ARTIGO – Ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí. Por Marli Gonçalves

graphics-cows-362738Vou acabar entrando também nessa onda, uma vez que virou a festa do lupanar sem dar. A modinha do momento. Uma desculpinha. Tomaram, e muito. Beberam até cair, inclusive vinhos de alguns milhares de reais. Agora, ao invés de devolverem, não! Fazem vaquinha com nome bonito para esquentar dinheiro. Mais: tucanaram a vaquinha. Tucanaram a pobre da vaquinha. É mesmo, qualquer coisa que cai na mão dessa gente ganha novos ares, e nem sempre eles são respiráveisgraphics-cows-624514

Assim, aproveitando a proximidade das festas carnavalescas, da alegria desmedida e bêbada onde nada tem dono, venho por meio desta verificar se é possível eu também obter alguma ajuda. Sim, ajuda, financeira, bufunfa, dinheirinho, colaboração, troco. Justificativas: ando precisando comprar umas coisinhas, me comportei e me comporto bem, não sou Papuda. Como observei a facilidade para a obtenção de quase um milhão de reais para o genuíno dilúvio, penso que o que eu preciso pode ser mais simples. Prometo prestar contas. E como a vaquinha, a nossa, tradicional, aquela que a gente junta uns dinheirinhos amassadinhos de uns e de outros para comprar um negocio qualquer, ganhou melhor status e nome – crowdfunding, acho chique. Pensei em aderir. Mas não posso dar. Então, estendo minha mãozinha.

graphics-cows-824453Primeiro preciso contar para o que preciso da vil moeda: meu computador de casa arreganhou-se. Começo a escrever uma coisa e em segundos há outra coisa escrita na tela, ininteligível, já que as letras pululam mais desordenadas do que a rapaziada fugindo das balas de borracha e sprays em dias de manifestação. Uma letra não encontra a outra, ou uma empurra e acaba criando palavras dignas de ser ditas em línguas eslavas, daquelas que seria preciso jogar de um avião um carregamento de vogais para significar alguma coisa. Preciso comprar um computador novo, bom. Não, notebooks nunca mais, que esse já é o quarto ou quinto que vai pro brejo junto com a vaca, pastando. Quero um firme, sólido, de mesa, potente…Tá, tá bom, já que é desejo, sim, eu quero um IMac de última geração. Até porque como agora não tenho mais espaço para nada ele é o mais compacto, e vem com aquela tela linda, enorme, onde adoraria ver o que escrevo para você, querido leitor.graphics-cows-170079

Bem, talvez agora eu até já esteja mesmo bajulando você, mas saiba que tudo é pela minha vaquinha. Todo mundo não faz cara de bom, de inocente? Não teve ministro dizendo por aí que a gente é ingrato porque foi às ruas se manifestar quando eles são tão bons para nós?

Pois, então, eles são tão bons que estamos falindo. Não posso comprar o tal computador – um instrumento de trabalho importantíssimo – não é por nada. Mas é que tenho muitas contas e impostos e taxas a pagar, mês a mês. E lendo o noticiário sobre a facilidade do dinheiro chegando nas mãos dos caras, sem querer notei que – puxa! – estou enganada! Alguém aí deve ter muito sobrando, porque se dão para os tais caras que estão puxando cadeia por corrupção, colaborariam para minha nobre causa. Também sou guerrilheira pela liberdade, patatipatatá, injustiçada pela sociedade.

