ARTIGO – Mantenha a calma e…Por Marli Gonçalves

Mantenha a calma e…

Por Marli Gonçalves

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A que nos for possível manter. Cada um tem o seu limite, mas há tempo de ir e de vir, de aceitar. De parar para pensar. Estou tentando me convencer disso. O que acha? Você consegue?

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Como manter a calma no meio de um turbilhão, de redemoinhos que diariamente tentam nos arrastar e afogar nos rios da vida, de fatos sobre os quais não temos controle e que se sucedem continuamente à nossa volta. Não sei, mas dei de tentar. Antes respondia que as coisas estavam no controle, no certo controle, emendava. Agora digo que vou levando, tentando manter a calma, e emendo: no que me é possível. Como está você? Como faz?

Mas além da calma, temos é muito o que manter, um monte de coisas a listar. Daí a tal expressão Keep calm and…, preenchida e desenhada de todas as várias ideias e formas, muito popular nas redes sociais, com versões que não dá nem pro cheiro as brincadeiras com o “powerpoint do Lula”, onde ele é flechado e tudo converge para o seu nome crucificado lá no meio numa bolona em branco sobre azul. Mantenha o humor.

A esperança. Mantenha a fé. Aproveita e economiza. Mantenha a luz apagada, mantenha fechada a porta da geladeira e a torneira.

Mantenha a calma, a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo. Mantenha as flores no vaso e um sorriso nos lábios. O brilho dos olhos. As mãos limpas.

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Mantenha as dúvidas. E as certezas, as muitas às quais calmamente chegou.

Mantenha a pose, o caráter e a elegância. Mantenha a noção da importância das amizades, dos amores, das conquistas.

Mantenha a calma e a área limpa, a porta aberta para que coisas boas cheguem. E trancada por dentro com as sete chaves para que não te deixem. Mantenha a cidade limpa. Os jardins bem cuidados, floridos, regados, que a primavera vem aí. Sorria. Você pode estar sendo filmado, fotografado, radiografado e até multado.

Mantenha-se em dúvida sobre tudo e sobre todos esses que estão aí não fazendo e acontecendo, mas prometendo. Igual a manter a tampa da privada abaixada, as coisas no lugar. Promessas que jamais cumpriremos, e que nos tiram a calma, por mais bobas, por pueris que sejam.

Mantenha-se centrado, e à esquerda e à direita, que a estrada sempre tem várias saídas.

Mantenha a calma e o hábito de balançar a cabeça, bater os pés, mexer-se com a música boa. E inquietar-se da mesma forma quando escuta arroubos e descalabros teatrais de olhos marejados e falas desconexas, mas inflamadas.

Mantenha a calma e a boca fechada para seus planos. E boquiaberta, sempre, capaz de aprender e se surpreender, assim como protestar quando não há calma que se possa ter.

Mantenha a calma e o foco. Mantenha-se livre. Deixa que digam/ Que pensem, que falem. Deixa isso pra lá/ Vem pra cá. O que é que tem? E eu não tô fazendo nada, nem você também. Faz mal bater um papo assim gostoso com alguém?

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oculos fendiMarli Gonçalves, jornalista – Calma. A gente vai sair dessa.

São Paulo, estação primavera, 2016

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ARTIGO – O lado que o vento sopra, por Marli Gonçalves

Levo à boca, dou uma molhadinha no dedo indicador, boto para cima e giro, imitando quem faz isso para ver de qual lado o vento vem, para onde vai. Sempre achei legal esse gesto, que bem que podia também ajudar a gente a decidir a vida. Mostrar a visão do futuro. Mas se eu não sei nem bem para o que serve saber a direção do vento…

O lado que o vento leva. O lado que leva o vento. O lado que o vento bate. A mudança do vento. Do lado. E de direção. É tudo tão rápido que, se bobear, vem o vento e leva o dedo. Sempre fiquei admirada de ver a cara concreta que as pessoas fazem para demonstrar a sabedoria e vivência, e como conseguem tentar prever coisas imprevisíveis, tanto quanto o vento, e com um invejável ar de segurança. O engraçado da coisa é que os únicos que vi mesmo acertarem em cheio previsões foram os caiçaras, que até para a sua própria sobrevivência não podem se dar ao luxo de errar: se dizem que a maré vai subir, que é Noroeste, que o tempo vai virar, se vai ou não dar peixe, escute.

Fora isso, furo n’água. Tô vendo isso nas eleições, no país. Quem achou que levaria ficou chupando o dedo, e sem depois colocá-lo para cima. Ao contrário. Não há nada nem local que seja seguro, casa de palha, madeira ou tijolos; Lobo mau espreita. Na política, na economia, no comportamento, na religião. Sinto frio na nuca.

