#ADEHOJE – IMPRENSA ATACADA. SÃO PAULO ENCHARCADA

#ADEHOJE – IMPRENSA ATACADA. SÃO PAULO ENCHARCADA

 

SÓ UM MINUTOPOR FAVOR, PEÇO SUA ATENÇÃO AÍ DO OUTRO LADO. O novo governo, de Jair Bolsonaro, tem efetivado severos ataques à imprensa, desleais, de forma a tentar desmoralizar o trabalho sério de muitos profissionais. Os ataques desferidos pelo próprio presidente em sua loucura via redes sociais e ajudado por simpatizantes e por seus filhos 01,02,03, usam notícias falsas, manipulam informações, algo horroroso ao qual a sociedade não pode fechar os olhos. A imprensa é guardiã dos interesses da sociedade.

A cidade de São Paulo e a parte do ABC amanheceram literalmente debaixo da água, e situações dramáticas estão sendo reportadas, com prejuízos ainda incalculáveis e 11 mortos até o momento, em desabamentos e afogamentos. Os meios de transporte público estão um caos. O rodízio de veículos está suspenso. Há previsão de mais chuva ainda para hoje.

ARTIGO – Quer saber o que queremos? Por Marli Gonçalves

Respeito. Em primeiro lugar, respeito. Antes de tudo o mais que se possa estar pensando para comemorar o Dia da Mulher, nos presenteiem com respeito, que é isso que mais está faltando para entender a dimensão e a realidade da condição feminina. A lista do que queremos e precisamos é longa, não está em nenhuma loja, e começa por entender que não estamos brincando quando falamos em busca de, no mínimo, igualdade, que já não é sem tempo.

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Desarme-se. Pronto? Posso falar? Me deem um pouco de sua atenção, todos aí do outro lado desse texto? Senhores e senhoras, meninos e meninas.

As mulheres já fizeram grandes avanços, e a luta por igualdade e conquistas hoje alcança outro patamar, mais complexo, muito mais ligado ao comportamento e cultura. Os espaços cada vez mais ocupados. Isso, sem dúvida, certamente acarretou e traz confusão entre valores, envolvendo sexo e a questão de gênero. Mas é hora de seguir adiante, por todos nós.

Têm acompanhado o noticiário que todo dia fala sobre a morte violenta de uma ou mais mulheres por seus companheiros ou ex-companheiros? Pois esse número é muito maior do que as que viram “notícia”. Têm sabido das que ficarão aleijadas para sempre por conta de ataques? Aleijadas, inclusive moralmente, porque a violência deixa sequelas e não só na pessoa atingida, mas em todos à sua volta. Em todos nós, envergonhados.

Ah! Não gosta da palavra feminicídio? Acha que é invenção da imprensa? Não é: trata exclusivamente da violência, o ódio, que atinge mortalmente a mulher, e apenas pela sua condição de ser uma mulher. Definição importante, porque foi só a partir de muita luta que se conseguiu chamar a atenção para esse problema tão grave. Pelo menos agora estão medindo, pesquisando, dando atenção, inclusive, ano após ano, revelando que os índices estão, na verdade, piorando. É preciso fazer alguma coisa para mudar. Já somos o quinto país do mundo mais violento contra a mulher, e isso não é para se orgulhar, mas para corar. Não gosta da palavra feminicídio? Tá bom, use outra: assassinato de mulheres.

Outra: mulheres agredidas e que não prestaram queixa não é porque gostam de apanhar. Mas porque têm medo, muito medo. Por não confiar – e com certa razão – nas autoridades que deveriam protegê-las. Várias, desse rio de sangue e horror, estavam sob medidas protetivas, mas quem as cumpre? Essa polícia que muitas vezes não aceita nem que se registre um boletim de ocorrência, esses juízes que liberam os agressores em poucas horas, porque eles vão lá e se dizem arrependidos?

