ARTIGO – L-J, ou Querida, o país encolheu. Por Marli Gonçalves

tv_01b_bbForam tantas tratativas pensando em melar a Operação Lava Jato que faltaram chamar a Wanderléa para fazer serenata para o Sergio Moro: “Senhor Juiz, pare agora! Por favor, pare, agora! ” Para completar, temos uma dívida monstro tipo corda no pescoço, mais de 11 milhões de desempregados, saques assaltos bilionários sanguessugas nas empresas e das empresas na gente, um projeto de poder falido tentando de um tudo para continuar atarracado. E mais a violência que nos sangra e respinga

Geleia geral, se alguém queria saber a sua mais completa tradução, chegou a ela nos últimos dias destes últimos meses. A novela mais assistida voltou ao horário das oito, o do noticiário, agora repleto de personagens que entram mudos e não saem, calados; que saem, ou ainda tentem, falando, dedando, traindo; que fogem ou são fugidos, gravam e são gravados – e gravados puramente sinceros. Os que estão numa lista aguardando a chamada. E os que estão numa outra lista de espera para ingressar em breve no espetáculo, em alguma fase de nome criativo da Operação. Mais matracas declarando roteiros que não cumpriram quando puderam.

Se for para começar a usar sinônimos, lá vem mais um: decomposição. A coisa está tão feia, sem limites, derretendo sórdida e a passos tão largos que não nos sobrará outra opção que não seja histórica, esta sim o será, e corajosa. Do ponto de vista político de unidade nacional, se estiver mesmo querendo passar melhorzinho para a história não restará a Michel Temer alternativa a não ser liderar um rápido e radical processo de transformação e renovação, chamando eleições em todos os níveis, e em um processo que no máximo se resolva desse outono ao outono do ano que vem. Só assim poderá manter o apoio, porque a impressão é que ainda vem onda grande por aí.

Mas quem dera fosse só na política essa degradação, embora a ela tudo pertença de alguma forma. Estamos precisando falar sobre a nossa índole que está mostrando um lado brutal que ainda poucos se dão conta. Aliás, poucos se dão conta que isso tudo é real, significa, e é a sua própria vida e destino no jogo.

tv_04a_bbEssa novela, “L-J ou Querida, o país encolheu” já ultrapassou Redenção, da extinta Excelsior, que tem o recorde de ter ficado no ar por mais tempo na televisão brasileira. Foram vinte e quatro meses e dezessete dias, 596 capítulos. A história agora, a atual, parece infinita, um polvo, e de cada uma de sua pernas cortadas, surgem outras, ainda mais compridas, como rabos de lagartixa. As histórias esticam sua dimensões e alcançam cada vez mais personagens detrás de portas e janelas onde tentavam se camuflar.

Enquanto discutimos estruturas burocráticas de ministérios, fazendo cara de conteúdo, bocas e bicos, e usando argumentos chulos e apelativos para falar sobre a cultura, ela se nos apresenta em sua mais brutal face. No estupro coletivo da menina, que ainda por cima suporta agora em cima dela as dúvidas dos detalhes, e a ineficácia da proteção e investigação policial; nos assustadores números do índice nacional de estupros e violência contra a mulher. Na desonestidade intelectual dos que se afundam na tentativa de torcer o rabo da porca, para salvar a que fizeram heroína, e heroína do nada é. Se foi, foi.

As estribeiras estão soltas. A pedra atirada que mata o rapaz que dormia embalado nas curvas da estrada de Santos rolou do alto de uma montanha que desmorona, nos fazendo lembrar de olhar para cima. Para ver se vem rolando outras e tentar delas desviar. Ou procurar por Deus, pedindo que nos perdoe a todos por uma possível omissão que estaria escrevendo essa história, que nos suspende, e que embora possa parecer comédia, tenha até seus momentos hilários, não é.

É drama e dos grandes, de ainda nos fazer chorar muito. Com reprises programadas.

a43eb-tvMarli Gonçalves, jornalista Não quero ter mais tanto medo. Nem do presente, nem do futuro. Nem do enredo, nem de ser enredada

São Paulo, 2016

********************************************************************
E-MAILS:
MARLI@BRICKMANN.COM.BR
MARLIGO@UOL.COM.BR
POR FAVOR, SE REPUBLICAR, NÃO ESQUEÇA A FONTE ORIGINAL E OS CONTATOS
AMIZADE? ESTOU NO FACEBOOK.
SIGA-ME: @MARLIGO

ARTIGO – Feiosinhos e cabulosos. Por Marli Gonçalves

punkSou superfã de histórias em quadrinhos, contos, fábulas, desenhos animados, infantis e adultos, coisas e pessoas diferentes. Portanto, com gente, bichos, personagens, mitos, heróis, monstros e mocinhos criados, mas a partir da imaginação de alguém, ou pelo menos com algum sentido e personalidade. Dito isso, posso mandar ver? Na real estou vendo é um monte de gente se enfeando cada vez mais para se diferenciar, e de uma forma muitas vezes sem volta, tantos furos, tanta tinta no corpo, e sobrando tanto espaço vazio dentro da cabeça! aatatto

Vou tentar explicar essas coisas todas que estamos vendo por outro ângulo. O estético. Jovens estão simplesmente criando caricaturas de si mesmos, clones, como os das histórias e games, para assim, creio, viverem suas aventuras. O problema é quando caem em si e sentem na pele a trombada. A prova disso tem desfilado na nossa frente nesses dias de arrancar máscaras por aí. Eles se enfeiam não só para se manifestar livremente pelas ruas quebrando aqui e ali ou postando fotos nas redes sociais, mas também para serem aceitos em seus grupos, serem diferenciados, os “tais”. Ouviram cantar o galo em algum lugar e vão atrás, como se não houvesse o amanhã. O resultado é que estão se enfeando de uma forma inacreditável, de assustar pobres criancinhas. E muitos assim ficarão eternamente. Sentimos muito.

