ARTIGO – Dei pra filosofar. Por Marli Gonçalves

Um velho amigo, ao ler esse título, certamente me arremedará, com um sorrisinho sarcástico, retrucando em voz alta, de onde estiver: “Pode filosofar sem dar”. Só buscando algum bom humor para sobreviver na atual seara nacional. Tem outro jeito, a não ser ficar por aí, pensativo?
filosofar

Bem, se um presidente pode falar de sexo com uma criança, como fez essa semana, e de novo, numa “live”, referindo-se daquela forma peculiar, para não dizer outra coisa, que palavrão não cabe, posso fazer também alguma referência mais marota, uma vez que escrevo para o público adulto. Público esse para o qual dirijo meus pensamentos, e para o qual peço, por favor, por instantes que seja, que deixe de lado essa divisão político-ideológica meio burra com a qual estamos convivendo, de “ou é isso, ou é aquilo”. Cansei. Estou querendo conversar sobre comportamento, um monte de coisas sobre as quais ando pensando. Você não pode estar achando isso tudo normal. Não pode.

Coincidência, talvez, essa semana assisti à entrevista do Caetano Veloso, 78 anos, ao Pedro Bial, e a dois documentários; um, sobre Ney Matogrosso, 79, e outro, sobre Milton Nascimento, 77. Ouvi as suas músicas, suas letras fantásticas, suas histórias tão ricas. Me emocionei e me orgulhei muito de viver a época que nasci, e que pude acompanhar por anos esses e outros dessa mesma faixa etária, e em todos os campos, inclusive intelectual.

O que será de quem chega agora? O que podem aprender? Que arte, que música poderão fazer (nossos ouvidos que o digam) convivendo com época tão escassa em inteligência? Como veem a vida, o país, os fatos, a política, como participarão?

Todo dia – quem pode achar isso tudo bem? Não estamos sendo governados pelos Trapalhões, muito menos sentados no banco da Praça da Alegria. Vivemos um momento mundial dramático, e dramático num nível que me parece quase impossível que alguém não tenha sido de alguma forma atingido. E ao invés de algum refresco, o que temos?

Todo dia tem bronca, tem bobagem, tem briga, tem mico, ameaças à democracia e à razão, trapalhadas, frases desconexas, moralistas ou com informações erradas ou falsas, sem qualquer sentido, e vindas de algum membro do governo instalado e formado sabe-se lá Deus com quais critérios.  Não que da oposição (onde mesmo está Wally?) seja melhor, que dali também, convenhamos, ouvimos cada balbuciada quando esta aparece, põe a carinha na porta! Mas estas manifestações ainda são tão ralas e ainda com aquela velha mania de falar só para já convertidos que se fosse uma igreja chamando fieis os bancos ainda estariam vagos.

Quieto há mais de mês, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, apareceu. Afirmou em evento lá por aquelas bandas, que jovens se tornaram “zumbis existenciais” ao não acreditarem mais em Deus e também na política. Discursou e quem ouviu já se ligou: lá vem censura de assuntos nos livros do MEC. “Valores”. Que valores, pastor? ops, ministro! Que política, ministro? E quanto a Deus, deixe-o em paz, que cada um tem sua forma de entendê-lo.

Horas depois, na tal live  ao lado de uma menininha country com QI de sempreviva, e que não tenho a menor ideia de onde tiraram, cercado de seus puxa-sacos habituais, o presidente, em poucos minutos, rindo, e como diria meu velho pai, fazendo papagaiadas, ofendeu os gordos, falou a favor do trabalho infantil, fez menções contra os LGBTs, agrediu as mulheres com sua misoginia latente ( que pelo menos agora ele sabe o que é misoginia) e ainda discorreu sobre a raça negra de uma forma que é difícil até de comentar. Faltou falar sobre a posição papai e mamãe, rosa e azul, mas passou bem perto.

No mesmo dia vemos um vídeo circulando – sendo repercutido até pelo vice-presidente – negando que haja o que o mundo inteiro está cansado de assistir diariamente – queimadas na Amazônia, o horror, o descuido com uma de nossas maiores riquezas naturais. O bichinho que apareceu, “amazônico”? O coitado do mico Leão Dourado, o belo macaquinho que vive muito longe lá da Amazônia, da floresta, é daqui da Mata Atlântica do Rio de Janeiro.

Parafraseando o que todo dia acompanhamos da pandemia, a média móvel de sandices só aumenta, só sobe. E eles nem coram.

