idades estão aí com sua linguagem especial, força, beleza, elegância, e cada uma com sua personalidade, propósito, tamanho de unha, cabelo, depilação e forma de encarar o mundo, muito além da decantada e santificada maternidade. Não precisam nem dependem mais de que ninguém fique soprando em suas orelhas o caminho do vento. Ela o sopra.

mulheresAlém de ter de aturar o lançamento da tal cerveja Rosa Vermelha Mulherarghhh! – começou há dias a apelação do Dia da Mulher. Principalmente gente querendo vender de um tudo para a beleza eterna. Pouco se fala dos índices alarmantes de mulheres assassinadas ou de que, durante o Carnaval do Rio de Janeiro, uma mulher foi agredida a cada 4 minutos, 2154 denúncias à PM. Pouco se fala até de um movimento que está rolando na rede e que convoca e programa uma greve internacional feminina para o próximo dia 8. Você sabia?

Pois é. Até me animei e fui espiar. Mas sabe como vai chamar o ato aqui de São Paulo, às 15 horas, na Praça da Sé? “Aposentadoria fica, Temer sai”.

Quem saiu fora fui eu.

Entendeu? Aqui não é feito para unir. É para dividir. No resto do mundo pelo menos é greve de mulheres para mulheres, pelas mulheres.

turma de mulheres

_____________________

20170227_154333Marli Gonçalves, jornalista – O movimento 8M internacional propõe que as mulheres parem. Tudo que fazem – as chatices de casa – o dia inteiro. O trabalho externo, por duas horas. Que não comprem nada. Que apitem ao meio dia e meia, mesma hora que tuitem algumas hashtags. Ah! Que usem roxo. Em casa e na roupa.

2017, que traga mais para as mulheres em todos os dias

__________________________

marligo@uol.com.br

marli@brickmann.com.br

@MarliGo

ARTIGO – Todos às ruas. Por Marli Gonçalves

EU PROTESTOEstamos gostando muito dessa brincadeira. Até porque é boa, barata, pode ser bem divertida e é essencialmente democrática. Social, colaborativa, associativa, participativa, diversificada. Estamos nos espalhando e nos esparramando pelas ruas e avenidas ora por tristezas, ora por alegrias, ora por reivindicações; e muitas, por birra. Vamos ocupar as ruas sambando e cantando a música que queremos que eles toquem

vamos todos protestar!Muito impressionante esse novo comportamento nacional que aprendeu o caminho das ruas e avenidas para demonstrar o esplendor do seu povo e a firmeza de suas opiniões. Isso quer dizer muita coisa e não é só Carnaval. Nem só futebol. É preciso estar mais atento porque só vai crescer, só vai acontecer muitas e muitas vezes, pelos mais variados motivos. Poderão ser grupos grandes, mas algumas dezenas que se unam já estão causando as transformações.

Também não é só aqui – é no mundo. As pessoas se enfeitam, pegam suas fantasias, inventam roupas, costuram uniformes, pintam a cara, produzem plaquinhas onde trazem suas reivindicações, fazem suas bandeiras. Eram só grandes eventos que mobilizavam; agora não, as pessoas estão nas ruas no mesmo momento – pode ser até a posse de um presidente; do outro lado já se movem pedindo logo a sua derrubada, como vimos nos EUA.

Parece bem claro que estamos vivendo tempos de mudança e os mocorongos precisam se dar conta disso rápido sob o risco de ser atropelados pela turba que está tornando a opinião pública algo bem visível, contável e palpável. Estivemos acomodados tempo demais e agora o mundo inteiro procura novas estações, uma Primavera para chamar de sua. É uma rebeldia represada.

Isso requererá preparo. Físico, para quem participa: que não é brincadeira andar quilômetros, concentrar-se em pé durante horas, tirar fotos para mandar para todo o mundo, se livrar dos chatos, bêbados e inconvenientes que sempre surgem, dos empurrões, pisões e cotoveladas. Em alguns casos, some-se o stress de não ser roubado, e nem que batam sua carteira, e que a polícia seja para quem precisa da polícia.

