Ocupação. Por Marli Gonçalves

Ocupação

Marli Gonçalves

Resultado de imagem para estudantes animated gifsChega a ser irônico que em um país onde 12 milhões de desempregados vagam por aí à procura de ocupação, ocupação passar a ser a palavra mais revolucionária e o ato mais utilizado para ocupar nossa atenção

Feche bem as portas. Se a moda pega e a coisa apertar ainda mais do que já está – e o que não parece muito difícil – o seriado da hora nos telejornais não vai mais ser da linha Walking Deads. Mas Walk to Ocuppy. Agora se ocupa tudo, escola, terreno, estrada, ministério, sala de estar, prédios, banheiros, ruas, praças, avenidas. É o movimento do momento. Eu quero ocupar um lugar no Sol. Um espaço no coração de alguém. Um lugar na história e na memória de todos. Um instantinho de sua rotina para me ler.

Os estudantes pegaram gosto pela coisa. Eles, os ocupantes, são notícia todo dia dos últimos dias. Atrapalharam a vida de outros estudantes que precisavam dos locais para prestar o vestibular, mas ficaram lá firmes, não cederam, deram trabalho. Eles pensam em ocupar o mundo com o momento deles e nos chamar a atenção. Conseguiram.

Cá entre nós, já pensou o quanto esses meninos e meninas estão se divertindo nas ocupações das escolas, como se fossem aqueles antigos acampamentos de adolescentes, de escoteiros? Sensação de estar lá mudando o mundo, crescendo, ficando adulto, participando de um momento político e histórico para contar por um bom tempo, testando liderança pessoal, organização, divisão de tarefas. Fora o lazer, a bagunça, a possibilidade de conhecer o primeiro amor. E a primeira decepção, já que dificilmente as PECs – ah, sim, lembrem, este é o motivo das ocupações, ir contra as PECs, Propostas de Emenda Constitucional – serão rejeitadas.

Vai ter uma hora em que cansarão. Vão pensar uma coisa a la Bela Gil. “Você pode trocar a ocupação por um bom banho e uma comida quentinha”. Imaginam os ragus que estão tendo de pôr para dentro?

A menina Ana Júlia criou comoção com o discurso na Assembleia do Paraná com sua voz firme e argumentação social. Aí, olha se não tem desocupados nesse mundo, logo a celeuma começa a correr boca a boca para detratar com a “informação”, “descoberta” de que o pais dela são de esquerda. Não, Pedro Bó! Nummidiga. Filha do Bolsonaro que não ia ser, né? Nesse caso, pai e mãe apoiaram e até foram ver o que estava acontecendo e ficaram por lá um pouquinho. Resultado de imagem para estudantes animated gifs

Mas daí, por outro lado, querer compará-la à ativista paquistanesa Malala Yousafzai vai-se uma muito boa distância ocupada por alguns milhares de quilômetros e questões culturais. Malala quase morreu porque queria estudar, ter aulas – foi sua coragem pessoal que chamou a atenção do mundo. Foi mártir.

Convenhamos: mártires são tudo o que não queremos que surjam aqui, que aconteçam fatos esquisitos em nenhuma dessas ocupações. Exageros ocupam os lados dessa batalha ideológica burra e inócua do momento. A ocupação provisória do Governo também não está a mais louvável – muita gente batendo cabeça, lançamento de medidas ao léu, cabeça quente com esses meninos teimosos, e sem saber o que é que vão fazer com eles.

Mas como a tal ocupação está em voga, última moda, achei melhor alertar que isso aí pode viralizar e pegar como forma de pressão para tudo. Já pensaram? Daqui não saio daqui ninguém me tira.

20160813_143252

_________________________________________

Marli Gonçalves, jornalistaNão é que deu vontade de ocupar alguma coisa também? Pode ser até os seus sonhos.

SP, 2016

ARTIGO – Flexes ou flashes. Por Marli Gonçalves

beginnercollabentry-1É um cansaço mental tão profundo no fim do dia que às vezes até aquele efeito luminoso cheio de bolinhas aparece na visão. Vocês vão dizer que jornalista vive disso, de informações, mas elas estão violentamente rápidas. E violentamente mórbidas. E violentamente inacreditáveisOvertheWall

Perdi a hora umas duas vezes esta semana, porque na hora de acordar estava sonhando e os sonhos eram bons. Ou estranhos, mas bons. E sonhar na hora de acordar é como se você tivesse mais alguma coisa para fazer ali na caminha, aninhado, com os olhinhos fechados. Neles, nos sonhos, eu viajava, tinha dinheiro, tudo estava legal, aparecia gente bacana, amigos e amores. Mas é só acordar que a coisa começa, até porque tenho o hábito de ligar o rádio – para ouvir música, só que as notícias logo aparecem. Aí vou ler o jornal. Pronto, começou o dia. E acabou o dia.

