#ADEHOJE – VIVEMOS MOMENTOS SÉRIOS. ATENTE, O PAÍS PARADO

#ADEHOJE – VIVEMOS MOMENTOS SÉRIOS. ATENTE, O PAÍS PARADO

 

SÓ UM MINUTO – Ontem, uma senhora – já com seus mais de 70 anos – empacotava as coisas do comércio que mantinha há mais de 30 anos na região. Uma tristeza ver. Seu comentário: “enquanto o nosso presidente continua preocupado com Venezuela, Argentina, fofocas e nossas vidas, o país está paralisado”. O despreparo, inclusive emocional, de Jair Bolsonaro, fica cada vez mais evidente, enquanto o clima de desarrumação corre solto. Ele pensa que é Trump, mas não é; nem nós somos os Estados Unidos. Aliás, somos os estados desunidos.

São tapas diários, da ignorância de seres abjetos como Olavo de Carvalho e os filhos do presidente e alguns ministros, às decisões de outras esferas: STF liberado pra comprar lagostas, vinhos, iguarias, gastar mais de um milhão de reais nisso. A Câmara acaba de liberar passaporte diplomático para 404 filhos e cônjuges dos deputados.

Precisaremos falar muito sobre tudo isso.

ARTIGO – Que gestação é essa? Por Marli Gonçalves

Que gestação é essa?

Marli Gonçalves

Pega a folhinha. Conta. 1, 2,3. Três já foram. Faltam agora só nove e a coisa que creio todo mundo mais deseja é não ter que passar esses nove meses esperando que nasça um novo Brasil. Temendo que esteja sendo gestado um monstro nascendo prematuro, tirado a fórceps. Que vá direto para uma encubadeira.

Entra dia, sai dia, entra noite, sai noite. É na hora do café da manhã, do almoço, do jantar. Se bobear, também na hora do lanche. Uma informação estranha, muito estranha, uma prisão, uma soltura, uma chacina, assaltos, explosões. Tiros. Um desaforo. Um telecatch entre ministros supremos, alguma deselegância.

Será que estão se dando conta? Três meses já foram. Mais três tem Copa do Mundo, que era só o que faltava para esse ano; soma mais três e – lembra? – Eleições. Nacionais. Para a Presidência, Governo dos Estados, Senado, Câmara Federal. Seria a hora boa para trocar, renovar, arejar, oxigenar. Seria.

Mas nossas mãos embalam um berço ainda vazio. O que poderia vir como novo se dedica especialmente a infernizar a Mãe Pátria, chutando bem a sua barriga, e nessa gravidez múltipla – põe múltipla nisso – com mais de dez candidatos a herdeiro, um tenta enforcar o outro com o cordão umbilical, tomar as forças, tomar a frente, nascer.

E, pior, parece que todos são gêmeos quase idênticos, para o nosso desespero, nós que esperamos aqui do lado de fora. Querendo saber se é menino ou menina, o tom da pele, se vai nos libertar ou censurar; se vai propor o desarmamento de espíritos, se vai querer estudar e ser alguém ou viver de dar jeitinho. Com quem vai parecer. Queremos ver a carinha, saber de que cor vai ser seu enxoval, sua roupinha, se branca, verde ou encarnada.  Se cantaremos cantigas românticas, ou hinos nas ruas, com o velho refrão: o povo unido, jamais será vencido.

Ficamos aqui torcendo – pelo andar desse andor – que ao menos nasça de parto minimamente natural. Ao menos isso temos de conseguir nesse meio tempo, já que os nossos desejos ainda terão de ficar esperando. O ovo ainda não mostra a serpente.

Não há como negar, contudo, que essa gravidez está bem tumultuada e estressante. Tanto que não dá nem pra desejar comer melancia com pão, ou sorvete de bacon. Temos de nos ater ao arroz e feijão, pondo a mão para cima, louvando se os temos.

Há fantasmas rondando esse berço, vindos de uma espiral do tempo, de 68, 78, 88, por diante, e não são rotações. As farsas se repetem. E nesse futuro-presente vêm ampliadas em redes virtuais, tecnológicas, não humanas, redes que ainda não têm a sua capacidade de destruição totalmente identificada.

Sai pra lá, bicho papão! Dona Cegonha, tenha piedade de nós.

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Marli Gonçalves, jornalista – Que confusão é essa? Que bandalheira é essa? Que gestação é essa, que nós é que sentimos as contrações?