Mais do que isso, vai requerer preparo e treinamento dos governos, dos mandachuvas que deveriam até fazer promessa para ficar bem longe de ser o alvo dos protestos, dos levantes populares. Requererá um novo sistema de segurança para as massas, requererá recursos, novos equipamentos e treinamento do pessoal. Aliás, precisará de bem mais pessoal.passeio de hoje

Tá na moda. Ir para as ruas. E protestar. Chamar a atenção. Bater bumbo – que já não é mais hora de panela. Aqui no Brasil o atual governo parece não estar se dando conta de que está numa corda bamba toda rôta, super rôta, que tem muita gente sacudindo para ver se rompe. Não registra na cabeça que certo ou errado caiu mal na boca dos jovens e que estes não perderão nenhuma oportunidade que tiverem para esculhambá-los, além-PT. Aliás, esculhambar todos os governos, esferas, todas as formas de poder que puderem afrontar – uma vez que com eles não têm elos. Sem compromissos. Não sabem nem bem do que se trata. As notícias estão mal contadas.

Na era da informação digital está muito fácil criar grupos e grupos de maria-vai-com-as-outras. E todas irem para as ruas. Ninguém mais quer ideologias para viver.

O crescimento dos blocos nas ruas – inclusive na sisuda São Paulo – é sinal de que a Avenida Paulista e arredores terão um ano agitado com agenda cheia. Que vai ter bombas de efeito moral e de pimenta sendo acionadas contra pedras, pneus queimados, agências bancárias depenadas e ônibus em chamas. Que vai também ter muita classe média de volta para o asfalto se as medidas econômicas demorarem muito a fazer efeito e se não acabar esse desfile de larápios revelados à luz do dia com suas ideias estapafúrdias para o país.

passeatapasseataVamos todos gastar muita sola de sapato.

_________________________

20170225_003720 Marli Gonçalves é jornalista – Num lampejo de vidência prevê que essa Quaresma vai ser animada e vai ter muita gente pagando pelos seus pecados antes mesmo de se arrepender por eles.

SP, 2017 engatando o terceiro mês – Avoé! Aleluia!

marligo@uol.com.br

marli@brickmann.com.br

@MarliGo

ARTIGO – Uma indigesta sopa de letrinhas. Por Marli Gonçalves

Começo de ano já é bravo por si só: é IPVA, IPTU, IR e outros famigerados. Mas esse mês de fevereiro impressiona ainda mais. De um lado a corda puxa, para tentar puxar o saco da rapaziada, e começa a sacudir o F, o G, o T, o S – liberando coisa de ativo, inativo, passivo – como se isso fosse a redenção nacional em um saco de bondades que de vez em quando abre a boca e solta pérolas; de outro a turma da mão que vive embalando o berço bate igual à água mole em pedra dura com o L, o U, o L novamente e o A. Cada passinho para frente eles aparecem chamando molusco de meu loiro

frog-x-letterNão estou acreditando que a gente ainda esteja nessa. Que ainda haja gente brigando por causa deles. Custa muito admitir que a decepção é total, ampla e irrestrita ou é mais legal ficar pendendo de um lado ou outro nessa gangorra infernal, um tampando o olho do outro? Sempre um dos lados se estatela pelo chão, não brincaram já disso na tenra infância?

Ler o noticiário – eu obviamente faço isso não só diariamente como quase o dia inteiro – parece roteiro de filme dos Trapalhões, do Zorra Total. Não digo Praça da Alegria porque aqui não estou vendo nenhuma. No máximo posso citar o Pânico!

Quando a gente acha que a coisa vai mudar, vem mais do mesmo, muito mais, um fardo. E uma incapacidade de comunicação que dá gosto. Por outro lado, os que não querem admitir que sim, ele sabia, ou que sim, vocês todos foram enganados nessa de a turma acabar com a desigualdade social, governo popular, e apenas ter sido um tal de cada um para si e tudo para quem é da corriola, lambendo os beiços dos empreiteiros.

O bombardeio usa letras de todos os tipos e tamanhos. Desde as letrinhas dos institutos de pesquisa que andam por aí perguntando preferências impressas prontas a serem chutadas com respostas reumáticas dois ( imprevisíveis ) anos antes. E toma Lula na cabeça, Bolsonaro (!) correndo na raia, Joaquim Barbosa ressuscitando de sua caverna. Aí entram STF e STJ e fica todo mundo dando ordem. Dizendo, desdizendo, jogando peteca. Alguns comemorando o nada, só gás tóxico.