A realidade é que ainda se teima em não admitir que a mulher ainda é tratada de forma diferente, como se menor fosse, e não só dentro de sua própria casa, mas na rua, no trabalho, na política, na lei, na sociedade.

Chega a ser vergonhosa a mínima participação na política nacional, só com algumas eleitas, muitas delas apenas desajustadas, justamente por negarem sua condição para chegar até ali. Vemos ainda a criminosa utilização das cotas partidárias em candidaturas fantasmas de mulheres apenas para a obtenção de recursos, apenas mais um dos assuntos atuais e cavernosos do país que trata tão mal a parcela que é mais da metade de sua população.

Por que ainda tantos e tantas de vocês não admitem, parecem não ter noção do desgaste que é todo dia ter de se reafirmar, século após século, ano após ano, dia após dia, suportando retrocessos ideológicos, a ignorância e as pedras no caminho?

É preciso garantir a liberdade de denunciar, de exigir respeito e chamar a atenção para o que é tão urgente.

Respeito. Respeite. É essa a noção básica do feminismo. Precisamos todos também falar sobre isso: o feminismo é sério, amplo; não é coisa só de mulher. É movimento de toda a sociedade que não se desenvolverá sem que se tenha noção da importância da igualdade de condições, e que se manifeste e esteja presente em todos os grandes temas.

Percebo, sim, aqui do meu posto de observação, que a coisa está tão confusa que até uma luta política tão importante como essa esteja infelizmente virando clichê. Virando qualquer coisa, sendo ridicularizada. Tudo baseado apenas em palavras vazias, grosseiras e mentirosas que só parecem pretender manter as mulheres acuadas e caladas. Repito, desistam. Não adianta. Precisamos todos nos acertar.

Respeito. Nos dê – a todos – esse presente, bem simples, aproveitando o Dia da Mulher, que foi para isso que foi criado, para que se pense mais seriamente. É só o que queremos: respeito. A partir daí virá a consideração.

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Marli Gonçalves, jornalista – Obrigada desde já pela atenção.

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

Brasil, Dia da Mulher, 2019

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ARTIGO – Marielle: esse crime terá castigo. Por Marli Gonçalves

Marielle: esse crime terá castigo

Marli Gonçalves

Mulher, negra, lésbica, vereadora, combativa, corajosa, jovem. Marielle, de cara, juntou sete motivos para exasperar muita gente, tanto a ponto de ser executada friamente numa viela do Estácio, no Rio de Janeiro. “Se alguém quer matar-me de amor/Que me mate no Estácio/Bem no compasso, bem junto ao passo/Do passista da escola de samba/Do Largo do Estácio”… – profetizou Luiz Melodia

Assim, Marielle passou definitivamente à História. Balas que estavam por aí perdidas, literalmente, desde 2006, a encontraram no Estácio. Quatro delas. Todas na cabeça, como se não só quisessem matá-la, mas também as suas ideias, sua beleza, seus pensamentos. Pouco importava a eles quantas vidas levariam junto, como levou a do motorista Anderson Gomes traiçoeiramente, três outras dessas balas amargas nas costas. Balas malditas do lote UZZ-18, arsenal que já havia sido usado na maior chacina de São Paulo, em agosto de 2015, o horror quando 23 pessoas, muitos jovens, foram mortas. Quantas balas mais estarão por aí?

Balas que mataram de amor que o país inteiro dedicou e demonstrou nas horas seguintes e que nos mantêm inquietos e alertas até que se descubra tudo. Quem foi? Quem “foram”? – que isso é coisa de mais de um. Por quê? Quem mandou? No pé de quem Marielle pisou? Queremos ver a cara deles e, podem apostar, serão todos homens.

