ARTIGO – A torto e a direita. Por Marli Gonçalves

 

A boca abre e dela só saem impropérios, ataques, frases incompletas, palavras comidas, plurais despedaçados, uma visão de mundo desconectada. Os olhos – ah, os olhos! – o olhar seco, não direto, dispersivo, escorregadio, a testa comprimida. Como se não tivesse compromisso com nada, ninguém, responsabilidade. Como se tudo fosse uma grande brincadeira. E não é.

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A torto e a direito, direita, como se não houvesse amanhã, ontem, o presente. Se ninguém pergunta, ele responde, fala o que estava querendo falar, se é que se pode chamar de falar. Se perguntam ou pedem explicações, ele fecha a cara, interrompe a conversa, depois ataca quem perguntou. Se ninguém lhe dá atenção, sem problemas, ou ele ou seus filhos escrevem tuites atrapalhados, ou mesmo gravam os tais “lives” toscos, ao lado de uma entusiasmada tradutora de libras e agora sempre com um ministro vítima ao lado, que deve acenar a cabeça positivamente de dez em dez segundos.

O grande Ruy Castro propôs em sua crônica que a gente pode imaginar que se ele já faz tudo isso em público que imaginássemos em seu trono particular.

Só a ideia já dá para ter pesadelos seguidos por um mês. Eu já imaginei ele lá, sentado, com um espelho na frente, puxando o topete liso recém cortado e cultivado cuidadosamente (conte quantos barbeiros já o viram sentados em suas cadeiras desde que o rompante eleitoral ocorreu), ensaiando qual será a barbaridade que dirá ou fará no decorrer do dia. Adora “causar”; digo até que se daria bem no meio que parece detestar, LGBT, o povo que também adora causar, mas que antes de tudo o detesta com todas as forças.

No começo, era o folclore. O amadorismo em um cargo tão importante, já que nada de importante havia em seu currículo de dezenas de anos pela política, sempre muito ali por baixo do clero uns três palmos. Depois, o júbilo pela derrota do dragão PT, a sobrevivência à facada, a formação do governo que incluiu de cara o Posto Ipiranga, o Super Homem juiz, o astronauta. Nossa!, boquiabertos, começamos então a ver chegar os outros, a mulher que veste rosa, o diplomata que de diplomata mesmo não tem nada e que fala em soquinhos uma língua muito estranha, parece que aprendida lá fora com um guru, siderado, astrólogo que diz conhecer aspectos planetários e que a Terra é plana.

Mas ainda pensando nele no tal trono particular, veio a ideia de que a porta está aberta e ali entram os Filhos do Capitão, as caricaturas saídas dos quadrinhos de terror. Então, ensaiam. Papai isso, papai aquilo, papai me dá, papai deixa eu. Papai, essa imprensa está me tratando mal; papai, quero ir pros Estados Unidos.  A primeira dama? Onde anda? O que faz? Quem lhe dá alguma atenção? Aliás, como é mesmo o nome dela? Sumida.

Mulher não dá palpite. Ministros, por ele, em todos os Poderes, esses deveriam ser todos terrivelmente evangélicos sabe-se lá para o quê. Tá oquei?

Tinha um vice que falava, mas anda quieto, calado. Tem até gente boa por ali, mas que parece tentar trabalhar por fora para não se queimar.

Obviamente também temos muitos generais aflitos. Pelo menos deveriam estar.

Mas está acabando a brincadeira e o nosso humor esgota. A coisa está tomando volume, ficando muito mais séria. As declarações já não são só as inofensivas, bobas, desembestadas. As afirmações, como a última, a torto e direito como sempre, de que é direita e assim fará enviesando tudo para esse lado, requer atenção.

Dizem que faz tudo isso só para juntar sua turma dos 30% que ainda lhe resta. Dai a gente pergunta se esses 30% não pensam, não entendem, só surgem para atacar, não compreendem nossas aflições nem argumentos e informações, por onde andam os 70% restantes? O que fazem? Quando se reunirão? Como se organizarão?