Poupe-nos, Senhor, deste Calvário!

Letrinhas escondem nomes cruelmente bestas e extensos em siglas. CNT, Confederação Nacional do Transporte (Transporte? Pesquisa? Um grita e o outro não escuta); FGTS, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (já e coisa sua, de lei). São como quando formam siglas de órgãos públicos – usadas para que esqueçamos a inoperância contida em seus extensos nomes.

Esquecem ainda umas das regras principais do marketing político: quem antes aparece fica mais tempo à frente da linha de tiro; se o Lula já era alvo, agora está em um paredão com uma artilharia apontada. Ele sabe disso e está incentivando porque, já condenado, quer fazer um último pedido para deixar a galera em brasa. Uma estratégia deveras perigosa.

Vêm aí grandes emoções. Estava pensando em propor um novo quadro para a tevê. Uma nova moça do tempo, mas suas previsões diárias seriam desse nosso tempo político, passível de trovoadas, prisões, delações, reviravoltas, cataclismos, com abalos sísmicos e desmoronamentos. Fora as ventanias, redemoinhos e formação de nuvens.

Já vi, vivi, e imagino onde tudo isso vai parar. Lembrei até de que nos anos 80 foram algumas poucas fotos que abalaram durante um bom tempo o tal líder popular, quando o mostraram numa casa noturna da alta sociedade, charutão e boa bebida, companhias importantes como agora muito mais ainda sabemos o quanto ele gostou de conviver. Sempre gostou. Corre e busca o povo quando vê a coisa feia para seu lado. Chama as duas letras de seu partido e as muitas outras dos agregados movimentos para fazer barulho enquanto ele dança miudinho.

Todo mundo no samba.

___________________________________

IMG_20170211_020937Marli Gonçalves é jornalista – O problema é que estamos sem alternativas para preencher os vazios. O Ó.

Brasil carnavalesco, pausa, 2017

marligo@uol.com.br

marli@brickmann.com.br

@MarliGo

ARTIGO – Roletas russas da vida. Por Marli Gonçalves

 

MAO NA MAOUma decisão, um passo, um segundo, um minuto, uma virada errada, uma distração, um tropeção, uma bala, uma chuva, uma rua, uma carona, uma queda. Qualquer coisa. A vida é frágil. A terra é frágil. O ser humano vive em uma corda bem bamba e muito fina desde que nasce até que morre. Tudo pode acontecer. Inclusive nada. Essa é a verdadeira loucura da existência

MAO FACA

Como é que pode? Como é que pode? Todo mundo batendo cabeça e se perguntando das ironias da vida quando fatos horríveis assim acontecem. Os inesperados. Ouvi e li de um tudo, e são dezenas as fantásticas teses conspiratórias que garantiam- já minuto seguinte ao acidente que matou o ministro do STF Teori Zavascki – que foi um atentado. Um assassinato. Claro, investigue-se, detalhe por detalhe, peça por peça, minuciosamente, o que ocorreu. Não deixem essa virar mais uma lenda urbana que viva no imaginário popular assombrando o país.

Mas eu não quero ser considerada burra nem ingênua ao ter certeza de que foi acidente.

Acidentes com aviões particulares têm enorme chance de matar personalidades. Gente conhecida. Gente importante. Gente famosa. Quem é que anda para lá e para cá em aviões particulares? Em helicópteros? Eu? Você? Até já andei muito, mas sempre de carona, de estepe, por algum motivo profissional, acompanhando algum cliente, como jornalista, nem sabia se meu nome contava na lista de passageiros. Como as duas mulheres que, além do piloto, do dono da aeronave – pessoa entre as mais bem relacionadas do país – e do ministro, estavam lá e tentavam chegar à bela Paraty em um chuvoso e cinzento dia de verão. Que tipo de sabotagem seria essa que só ocorreria na ponta da pista? Quem teria contratado São Pedro para soprar nuvens? Sofisticada essa ideia de fazer cair no mar, para afundar e ninguém achar os destroços.