Enquanto isso estamos sendo obrigados a ver outras caras que por mais que se esforcem, não conseguiremos nunca acreditar em suas compungidas expressões, muito menos no silêncio escandaloso preferido por certos outros, e nem em muitas de suas condolências com palavras poderosas acompanhadas de pouca ação, que pouco importam. Um, o religioso prefeito, se apressou em dar o nome de uma escola, decretar luto oficial. Outro, o presidente do país, falou, falou e não disse nada, com sua oratória de sempre, voltada a si próprio. Sim, é inaceitável; sim, atenta contra a democracia. Foi até mais longe quando puxou a intervenção na segurança – a intervenção que não interviu, não interveio, e ao que parece, não intervirá na crescente violência que destrói a Cidade Maravilhosa. Presidente esse que meia hora depois sorria fazendo politicagem com a turma de um tal programa “Brasil mais jovem”, puxando um minuto de silêncio com apenas 30 segundos e posando com uma bola nas mãos. Eu disse bola. Que bola foi essa?

O que o Brasil mais jovem verá não dá para calcular nesse momento dramático. Mas o que está vendo é de revirar o estômago. De um lado, oportunismo político deslavado. De outro, manifestações nas redes sociais que chegam a dar vergonha e que expõem a degradação humana, uma sociedade má, burra, doente. Atrás de seus quadradinhos com fotos, ou de pseudônimos tonitruantes, do alto de suas vidas vis e egoístas, despejam o que há de pior, aplaudem mortes, querem comparar quem morre pior do que outro, e chegam a ensaiar um “bem feito, quem mandou cuidar de direitos humanos”. Essa gente mata sem puxar gatilho; mata com o veneno que destilam, com a ignorância que exibem, com o atraso que causam.

Que tiros foram esses? São iguais aos tantos que matam os policiais, as crianças, os pais e mães de família? Não, esses foram ainda piores de alguma forma: vieram com endereço certo. Mais perigosos, mais elaborados, combinados em cima de uma clara simbologia.

Mataram, e pela culatra, esses tiros também os matará. Criaram um símbolo imortal de luta, uma movimentação nova, doída, onde as mulheres brancas e negras, lésbicas ou não, mães ou não, também se mostrarão mais corajosas e combativas. Nas ruas. Cobrando o resultado da investigação. Queremos ver a cara de quem apertou esse gatilho. Queremos olhar bem a cara de seus cúmplices. Poderemos guerrear contra a maldade que nos cerca e aproveita uma ocasião como essa para sair de seu buraco profundo.

Esse e outros assassinatos do mesmo dia marcaram com sangue o calendário: um mês da intervenção militar na segurança do Rio de Janeiro; quatro anos da Operação Lava Jato, que só levanta as pontas desse tapete que nos derruba diariamente.

O tiro que queremos ver no coração da corrupção, origem de muitos desses males, continua guardado, sabe-se lá onde, sabe-se lá com quem.

Marli Gonçalves, jornalistaMarielle, com as letras de seu nome posso escrever o meu. Escrevo.

marli@brickmann.com.br / marligo@uol.com.br

Brasil, ferido.

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Imagem: Foto/Ilustração de Marielle - Catraca Livre

Turma pioneira do Nós, Mulheres saúda a chegada do coletivo Nós, Mulheres da Periferia! Avante, meninas!

FONTE:

http://outraspalavras.net/blog/2014/05/26/mulheres-da-periferia-por-elas-mesmas

Mulheres da Periferia, por elas mesmas

140526_nós mulheres da periferiaSurge coletivo disposto a expressar o que é ser mulher nas bordas das metrópoles — longe dos preconceitos da mídia e produzindo jornalismo crítico e de profundidade

Por Andressa Pellanda

“Somos a irmã que cuida dos irmãos mais novos até a mãe voltar do serviço e que lava a louça do almoço enquanto o irmão vai jogar bola. Somos aquelas que amam os filhos das patroas. Somos as ‘mãezinhas’ que gritam nos corredores das maternidades. Somos quem chora quando nossos filhos são mortos por serem suspeitos. Somos mães de abril, maio, de junho, setembro. Somos as mães que trabalham para as filhas estudarem. Somos as filhas que se formam na universidade para as mães voltarem para a escola.

