ARTIGO – Barata voa, zaralho. Por Marli Gonçalves

 

Animated%20Gif%20Children%20(19)Somos parte de joguinhos infantis, mas não entramos no playground porque estão cobrando muito caro e a gente está duro. Assistimos. Vemos as águas rolarem ou secarem, um querendo dar estilingada no outro, dando rasteira, pondo o pé pro outro cair, um dando o dedo mindinho pro outro naquele sinal de descruzar, rompendo amizade e virando a cara. Até ficaríamos nos divertindo com os patetas, mas somos atingidos pelas molecagens deles. A bola que toda hora chutam – e como chutam! – vai bater justamente nas nossas cabeças. Barata voa, zaralho.

Esse é o nosso cotidiano. Todo dia ela faz tudo sempre igual. Fica irritada, bate o pé. Se resolve falar, o que emite são frases entrecortadas e sem sentido, nunca um mínimo de direção. Faz uma cara que tenta ser de boa, “a calma”, “a democrática”, mas é indisfarçável aquele ódio todo fervendo por dentro. Ela odeia a gente. Diz que é vítima da sociedade cruel, incompreensiva.

children_sledA premissa que uma equipe deva ser e funcionar como uma orquestra decididamente não se aplica à política executada pela nossa presidente maestrina (aqui tem feminino específico como a senhora gosta) e seus tocadores de bumbo para louco bater, que dia após dia perdem mais um naco de suas capacidades e argumentações para defender o que nem mais eles sabem o quê. Não tem conjunto essa obra. Nem do ponto de vista social nem econômico, nem ético, nem de cidadania, muito menos de pessoalidade, afeição, consideração. Entendem? Parecem crianças de famílias diferentes jogadas no playground de uma creche para ficar juntas, obrigadas senão levam palmadas, realmente se divertindo só com joguinhos banais, sob o comando de uma bedel rabugenta. Passa-anel, telefone sem fio, batata quente, jogo da velha… Essas pestinhas ficam grudando chiclete no cabelo. Riscando parede e leis. Pondo prego na cadeira. Brincando de pique-pique e esconde-esconde.

Como poderiam se dar bem, pensar juntos, se mal se conhecem, quase nenhuma afinidade têm, a não ser alguma utopia de governo popular de uns e o adesismo descarado de outros? Como poderiam conviver bem, se todos querem beber o sangue dos pescoços, além do nosso, aqui do lado de fora? Criancinhas se borrando todas, como o próprio presidente do partido oficial declarou sobre o governo ser e estar o que há dentro de fraldas sujas.

Todo dia a gente de manhã abre a cortina e encontra ou é informado de uma novidade pior e mais cabeluda que a outra. Cineminha, com fotografias, vídeos reveladores, gravações, enredos elaborados, participação de atores mais do que especiais e suas famílias. Repare só quantas famílias estão embrulhadas nesses casos recentes. Pai e filho. Marido e Mulher. Filhas. Genros. Padrasto ou madrasta ainda não vi. Laranjas, limões e limonadas no café. Com bolachas. E leite mamado de alguma vaca disposta por grana, e nada de grama.

Esse é membro do governo

Barata-voa. Barata voa sim. Esse é o clima. Mas quem está gritando de nojo delas somos nós. Andei achando por aí um dicionário especial de gírias que define bem o sentido de barata-voa. Só que me apavorei porque ele é da linguagem militar. Para eles, barata-voa que dizer ação desordenada e desorganizada, bagunça, agitação, ou um zaralho, a palavra que parece a mais expressiva que encontrei, sonora e visualmente, que parece xingamento e não é, para o resumo do momento atual. Zaralho. Que é o mesmo que farândula. Que no fim também é Zorra Total.

Virou uma comédia. Mas nós não podemos mais rir. Muito menos de boca aberta para barata entrar. Ou cobras e lagartos saírem quando resolvermos abrir a boca para reagir de verdade.Adam-Eve-Snake-64548

São Paulo, chocando ovos de serpente, 2015coelho

Marli Gonçalves é jornalista – – Nessa semana vão falar da desgraçada gloriosa, vão brincar de bate-parede na vênus platinada, vão tentar se explicar. Também tentarão nos dissipar. Mas precisamos ser como nuvens, não de gafanhotos, mas de vagalumes, todos com lanternas acesas para iluminar a noite e um novo caminho.