Concluo que vivemos uma outra pandemia paralela, onde distraídos chegamos. A um retrocesso absoluto. É muita hipocrisia, moralismo, incapacidade de pensar, estudar, lidar com a razão, o conhecimento e a Ciência, desrespeito às liberdades individuais, o que vivemos – e não é só deste ano, deste governo. Isso nos atinge há algum tempo, a todas as gerações, nos torna pessoas piores, devasta a cultura nacional e a criatividade, leveza, ousadia e simpatia com que éramos conhecidos.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Pode me escutar um minuto? Por Marli Gonçalves

conversaTem de pedir por favor? Pagar? Comprar uma ficha? Você diz uma coisa e respondem outra. Ninguém mais dá mais atenção um ao outro? Reparou? Virou uma competição de egos, de desgraças, coisa para novos estudos sobre intercomunicação e a nova Torre de Babelconversa 2

Melhor falar com o espelho, com a parede, com o teto, pensar em voz alta para achar que tem alguém ouvindo, mesmo que esse alguém seja você. Pelo menos não ficará frustrado com a forma que as relações tomaram ultimamente, nesses tempos de internet, que não há por que negar influenciam e vêm mudando de modo impressionante a nossa forma de interagir. Talvez seja por isso que tanta gente conversa longamente com seus bichos de estimação, esses nos dão atenção, pelo menos podemos achar isso – e todo mundo precisa de atenção por mais de um minuto.

Pega o exemplo de um post no Facebook. Ando apavorada com isso, com o jeito que cada pessoa tem de entender algo e que se desvia de tal forma com o comentário que faz do que você escreveu que é preciso até voltar, reler, verificar o que foi que você próprio escreveu, se não está maluco, se não foi mudado por algum hacker ou pelo próprio teclado cheio de vontades.

Tudo superficial. Não adianta “desenhar” também, nem falar lentamente, nem usar palavras fáceis, mais didáticas, arroladas com toda a calma que Deus lhe concedeu. A impaciência se une à prepotência e aí a coisa degringola de vez.

Leandro Karnal, o historiador meio filósofo, outro dia em um programa de tevê tocou nesse assunto. Chamou a atenção para a absoluta falta de continuidade das conversas, o que eu já vinha notando há algum tempo. Nunca a expressão palavras ao vento soou tão verdadeira. Você diz que está morrendo e a pessoa fala que está frio, ou que também está morrendo, você precisa ver como ela anda se sentindo mal, precisa ir ao médico e não tem tempo, mas é assim mesmo, e aí desfia um rosário particular – ai se não prestar atenção. E à esta altura você, lá, morto, caído, estirado, pronto para ser enterrado.

animated_conversationPara Karnal há, inclusive, uma nova linguagem surgindo. Fiquei horrorizada porque ele ainda admitiu que ela não levará muito mais em conta, por exemplo, o uso de plurais. Os “s” todos mordidos, comidos, em extinção. Os verbos andam massacrados, e às vezes as notícias têm de ser lidas mais de uma vez para serem entendidas tal a confusão da narração. Há dias, acreditem, apareceu uma mulher com cabelos azuis numa matéria e que até agora não ficou clara sua participação na história.

Como ultimamente se fala feio; como se escreve feio! Frases capengas com vocabulários pobres e alterados como as rosas de Hiroshima.

Como se pensa feio. Há uma crise na intercomunicação que deve ser levada em conta para entendermos o momento atual de um país onde idiotas viram heróis e qualquer coisa é celebridade por dez minutos ou dez dias, esquecidos mais rapidamente ainda.

Imagino os professores nas salas de aula falando para dependentes de smartphones loucos para teclar com quem está fora dali, mandar uma selfie, curtir, compartilhar. Nunca se foi tão social e ao mesmo tempo antissocial.

Dentro desse quadro psicótico se desenvolve a nossa política, ouvimos aqueles discursos delirantes e coligações inimagináveis, que vêm produzindo um dia a dia insuportável e cada dia mais cansativo para quem ainda esperançoso aguarda mudanças.

Essa semana vai ser difícil, com a patética escolha da nova presidência da Câmara, já com mais de dez candidatos, uma baciada de sujeitos e sujeitas que não representam nem apresentam nada de bom. Fomos aos milhões às ruas, mas como cada um falava uma coisa, parece que acabamos todos não sendo ouvidos e assim condenados a ficar trocando seis por meia dúzia por mais algum bom tempo.

cnversa 3

Marli Gonçalves, jornalista – Me escuta aqui um minuto.

São Paulo, 2016

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