“Somos aquela que, depois de oito horas de trabalho e quatro horas no transporte público, ainda passa a roupa e nina o bebê. Somos quem vai no posto atrás de remédio e pra agendar consulta pra daqui a cinco meses. Somos quem cria abaixo-assinados para pedir creches. Somos quem denuncia que a vizinha apanha do marido. Somos operárias, empreendedoras, manicures, jornalistas, costureiras, motoristas, advogadas. Somos esposas, mães, irmãs, primas, tias, comadres, vizinhas. Somos maioria. Somos minoria. Pobres, pretas, brancas, periféricas. Migrante, nordestina, baianinha, quilombola, indígena.”

PEACEElas são as milhões de mulheres que moram nas periferias deste país. São o coletivo “Nós, Mulheres da Periferia”, que desde dia 8 de março de 2014, Dia Internacional da Mulher, vem tentando expressar, nas redes sociais, o que é ser uma mulher nas bordas das metrópoles. Enquanto preparam o lançamento do site que pretende inaugurar o jornalismo voltado às mulheres da periferia, Bianca Pedrina, Jéssica Moreira, Semayat Oliveira, Aline Kátia, Priscila Gomes, Mayara Penina, Lívia Lima, Cíntia Gomes e Regiany Silva já militam por essa causa, que é tão delas, mas também de milhões de mulheres brasileiras.

Em 2013, 56 milhões de brasileiros, 29% da população, viviam nas periferias urbanas, de acordo com levantamento da consultoria Serasa Experian. A proposta do coletivo é dar visibilidade e voz às milhões de mulheres que integram esse contingente em tantos aspectos marginalizado, inclusive pela maneira como são representadas na mídia.

Elas mesmas contam a que vieram, em entrevista a Outras Palavras.

Quais são os desafios de ser uma mulher da periferia, em São Paulo?

Em uma sociedade machista, ser mulher já é um grande desafio. Ser mulher e ser da periferia torna essa missão pelo menos duas vezes mais difícil. Além de tudo que a mulher, de forma geral, já precisa enfrentar para alcançar seu espaço no meio social, nós, mulheres da periferia, enfrentamos os desafios presentes na vida de qualquer pessoa que viva na periferia de uma grande metrópole como São Paulo. Assim, entendemos que homens e mulheres sofrem com a falta de serviços públicos, como saúde, moradia e educação. Porém, a mulher, de forma específica, sofre mais que o homem, uma vez que na maioria das vezes é ela a chefe do lar. Sofre mais que o homem nos longos percursos de ônibus ou metrô, pois além do aperto, sofre abuso sexual. Sofre mais que o homem na questão da educação, uma vez que ela é quem cuida da vida escolar do filho. Sofre mais também na questão da saúde pública, pois precisa utilizá-la para questões ginecológicas bem mais cedo que o sexo masculino. Sofre mais, pois é ela que visita o marido quando vai preso. Sofre mais quando o filho morre ou entra para o tráfico de drogas. Sofre mais ao subir a rua escura, já que seu maior medo não é o assalto, mas o estupro.

Por estarmos mais longe dos bairros centrais, muitos serviços nos são negados. É impossível trabalhar por perto. Estudar por perto. Não há empregos nesses lugares, por isso percorremos longas distâncias, da Zona Norte à Zona Sul da cidade. Não há um número grande de faculdades nas regiões periféricas, o que nos obriga a sair cedo de casa e voltar depois da meia-noite. Não há opções de lazer também. E sair de casa para se divertir significa voltar no primeiro ônibus do outro dia.

Ser mulher nas periferias de São Paulo é conviver com as diferenças geográficas impostas por um sistema que afasta o pobre cada vez para mais longe, enquanto a especulação imobiliária encarece tudo, até mesmo em nossos bairros.soccer 2

Como vê o espaço que a mulher da periferia ocupa na sociedade? E como ela é retratada?