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FOTO: Gal Oppido

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Site Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano- Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. Lançamento oficial 20 de agosto, terça-feira, a partir das 19 horas na Livraria da Vila, Alameda Lorena, São Paulo, SP. Já à venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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DELÍCIA! Ruy Castro ganha homenagem de bloco do Leblon. Sai dia 30

( PASSEI NO MEU SOUNDCLOUD PARA VC OUVIR TAMBÉM)

 “Imaginô? Agora Amassa!” homenagem ao Ruy Castro – um dos principais responsáveis pela preservação da memória da cultura nacional e da cultura do Rio de Janeiro – no desfile de 2016.

dia 30, no Leblon, Rio de Janeiro

Ruy Castro – HOMENAGEM MERECIDA

 

Imaginô? Agora Amassa! – 2016 — Samba de Gustavo Albuquerque

Oh, Imaginô! Oh, Imaginô!

Tereza da praia não é de ninguém

Não vai ser sua e nem minha também

‘Chega de saudade, a realidade’

É que ainda se faz se samba de verdade

Toda a cidade declama em versos suas prosas geniais

Ela é carioca, pra mim ela é linda demais

Pelos olhos teus um beijo na boca esperando os sinais

‘Morrer de prazer’, viver pra contar

Há muito a dizer, um sonho embalar

‘Carnaval no fogo’, a cidade vai sorrir de novo (bis)

É bossa que o violão iluminou

Um samba embebido de amor

Pequena notável, um ‘quê’ de sacana

As moças do ‘anjo’ em Copacabana

Estrela que alumia irreverente!

À ginga, Mané!

Clareia lá vem bailando a lua cheia, o coração bate, incendeia, na ‘noite do meu bem’

E quando sentir que a quarta-feira está pra chegar

Vou me permitir navegar, vou deixar minha alma seguir

O barquinho que vem, a noitinha que cai

Ipanema chamando não vou aguentar

Ruy Castro, o Rio vem agradecer, cronista-amor desta cidade

Hoje a festa é pra você!
 

 

 

O Oitavo Selo, de Heloisa Seixas, um livro extraordinário lançado hoje em SP. Livraria Cultura. Ruy Castro está dentro, do livro, e da vida da autora, sua esposa, que conta das suas sete vidas numa narrativa envolvente e literária

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EU, RUY CASTRO E O CARLINHOS BRICKMANN
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HELOISA SEIXAS ABRAÇA UMA AMIGA: AUTORA DO OITAVO SELO – QUASE UM ROMANCE, A SUPER TALENTOSA E ESPOSA DO RUY CASTRO. CONHECÊ-LA VALEU A PENA
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DA ESQ PAR AA DIREITA, KRIGOR, CARLOS BRICKMANN, A ESPOSA DO KRIGOR E UM AMIGO. KRIGOR, PARA QUEM NÃO SABE, FOI, ALÉM DE DONO DA DUCAL, E ACHO QUE CONTINUA SENDO, O MEHOR AMIGO E MENTOR DE NADA MAIS NADA MENOS JOÃO GILBERTO. QUANDO FIZ – SIM – FUI UMA BOA PRODUTORA CULTURAL – OS SHOWS DE JOÃO EM SP, FICAMOS AMIGOS ( EU E JOÃO). UM DOS ORGULHINHOS QUE LEVO NESSA VIDICA. UM DIA CONTO MAIS DESSE PERÍODO. OS SHOWS FORAM PREMIO APCA DAQUELE ANO, 85
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EU E O IVSON, FOTOGRAFO DAS ANTIGAS , QUE ACOMPANHAVA O EVENTO

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ARTIGO – Vidas molhadas, por Marli Gonçalves

read_e0Quando não há um assunto para dividir o mundo em duas partes ranzinzas alguém inventa. Aí toca falar nele até torrar o saco. Falta irem para um duelo na porta do saloon, decidir a bala, no tapa, coisas que nem deviam estar na pauta, principalmente entre quem deveria estar aí defendendo a liberdade, dizendo não ao autoritarismo. A bola da vez é a discussão sobre uma malfadada autorização que os autores teriam de ter dos biografados ou suas famílias para escrever sobre suas vidas. Vê se pode! Censura, não! Quer ser famoso sem se molhar? 

Se você vier me perguntar eu nego. Eu? Não. Não fiz xixi na cama, não comi meleca, nunca roubei nada. Nunca fiz nada ilegal, nem nunca traí ninguém. Como a gente gosta de falar, brincando, desde Tim Maia, “Não bebo, não fumo e não cheiro. Só minto um pouco”.

