ARTIGO – Espiral do Tempo e os dois perdidos. Por Marli Gonçalves

 

Não é sobre Lula e Aécio, fica tranquilo. Tudo girava. A ampulheta, e a espiral hipnotizante que rodava com os dois coitados lá dentro, perdidos no tempo, andando pra trás e pra frente, anos, séculos, participando de grandes eventos, se metendo em enrascadas, viajando no passado e para o futuro como imaginavam que seria. Nenhum fio de cabelo fora do lugar. Sapato social, um de terno e gravata e o outro com uma indefectível blusa com gola rolê. Imaginem só eles aparecendo nesta nossa época – iam achar que tinham finalmente conseguido retornar aos anos 60, de onde saíram.

Eu adorava. Puxa, valeria a pena uma refilmagem hoje de O Túnel do Tempo, seriado que teve só 30 capítulos. Era tosco, mas muito caro para a época. Se 52 anos depois ainda não conseguimos nem chegar perto de inventar a tal máquina do tempo, muito menos de evoluir, melhor mantê-la na ficção. Parece mais divertido. Os dois cientistas, Tony e Doug, enviados através da máquina que chamava Tic-Toc, eram daqui observados por uma telinha, como se fosse uma tevezona. Daqui, do lado de cá, bem atrapalhados, tinha um general, uma cientista, a Dra. Ann, com cabelo de laquê e que vivia desmaiando nos episódios, mais uns assistentes malucos e um segurança com capacete de guarda. A sala, escondida em um deserto no Arizona, era lotada de equipamentos e mesas, com fitas que rodavam, como fitas de rolo em gravador, e que toda hora davam algum tilt.  De vez em quando a tal sala ficava vazia – acho que os caras iam tomar um lanche. Em geral era quando os dois perdidos mais precisavam da ajuda.

Imagino como seria uma viagem deles aos dias de hoje aqui no Brasil. Iam se sentir em casa com tanta gente falando em esquerda e direita, invasão comunista, repressão, racismo, liberdade, golpe militar, cantando o Hino Nacional. Iriam ficar chocados como os costumes encaretaram de vez. E ficariam totalmente à vontade com alguns objetos de decoração e até com as vestimentas modernas, a tal modernidade que vive entrando na Máquina do Tempo atrás de referências.

Ficariam, no entanto, perplexos quando baixassem na Sala da Justiça 2018 onde se reúnem os vetustos e as vetustas, ministros e ministras do Supremo Tribunal Federal. Iam pedir para sair correndo de lá, e a máquina poderia errar e derrubá-los em Curitiba, onde agora seriam confundidos com promotores, um deles pela aparência até com o próprio juiz Sergio Moro, ou apenas tidos como X-9 infiltrados se passassem pelo acampamento dos militantes pró-Lula liderados pela Narizinho Lula da Silva Gleisi Hoffmann e seus amigos.

Os cientistas se esconderiam atrás da porta para rir dessa “genial” ideia de acrescer Lula ao nome e tentariam entrar em contato com a base – primeiro para ser retirados daqui rapidamente logo que possível – bastante surpresos com os retrocessos que logo observariam – e para perguntar como de lá nos Anos 60 estavam analisando como que as mudanças não foram nada significativas nesse período. Utopias ideológicas, conflitos nas ruas, a tal esquerda infantil, militares dando pitacos na política, fora neca de saneamento básico, surtos de doenças tropicais, volta de outras tidas como erradicadas.

Sentir-se-iam bobos – e até um pouco frustrados – quando descobrissem que nesse meio tempo houve a criação da internet e das tais redes sociais. Uma espécie de túnel do tempo como previram e tanto desejaram criar, onde as pessoas ficam andando para frente e para trás, ou em círculos, perdidas, habitando estranhos mundos que imaginam viver na realidade, como guerreiros empunhando espadas que nada mais são do que pontas de dedo que digitam impropérios uns contra os outros, notícias falsas e verdades pela metade. Pontas de dedos que apontam inclusive para os amigos, e que justificam violências que poderiam ter sofrido anos atrás quando eram eles que estavam nas ruas trabalhando como jornalistas.