A mulher da periferia é retratada de forma genérica, estereotipada. Ela é, infelizmente, estigmatizada apenas por ser da periferia. Por sua localização geográfica, acreditam que ela se expressa, fala e se veste apenas de uma forma. A periferia é composta por pessoas muito diversas e, pelas dificuldades todas que passam, muito criativas. Porém, os meios de comunicação de massa ou grande mídia, como dizemos, traz em seus anúncios, novelas e comerciais um único tipo de mulher da periferia, sempre é a empregada doméstica ou a periguete. Somos empregadas domésticas, sim, somos também periguetes, mas somos várias outras também. Somos a mãe, a tia, a irmã, a mulher guerreira desde o nascimento.

20131216_231039Antigamente, a mulher da periferia não tinha acesso à faculdade, não trabalhava além do serviço que já realiza diariamente em sua casa. Essa realidade, no entanto, vem mudando em todas as classes sociais. A mulher vem abrindo espaço no mundo do trabalho, com cargos até melhores que os dos homens. Mas ainda ganha menos que eles. Isso é um desafio a ser enfrentado. Com a mulher da periferia, não é diferente. Ela também vem ocupando espaço, mas sempre tendo de provar que é capaz, mesmo vindo de um lugar distante. É preciso explicar que a questão da moradia longínqua vem acompanhada de preconceitos. “Se mora na periferia, não teve estudo qualificado. Se é da periferia, vai chegar atrasada. Se é da periferia, não sabe falar direito” são afirmações que podemos ouvir por aí.

0003O que é o “Nós, Mulheres da Periferia”? Como e por que surgiu a ideia de criar esse projeto?

O coletivo é formado por oito jornalistas e uma designer, todas moradoras de bairros da periferia do município de São Paulo. No dia 7 de março de 2012, quatro das nove mulheres jornalistas que integram o coletivo publicaram o artigo “Nós, Mulheres da Periferia” na seção “Tendências/Debates” do jornal Folha de S. Paulo, atentando para a invisibilidade e os direitos não atendidos das mulheres que moram em bairros periféricos de metrópoles. O texto obteve grande repercussão, sendo replicado em outros veículos de mídia, como na Rádio CBN. O artigo encontrou eco entre nossas iguais, outras jovens ou não tão jovens, mulheres moradoras da periferia de São Paulo que finalmente tinham se sentido representadas, lembradas e retratadas. Foi lido e registrado em vídeo no Sarau do Itaim Paulista, na Zona Leste da capital.

Para escrever, as autoras se basearam principalmente em sua visão e experiências cotidianas. Mas perceberam naquele momento que o vazio de representatividade não era sentido apenas por elas. Iniciou-se então um processo de pesquisa e consolidação do coletivo, que tem como objetivo principal dar visibilidade aos direitos não atendidos das mulheres, problematizar os preconceitos e estereótipos limitadores, que se cruzam com as questões de classe social, etnia e raça, muito presentes em razão de serem moradoras das bordas da cidade.women mudando de roupa

A primeira ação concreta do coletivo foi o lançamento de uma página no Facebook, no 8 de março de 2014. Na mesma data publicou o artigo “Nós, Moradoras da Periferia”, na seção “Tendências/Debates” da Folha de S. Paulo, jogando luz na questão do direito à moradia das mulheres de baixa renda.

Com mais de 2.500 curtidas em menos de dois meses, a página recebe conteúdo inédito diariamente e um post sobre a violação de direitos chegou a alcançar 597 compartilhamentos. Nos comentários da página é possível perceber que um grande número de mulheres da periferia se identificam e se reconhecem em nossas produções. Desde a criação até agora, temos uma média de 119 curtidas, 14 comentários e 23 compartilhamentos por dia.

Nesta quarta-feira, 28 de maio, será o lançamento oficial do site, um canal de comunicação e encontro com a missão de fomentar o protagonismo das moradoras de regiões afastadas do centro paulistano. A primeira grande reportagem trará a luta das mulheres pela casa própria e moradia digna.

mz_08_10035659100Quem são as pessoas que formam o coletivo? Quais suas relações com a comunidade?