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ARTIGO – Vagalume. No vidro. Por Marli Gonçalves

firefly_Sensações, o que escrevemos são sempre sensações, portanto, muito pessoais. Numa insana tentativa de transmitir como vemos as coisas, ou como estamos nos sentindo, lançamos mão, ao escrever, de imagens que possam melhor ilustrar os pensamentos. Pois a dessa semana é essa, a de um vagalume preso no vidro transparente daqueles de palmito em conserva, piscando já bem pouquinho

Eles andam bem sumidos de minha vida e se você tem a honra de vê-los aí onde vive, saiba que o invejo. Estou na cidade grande, aquela que tem vantagens mas também muitos prejuízos e por aqui esses pequenos piscantes não aparecem – aliás, por causa delas, das cidades e sua iluminação abundante, esses bichinhos podem até ser extintos, uma vez que não conseguem nem se mostrar, nem se reproduzir piscando uns para os outros, com suas bundinhas falantes, num código muito próprio. Entre as coisas mais lindas do mundo, da natureza, listo ver os vagalumes, sempre em bando, nas primeiras horas da noite, piscando aqui e ali, iluminando segredos e se ocultando nas árvores. Momento mágico.

Mas foi a imagem de um deles, preso em um vidro como fazíamos quando crianças, que me veio à cabeça para descrever o meu momento. O que é pior: o seu também, quando olhamos a situação política, as notícias, os desavergonhados tapas na cara que levamos diariamente e que nos trazem de volta desânimo, descrença em mudanças. Em junho, piscávamos feericamente; em setembro, nossas piscadas estão fraquinhas, quase já não são mais visíveis.4800475_e0e3981dcb_m

Sou vagalume, então. Uma “pirilampa”, porque os vagalumes têm muitos nomes pelos quais são conhecidos nesse mundão de Deus – caga-lumes, caga-fogos, cudelumes, luzecus, luze-luzes, lampírides, lampírios, lampiros, lumeeiras, lumeeiros, moscas-de-fogo, noctiluzes, piríforas, salta-martins, uauás – alguns. Aí também parecem com a gente: somos humanos, alguns cidadãos, mas também podemos ser chamados de otários, cara-de-burro, conformados, de um lado; de outro, de enganados, subestimados. Mas há também os manipulados, acovardados, traidores, aparelhados ou os da espécie maria-vai-com-as-outras, maria-vai-com-quem-paga, bons nomes tanto para flor quanto para um inseto. Como as maria-sem-vergonha, esses últimos tipos vêm se multiplicando de forma assustadora nesse esquisito país em que o Brasil está se transformando.

________coltisorderai_blogspot_ro______fireflyDe dentro do pote acompanho o que se passa, e na minha fantasia tenho um narizinho que encosto no vidro, desconsolada. Primeiro porque não dá para sair. Depois, pelo que vejo: as pessoas desanimadas voltando para seus cantos com seus cartazes amassados, melhor, voltando para vácuos, já que estão sendo renegadas – e com razão – todas as formas de política, só que sem que nada esteja sendo posto no lugar, sem quadros ou lideranças expressivas. Muita falação, pouca ação. Muita resignação, e aí justamente reside um enorme perigo. A passividade das medidas despencadas nas nossas cabeças, fatos entregues prontos como tortas assadas.

Ainda vagalume, tento fazer como nos filmes animados, jogar o corpo em todas as direções, me debatendo, dentro do vidro, para fazê-lo tremer e, quem sabe, ao cair da mesa e despedaçar-se, eu consiga novamente voar e piscar minha luzinha verde e amarela. Fiquei bem impressionada em saber que os vagalumes brasileiros, mais comuns, piscam nessa frequência colorida, a de nossa bandeira. Somos lampirídeos: nossos vagalumes piscam em verde e amarelo. Olha só: os elaterídeos, não sei por que chamados salta-martins, têm luzes que vão do verde ao laranja. E ainda tem os fengodídeos, conhecidos como trenzinhos, com luzes como as dos faróis de trânsito, verde, vermelha, amarela. Esses últimos devem ser mais conhecidos dos tucanos. Piuí!vaga

Para as estrelas, símbolo do time que nos governa nesse momento, e que gostam de fazer uns arranjos mais para remendos que soluções, no entanto, seria maravilhoso se todos nós pudéssemos nos transformar em vagalumes, gerando energia com nossas lanternas. Mas só para ajudar a que o país não pare tão tristemente como acontece nos radicais momentos de apagão como o que ocorreu agora, causada por uns gravetos malvados que queimaram por aí, segundo as afobadas autoridades com suas enormes bocas de comer chapeuzinho. Só para isso eles gostariam, esses predadores.

Porque se tivéssemos mesmo umas lanternas que pudessem iluminar todos os desfeitos antes que produzissem efeitos, seríamos mais que lindos. Seríamos imprensa. Seríamos lidos e levados mais a sério com os nossos alertas.

São Paulo, 2013

Marli Gonçalves é jornalista Vive piscando por aí. Tentando iluminar algumas saídas. Mas de vez em quando cai na armadilha, e fica presa dentro do vidro sem nem poder reagir, sem asas, como uma boa vagalume fêmea.

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