Estava aqui pensando e escrevendo. Aliás, passo os dias fazendo isso, lendo, pensando, escrevendo. Nas horas vagas, além das lides domésticas, devendo; pensando em como pagar tanta coisa mês a mês, como imagino grande parte de meus pares nesta folia. Todo mundo que conheço está devendo, nem que seja alguma explicação.graphics-cows-247720

Já pensava nisso quando soube que internautas estavam organizando uma vaquinha – expressão que em menos de um mês virou é carne de vaca – para ajudar o dono de um fusca queimado na manifestação contra a Copa, em São Paulo. Aquele pobre coitado, na hora errada, no lugar errado, e que podia ter morrido queimado com toda a sua família, num mal explicado acidente com um colchão. Afinal, o carro pegou fogo porque passou no colchão queimando ou o colchão queimando tentou pegar carona no carro? Ou: o que fazia um colchão queimando em pleno centro da cidade? Participava da manifestação? Depois todo mundo vira anjinho. Não fui eu. Foi ele. A sequência de atos que culminou com o menino baleado por três policiais foi totalmente mal explicada. Dos dois lados, antes que venham me descer o cacete, que agora está assim. Você não pode mais ter opinião própria- tem de agir junto com a manada. Coincidência: de vacas. Não é meu caso. Meu curral sou eu quem faço.

graphics-cows-727164graphics-cows-190332Enfim, certa de que meu apelo surtirá efeito, prometo: assim que tiver meu computador novo continuarei a escrever, escrever, escrever. Respondo até aos emails de fim de semana, que agora está impossível de fazer, a não ser laconicamente.

Se você aí é meu leitor vai me ajudar, se puder. Se não, saiba, tudo bem também. Não tenho medo de trabalho, nem de por a mão na massa. Uma hora ou outra conseguirei comprar o que quero, além de pagar as contas do dia a dia.

Senão vou ter que ficar fazendo o quê? Brincando de vaca amarela. Lembra?

…”Vaca amarela pulou a janela /Fez cocô na panela/ Mexeu, mexeu, mexeu /Quem falar primeiro come todo o cocô dela /Um, dois, três, cala a boca japonês/Chinês, fecha os olhos de uma vez”…

graphics-cows-917621São Paulo, estranhamente tensa e quente.

Marli Gonçalves é jornalista Não sei se já contei, mas antes, quando podia viajar, adorava fotografar vacas. Sempre as achei muito expressivas. Só agora descobri que eram melhores que os porquinhos para dar dinheiro.

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E-mails:
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marligo@uol.com.br

INTERATIVIDADE É ISSO. PESSOAL DA MARCHA DA MACONHA FAZ “VAQUINHAWEB”

Liberada, Marcha da Maconha de SP busca dinheiro na internet

Grupo espera obter R$ 15 mil para fazer evento, marcado para 19 de maio.
Promotoria diz que não vai contestar ato; entidades criticam manifestação.

 
 FONTE: Rafael Sampaio Do G1 SP
 

Às 16h, teve início a Marcha da Maconha em direção ao Centro de São Paulo. Os manifestantes desceram pela Rua Augusta e depois pela Consolação. No meio do ato, caminharam de costas em protesto contra o Tribunal de Justiça de São Paulo, que proibiu a reali (Foto: G1/G1)Marcha da Maconha na Avenida Paulista, realizada
no ano passado (Foto: Arquivo/G1)

Marcada para 19 de maio, a Marcha da Maconha de São Paulo está sendo planejada com dois meses de antecedência. Os organizadores cadastraram o evento, que foi autorizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em um site de financiamento coletivo via internet. Eles esperam arrecadar R$ 15 mil para a realização do ato a favor da droga.

Os recursos podem ser doados por qualquer um, anonimamente ou com o nome divulgado no site de financiamento, o Catarse. Se a marcha obtiver R$ 20 mil até 1º de maio, a coordenação do evento vai promover um show com grupos pró-legalização, diz Gabriela Moncau, uma das organizadoras. “A ideia [do financiamento] é comprar materiais de uso fixo da marcha, como megafone, bandeiras e faixas, que podemos usar outras vezes.”

O evento é criticado por entidades como a Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead). O presidente, Joaquim Ferreira de Melo Neto, considera que a Marcha da Maconha abre “um precedente perigoso”.

“Daqui a pouco vamos ter marcha a favor da cocaína, marcha do crack, a favor de drogas sintéticas. A liberdade de expressão deve ser respeitada, mas é preciso cuidado para não atentar contra a saúde da maioria da população”, diz Melo Neto. A entidade é formada por médicos, enfermeiros, psicólogos e outros profissionais que trabalham com dependência química.