São nove mulheres que nasceram, cresceram e ainda moram nas periferias de Norte a Sul da cidade. Todas são jornalistas comunitárias do Blog Mural e, por isso, já têm uma relação diferente ao olhar para o território periférico. Com a experiência adquirida no Mural, de contar aquilo de que a grande mídia não fala, é que vamos basear nosso trabalho, tentando fugir do senso comum.

Quais as principais diferenças entre o “Nós, Mulheres” e os veículos já existentes? Como o projeto pretende dialogar com a comunidade – e ajudar, talvez, a transformá-la?

Hoje em dia, não há nenhum veículo da grande mídia voltado apenas para a mulher. Mesmo entre os alternativos, não encontramos esse viés. E, naqueles da periferia, encontramos alguns assuntos, mas nenhum com foco na mulher. Além disso, um dos principais diferenciais de nosso projeto é que fazemos parte do universo que iremos retratar, pois todas moramos em bairros periféricos de São Paulo. Assim, observador e observado se fundem, marcando as nossas matérias com a sensibilidade de quem vive aquilo que escreve. O jornalismo é a ferramenta que escolhemos para dar voz às mulheres que nunca são ouvidas pela mídia e, quando são, é de forma sensacionalista ou sexista. Além disso, temos como objetivo pautar a grande imprensa, servindo de ponte entre a mídia e as mulheres não ouvidas da periferia.women35

O coletivo “Nós, Mulheres da Periferia” pretende contribuir para o empoderamento das mulheres moradoras da periferia de São Paulo, promovendo espaços de reflexão, debate, informação, troca de conhecimento, experiências e visibilidade sobre seus protagonismos, histórias e dilemas.

 

Bela história. É isso aí. tem que gritar, para não morrer. Cheg de violência contra as mulheres. Seja classe A, B,C,ou Z. Matéria da Revista Marie Claire

 
TROUXE PARA CÁ, PORQUE É IMPORTANTE QUE O MAIOR NÚMERO DE MULHERES POSSÍVEL VEJA ESSE EXEMPLO!
 
 
Reportagem / sociedade 13/06/2012

“Eu denunciei meu marido por violência”, diz Patrícia Bueno Netto, filha do dono de uma das maiores construtoras de SP

Patrícia Bueno Netto é uma mulher de coragem. Filha do dono de uma das maiores construtoras de São Paulo, ela entregou à Justiça o agressor com quem se casou. Como Patrícia, nos últimos dois anos, mais mulheres de classe alta têm lançado mão da lei Maria da Penha. As histórias delas, contadas à Marie Claire, servem de alerta em um país onde, a cada duas horas, uma brasileira é assassinada

Por Mariana Sanches. Foto Ana Ottoni

  Ana Ottoni

 

Na delegacia do Morumbi, Patrícia Bueno Netto esperava para registrar um Boletim de Ocorrência em que acusava seu marido de amea­çá-la de morte. Terceira filha do dono de uma das maiores construtoras de São Paulo, era casada com um empresário do ramo da internet. Ali, na polícia, ela começava o longo caminho para entregar à Justiça o homem que, na aparência, era o marido perfeito — mas, na realidade, infligia a ela sérios danos físicos, psicológicos e sociais. Diante de Patrícia, o escrivão não titubeou. Apontou para a pilha de inquéritos esquecidos sobre o escaninho. “Está vendo isso aqui? Isso sim é problema. Rico não tem problema”, disse. O desavisado escrivão não sabia que estava diante de uma mulher corajosa. Ela, que acabara de se separar do marido, insistiu. Naquele momento, há cinco anos, a lei Maria da Penha era apenas uma recém-nascida frágil. E Patrícia, uma raridade.