Os helicópteros sobrevoam, dando barulhentas voltas, na região da Avenida Paulista. As sirenes dos carros de policia se intensificam. As manifestações agora começam mais cedo, o que faz pensar que é preciso ser muito ativista para já estar por ali gritando às nove horas da manhã. A cuidadora de papai informa que na distante região de onde vem, já viu quando saiu de madrugada de casa para se aventurar atrás de transporte coletivo, um ou dois ônibus queimados, ou carros estropiados de bêbados entortando os postes na madrugada. PCC dando ordens. Ela tem olheiras: bailes funk com tudo aquilo, na rua, e não adianta chamar a polícia. Não adianta chamar ninguém. Ficam ao Deus-dará.

Swordplay-5Mais de 200 meninas sequestradas na Nigéria, de dentro de uma escola, e que ninguém sabe onde estão, tipo avião da Malásia. Se hoje Caetano compusesse, perguntaria, para que tantos satélites, ao invés de quem lê tantas revistas. Tudo de baciada: 250 presos na Venezuela. Outras centenas perdidas em deslizamentos, guerras particulares, aqui, ali, acolá. Líderes mundiais e formadores de opinião só segurando cartazes bonitinhos, posando para fotos. E mais flashes espoucando.

Hora do banho e a água já está com vazão menor. Ensaboa, morena, ensaboa, enxagua, tô enxaguando. Abre e fecha torneiras. Mas não consigo deixar de pensar em quanta gente ainda vejo varrendo calçada com água, lavando carros, mandando beijinho no ombro.

Um boato. Um retrato falado. Um zumzumzum, a total falta de noção e uma mulher é espancada por dezenas de pessoas, arrastada como bicho, agredida até a morte em um das cidades mais chiques do litoral paulista, e não, não foi tão lá na periferia onde isso ocorreu, que eu vi no mapa. Foi onde uma vez há muito anos o prefeito da ocasião queria fazer uma “cortina verde” para que os turistas não vissem as casas subindo os morros na avenida paralela às principais praias. Achava que daria votos. Ninguém me contou. Foi para mim e meus ouvidinhos que ele fez essa sugestão, batendo no peito como se tivesse tido a grande ideia de sua carreira política, obviamente já fracassada. Até hoje enjoo só de pensar nesse dia.RagDoll-1

Crianças matando crianças. Meninas espancando meninas, caceteando com pauladas e pedradas, por causa de moleques, namorados, outros boatos e fofocas. Moças estupradas e assassinadas e ainda picotadas por maníacos que encontram desgraçadamente em seus caminhos de ida ou vinda. Corpos achados em rios. Mães desesperadas. Crianças sendo mortas por dinheiro, ira, ciúme, vingança. Mulher põe fogo na casa, com o marido dentro, mas antes quebra tudo, porque viu mensagem de outra no celular.Electrocution

OvertheWallNão, não estamos em filmes do Batman, nem do Charles Bronson. Os sons são reais, as armas atiram pumpumpum. Vingadores surgem de todos os cantos como justiceiros, acreditando que devem botar para quebrar. E quebram. Inclusive pela política, pelo teto, pela terra. O cheiro pestilento da morte, o ar seco, os ídolos morrendo. A arte ficando mais pobre.

A bola ainda não rola. Operário torrado em estádio. O mundo todo olhando, que vergonha. Imagino que nesse momento montes de malas estão sendo desarrumadas, e tudo o que se sonhou que viria, nem chegando.

Prisoner_2Nas prisões, detentos se matam para abrir algum espaço. Outros presos Vips desafiam a Justiça de seus camarotes gradeados. Na rua uma caminhonete último tipo me chama a atenção. Ela é verde e branca, está reluzente de nova, tem uma sirene no capô. Me adianto para ler e identificar quem são, carro e homens: “SAP – Secretaria da Administração Penitenciária – ESCOLTA“. Não, não escoltavam nada.

Porque que agora me lembro de ter lido, logo cedo, numa matéria de jornal, o relato de uma das jornalistas sorridentes que jantaram com a presidente no palácio, selfie para lá, selfie para cá, que a Dilma faz álbum de figurinhas com o neto, conhece a letra da Galinha Pintadinha, cantarola e tamborila com os dedos na mesa “Atirei o pau no Gato, totô, mas o gato-tô não morreu…”?Clown_prisoner

Ah, ainda tem as manchetes políticas, mas tenho de começar o dia, e já estou cansada de tanta notícia. Pior, vivo disto.

beginnercollabentry-1São Paulo, 2014, menos de um mês para a gente saber que bicho vai dar no Fuleco

 

Marli Gonçalves é jornalista Ouviu contar que descobriram uma barata de mais de 40 centímetros que disputa comida com os tubarões no fundo do mar? Pois é. Esta noite vou ter pesadelos.

********************************************************************Parkourstreet-1
E-mails:
marli@brickmann.com.br
marligo@uol.com.br

Tenho um blog, Marli Gonçalves, divertido e informante ao mesmo tempo, no https://marligo.wordpress.com. Estou no Facebook. E no Twitter @Marligo