Ora, direis, falar a verdade! O que será de verdade que está se passando na cabeça dessa turma que se reuniu ao Roberto Carlos para querer proibir – enfim, manter proibidas, já que é assim que, absurdamente, estão nesse momento – as biografias sem um “ok”? Estariam esses nossos ídolos com efeito retardado ou apenas querendo atrasar ainda mais esse nosso travado país? Estariam todos ficando velhos ranzinzas, um dos meus maiores temores? Depois a gente fala que é birra de tia velha e eles chiam, mandam seus jovens cães de guarda latirem.

Porque uma coisa é certa: eles próprios estão manchando a biografia que seria feita – de alguns, porque tem gente aí no meio só tirando casquinha já que não mereceria nunca mais do que poucos minutos de atenção.

jlwriting_table_e0Esse é um daqueles assuntos sobre os quais não se pode ter qualquer dúvida. Não existe um meio termo, só a cabecinha. Ou existe a liberdade de imprensa ou não. E essa segunda alternativa a gente já conhece qual é. Não sei se você aí está acompanhando esse bate boca, mas ouvi umas argumentações que estão piorando ainda mais a briga de insuportáveis, o burufum, entre elas a de que o biografado devia receber. É. Tipo royalties. Seria feito algum tipo de contrato maluco, tipo para cada podre que o autor quiser revelar “sem autorização” um pagamento, tipo indenização.anim0014-1_e0

Sobre o contrário, livros que estamos vendo ser publicados aos borbotões nesses duros tempos políticos, biografias chapa branca total, que inventam vidas lindas e heroicas que até viram filmes, também fartamente financiados, nenhuma palavra. Ninguém pensa em indenizar a gente por esse deserto cultural que estão implantando.

O grupelho (fico super chateada, porque realmente tem gente cuja arte muito respeito) tem também outro argumento que me dá nos nervos, usando a coitada da massacrada Constituição. Eles têm uma lábia para usar a combalida quando lhes convém. Para se esconder e posar de legalistas. Então dizem que querem a proibição para preservar os direitos individuais, intimidade, patati e patatá.

Bom, o que a gente pode esperar mesmo de um país que tem a Dona Marta como Ministra da Cultura, com toda aquela sua empáfia? O que se pode esperar de um país que tem um Zé Dirceu correndo para defender controles? De mídia, imprensa, biografias e, se possível fosse, da Justiça, do tempo no fim de semana, do que a gente pensa dele, do mensalão e tudo o mais. Só ele é que não controla nada. Nem a mãozinha, ou o ideário político imposto a qualquer custo.

Tadinho. Deve ter ficado aborrecido com o (ex?) amigo Paulo Coelho que mandou a lenha na organização, igual o nariz das donas, da feira de Frankfurt programada para homenagear o Brasil, mas que acabou só assistindo a um festival de troca de desaforos. Deve estar querendo apagar o charuto do (ex?) amigo Fernando Morais, um de nossos maiores biógrafos, que também já se posicionou a favor da liberdade. Deve ter jogado fora todos os livros de Nelson Motta, Ruy Castro, os discos de Alceu Valença e outros que ousam pensar diferente dele, do “rei” e dos tropicalistas que esqueceram de seus próprios atos, e mandam a gente esquecer o que escreveram e fizeram.

Tenho uma péssima notícia para dar a esse grupo. As biografias deles já estão escritas, e disponíveis na internet – basta gugar. Tudo bem que não são tão bem escritas como seriam se esses nossos grandes autores o fizessem, mas estão lá.

Mais: há roteiros prontos. E aí eu trouxe para ajudar a quem quiser começar a escrever uma biografia, mas que espero que escolha um personagem que mereça mais do que esseszinhos, e que seja democrático.