Hoje, ela é uma das precursoras de uma tendência. Cresce o número de mulheres das classes A e B que denunciam os maridos agressores. Antes, por medo de que a exposição manchasse sua imagem, prejudicasse seu círculo social e seus negócios, e as estigmatizasse, elas eram as mais resistentes em procurar a Justiça. Buscavam ajuda particular ou sofriam caladas até que a situação se encerrasse, tragicamente ou não. Embora não haja estatísticas que dissequem o fenômeno, essa rea­lidade mudou. “Quando a lei surgiu, o perfil de quem denunciava era de classe baixa. O status da classe alta pesava contra a denúncia. Havia o mito de que violência doméstica só acontecia na favela”, diz a juí­za Ane Cristine Santos, do Rio de Janeiro. Em Curitiba, capital do terceiro estado brasileiro com mais feminicídios (os primeiros são Espírito Santo e Alagoas), a juíza Luciane Bortoleto descreve o mesmo cenário: “Nos últimos dois anos, mulheres de classe alta passaram a nos procurar muito. Esperávamos por isso desde que a lei foi criada. Há violência doméstica em todas as classes sociais. Mesmo em países desenvolvidos, como Canadá e Estados Unidos, os índices de violência doméstica são semelhantes aos nossos”. As histórias dessas mulheres, contadas à Marie Claire, servem como alerta em um país onde, a cada duas horas, uma brasileira é assassinada pelo companheiro.

Toda sociedade possui uma estrutura sexual de organização. Apesar das variações geográficas e econômicas, é quase certo que, dependendo do seu sexo, um bebê já tenha seu destino traçado desde o nascimento: se for homem, será dominante, se for mulher, dominada. Esses papéis são atribuídos culturalmente, aprendidos desde o berço e repetidos à exaustão ao longo da vida, abertamente ou de maneira subliminar. De tanto ser reproduzida, a mensagem é introjetada, e homens e mulheres passam a tratar a divisão sexual­ como “natural”, “parte da ordem das coisas”. É dessa maneira que, segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu, a dominação masculina se estabelece. Bourdieu descreve­ a marcha silenciosa de costumes, hábitos e crenças que mantêm homens e mulheres em posição assimétrica. A face mais cruel da ­engrenagem de dominação é a violência do marido contra a mulher. Há milênios, ela produz ­ vítimas. Mas só há seis anos, com a aprovação da lei Maria da Penha, passou a ser tratada como um crime específico no Brasil. Desde então, as denúncias se multiplicam. Um balanço recém-divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostra que entre 2010 e 2011 houve um aumento de 106,7% no número de procedimentos instaurados para apurar violência doméstica. No mesmo período, mais de quatro mil prisões preventivas foram decretadas contra homens agressores.

A agressão praticada nas classes mais altas inclui todos os requintes cruéis da violência doméstica, mas se expressa, particularmente, na ameaça e na tortura psicológica contra a mulher. “É comum que não haja agressão física, apenas mental”, afirma a socióloga Wânia Pasinato, da Universidade de São Paulo. Embora seja invisível, a violência mental pode ser tão destrutiva quanto a física.

“A classe alta evitavadenunciar. Havia o mito de que violência doméstica só existia dentro das favelas” Ane Santos, juíza

Patrícia é vítima desse tipo de violência. No sexto aniversário da lei Maria da Penha, ela ainda sofre. Parecia uma fera enjaulada ao andar de um lado para o outro da sala de sua casa durante a entrevista. As mãos queriam dizer mais do que a boca. Em menos de três horas, pontuou com doze cigarros sua narrativa. Aos 31 anos, a loira altiva tem olhos tristes e desconfiados. Nasceu com conforto e só conheceu a maldade na fase adulta. Cursou publicidade em uma das melhores (e mais caras) faculdades do Brasil — a Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) —, ­ganhou carro, apartamento, viajou o quanto quis para o exterior. E teve uma festa de casamento dos sonhos, para mil convidados­, depois de um ano e meio de namoro. O noivo lhe foi apresentado por amigos em comum. Quando o casal completou um ano de relacionamento, ele fez uma surpresa: mandou entregar, a cada meia hora, um buquê de rosas vermelhas à futura mulher. Cada buquê trazia uma letra em ouro: C… A … S… Até formar a frase: “Casa comigo?”. “Era perfeito demais para ser verdade, mas não desconfiei”, relata Patrícia.