Olhe para cima, e as nuvens vão criando desenhos diversos; quando você vê uma forma, já é outra, e às vezes nem a nuvem está mais lá. Levada pelo vento, unida a outras. Tudo rápido, rápido, cada vez mais rápido. Não há programação que resista, planos que possam ser completados, momentos de calmaria, confiança de que pescaremos algo para trazer para as nossas famílias, alimentar nossas fomes de tudo.

Para onde vamos? Qual força estourará as bolhas que se formam? Para que lado as hélices do moinho girarão? Tocarão nossas velas, impulsionando nossos movimentos, eletrificando cercas, iluminando o mundo? Ou o vento contra, que cria a resistência, é o caminho que deveremos tomar, libertários e teimosos? Veja como a biruta é bonita quando ereta, “flamulante”, forma que inventei agora, misturando flâmula com movimento. E como tudo parece tão calmo quando ela está imóvel, como se o tempo estivesse parado. Mas aí tudo se congela, como final de capítulo de novela.

O vento: poderíamos ficar horas e horas matutando sobre esse fenômeno capaz de varrer e capaz de sujar. Capaz de gerar energia, movimento, eletricidade, estragar qualquer cabelo, trazer e levar. Fazer barulho bom ou fantasmagórico. Capaz de ser fraco e bom, ventilando novas ideias, refrescando, e capaz de ser forte, bem forte, unindo-se a outros ventos de encontrão, criando um monstro capaz de virar tudo de cabeça para baixo, criando ondas que não há surfistas que domem, ou redemoinhos infernais. Real e intangível, assim como a vida e suas previsões. Quantas vezes, tal qual Dom Quixote, avistamos um moinho e investimos contra ele, em sua direção, e na verdade ele não está mais lá, vamos indo porque continuamos vendo, e ele nunca existiu, e parecia que estava mais à frente!

Não há bússola. Ou aquele outro instrumento tão lindo e fascinante de que sempre gostei – o barômetro (que mede a pressão atmosférica, que cria o vento). Não há vento solar, o que acontece no espaço sideral. Não há nada que possa deter esse fantasma transparente, para que possamos analisar com calma para que lado devemos nos dirigir. É preciso faro, como aquele que a gente usa para saber de onde vem aquele cheiro delicioso de comida, para ir por ali; ou o que a gente usa para fugir do lugar de onde o vento traz os fedores. Ou aquele que traz chamados.

O mero ventinho, brisa, que traz também os perfumes e os feronômios, os perfumes humanos, pode fazer nascer paixões e tesões incontroláveis se captados.

Não adianta mesmo molhar o dedo para saber de onde vem o vento. Ele sempre baterá na gente. E temos que dar a cara. Como os cachorros fazem e se divertem quando andam de carro. Como as crianças aprendem a brincar com ele nas janelas, gargalhando.

Crianças e cachorros nunca pensam em previsões. Porque quando crescemos a gente sempre precisa saber? Bons ventos nos levem!E, como decretou Bob Marley, “os ventos que às vezes tiram algo que amamos são os mesmos ventos que nos trazem algo que aprendemos a amar”

Ventos vão. Ventos voltam. Voos vindos ou idos com o vento podem trazer ou levar. Barlavento ou sotavento. Basta a gente mesmo escolher em que direção.

São Paulo, vento encanado, 2012

Marli Gonçalves é jornalista Aprendeu que céu amarelo brilhante ao entardecer geralmente é sinal de vento no dia seguinte. E que Lua cheia com halo ao seu redor, bem perto, prenuncia vento forte. Halo longe, chuva perto; halo perto, chuva longe.

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ARTIGO – Redemoinhos inevitáveis

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por Marli Gonçalves

Como já comecei dizendo, eles são inevitáveis. Igual buraco de bueiro nas ruas. Se a ponta do pé entrou em um, o Tempo – durante um tempo – se estenderá de forma diferente até tudo acabar de girar, se é que um dia acaba, se você não tonteou no caminho, se ele não engolfar tudo

Ventos, ventos, ventos, às vezes tenho verdadeiro pavor deles. Quando zumbem na janela, quando forçam portas e janelas, quando cantam e atiçam as vidraças. Quando varrem em direções variadas, chacoalhando como se quisessem arrancar tudo, sem muitas delicadezas, o que já estava alquebrado, cansado, prestes a ir. Com o vento as coisas se aceleram, andam mais rápido, são instadas a se mover.

Na vida os ventos podem ser suaves, brisas modorrentas, ou sopros mais fortes. Mas no nosso caminhar aqui neste chão encontramos de quando em quando o que poderíamos definir quase como buracos para o infinito, fendas de vento, exatas e cruéis: os redemoinhos. É aquele momento que a melhor descrição seria pedir para você se imaginar dentro de uma máquina de lavar roupa naquela hora “centrífuga”, que tira as últimas gotinhas de água das roupas, torce, e dá umas batidas para a própria roupa ter certeza que tem de soltar toda a sujeira ali, naquele ciclo. E sair limpinha, renovada, pronta para a próxima combinação de vestuário.

