ARTIGO – Rolezinhos e rolezões. Vamos dar um? Por Marli Gonçalves

op3O povo sai às ruas, ordeiro, em multidões para cantar, dançar e seguir o trio elétrico em um movimento que é preciso, sim, parar, para ver e entender. Algo novo está se formando e pode ser bom, pode ser que sim, pode ser que não. Estamos gostando de ficar nas ruas gastando o menos possível, escuta sóRiAyGAB6T

Eu fui ver. E achei muito interessante e esclarecedor. Lembrem que estou em São Paulo, não falei em Banda de Ipanema, nem em Salvador, nem em Ivete, nem no Galo da Madrugada. Aqui os blocos de verdade só saíam de alguma forma meio tímidos, como os históricos esfarrapados, ou para lascar como os que se enturmam em uma alcoolizada Vila Madalena. Com algum famoso até tinha mais divulgação.

Este ano, não. A coisa estourou. O fim da semana do Carnaval e as pessoas ainda estavam nas ruas centrais “enterrando ossos” num movimento meio desorganizado, mas muito real. Foram dias que bastava um caminhãozinho com um alto-falante, e lá se vai atrás o grupo cantando sucessos muito antigos, outros muito novos, marchinhas, mesclando com funk, rock n´roll, sertanejo. Até bloco de música eletrônica vi passar. Impressionante o número de blocos e grupos, interessante a criatividade de seus nomes, de suas motivações, fantasias e – preciso dizer – diversidade. Todas as opções, inclusive sexuais, todas as raças, todos os credos, todos os tamanhos, altura e largura.

Na cidade que ficava vazia meio fantasma no Carnaval, pelas ruas, no metrô, nas estações, nos pontos de ônibus, os bloquinhos: víamos homens musculosos com vestidos justos – homem, sempre que se veste de mulher, vai no fetiche e pensa que é preciso sair bem no tipo chamado periguete; perucas coloridas, muitas bailarinas e seus frufrus, algumas havaianas (desde menina, sempre gostei de fantasia de havaiana), asas de anjo, véu, grinalda e buquê; outros resolveram ir de “redes sociais”. Vi gente fantasiada de perfil de Tinder, de Instagram. De super-heróis. Fantasias baratas, leves. Muitos carregavam pesadas sacolas de supermercado, bolsas térmicas e mochilas abastecidas, repletas de cerveja. Na outra ala da crise, uma onda enorme também se espalhou, de novos e oportunos vendedores no mercado, e que apareceu empurrando carrinhos com isopor repletos de cerveja e uma recém descoberta bebida de catuaba, sucesso que só de olhar já deixa meio tonto.

Vivemos outros carnavais. Não consigo concluir se foi só retrato desse ano duro que passamos e do ano duríssimo que viveremos, em uma outra forma de manifestação, com todas as cores livres e misturadas e sons muito além de hinos cantados a capella. Precisaremos esperar os próximos movimentos desse tabuleiro, mas algo me diz que é sim continuidade, expansão de uma nova forma de extravasar. Os meninos ocupando as escolas e parando as avenidas, desafiando os policiais com um certo e irônico sorriso já era um sinal. Os aposentados ocupando a Paulista com uma comissão de frente formada por macas já era prenúncio. A classe média empunhando bandeiras pela mesma avenida.gente corendo

É para desopilar o tal do grito engasgado? A vontade de nos alienarmos de vez diante da súcia que se nos apresenta, dessa matula que temos de ver às nossas custas; dessa farândola, da corja. Da choldra. Coletivos que uso para não xingar e não parecer deselegante como tem hora dá vontade, e como resmungamos vendo o noticiário da tevê anunciando impostos para resolver erros, e a realidade de como os desvios nos atrasam.

Há vários rolês marcados já para os próximos dias. Chamamos de rolezinhos os dos grupos de garotos de periferia invadindo shoppings, liderados por um famosinho, feito em redes sociais e vídeos.

Haverá, enfim, bons rolezões? Rolê é ir dar uma volta, um passeio, um giro. É o bife enrolado, enrolados igual estão nossos governantes, ex-governantes e até os ex-futuros governantes que já ficam pelo caminho e não conseguirão nem alçar voo, derrubados por revelações surpreendentes do que fizeram nos carnavais passados.

A programação será mesmo intensa.

São Paulo, ano bissexto, 2016

Marli Gonçalves, jornalista Só para lembrar: rolê é diferente do footing, aquele do interior, feitos nas praças onde os rapazes giram em um sentido enquanto as moças passam em outro, cruzando apenas olhares furtivos. Aqui a gente já está precisando chegar nas ruas e praças de mãos dadas e andando todos em uma mesma direção.

