ARTIGO – Vidas molhadas, por Marli Gonçalves

read_e0Quando não há um assunto para dividir o mundo em duas partes ranzinzas alguém inventa. Aí toca falar nele até torrar o saco. Falta irem para um duelo na porta do saloon, decidir a bala, no tapa, coisas que nem deviam estar na pauta, principalmente entre quem deveria estar aí defendendo a liberdade, dizendo não ao autoritarismo. A bola da vez é a discussão sobre uma malfadada autorização que os autores teriam de ter dos biografados ou suas famílias para escrever sobre suas vidas. Vê se pode! Censura, não! Quer ser famoso sem se molhar? 

Se você vier me perguntar eu nego. Eu? Não. Não fiz xixi na cama, não comi meleca, nunca roubei nada. Nunca fiz nada ilegal, nem nunca traí ninguém. Como a gente gosta de falar, brincando, desde Tim Maia, “Não bebo, não fumo e não cheiro. Só minto um pouco”.

Ora, direis, falar a verdade! O que será de verdade que está se passando na cabeça dessa turma que se reuniu ao Roberto Carlos para querer proibir – enfim, manter proibidas, já que é assim que, absurdamente, estão nesse momento – as biografias sem um “ok”? Estariam esses nossos ídolos com efeito retardado ou apenas querendo atrasar ainda mais esse nosso travado país? Estariam todos ficando velhos ranzinzas, um dos meus maiores temores? Depois a gente fala que é birra de tia velha e eles chiam, mandam seus jovens cães de guarda latirem.

Porque uma coisa é certa: eles próprios estão manchando a biografia que seria feita – de alguns, porque tem gente aí no meio só tirando casquinha já que não mereceria nunca mais do que poucos minutos de atenção.

jlwriting_table_e0Esse é um daqueles assuntos sobre os quais não se pode ter qualquer dúvida. Não existe um meio termo, só a cabecinha. Ou existe a liberdade de imprensa ou não. E essa segunda alternativa a gente já conhece qual é. Não sei se você aí está acompanhando esse bate boca, mas ouvi umas argumentações que estão piorando ainda mais a briga de insuportáveis, o burufum, entre elas a de que o biografado devia receber. É. Tipo royalties. Seria feito algum tipo de contrato maluco, tipo para cada podre que o autor quiser revelar “sem autorização” um pagamento, tipo indenização.anim0014-1_e0

Sobre o contrário, livros que estamos vendo ser publicados aos borbotões nesses duros tempos políticos, biografias chapa branca total, que inventam vidas lindas e heroicas que até viram filmes, também fartamente financiados, nenhuma palavra. Ninguém pensa em indenizar a gente por esse deserto cultural que estão implantando.

O grupelho (fico super chateada, porque realmente tem gente cuja arte muito respeito) tem também outro argumento que me dá nos nervos, usando a coitada da massacrada Constituição. Eles têm uma lábia para usar a combalida quando lhes convém. Para se esconder e posar de legalistas. Então dizem que querem a proibição para preservar os direitos individuais, intimidade, patati e patatá.

Bom, o que a gente pode esperar mesmo de um país que tem a Dona Marta como Ministra da Cultura, com toda aquela sua empáfia? O que se pode esperar de um país que tem um Zé Dirceu correndo para defender controles? De mídia, imprensa, biografias e, se possível fosse, da Justiça, do tempo no fim de semana, do que a gente pensa dele, do mensalão e tudo o mais. Só ele é que não controla nada. Nem a mãozinha, ou o ideário político imposto a qualquer custo.

Tadinho. Deve ter ficado aborrecido com o (ex?) amigo Paulo Coelho que mandou a lenha na organização, igual o nariz das donas, da feira de Frankfurt programada para homenagear o Brasil, mas que acabou só assistindo a um festival de troca de desaforos. Deve estar querendo apagar o charuto do (ex?) amigo Fernando Morais, um de nossos maiores biógrafos, que também já se posicionou a favor da liberdade. Deve ter jogado fora todos os livros de Nelson Motta, Ruy Castro, os discos de Alceu Valença e outros que ousam pensar diferente dele, do “rei” e dos tropicalistas que esqueceram de seus próprios atos, e mandam a gente esquecer o que escreveram e fizeram.

Tenho uma péssima notícia para dar a esse grupo. As biografias deles já estão escritas, e disponíveis na internet – basta gugar. Tudo bem que não são tão bem escritas como seriam se esses nossos grandes autores o fizessem, mas estão lá.

Mais: há roteiros prontos. E aí eu trouxe para ajudar a quem quiser começar a escrever uma biografia, mas que espero que escolha um personagem que mereça mais do que esseszinhos, e que seja democrático.

Elementos para elaboração de uma biografia: Nome da pessoa/ Nomes dos pais/ Data do nascimento/ Local do nascimento – cidade, Estado, País (se estrangeiro, quando veio para o Brasil?) onde se radicou? Casado(a)? Nome do cônjuge/ Quando casou-se? / Onde?/ Quantos filhos / Quem são eles?/ São casados?/ Com quem? A que se dedicam?/ Quantos netos? Cursou alguma escola?/ Onde?/ Quando? /Qual?/ Nomes das escolas/ Que atividades exerceu? / Pertenceu a entidades culturais, filosóficas, beneméritas, assistenciais?/ Quais?/ Quando?/ Exerceu algum cargo público?/ Eletivo ou de carreira?/ Qual? Em que época? / Pertenceu a algum partido político? Qual? Quando? / Citar particularidades ou fatos interessantes da vida do biografado/ Citar atividades ou fatos em que se destacou na comunidade/ Citar contribuições que ofereceu para a comunidade/ para o desenvolvimento. Faleceu?/Quando?/ Onde?/ Onde foi sepultado?