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

Brasil, lépido 2018

ARTIGO – Rugas. Por Marli Gonçalves

wrinklesCaramba! Do jeito que andam as nossas preocupações, seremos um país de enrugados. Andei observando as ruas e todo mundo tá franzindo a testa. Isso é sério, e quer dizer muita coisa

Cada um tem a sua própria forma de observar as coisas. Eu tenho várias. Uma das principais é observar nas pessoas as linhas de expressão, habilidade que desenvolvi na profissão de repórter e que sempre me foi muito útil. Assim descobria, raramente errei, se o cara estava mentindo, se procurava omitir algo, ou se estava dizendo uma coisa, mas querendo falar outra. Virei expert, o que me proporcionou até alguns furos de reportagem.

Wrinkle FaceNesses dias andei observando meu rosto no espelho e encontrei uns vincos novos que, decididamente, não me caem bem, nem se fossem passados a ferro como fazíamos antigamente com as roupas. Sai correndo para a rua e descobri, até – confesso – meio aliviada – que eu não era a única. Quase todo mundo anda enrugando a testa, parecendo sim preocupado com alguma coisa. Pior: realmente preocupado. Daí, ganhando umas pregas a mais.

Viramos um país de preocupados. Repara só. Estamos apreensivos com um possível vexame internacional na tal Copa, mas isso é o de menos. Veja que estamos preocupados quase literalmente com tudo, e que não há ginástica facial que resolva, tal a frequência e o tamanho das possibilidades que nos amedrontam.

Água. Luz e energia. Dinheiro. De tudo quanto é lado, preocupação, de cima, debaixo, do lado direito e do lado esquerdo. Eleições e falta de oposição. Dinheiro. Se chove ou não chove, e se chove onde precisa. Dinheiro. Mercado parado e governo assobiando. Inflação tacando o terror. Dinheiro.

Crises políticas internacionais e o governo assobiando. Crise política nacional e o governo assobiando, como se fosse superior a esseszinhos que os criticam. Instituições em queda livre, e com choque entre os poderes. E o Governo? lalalalá, fiufiu, lalalalá.

Insegurança geral e generalizada, com a vida valendo menos que mil réis, gente guiando pelas ruas e estradas à procura da morte e querendo levar mais alguém. Possibilidade de racionamento de água; consequentemente, de energia, o que apaga pelo menos metade das atividades. Clima doido, sem infraestrutura adequada; sem qualquer infraestrutura em alguns casos.

man_with_cane_lg_whtA gente agora acorda e reza: para o telefone funcionar, para a internet funcionar – esta, a cada dia mais importante e indispensável, mesmo que ainda inacessível a grande parte da população. Não se fala com mais ninguém, é tudo telemarketing, aperte 1, 2, ou… lá pelas tantas, depois dos protocolos de números gigantescos, o 9, para falar com um de nossos atendentes. Não posso esquecer de citar os vírus! Sim, os vírus. Agora além dos que a gente pegava por aí, na comida, patatipatatá, gripe, dengue, malária, temos de nos preocupar – e muito – com os vírus de computador, com as bactérias virtuais, com a espionagem pronta a nos roubar senhas, dinheiro, documentos, clonar nossas coisas, infiltrar gastos em nossas já combalidas contas.

Ah, tem o ar – nos centros urbanos, há dias, quase irrespirável. Nisso, a saúde, lembra dela?- dança. E aí? Bem, aí, se vira!

imagesComo pude esquecer? Você deve ter filhos. Se a resposta for positiva, sinto muito. As rugas se mudarão para seu rosto com mala e cuia. Pelos supracitados motivos, mais Educação, etc, etc.

Assim, cumpre-me informar que essas rugas se chamam glabelares. Porque ficam na glabela – assim chama esse meinho entre as sobrancelhas. Você está lendo direito? Porque se estiver apertando os olhos vai ganhar ainda outras, os famigerados pés-de-galinha, aqueles que se mudam para o cantinho dos olhos. Descobri uma novidade: as rugas “código de barra”. São as que ficam entre o nariz e a boca.

E como tudo pode piorar, tem mais: não esqueça do bigode chinês, dingling, descrito pelos médicos como “parênteses ao redor da boca”. E tem as rugas, que eu chamaria de ventríloquo, mas que eles chamam de linhas de marionete.

Desculpe se trouxe mais uma preocupação para enrugar sua cara. Em compensação deixei de citar um monte de assuntos que andam nos atazanando e torrando nosso saco. Aliás, nos trazendo insônias que propiciam bolsas debaixo de nossos olhos.

Problema nosso, porque os governos, ah, os governos! Beijinho no ombro.

São Paulo, daí também tanto botox sendo detectado, 2014 tumblr_mnjkpgtccb1ql8t12o1_400

Marli Gonçalves é jornalista Teve época que a expressão “está vendo minhas rugas de preocupação?” tinha certa dose de humor.

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