  • Bônus para quem apoia
    Há incentivos para quem apoia a Marcha da Maconha no Catarse – entre os bônus estão adesivos, que serão dados a quem doar R$ 30; menção especial no filme que será feito sobre a marcha, para quem doar R$ 80; e quem pagar R$ 200 recebe todos os bônus anteriores e um álbum de fotos da manifestação.

Para o estudante Diego Reeberg, um dos fundadores do Catarse, a Marcha da Maconha tem cunho político e serve para discutir um tema que é tabu no Brasil. Questionado sobre a razão para o site ter aceitado o evento entre seus projetos cadastrados – o público do Catarse é em geral formado por artistas e músicos -, o universitário diz: “Talvez o grande motivo seja porque o Catarse acredita em uma sociedade mais livre, que tem a liberdade de expressão como um dos seus pilares”.

Reeberg afirma que o Catarse não possui uma política padrão de restrição – todos os projetos passam por uma avaliação prévia da equipe do site, incluindo o da Marcha da Maconha. “O Catarse não é a favor nem contra [a marcha]. Acreditamos que seja um projeto importante pelo valor social que ele gera através da discussão que ele traz”, afirma.

Diretora-executiva da Associação Parceria Contra as Drogas, a psicóloga Marylin Tatton classifica a Marcha da Maconha de “oba-oba” e indaga se os participantes da manifestação sabem os efeitos maléficos da dependência química. “Essas pessoas não sabem o que é ser dependente. Nunca foram aos Narcóticos Anônimos, não conhecem a Cracolândia, não têm esse problema em casa”, afirma.

Manifestantes, desta vez, puderam exibir cartazes pedindo a descriminalização da droga, sem qualquer interferência por parte da polícia (Foto: G1/G1)Manifestantes com cartazes a favor da maconha, em
protesto de 2011 (Foto: Arquivo/G1)

Tanto Marylin quanto Melo Neto se dizem favoráveis à descriminalização da maconha – para eles, um problema de saúde pública, e não de polícia. “Mas a droga é uma porta de entrada para outras. A gente sabe que a maioria dos usuários de crack começou com maconha. É uma droga que prejudica a memória, o raciocínio”, afirma o presidente da Abead.

Sem medo
Organizadores da Marcha da Maconha dizem “não estar com medo” de proibição judicial ou confronto com a Polícia Militar neste ano, após uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), de novembro de 2011, reforçar a determinação de que manifestações pró-maconha não são crime no Brasil.

Na época, os ministros do STF decidiram, por unanimidade, que esse tipo de protesto não pode ser enquadrado na Lei de Tóxicos, que considera crime induzir ou instigar alguém ao uso de drogas. O relator do caso, ministro Carlos Ayres Britto, entendeu que o direito à liberdade de expressão deve prevalecer. “Quem quer que seja pode se reunir para o que quer que seja, no plano dos direitos fundamentais, desde que o faça de forma pacífica”, disse, na época.

“A gente tem uma comissão jurídica, contatos com advogados para dar apoio. As Marchas [da Maconha] no passado foram importantes para pressionar o STF a julgar logo a questão”, diz Gabriela, referindo-se a problemas ocorridos nas marchas anteriores. O Ministério Público do Estado de São Paulo afirma que não vai processar os organizadores ou tentar proibir a marcha, já que o caso foi julgado pelo STF. Também não haverá ações judiciais contra os apoiadores no Catarse, de acordo com a Promotoria.

Gabriela diz que a Marcha da Maconha 2012 vai acontecer mesmo se não forem obtidos os R$ 15 mil. Manifestações a favor da droga estão previstas em 20 cidades, de acordo com o site da organização das marchas.

Em maio de 2011, policiais militares usaram bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar manifestantes pró-legalização da maconha, na Avenida Paulista. Dois PMs foram afastados após o confronto – ao menos sete manifestantes foram detidos e dez ficaram feridos