   Divulgação

 

O casamento durou três anos. A convivência revelou uma farsa romântica. Primeiro, o marido exigiu que ela interrompesse as sessões de psicanálise. Parecia sentir ciúmes do terapeuta. Aos poucos, a forçou também a se afastar dos amigos. “Ele sempre criava defeito para as pessoas, dizia que eram interesseiras, estranhas, e pedia para eu me distanciar­”, afirma. Depois veio a influência na relação com os parentes. “Minha família é daquelas que almoça aos domingos, janta junto durante a semana. Ele começou a minar essa relação. Chegou a dizer até que minha mãe não gostava de mim. Eu me sentia um lixo­.” Patrícia se casou no mesmo mês em que se formou na faculdade, mas o marido preferia que ela não trabalhasse. Passou a depender de mesada. “O dinheiro que ele me dava era inversamente proporcional ao meu peso. Quanto mais magra eu ficasse, mais dinheiro ele me daria”, conta. “Ele me via como um troféu que exibia. O peso se tornou uma neurose para mim.” Quando se separou, ela, que sempre teve peso considerado adequado, estava dez quilos abaixo do normal.

Às vésperas de completar três anos de casamento, o marido resolveu­ morar na Itália — queria controlar­ os negócios de lá e tirar o passaporte italiano. Patrícia foi contra — não queria ficar tão distante da família — mas não teve direito à voz. Na pequena Mantova, a quase 400 km de Roma, ela passava os dias em casa­, sozinha. Suas tentativas de engravidar foram frustradas, já que o marido não podia ter filhos sem ajuda médica (ele confessou o problemas apenas depois da separação) e tampouco aceitava aderir a tratamentos de fertilização. “Minha vida tinha que ser só voltada para ele. Era uma agressão enorme­, mas todo mundo achava que eu estava muito bem casada.” Patrícia­ entrou em depressão­, emagreceu dez quilos em seis meses. Quando­ voltou ao Brasil para o casamento de uma de suas irmãs­, o pai percebeu que ela não estava bem. Procurou ajuda psicológica para a filha. Mesmo sendo católico fervoroso, concordou que o rompimento era inevitável. Patrícia não voltou mais para a Itália.

“Ele disse ter armas de alcance maior do que 50 metros e que seria fácil me atingir. Blindamos todos os carros” Patrícia Bueno Netto, 31 anos

Foi aí que seus problemas aumentaram. As ameaças começaram por celular e e-mail. O marido, que também voltara para o Brasil, prometia difamá-la. Dizia que se não voltassem a ficar juntos, ela não teria paz. Chegou a procurar o psiquiatra de Patrícia para forçá-lo a convencer a paciente a manter o casamento. Diante da resistência dela, todas as amea­ças foram cumpridas. O ex-marido enviou um dossiê falso para vários dos convidados do casamento. No texto, chamava Patrícia de vagabunda, entre outros palavrões, e acusava a família dela de corrupção nos negócios. Ele ainda levou ao Conselho Federal de Medicina uma denúncia contra o psiquiatra, em que o acusava de assédio sexual contra Patrícia. Ela teve de defendê-lo. “É muito comum os homens ficarem ainda mais agressivos depois de as mulheres pedirem o divórcio”, afirma a desembargadora Angélica de Almeida, de São Paulo. “Eles não admitem perder o controle sobre alguém com quem mantêm uma relação de posse. Um réu já chegou a dizer em audiência que ‘as mulheres ficaram topetudas depois dessa Maria da Penha’.”