Ah, mas era o ministro que cuidava da Lava Jato! Sim. Podia ser outro ou outra da mais alta Corte. Podia ser Moro, algum membro (ou todos) da força tarefa do Ministério Público. Algum artista – eles se deslocam muito em aviões. Para “pegar” o ministro não haveria outra forma? – veneno, urticária, espiã, manga com leite, jogar um piano da janela quando ele estivesse passando, cortar o cabo do elevador, infiltrar uma cobra venenosa no gabinete dele? (se bem que essa opção não pode ainda ser descartada…)

São pessoas – não há redoma que possa protegê-las delas mesmo. Andam de carro, de moto, de avião, de bicicleta. Podem escorregar no tapete do banheiro depois do banho. Depende do que fazem, como vivem, onde andam, e até do que comem – são protegidos, mas seguranças não são infalíveis e nem conselhos de cuidado com isso ou cuidado com aquilo e que em geral são ignorados. Igual à gente quando foi criança, a mãe disse não vá, e birrentos demos com a cara na parede – alguns têm cicatrizes que lembram esse dia a vida toda. Claro, quando não foi mortal de vez, e valeu a vida.

A verdade é que ninguém nunca espera que vá acontecer o que pode acontecer. Ninguém acredita que poderá ser retirado desse mundo de forma tão abrupta que não tenha nem tempo de respirar, dizer tchau. Creio que nem quem pratica esportes e outros passatempos radicais pensa nisso. No xeque-mate.

E não adianta ter medo. O medo não salva. É o famoso quando tem de acontecer acontece. Deus resolveu – para quem nele acredita. Fatalidade. A hora da morte.

Há riscos e perigos. Risco é a probabilidade. Perigo é uma ou mais condições que têm o perfil de causar ou contribuir para que o Risco aconteça. Não se mede e não há como eliminar o Risco. Já os perigos até poderiam ser prevenidos, analisados, mensurados e corrigidos.

São perigos que nos rondam como a bala do tambor do revólver de uma roleta russa. Ou como se andássemos sempre com pés enormes em campos minados.

Podia ser um terremoto, um maremoto, uma enchente, uma avalanche, um ataque de coração. Podia até ser um atentado.

Mas foi um avião e um passeio interrompido. Que esperamos não interrompa as esperanças do povo brasileiro na Justiça e no desfecho da mais rumorosa tentativa de faxina e descoberta de quem nos bateu a carteira.

ROLETA

_______________________

20160813_143252Marli Gonçalves, jornalista – Não adianta não fazer, não ir, não tentar. Só morre quem está vivo. Ou que pelo menos estava assim até que…

2017, acreditam?

____________________________________________

E-MAILS:

MARLI@BRICKMANN.COM.BR
MARLIGO@UOL.COM.BR

ARTIGO – As moscas estão zunindo por aqui. Por Marli Gonçalves

 

49f7cc19473747-562db04e6e330Elas atiçam nossos instintos mais primitivos. Nossos pensamentos mais torpes e violentos de destruição em massa. Pensamos em alguma bomba nuclear, extermínio cruel, veneno milagroso. Mas no máximo, as atacamos de pijamas e tentamos pegá-las – ao menos algumas – com ridículas raquetes elétricas xingling, e só pelo prazer da vingança de ouvir aquele barulhinho de fritura e sentir o cheirinho do queimado. São fêmeas empoderadas, cheias de querer, de fome de pele, suor, sangue. Atacam à noite, e são capazes de estragar todo o seu dia seguinte. Deixam marcas e suas passagens sempre têm o forte alarido; fazem muito barulho com suas asas batendo em nossos cangotes, provocativas, roçando nossos ouvidos

______________________

ZZZZZZ.

As moscas, as pernilongas estão chegando. Não querem mais cair na sopa, mudaram o paladar. Querem gente, mostrar todo o poder dos insetos sobre a raça humana, e que não há metrópole que as assuste. Não deviam mais ser a manchete de todo ano, todo verão, mas estão aí e são cada vez mais poderosas, numerosas, agressivas e com capacidade de guerra mortal multiplicada. Algumas tipas vestidas de listrado trazem em si a tragédia causadora da zika que compromete gerações futuras, da chikungunya, que imobiliza, da dengue, que derruba. Assassinas.