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ARTIGO – São Paulo, vamos, lidere! Por Marli Gonçalves

0001Levante a cabeça, esqueça os políticos. Lidere. Agora ou nunca, inclusive antes que a cidade acabe, desmoronada e envergonhada, junto de um país com os nervos em frangalhos envolto em bolsas e mentiras. Apenas comece, lidere, pelas mudanças que vêm sendo clamadas pelos de bem. Pode ser silenciosamente, da forma emburrada e trabalhadora que lhe é da personalidade, mas use o seu inegável poder. Reaja! Aproveite seu aniversário de 460 anos e reflita. Você, São Paulo, tem a força.toy_soldier_812_cc

Há 90 anos, 1924, sábado, 5 de julho, um grupo de jovens tenentes aproveitava o fim de semana para tentar iniciar a mudança das coisas que vinham degringolando rapidamente. Queriam reformas, modernidade, desenvolvimento, clamavam por novos costumes e pelo fim do duro poder constituído à época. Era o início de uma batalha sangrenta, pavorosa e destrutiva, que durou 22 dias. Tocaram o governador do Palácio, aborreceram bastante o presidente Arthur Bernardes. Chamada ainda hoje de revolução esquecida, muitos de seus líderes foram simplesmente varridos das memórias, embora em alguns bairros da Capital as marcas e rombos ainda teimem em nos lembrar do horror dos bombardeios. Generais mandaram calar as vozes discordantes à base de destruição, com a morte de muitas famílias. Pois é: imagine que, sim, já houve uma guerra aqui. Há quem diga ainda que a mira era muito ruim e que as bombas eram jogadas ao léu, achatando casas, famílias e a nossa moral.

war_2“Da Avenida Paulista ao Brás, ao Belenzinho, à Vila Mariana, à Mooca, às Perdizes, ao Ipiranga, à Vila Prudente, trincheiras foram abertas nas ruas. Um tiro de canhão despejou uma bomba no Liceu Coração de Jesus e feriu algumas crianças. A Igreja da Glória, no Lavapés, foi praticamente destruída. Famílias inteiras morreram dentro de casas bombardeadas. Mortos foram sepultados em terrenos baldios e quintais. Mais de um terço da população fugiu para o interior. Um grande número de adultos e crianças foi recolhido a um acampamento de refugiados da Cruz Vermelha. Aquele foi um dos invernos mais frios de São Paulo”, relembrou José de Souza Martins em artigo no Estadão, em 2010. “A cidade foi bombardeada durante 22 dias. Artur Bernardes e seu ministro da Guerra mandaram dizer aos que pediam misericórdia para o povo de São Paulo que São Paulo era rica e não teria problemas para reconstruir a bela cidade se ela fosse destruída…” – continua o relato._Picture_Animated Gifs_Dividers_3D_tug of war(1)

E hoje? Hoje assistimos calados a nossos jovens sendo mortos nas esquinas por outros sem esperança. Qualquer coisa para e imobiliza a cidade, como se bombardeada de novo estivesse sendo todos os dias. Impiedosamente. Sem eira nem beira, e agora na versão prefeito coringa, atirador para tudo quanto é lado. Tudo cai, tudo fura, e o pouco de bom se esvanece com faixas voltando a emporcalhar até o visual que tentávamos melhorar. Aqui, buracos fazem aniversário junto da cidade. As árvores se suicidam ou são mortas por quem não gosta de suas folhas de outono. Todas as rotas estão rôtas.

Dê um passo à frente. A hora é agora. Todos os Estados estão submetidos a uma mão de ferro que aperta os pescoços se autointitulando mãe e salvadora. Tenho certeza de que se você, São Paulo, “abrir os trabalhos”, mais cidades virão e nos darão as mãos, porque é nelas que vivemos, nos municípios, nas vilas; nós e nossos vizinhos é que somos o poder cidadão.DarthVader

Paulistaneidades, Paulistanices, Paulistadas, Paulistagens, paulistanidos – formaremos ainda mais novas palavras. Se já somos paulistinhas – peixes, aviões, vira-latas ou santas estátuas ocas – podemos ser chamados como paulistaninhos: grupo formado por essa gente de todos os lugares, culturas, rincões, e que aqui constroem suas vidas, alimentam seus filhotes, mas começam a perder seus sonhos e sono. Sem bairrismos, mas revolucionários.

São Paulo, não haverá quem negue sua força. Talvez sem charme, com a deselegância discreta de suas meninas, mas de sua força ninguém duvida. Aproveite o tempo. A coisa está tão feia que o verão inclemente já chega quase no fim e não houve ainda nem nova moda criada nas praias do Rio, como de costume. Por aqui só se ensaiam rolês em shoppings de cimento, para gáudio apenas dos sociologistas, psicolojecas chatos de plantão, que querem aplicar suas teses de banheiro à realidade mais crua e nua que se descortina.

Romantismo? Pode ser. Mas garanto que, nascida aqui na sua Rua Augusta, feita no Rio, com pai amazonense, mãe mineira e irmão do interior, conclamo a sua liderança em nome de todos os lugares, muitos recatados, outros dominados.

Não falo de política, desse ou outro partido, que todos estão esfacelados. Falo de ação, de conteúdo. Sem chuchu e sem esse povo sem tato que mais parece biruta de aeroporto em dia de vendaval. Também não falo – nem de longe!- de militares, porque só de ouvir o rufar de seus tambores sinto náuseas e lembro da distância do sonho dos jovens tenentes de outrora.

São Paulo, aproveite esse seu aniversário. Parabéns. Mas reaja. Volte a ocupar algum lugar nessa história.

Daqui, 2014

Marli Gonçalves é jornalista – Podíamos começar pela tomada dos rios Tietê e Pinheiros, para limpá-los e, neles, ao menos podermos verter nossas lágrimas e continuar remando contra a maré.

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