Moving-picture-ugly-green-dragon-animated-gifNão deixam de ser máscaras. Vejam os dois seres que acenderam o rojão assassino, e que agora parecem mais uns ratos amedrontados por gatos. Um foi reconhecido rapidamente justamente pela tatuagem. O outro, pelo suor e agressividade em protestos. Como as coisas estão novamente – a meu ver – ficando meio, digamos, obscuras, a tia aqui vai lembrar o que fazíamos nos tempos negros. Bobagens preciosas. Jamais usar adesivos, por exemplo, em carros, para não marcá-los, e assim poder despistar os seguidores, sempre em nossos calcanhares. Muito menos tatuagens que naquela época já eram meio caminho andado para a prisão, onde geralmente eram feitas a ferro e fogo.

Sininho3A tal Cininho, esse fio desencapado que nem escreve certo seu próprio apelido, Sininho, e que é tão metida que é capaz de provocar jornalistas em pleno luto, deveria ser é Narizinho, porque o arrebita de uma forma espetacular, já está manjada com sua argolinha pendurada na napinha. Agora vai ter mesmo de ser blackbloc para, mais mascarada do que já é, ir para as ruas fazer bobagens, dizer bobagens. Essa, nem com pó de pirlimpimpim para aturar. A turma dela é composta de gente igual, como fabricados em série, peões descartáveis. Mas se acham.

Gays capricham em trejeitos, vozinhas e expressões entre gritinhos; outros, os “modernos”, como chamo, capricham em buracos nas orelhas, alargadores que ainda bem, espero, só usem nas orelhas, porque são rombos quase maiores que os encontrados nas ruas de São Paulo. Especialmente capricham no olhar, uma coisa meio “sou superior”. Agregam cabelos, óculos de aros pesados, roupas, mas tudo tem de sempre estar no status do que eles decidem, senão são os primeiros a olhar com certo esgar, cara de enjoo. Outro dia reparei até numa nova onda, mas que raramente fica bem: jovens pintando os cabelos de …grisalhos! Em brancos, cinzas. Fica todo mundo muito feio. Sabe criança com cara de velho?Black_flag

As meninas agora fazem tantas tatuagens nas pernas (talvez pensem que se precisarem podem usar calças para cobrir?) que, se você olha meio distraído pensa que se borraram e a coisa escorre pelas pernas. Até porque fazer uma boa tatuagem é caro; colorida, mais caro ainda. Então recorrem ao risco preto, de gente que sabe tatuar tanto quanto acender rojão, e vira tudo um enorme e pavoroso rascunho. Fora a mistura de elementos, do tribal, ao bobinho, às palavras de fé, e por aí vai. Como diz um jornalista amigo, entre os melhores, também totalmente tatuado, e muito bem: quando a polícia parar vai dizer “não sei se te prendo ou se te leio”. No caso desses meninos e meninas, eles vão ler e cair na risada!

Ah, tem mais. Pelo outro lado, que horror esses meninos todos carecas ou quase, cortados rente com corte de Exército, do qual antes todos fugiam inventando as mais terríveis doenças, pés chatos e caolhices. Fazem horas de musculação – muitos ficam coxinhas, literalmente, porque as pernas ficam fininhas segurando um troncão. Parecem todos saídos de um ringue de qualquer coisa, bombados por pilulinhas mágicas e proteínas e albuminas que os fazem soltar gases praticamente tóxicos, dos quais riem entre si, amarelinhos. Eles não eram pitboys? Como chamam agora, sem os cachorros que entraram em desgraça pública?

Ninguém pode me acusar de careta. O que me dá o direito de gargalhar a qualquer reles tentativa. Também nem tentem me tachar de conservadora ou qualquer coisa dessa linha. Aproveito e já digo que gosto muito de tatuagens, de vê-las, as bonitas, e um dos meus melhores amigos é tatuado literalmente da cabeça aos pés. Mas ele é lindo, tem a ver com isso, trabalha e vive justamente desse mundo que criou, além de ser uma das pessoas mais dóceis e inteligentes que conheço. A vida inteira se tatuou e é quase a sua própria e autorizada biografia ambulante. Essa semana acrescentou um Brasinha, lembram dele? Para ser gente, tem de saber o que faz, onde pisa. Aguentar o tranco.

women mudando de roupaSe você que está aí lendo já usou cabelos bem compridos, óculos redondos, fitas e flores nos cabelos, túnicas indianas e calças bocas-de-sino, entre outras alegorias, já estou vendo um leve sorriso de alegria e alívio por lembrar que nada disso ficou grudado em sua pele, e que pode mudar sua vida muitas vezes. Aliás, pode até usar tudo de novo porque está super “na moda”.

Temo que os novos feiosinhos e cabulosos se arrependam quando entenderem, mais para frente, que nem todos serão publicitários, artistas ou designers de sucesso. E que não há borracha que apague tantas burradas.

São Paulo, 2014 

Marli Gonçalves é jornalista Pronto, falei. Mas é que tenho encontrado seres verdadeiramente assustadoramente sem sentido e acabo tendo pesadelos depois.

********************************************************************
E-mails:
marli@brickmann.com.br
marligo@uol.com.br