Elementos para elaboração de uma biografia: Nome da pessoa/ Nomes dos pais/ Data do nascimento/ Local do nascimento – cidade, Estado, País (se estrangeiro, quando veio para o Brasil?) onde se radicou? Casado(a)? Nome do cônjuge/ Quando casou-se? / Onde?/ Quantos filhos / Quem são eles?/ São casados?/ Com quem? A que se dedicam?/ Quantos netos? Cursou alguma escola?/ Onde?/ Quando? /Qual?/ Nomes das escolas/ Que atividades exerceu? / Pertenceu a entidades culturais, filosóficas, beneméritas, assistenciais?/ Quais?/ Quando?/ Exerceu algum cargo público?/ Eletivo ou de carreira?/ Qual? Em que época? / Pertenceu a algum partido político? Qual? Quando? / Citar particularidades ou fatos interessantes da vida do biografado/ Citar atividades ou fatos em que se destacou na comunidade/ Citar contribuições que ofereceu para a comunidade/ para o desenvolvimento. Faleceu?/Quando?/ Onde?/ Onde foi sepultado?

Como vimos, fácil fazer biografia de quem merece, e sem perguntar se pode. Quem está na chuva é para se molhar, não é não Caetano? Segura seu pierrô molhado, ou se perca de nós. Desapareça.

São Paulo, 2013

Marli Gonçalves é jornalista Nunca suportou a censura. Tantas coisas não pode nunca ler ou saber por causa dela!

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Tenho um blog, Marli Gonçalves, divertido e informante ao mesmo tempo, no https://marligo.wordpress.com. Estou no Facebook. E no Twitter @Marligo

Você não pode deixar de ler o Ruy Castro da Folha deste sábado. Perfeito. Preciso. De mestre que é.

Inventa-línguas

Ruy Castro

RIO DE JANEIRO – Amanhã, fechada a última urna, a Justiça Eleitoral não somará os votos -“procederá à totalização”. Quem quer que tenha imposto essa forma pedante e engomada de dizer algo tão simples conta agora com a adesão da televisão, que se encarrega de fixar na língua os modismos mais bobos.

É assim também que, no futebol, ninguém mais entra em campo, mas “vem pro jogo”, e ninguém mais joga bem, mas “faz um bom jogo” -expressões que ficamos a dever ao jargão pretensioso e oco de alguns treinadores. E onde foram parar os antigos estádios e ginásios, substituídos pelas “arenas”, embora seus pisos de grama ou cimento ainda não tenham sido substituídos pelos de terra, próprios das touradas?

A explicação para tudo isso deve ficar “por conta” -não mais por causa- de alguém que, um dia, resolveu falar difícil e havia um pascácio escutando. Ou que julgou estar dando sua contribuição à língua, como na recente campanha de uma cerveja, louvada nos anúncios por ter “praiabilidade” e “churrascabilidade” -por que não “futebolidade”?

Guimarães Rosa vivia inventando palavras, necessárias ao que ele queria dizer. Muitas poderiam ter tido uma sobrevida na língua, como “ensimesmudo”, “infinilhões” ou “sussurruído”. Mas nem ele conseguiu que elas respirassem fora dos seus livros. Hoje, qualquer um pode ser um inventa-línguas -basta afixar à fachada de seu negócio uma placa anunciando sua “brinquedaria”, “chicletaria” ou, credo, “olfataria”.

Está bem, a língua não é imexível, como disse o outro. Mas, antes de submetê-la a um vale-tudo de gratuidade e exibicionismo, por que não recuperar palavras já existentes e com pouco uso? Nesta semana, por exemplo, uma delas, que vivia quieta no seu canto e só era usada em textos jurídicos, saiu às ruas com grande pompa e circunstância: “dosimetria”.

Quer ler uma coisa gostosa? Ruy Castro, Folha de SP de hoje.

Ruy Castro, na Folha de S. Paulo, 31 de março de 2012

Aos pés de seu herói

RIO DE JANEIRO – Leio no jornal que certa beldade, cujo nome me escapa e cuja cor dos olhos desconheço, reluta em posar para a “Playboy” porque a revista não estaria valorizando a sua condição de recente estrela do “BBB”.

Trabalhei na “Playboy” em seus primórdios, na passagem dos anos 70 para os 80, e me lembro de como as exigências das moças que posavam para a revista podiam ser diferentes. Uma preocupação delas era com o texto que acompanhava as fotos. Não gostavam que fosse grosseiro, machista e realçasse apenas os seus atributos mais óbvios.