Não dá para não lembrar o que, para mim, é um dos principais filmes de terror da história do cinema, quiçá da humanidade, e não teve a participação nem de Hitchcock, nem de Boris Karloff: A Crônica de Hellstrom, premiado documentário americano de 1971, sobre os insetos e sua absurda capacidade de sobrevivência. Quem viu traumatiza pra sempre.

Pois eles, esses pequeninos monstros, estão aí para não nos deixar mentir (nem dormir em paz). Atacando sem dó no país que não se livra das mazelas, as cultiva. Não limpa seus rios, os suja. Misérias que criam criadouros de comunidades inteiras de coisa ruim. No país que consegue até a volta de doenças erradicadas, e notícias de surtos assombram, febre amarela, urina negra. Outro dia, lá em Roraima, acharam um foco de barbeiros causadores do Mal de Chagas. Sabe onde viviam? Pensam que estavam numa casa de taipas, de barro, de tijolos? Não, estavam confortáveis dentro de um ar condicionado de uma residência de alto padrão. Subiram na vida. Pelas nossas costas. Pelas nossas pernas, pelos nossos braços. Fazendo a gente se coçar.

Não é para se preocupar? Aqui em São Paulo está havendo uma séria infestação de pernilongos (pernilongas, que são as que mordem, igual a presidentas). Se ainda não foi uma de suas vítimas, procure saber. Falam que são daquelas mais simplesinhas, populares, zumbido em língua portuguesa, e aquela preguiça tradicional. Depois que nos picam e enchem as suas barriguinhas precisam descansar um pouco. Se encostam na parede para o amadurecimento dos ovos. Evitam principalmente o voo para economizar energia. Voltam a atacar logo após a postura dos ovos. Boa hora – essa de sua distração – inclusive para ganharem uma boa e bem acertada chapoletada para voarem longe antes de descarregarem seus milhares de ovinhos em nossas coisas pelas redondezas, como fazem.

Claro, lembre que esse assassinato deixará marcas de sangue espatifado nas paredes – provavelmente o seu mesmo.

Em Minas Gerais, o bem sério surto de febre amarela. Transmitida por quem? Pelo mesmo Aedes aegypti, o pernilongo de facção criminosa, que também passa a febre amarela urbana; as espécies Haemagogus e Sabethe transmitem a febre amarela silvestre – animais silvestres infectados fazem parte desse ciclo. Já se analisa se têm a ver com a tragédia da lama de Mariana e no Espírito Santo ( para onde também correu essa lama) já há quase uma centena de mortes de macacos infectados

Tudo de ruim ultimamente passa por essa pernilonga Aedes (os machos, meio cafetões, ficam por perto só esperando que as moças voltem para seus ovos, ou procurando alguma que tenha zumbido bom para copular e criar mais pernilonguinhos).

Pernilongos andam grandes distâncias, de carona. Todos os meios de transporte, inclusive elevadores. Quando fixam residência ficam por ali sempre num raio de 300 metros. Com 270 a 307 batidas de asas por segundo, as ondas se propagam pelo ar e são o zumbido infernal que nos atormenta. Escolhem suas vítimas por cheiros e uma pesquisa disse que adoram bebedores de cerveja, cheiros que detectam a 36 metros de distância.

Longe de mim pretender que vocês agora tenham mais pesadelos ainda com esses monstrinhos de milímetros, mas com toda essa movimentação mundial parei para pensar que talvez também haja êxodo desses insetos, de mais variedades de suas espécies, e nossas políticas de saúde pública não são as melhores. Bem, nossas políticas todas não são as melhores.

Já pensaram? E se acaso a tsé-tsé resolver também vir morar aqui no pais da malemolência?