Fins de relacionamentos, decisões urgentes a tomar, correr para tirar o rabo da janela, escapar de sacanagens e armadilhas, principalmente quando fazem surpresa, são redemoinhos, torvelinhos. Desde menina admiro suas formas, ouço contar as histórias, lembro de terem me dito que havia um ali no mar de Santos, perto de onde eu fazia castelos de areia com meus baldinhos e moldes coloridos e me sentia segura longe dele. Será por causa dessa imagem que demorei tanto a perder o medo, e nunca deixei o receio das águas do mar? Os redemoinhos nascem em dias quentes, de muito sol, e estranhamente, em dias sem vento. E, pelo menos os de areia, podem ser pequeninos de poucos centímetros a monstros de muitos metros de altura e força.

A fantasia diz que o saci se esconde em seu interior. Os matutos quando viam o redemoinho acreditavam que ele era o rastro da passagem do Saci-Pererê com seu cachimbinho maluco. Noutros cantos, acham que é o próprio diabo andando pelos campos. Lobato escreveu sobre a crença de que se alguém entrasse no meio do redemoinho munido com uma garrafa e uma peneira conseguiria capturar ou saci ou diabo ou autor do turbilhão. Mas, agora, pesquisando, acabaram com a minha fantasia. Olha só o desmancha-prazeres: “Na verdade o que acontecia é que ao entrar no meio do redemoinho, a pessoa pode interromper a corrente de convecção que alimenta o sistema, e o redemoinho “simplesmente desapareceria”. Para tudo tem explicação.

Bom, eu não quero mesmo caçar sacis; quero apenas sair viva e inteira dos redemoinhos que encontro. Eu, só, não. Todo mundo. Pessoas e países vira e mexe se defrontam com situações que – não tem jeito – dali, só dá para ir em frente, sem recuar, sem fugir. Não estão vendo as primaveras dos países que viviam em longos invernos? Não estão vendo um gigante com a unha encravada, gritando ui,ui? Jogue uma pedrinha na água e observe as ondas crescentes, perturbando até onde alcança o deslizar dos círculos que procria. Assim é até voltar ao normal, com a pedra no fundo, engolida e absorvida pela superfície.

Vórtices. Fenômenos da natureza são danados para colar em sabedorias, principalmente as mais bonitas, vindas do Oriente. Sabia que, para os orientais, o redemoinho – ou aquela espiral de cabelos que todos temos no alto da cabeça(tá bom, os hoje carecas não têm mais, mas já tiveram) é a origem da vida e representa a entrada da força do Céu no corpo? Para eles é a partir dos redemoinhos que o corpo se desenvolve, e tem gente que possui duas ou mais espirais no cucuruco. Dizem ainda que, no geral, a parte da frente da cabeça é mais “Yin”, feminina, suave, enquanto que a parte posterior é mais “Yang”, masculina. Corre no espelho para ver.

Eles ensinam que, se o redemoinho começa em direção à fronte, a pessoa é mais Yin. Se o redemoinho começa em direção à nuca, a pessoa é mais Yang. Se o redemoinho está bem no centro da cabeça, seria o sinal – olha que legal! – de que Yin e Yang estavam harmonizados no momento do nascimento. Ou seja, os seus pais estavam em harmonia física e mental, fizeram você bem gostoso, no bembom. Essa pessoa feita assim teria maior tendência para as artes, pensamento profundo, harmonia e equilíbrio em geral. Se o redemoinho está à direita da cabeça indicaria disposição ativa e tendência para a vida prática, bem Yang. Se o redemoinho está à esquerda da cabeça indica uma visão objetiva, analítica e um pensamento sistematizado, mais Yin.

Agora que eu até já estou daqui só vendo você aí com o dedinho apalpando e procurando onde é o nascedouro do seu próprio redemoinho, vou indo. Mas vou dar uma voltadinha. Sabe o que eu achei também? Teve um cabeção, que nem vem ao caso, que resolveu fazer uma pesquisa e lançar uma tese de suas suposições. Ele diz que parece que os homens gays têm quatro vezes mais redemoinhos no topo da cabeça, na direção oposta ao sentido dos ponteiros do relógio do que a população em geral.

Força na peruca!

São Paulo, agostos ao gosto, 2011 

(*) Marli Gonçalves é jornalista. O legal é a vitória. A sensação do pular corda. O sentimento de poder novamente enrolar os cachinhos para nenhum pé-de-vento mequetrefe vir desarrumar. Uma coisa Dom Quixota lutando contra redemoinhos.

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