Como vimos, fácil fazer biografia de quem merece, e sem perguntar se pode. Quem está na chuva é para se molhar, não é não Caetano? Segura seu pierrô molhado, ou se perca de nós. Desapareça.

São Paulo, 2013

Marli Gonçalves é jornalista Nunca suportou a censura. Tantas coisas não pode nunca ler ou saber por causa dela!

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ARTIGO – Conte até mil. Por Marli Gonçalves

gorrila_counter1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9,10…, 2013, 2014… Vamos lá. Respire fundo. Achei louvável a campanha “Conte até dez” – a raiva passa, a vida fica – lançada para tentar diminuir os crimes cometidos por impulso. A gente já passa a vida contando alguma coisa, o que que custa contar até dez antes de matar alguém? countdown1_e0

Há uma mania de campanhas institucionais rolando por aí, para a alegria das agências, especialmente as que atendem governos. Tem de todos, mas o federal está demais da conta. Já vi campanha de futebol, já ouvi gente querendo matar é o Milton Gonçalves por causa daquela que ele faz, da Saúde, que fala que está tudo uma beleza. Tem uma, inacreditável, sobre a força da mulher- acho que por causa da presidente finalmente “descobriram” as capacidades da mulher. Mas logo agora, quando está havendo muita perplexidade e controvérsia a respeito da capacidade da própria? Tirem as mulheres disso…

Não. Aquela do Tony Ramos vendendo bifes e carnes vermelhas não é do governo não. Um dos donos quer ser. Ainda não é.

stopwatch_e0Enfim, voltando à nova campanha contra a violência gratuita, achei uma coisa preocupante: há um estudo dizendo que contar até dez só piora a raiva! “Faz com que a pessoa se concentre mais ainda no fato, daí a reação negativa”. Eles propõem apenas que, no caso de precisar, se mude de assunto, busque outra coisa: “o ideal é mudar o foco e imaginar-se em outro lugar ou deixar os pensamentos soltos”, alegaram os pesquisadores.

Num esforço para colaborar com a calma humana, o que está bem difícil dada a quantidade de energúmenos à solta, trapalhadas a granel, roubos à luz do dia e distúrbios comportamentais ainda não diagnosticados com os quais temos de lidar, proponho que pensemos em quanta coisa contamos. Fora contar com Deus, claro.Gifs%20Animados%20Relojes%20(3)

Contamos dinheiro e trocados na carteira, que contamos que ninguém roube. Contamos o tempo, horas, minutos segundos, e contamos as pintas no nosso corpo à medida que ele passa. Contamos os fios brancos que nos aparecem na cabeça, sempre pulando, salientes. Contamos os dias que faltam para o aniversário, férias, menstruação, para ver quem ama.

Contamos lorotas. Quem conta um conto aumenta um ponto. Assim, contamos com os amigos para ouvi-las sem deboche. E eles são raros, se contam em uma mão.

Contamos agora de forma diferente outros amigos, seguidores, quantos curti em cada postagem que contamos que alguém leia.

Contamos as colheres de sopa e outras medidas para as receitas que tentamos fazer. Para depois contar as calorias e os quilos que ganhamos ou perdemos. Contamos com o ovo da galinha, com a sorte, e com os números negativos da economia que estão fazendo com que tudo agora seja mais contado. Comedido. Para que não sejam incontáveis as contas que temos a pagar.

Animated%20Gif%20Counter%20(11)Contamos piadas para disfarçar ou depois que não contamos quantas taças de vinho, quantos copos de cerveja tomamos. Contamos mentiras que contamos sejam aceitas como verdades.

Fazemos contagem regressiva. E podemos pegar a mania de contar coisas – pode até virar aquele transtorno, obsessivo compulsivo. TOC.

Contamos os toques quando escrevemos. Conheço um jornalista que costuma dizer quantos milhares de caracteres já escreveu sobre determinado assunto, e são sempre muitos, porque ele não conta com nenhum controle quando escreve.

Contamos positivo, negativo. Às vezes por brincadeira; outras por distração. Quem aí não conta os degraus enquanto desce ou sobe?

Aquela escritora lá não contou quantos tons de cinza? Sabem que outro dia vi uma entrevista que me provou que tudo bem, conte quanto quiser, que ninguém confere mesmo. A moça escreveu “Cem homens em um ano”, mas parou no 34º.

Será que dá para reclamar no Procon? Antes que eu conte até dez.

São Paulo, conte comigo, 2013Marli Gonçalves é jornalista– Além de tudo anda contando quantas coisas agora viraram apenas letrinhas, uma nova língua de siglas usadas principalmente em repartições. Prefere as letras das placas dos carros, que sempre podem formar alguma expressão, em um divertimento gratuito, que acalma tanto quanto contar até 10.

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