Uma dessas moças era uma famosa atriz do cinema nacional. Aceitara posar, mas exigira o direito de aprovar as fotos e o texto. A revista concordou. As fotos foram feitas no Rio e, semanas depois, a produtora Cecília Ribeiro foi receber a estrela em Congonhas e levá-la à Redação para conferir tudo. No caminho, a garota continuou a falar do baixo nível desses textos. Cecília tentou tranquilizá-la e assegurou-lhe que suas legendas seriam escritas por um dos nossos melhores redatores, o Fernando Pessoa.

Ao ouvir o nome, a moça pulou no banco traseiro: “Fernando Pessoa??? Mas é o meu poeta favorito! Sou louca por esse homem!! Não sabia que trabalhava na ‘Playboy’!!!”. Cecília, safa como só ela, não confirmou nem desmentiu e prometeu que a apresentaria ao poeta na Redação.

Assim que chegaram à “Playboy”, ela fez as apresentações e piscou para o também poeta, só que pernambucano, Fernando Pessoa Ferreira -que entendeu tudo e entrou rindo no jogo. Fernando passou a tarde recitando os clássicos mais manjados do seu xará português para a moça, que não percebeu a diferença de sotaque. Horas depois, a estrela assinou a autorização sem sequer ler o que Fernando escrevera sobre ela e tomou o avião, feliz da vida por ter conhecido seu herói.

Grande Ruy Castro, na Folha de SP de hoje

Ruy Castro

Mistério e absurdo

RIO DE JANEIRO – Cientistas da Universidade da Louisiana, nos EUA, divulgaram há dias o que consideram uma grande descoberta. Em 1961, pesticidas usados por fazendas perto da baía de Monterey, na Califórnia, teriam ido para o mar e produzido uma toxina que contaminou o plâncton ingerido por anchovas e lulas, abundantes na região. Estas, por sua vez, ao servirem de alimento a gaivotas e tartarugas, danificaram o cérebro das aves, deixando-as confusas e induzindo-as ao suicídio em massa.

Segundo eles, isso explicaria por que milhares de gaivotas se atiraram contra casas e carros, na costa noroeste da Califórnia, no verão daquele ano -o que, por sua vez, teria inspirado o clássico “Os Pássaros”, deHitchcock, em 1963. E, com isso, anunciaram, estaria desvendado o “mistério” dos pássaros de Hitchcock, cujo ataque aos humanos no filme nunca teve explicação.

Nelson Rodrigues chamaria esses cientistas de “idiotas da objetividade” -aqueles para quem tudo precisa ter uma razão lógica. Uma das belezas do filme de Hitchcock, fartamente observada na época, é que os pássaros não eram uma alegoria do apocalipse, da bomba atômica ou da Terceira Guerra, mas apenas pássaros. Parecia absurdo, não? Mas nosso tempo era absurdo.

Além disso, o instinto assassino que acomete as aves do filme não se limita às gaivotas -atinge também corvos, pardais, canários e há uma referência até a algumas galinhas.

O próprio diretor sempre desautorizou qualquer interpretação física ou “metafísica” dos “Pássaros”. Por que então se deixaria inspirar por causas tão rasteiras, como toxinas e pesticidas? Mas vamos supor que os idiotas da objetividade estejam certos. Nesse caso, Hitchcock perdeu a chance de fazer um filme ainda mais aterrorizante. Era só substituir as gaivotas pelas tartarugas.

Vai escrever bem assim aqui em casa!Ruy Castro. Leia.

ImagemRuy Castro

Boneco cego

RIO DE JANEIRO – O Oscar que Orson Welles ganhou em 1941 pelo roteiro de “Cidadão Kane” vai a leilão semana que vem em Los Angeles. O lance mínimo é de US$ 1 milhão. Para quem é rico e do ramo, deve ser barato. Foi o único Oscar que “Kane” recebeu, dos nove a que foi indicado, e o único que Orson levou por um filme, e olhe que dividido com Herman J. Mankiewicz.

Não é de hoje que o Oscar vai ao cinema e não enxerga nada. Para o boneco, o melhor filme de 1941 foi “Como Era Verde Meu Vale”, de

John Ford, e o melhor ator, Gary Cooper, por “Sargento York”. Com todo o respeito por Ford e Cooper, inclusive nesses filmes, hoje parece inacreditável que “Kane” e Welles não tenham ficado com os ditos Oscars.

