RUY CASTRO de hoje, pela nossa língua. Perfeito.

Sujeita a vírus, por Ruy Castro

( FONTE: FOLHA DE SP – 27/06/2012 – PAG 2)
DO RIO

Ninguém mais vive, reparou? Vivencia. “Estou vivenciando um momento difícil”, diz Maricotinha. Fico penalizado, mas ficaria mais se Maricotinha estivesse passando por ou vivendo aquele momento difícil. Há uma diferença, diz o dicionário. Viver é ter vida, existir. Vivenciar também é viver, mas implica uma espécie de reflexão ou de sentir. Não é o caso de Maricotinha. O que ela quer dizer é viver, passar por. Mas disse vivenciar porque é assim que, ultimamente, os pedantes a ensinaram a falar.

Assim como ninguém mais se coloca –se posiciona. Ninguém mais se dirige a um lugar –se direciona. Ninguém mais acrescenta nada –adiciona. E ninguém mais é diferente –é diferenciado. Sem nenhum motivo ou necessidade, certas palavras saem da fala comum e outras entram. Nada contra essa seleção natural, semelhante à que se dá na vida. Ali também é puro Darwin. Mas, para que morra uma palavra e nasça outra, é preciso haver um sentido.

Outra palavra do momento é polêmico. Ninguém mais tem um comportamento ou opinião original, diferente ou discutível –só polêmico. Mesmo que esse comportamento ou opinião não encontre ninguém para polemizar com ele. O mesmo quanto a inédito –nada parece mais importante hoje, num disco, show ou exposição, do que conter material inédito. Se estou para lançar um livro de textos sobre cinema, música popular ou literatura, sempre querem saber se contém material inédito. Respondo, encabulado: “Não. É tudo já é dito”.

E para onde tem ido a preposição “a”, em construções como “daqui a três meses”, que estão se tornando o capenga “daqui três meses”?

A língua é viva, eu sei, mas sujeita a vírus que, de repente, atacam a TV, a internet e a imprensa, contaminam milhões, e as pessoas começam a achar que foi sempre assim que se falou ou se deve falar.

Ruy Castro

Ruy Castro, escritor e jornalista, já trabalhou nos jornais e nas revistas mais importantes do Rio e de São Paulo. Considerado um dos maiores biógrafos brasileiros, escreveu sobre Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda. Escreve às segundas, quartas, sextas e sábados na Página A2 da versão impressa.

Você tem de ler o Ruy Castro de hoje. E se ligar que eles estão fazendo decreto para tudo.Isso é um perigo. Perigo,perigo, perigo.

FONTE: FOLHA DE SP – PAG. 2 – 27-04-2012 Ruy Castro

Presidenta por decreto

RIO DE JANEIRO – Amigos me alertam para um decreto-lei recém-publicado no “Diário Oficial da União”: “A Presidenta da República faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte lei: Art. 1º. As instituições de ensino públicas e privadas expedirão diplomas e certificados com a flexão de gênero correspondente ao sexo da pessoa diplomada, ao designar a profissão e o grau obtido. […]

Art. 3º. Esta lei entra em vigor na data de sua publicação. Brasília, 3 de abril de 2012. Dilma Rousseff. Aloizio Mercadante. Eleonora Menicucci de Oliveira”.

Tal lei serve apenas à teimosa vontade da presidente Dilma de ser chamada de presidenta, na ilusão de, com isso, estar valorizando as mulheres. E não adianta dizer-lhe que não é assim que a língua funciona. O problema é que, com a medida, ela obriga a que se parem as máquinas e se corrijam a jato todos os dicionários da língua portuguesa.

Porque, se Dilma agora é presidenta por decreto, também quero ser chamado de jornalisto, articulisto, colunisto ou cronisto.

Idem, os calistas, juristas, dentistas, arquivistas, criminalistas, ortopedistas, ginecologistas e médicos-legistas do sexo masculino, todos podem requerer diplomas de calistos, dentistos, arquivistos, criminalistos, ortopedistos, ginecologistos e médicos-legistos. O próprio Aloizio Mercadante, ministro da Educação e cúmplice da presidenta nessa emboscada contra a língua, deve exigir ser chamado de congressisto quando voltar ao Senado.

Pela novilíngua da presidenta, o sindicalista Lula teria sido um sindicalisto. Luiz Carlos Prestes, um comunisto. Millôr Fernandes, um humoristo. Luizinho Eça, um pianisto. Guimarães Rosa, um romancisto. O cego Aderaldo, um repentisto. Ayrton Senna, um automobilisto.

Dilma acha pouco ser presidenta. Quer ser também linguista.