ZZZZZZZZZZZZZZZZZZ

mug001

_____________________

20160813_143252Marli Gonçalves, jornalista – Depois que infesta, eles, os que mandam, saem correndo para mitigar, fumigar, fumaçar os bichos. Neste progressivo país, vale lembrar que ainda tem as pulgas e baratas. Os carrapatos. Principalmente os que grudam no poder. Os escorpiões que nos picam todo dia com suas traições

São Paulo, calorento, insone, 2017

____________________________________________

E-MAILS:

MARLI@BRICKMANN.COM.BR
MARLIGO@UOL.COM.BR

ARTIGO – Barbaridade e barbeiragens. Por Marli Gonçalves

assaltantes, traficantes e quetais

Barbaridade e barbeiragens

Marli Gonçalves

Pior do que está pode ficar sim. Pior do que o que vemos, sentimos e não estamos acreditando como é que pode, e acontece bem sob as nossas barbas, é que estas – as ARTIGOnossas barbas – estão de molho. Os causadores, criadores, desgovernadores, irresponsáveis e apaniguados, podem ver, passa minuto a minuto e ainda estão lá em suas cadeiras, sentadinhos com seus enormes traseiros. Como se nada estivesse acontecendo, não devessem satisfação para ninguém

Barbárie é pouco para descrever tudo isso. É o horror, o terror, o mais inimaginável no mais louco Filme B que se possa criar, dos de quinta categoria, cheios de catchup e outros efeitos toscos. É mais do que Sexta-feira, 13, Jason, O Exorcista, A Vingança dos Zumbis das facções, Pânico 1, 2,3 e 4, O Massacre da Serra Elétrica, Tubarão, Piranha, o filme. Todos juntos.

E nós sabemos o que eles fizeram nos governos passados que se prolongam nesse nosso futuro. Nada nada. Ou fizeram errado. Ou estavam ocupados roubando. Nos esbofeteando com suas frases feitas, explicações vazias, promessas que se repetem , nunca cumpridas – apenas se repete mais uma vez a lista das providências que serão tomadas no Dia de São Nunca, depois que o buraco abriu muito mais lá em baixo.

Adoraria saber que quando você estiver lendo esse artigo o Ministro da Justiça – este ser que vem colecionando fatos demonstrativos de sua total incapacidade para um cargo importante como esse – já terá sido demitido. (E que depois disso alguém conte a ele que em boca calada não entra mosquito, e que dizer que vai querer erradicar a maconha no Brasil é coisa de quem tomou droga bem ruim). Adoraria saber. o Governador do Amazonas já tenha sido, digamos, transferido e internado no hospício: coitado, este anda procurando santos por aí, e até na cadeia!simpson-rodando

Espero ainda que o Temer já tenha posto um bom dicionário em cima da mesa dele para conhecer o valor das palavras na realidade brasileira. Acidente pavoroso, presidente? O senhor teve três dias – enquanto ficou caladinho depois das mortes em Manaus – para treinar na frente do espelho, falar em voz alta o discurso que faria. Se o seu ouvido for suprapartidário ele logo o teria alertado. Acidente pavoroso, presidente?

Mas, infelizmente, creio que nada disso terá sido feito; não teremos essa sorte. Passaremos mais alguns dias ouvindo patacoadas, contradições, vendo suas caras atônitas como se essas pedras já não viessem vindo e sendo cantadas a plena voz. Essa, a do barril estourando nas grandes prisões, é só uma. Grande. Vergonhosa. Com suas dezenas de cabeças decapitadas, membros decepados, requintes de crueldade e insanidade como olhos e corações arrancados – cenas gravadas e enviadas às redes sociais numa produção cinematográfica macabra.

Grande a ponto de sobrepujar e mandar para o rodapé uma grande explosão ocorrida em Cubatão, na Vale Fertilizantes, que liberou o altamente tóxico nitrato de amônio. Que pode ter contaminado gente, bichos, plantas, água, terras. Uma enorme nuvem vermelha. Aguardamos mais informações.

Grande a ponto de nem ligarmos tanto para o ataque no aeroporto americano, que ainda se discute se foi terrorismo ou não. Desculpem, para mim, é terrorismo sim, pode até ser sem causa, solitário, mas é terrorismo. É terrorismo a situação que deixaram o Rio de Janeiro. Teve terrorismo em Manaus, Boa Vista, Campinas, onde um doido entrou o ano matando toda a sua família e quem mais estivesse perto dela. É terrorismo o que fazem as facções criminosas de letrinhas e nomes exóticos. É terrorismo o que estão fazendo com nosso país.

É a barbárie sim. É primitivo. Barbárie também é além da selvageria, erro crasso de linguagem ou de escrita. Acidente pavoroso, presidente?