O filme seguinte de Orson, “Soberba”, também foi indicado entre os melhores de 1942, mas perdeu para o correto, quadrado e apenas oportuno “Rosa de Esperança”, drama de guerra de William Wyler. Derrota discutível, embora, naquele ano, nenhum dos dois se comparasse a “Contrastes Humanos”, de Preston Sturges, nem sequer cogitado. E, mais até do que o magnífico George Sanders em “A Malvada”, era Orson, no papel de Harry Lime, quem merecia ser o melhor ator coadjuvante de 1950, por “O Terceiro Homem”.

O caso mais escandaloso, no entanto, foi o de “A Marca da Maldade”, ignorado de alto a baixo em 1958 e pelo qual Welles deveria ter ganhado, no mínimo, os Oscars de melhor filme, diretor e ator -os quais couberam, respectivamente, ao musical “Gigi”, ao diretor deste, Vincente Minnelli, e a David Niven por “Vidas Separadas”. E por que a estatueta de ator coadjuvante em 1959 coube a Hugh Griffith por “Ben-Hur”, e não a Orson no papel do advogado em “Estranha Compulsão”, de Richard Fleischer?

Pensando bem, talvez US$ 1 milhão seja muito dinheiro por um boneco cego.

Certos textos não precisam nem críticas nem elogios. Só um adjetivo: brilhante, pela síntese. O do Ruy Castro, Folha de hoje, é assim.

RUY CASTRO

Antes dos 29

RIO DE JANEIRO – Aos 29 anos cravados, Mario de Andrade publicou “Pauliceia Desvairada”, Nelson Rodrigues estreou em teatro com “A Mulher Sem Pecado” e Tom Jobim compôs (com Vinicius de Moraes) as canções de “Orfeu da Conceição”. Com essa idade, Clarice Lispector já tinha lançado seu romance “Perto do Coração Selvagem”; Ferreira Gullar, o livro-poema “A Luta Corporal”; e Jorge Amado, “Jubiabá”, “Mar Morto” e “Capitães da Areia”.
Aos 29, Carlos Drummond acabara de escrever que no meio do caminho tinha uma pedra, que João amava Teresa que amava Raimundo, e que, se seu verso não dera certo, fora o nosso ouvido que entortara.
Castro Alves, naturalmente, tivera só 24 anos para construir “Os Escravos” e toda a sua obra; Álvares de Azevedo, nem isso -morrera aos 21, pouco depois de fazer a “Lira dos 20 Anos”.
Manuel Antonio de Almeida publicou “Memórias de um Sargento de Milícias” muito antes dos 29. Idem Joaquim Manuel de Macedo, com “A Moreninha”; José de Alencar, com “O Guarani”; João do Rio, com “A Alma Encantadora das Ruas”; e Lima Barreto, com “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”.
Aos 29 anos, Paulo Francis já espalhava o terror pelo Rio como crítico de teatro; Millôr Fernandes era um nome consagrado no texto e no desenho; e Glauber Rocha, que fora endeusado por “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, começava até a ser contestado, por causa de “Terra em Transe”. Quanto a Dolores Duran, Leila Diniz e Cazuza, foram apenas alguns que fizeram tudo antes dos 29 e logo pegaram o chapéu.
Outro país, outros tempos. No Brasil de hoje, fica decretado que a minoridade se estende aos 29 anos e que, até essa idade, qualquer marmanjo munido de uma carteira de estudante, real ou falsificada, pode continuar pagando meia-entrada nas bilheterias e na vida.

Você leu o Ruy Castro de hoje na Folha de S. Paulo? Absolutamente imperdível.

RUY CASTRO

Milagre na Bienal

RIO DE JANEIRO – Acredite ou não, escritores são humanos e, por mais bem-sucedidos, invejosos. O sucesso de um concorrente, dizia Nelson Rodrigues, dói fisicamente como uma canivetada. Inveja-se o prestígio, invejam-se as vendas, a mídia, as mulheres e até o estilo uns dos outros. O próprio Nelson invejava o prestígio de Guimarães Rosa; Oscar Wilde, o de Bernard Shaw; Gertrude Stein, o de James Joyce.
Eu, por exemplo, invejo qualquer pessoa que escreva depressa, sem precisar pensar muito e sem sofrer, e produza uma obra-prima ou um texto decente, o que vier primeiro. Mas, na Bienal do Livro que se encerrou domingo no Rio, descobri outra qualidade para invejar: a capacidade de certos autores para autografar livros a um ritmo alucinante, quase irreal. Um deles, o padre Marcelo Rossi.
Segundo os jornais, das 11h20 às 17h30 de quarta-feira passada, padre Marcelo autografou 1.200 livros no estande de sua editora. De tanto assinar e cumprimentar leitores, sua mão inchou de tal forma que teve de ser enfaixada por paramédicos e a sessão, encerrada. Mas, como a multidão não arredasse pé, padre Marcelo convenceu seu público a trocar o autógrafo e o aperto de mão por uma bênção individual, donde distribuiu 6.000 bênçãos entre 17h30 e 19h40. Não é invejável?
Vejamos agora. Das 11h20 às 17h30, são 370 minutos. Significa que, durante seis horas e dez minutos, padre Marcelo autografou 3,2 livros por minuto -sem parar. Equivale a um livro autografado (e uma mão apertada) a cada 18,7 segundos. É digno de The Flash. Já as bênçãos, só com ajuda da velocidade divina. Das 17h30 às 19h40, são 130 minutos. Significa que, com mão enfaixada e tudo, padre Marcelo distribuiu 46 bênçãos individuais por minuto. Uma bênção a cada 1,3 segundo! Milagre?
Os números são da editora de padre Marcelo. E depois tem gente que não acredita no sobrenatural

E por falar em fantasmas…O genial Ruy Castro também viu o mesmo que todos nós vimos. O Lula. Leia esse artigo delicioso.

Gasosos

RUY CASTRO

RIO DE JANEIRO – Uma americana, Rhonda Baron, “do lar”, cidadã de Arlington, na Virgínia, declarou outro dia que o cantor Jim Morrison, morto em 1971, apareceu três vezes em sua casa e se deitou a seu lado na cama. Morrison morou nessa casa em criança, e tais visitas póstumas podem ter sido apenas nostálgicas. Os dois ficaram quietinhos, ela garantiu. Mesmo porque o líder do The Doors estava um pouco gasoso, via-se através dele.

Outro que aparece para seus fãs, inclusive brasileiros, é Michael Jackson. Morto há dois anos, é possível que ele ainda não tenha se habituado a sua condição ectoplásmica, e tal desorientação o faça deixar Neverland, onde morava, para vir toda noite ao Brasil. É verdade que, no além, as noções de tempo e espaço são diferentes. Além disso, Michael tinha grande experiência em andar para frente como quem anda para trás, e vice-versa.

O lendário presidente americano Abraham Lincoln (1809-65) até hoje é visto por empregados na Casa Branca, sempre no ato de chegar, sentar-se em sua antiga cama e descalçar as botas. Ao se ver de meias, faz um som parecido com “pop!” e desaparece. Os empregados já o esnobam e nem ligam.

E eu próprio ouvi de Tom Jobim, em 1968, numa mesa do Veloso, em Ipanema, que seu pai, o poeta Jorge Jobim, lhe surgira de pé, junto à sua cama, algumas noites antes, e o instara a pescar menos e a compor mais. Bom conselho, independentemente do fato de que Jorge Jobim morrera em 1935, quando Tom tinha oito anos e mal o conheceu.

Diz-se que tais aparições se aproveitam de uma eventual fraqueza ou baixa imunidade do titular. Pois, na semana passada, o ex-presidente Lula também apareceu em Brasília, com a desenvoltura de sempre -e sabe-se que a presidente Dilma não estava em grande forma por aqueles dias. Lula continua sólido, nada gasoso, mas já se pode ver através dele.

DA FOLHA DE S. PAULO DE HOJE, PAG.2, 1-06-2011

Palácio do Planalto. Olha o Lula....


Ruy Castro, delicioso. Na Folha de S. Paulo de hoje. Ele quer ver discos voadores…Vem aqui.

RUY CASTRO

De olho no céu

RIO DE JANEIRO – A abertura de arquivos em Brasília revelou que a FAB (Força Aérea Brasileira) passou os últimos 60 anos analisando depoimentos de supostos contatos visuais de pessoas com ovnis (objetos voadores não identificados). No lote de 700 documentos, constam relatos sobre objetos “de grande luminosidade” que apareceram no céu, fizeram uma manobra imprevista e, talvez por timidez, desapareceram na maior velocidade.