É barbeiragem. Param em local proibido. Ultrapassam pela direita. Não sabem como dirigir sem fazer zigue-zagues.

Resultado de imagem para barberia animated gifs____________________

20160813_143252Marli Gonçalves, jornalistaHorrorizada como ainda tem quem não perceba a gravidade dos fatos, e ainda aplauda, com a boca cheia de asneiras para suas ignorâncias.

2017, o ano que já começou.

____________________________________________

E-MAILS:

MARLI@BRICKMANN.COM.BR
  MARLIGO@UOL.COM.BR

ARTIGO – Desbundar! Para marcar época. Por Marli Gonçalves

hippiegal3

Não sei você, ou se sou só eu que estou sentindo uma espécie de pressão no ar, como se algo fosse estourar. Não digo nem que bom ou do mal. Algo. Que diz que para o qual será necessário dar um primeiro passo. Aliás, já não é sem tempo voltarmos a, no mínimo, sermos criativos, mais férteis em ideias. Está na hora de marcarmos época. Dar uma desbundadinha, talvez.

mainstream

Sim, nada melhor do que falar nisso agora, começo de um novo ano que ainda nos encontra perplexos, abobados até, diante de tantos acontecimentos esquisitos, sinistros. É como se vivêssemos em uma região com vários mundos – bolhas – que não andam se comunicando nada bem entre si, mas cada uma querendo crescer mais para achatar a outra, impondo assim sua supremacia. E claro que a que vem ganhando mais espaço é justamente a mais terrível: a da intolerância, conservadorismo e caretice. A primeira a furarmos com agulha. Rápido.

Leio com alegria que no Rio de Janeiro já há um grupo de artistas se reunindo para começar a recolocar os pingos nos nossos is. Chamam de desbunde, no geral. Fico feliz. Só rogo que tentem se afastar ao máximo de ideologias políticas arcaicas, e pensem no que fazem de melhor, Arte, a maior propulsora das mudanças. Que o façam com cores, nudez, poesia, sons e imagens, humor. Que provoquem pensamentos, que sejam exemplos, que deem vontade de a gente seguir atrás apoiando e multiplicando seus feitos.hipgrl22

Está na hora de marcarmos época contra a chatice que teima em grudar igual carrapato e que detona cérebros e nos dá desgosto de ver o estrago que está fazendo principalmente nas pessoas, especialmente nos mais jovens. Precisamos conseguir sacudi-las, nos infiltrar nesse exército de abobalhados uniformes e homogêneos que repetem como autômatos o que o sistema e as “normas” os mandam balbuciar.

Os anos 10 de 2000 já estão pra lá de passados, mais da metade, e o tempo urge. O que está ficando de rastro deles? Do que podemos nos orgulhar como sua grande marca? Eles não estão sendo marcados por avanços. Ao contrário.

germanhula2O mundo não pode se contentar, dar-se simplesmente por satisfeito. Parar na revolução digital como se ela fosse a última fronteira. Considerar que as conquistas já ocorreram. Aceitar a ideia da violência gerada (e combatida) pela própria violência. Fundamentalmente não podemos deixar a massa desandar – as massas serem cooptadas por seres do mal, entre eles os aproveitadores da fé. Esses aí que passam os dias dizendo que tudo é pecado, não pode, Deus não gosta, vai arder no fogo do inferno. Eles plantam culpas para viver, e elas – as culpas – são como ervas daninhas destruidoras.

Proponho então apoio a uma nova palavra de ordem do movimento que os artistas estão começando: Desbundar. Nos anos 60 se dizia que quem abandonava a luta armada e a militância política, indo só pro Paz e amor, tinha desbundado. Desbunde também é algo fantástico, que maravilha, que extasia.

Vamos lá, vai! Pelo menos uma desbundadinha. Tenta. Vai ver o quanto é gostoso.

sample_ok

____________________

20160813_143252Marli Gonçalves, jornalista Vou tentar dar mais umas, faz tempo que não exercito desbundadinha. Sério: acho que é o que estamos precisando. Afinal, desbundar é também romper, inovar, botar para quebrar, mostrar a que veio.

São Paulo, 2017

____________________________________________

E-MAILS:

MARLI@BRICKMANN.COM.BR
MARLIGO@UOL.COM.BR