Sinto inveja das pessoas que juram ter visto discos voadores porque, embora vivesse de olho no céu nos anos 50 -quando os discos saltavam diretamente das páginas de “O Cruzeiro” para a nossa imaginação -, nunca vi nada nem parecido. Foi uma época em que discos voadores abundavam no cinema, nos gibis e nas figurinhas dos chicletes de bola, mas, que raio, se mostravam para todo mundo, menos para mim.

Muito depois, conheci o repórter João Martins, que, em 1952, dera em “O Cruzeiro” o furo dos discos voadores sobre a Barra da Tijuca, fotografados à luz do dia por Ed Keffel.
Sempre que o via, eu puxava o assunto, esperando que ele se distraísse e revelasse que eram pires atirados para o alto, como de fato pareciam. Mas João Martins fazia cara de pôquer e nunca se traiu.
Nas décadas seguintes, tentei esquecer os discos voadores, mas eles continuaram aparecendo, embora apenas para pessoas especiais: Tim Maia, Rita Lee, Paulo Coelho, Raul Seixas, João Gilberto, Baby Consuelo, Xuxa, Wanderléa, o roqueiro Serguei, meu amigo Eduardo Dussek. E, outro dia, até o cantor Fiuk, tão novinho, já viu o seu.

Só não me martirizo ainda mais porque, além de mim, Millôr Fernandes, d. Paulo Evaristo Arns, Antonio Candido, Ferreira Gullar e Fernanda Montenegro até hoje também não viram. É verdade que, certa vez, FHC disse que viu um ovni. Mas o ovni não foi encontrado para confirmar.

Que delícia. Leia esse texto do Ruy Castro na Folha de hoje. Beleza, Ruy! Na veia.(Essa gente é muito chata, crica)

DA FOLHA DE SÃO PAULO DE HOJE, SOBRE CRÍTICAS QUE OUVIU AO FLME RIO( VEJA AQUI OS TRAILLERS)

RUY CASTRO

Tiro à ararinha

RIO DE JANEIRO – “Rio”, o desenho animado americano, mal estreou e já foi cobrado pelo que omitiu na tela. Ouvi resmungos de que o filme, uma esfuziante celebração da cidade, deixou de fora as mazelas, e que tudo nele é cartão-postal -o céu, o mar, o recorte das montanhas, as praias, o humor do carioca, as mulheres, a arquitetura. Não tem guerra de facções, nem batidas no morro, nem balas perdidas, nem mesmo bueiros explodindo.
Incrível como somos rigorosos. Quando se trata do nosso quintal, exigimos realismo e criticamos o estrangeiro que nos enxerga de forma ingênua e positiva. Já quando se trata desse estrangeiro e do que ele nos apresenta de si próprio, somos mais lenientes. Quando Woody Allen rodou “Manhattan”, em 1979, Nova York estava no auge da falência, sujeira, violência, insegurança e corrupção. Mas a NY que Woody mostrou foi um cenário de conto de fadas. E por que não? Afinal, “aquela” Manhattan também existia.
Cobra-se a falta de mazelas em “Rio”, mas não se cobrou a falta dos cartões-postais em filmes de exploração da violência, como “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”. No entanto, enquanto os tiroteios cruzavam a tela, os cartões-postais continuavam intocados na vida real e habitados pela maioria da população do Rio, que não vivia a “realidade” daqueles filmes.
Temos agora nova queixa: na trilha sonora de “Rio”, não se ouve o “pancadão” do funk -como se este já fosse a nova música oficial da cidade, silenciando o samba, o choro e a bossa nova. Bem, em 1979 as ruas de Nova York estavam infestadas de disco music, break e hip-hop. Mas, para a trilha sonora de “Manhattan”, Woody preferiu usar 13 melodias de George Gershwin, de “”S Wonderful” a “Rhapsody in Blue”. Alguém se queixou?
O que a turma quer? A ararinha-azul abatida a tiros de fuzil ao sobrevoar a Rocinha, ao som da Tati Quebra-Barraco?