Nossos dois cientistas também ficariam abismados como nessa nossa época parece que nunca se entendeu tanto e se falou tanto de Direito e leis. Nunca se tentou tanto que as coisas fossem censuradas, se desrespeitou tanto a liberdade obtida a duras penas.

Como bons turistas, até que fossem resgatados pelos seus comandantes trapalhões lá do seu tempo, implorariam para ser transportados o mais rápido possível para um pulo no Rio de Janeiro, que nos Anos 60 já tanto ouviam falar como um lugar de beleza, samba, carnaval, praia, alegria.

Coitados.

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Marli Gonçalves, jornalista – “A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente”, bem pensou Albert Einstein.

marli@brickmann.com.br / marligo@uol.com.br

Brasil, 2018

 

XI de Agosto publica nota de repúdio à violência contra manifestação. Apoio de várias entidades e pessoas representativas

police21NOTA DE REPÚDIO À AÇÃO DA POLÍCIA MILITAR DE SÃO PAULO

São Paulo, 14 de janeiro de 2016 – O Centro Acadêmico XI de Agosto, entidade representativa das e dos estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), vem por meio desta, repudiar a ação truculenta e desumana da Polícia Militar do Estado de São Paulo na manifestação de 12 de janeiro de 2016 contra o aumento das passagens de ônibus e de metrô e por um transporte público de qualidade.

Na tarde da última terça-feira (12), estava programado o segundo grande ato contra o aumento das passagens, recentemente anunciado pelo governador Geraldo Alckmin e pelo prefeito Fernando Haddad. Os manifestantes, ainda em concentração, foram cercados por cordões da Polícia Militar e da Tropa de Choque. Além disso, as travessas da Avenida Paulista, que posteriormente precisariam ser usadas como rota de escape, também continham grupos de policiais estrategicamente posicionados.

O protesto ocorreu integralmente de forma pacífica. Tratava-se de centenas de pessoas reunidas por uma causa legítima, em pleno exercício de seus direitos. Essa prerrogativa, entretanto, foi tolhida dos manifestantes quando a polícia, sem qualquer provocação, começou a atirar bombas de gás lacrimogêneo na multidão repetidamente.

O posicionamento da Polícia Militar e da Tropa de Choque tinha intenção clara: acuar os manifestantes. Por conta da disposição policial, o ato não evoluiu de sua concentração. Em determinado momento, todos se sentaram e cantaram em uníssono contra a violência e o aumento da passagem.

Quando todos, em desespero, correram para escapar do gás que os impedia de enxergar e de respirar, a Tropa de Choque fechou o caminho para evitar que os manifestantes saíssem da contenção. A intenção deles não era meramente dispersar as pessoas que estavam ali. Era provocar pânico em cada uma delas; ia além de colocar em perigo a integridade física dos manifestantes. Era amedrontar todos os presentes e violar seus espíritos para que não mais voltassem a exercer seu direito de protestar.

O fluxo contínuo de bombas e a perseguição prosseguiram de forma inabalável. As pessoas perderam sua condição humana aos olhos daqueles que deveriam protegê-las. Piorando uma situação já inimaginavelmente ruim, o Secretário de Segurança Pública de São Paulo, Alexandre de Moraes, em declaração à imprensa, endossou as ações truculentas da polícia. Apesar de ostentar o cargo de professor da disciplina de Direitos Fundamentais da Faculdade, em que se estudam as liberdades civis previstas na Constituição Federal, o secretário personifica o descolamento das garantias fundamentais observadas diariamente na atuação da Polícia Militar sob seu comando.

A repressão violenta atingiu estudantes, manifestantes e até pessoas que estavam apenas de passagem pelas ruas. Uma diretora da gestão do Centro Acadêmico chegou a ser ferida por uma das bombas jogadas pela PM.

A Polícia Militar representa na atualidade um resquício da ditadura militar que ainda não foi superado. Suas táticas de guerra e sua ligação institucional com o Exército, passando por toda a forma como as tropas são instruídas a lidar com a população, têm como consequência o que se viu na terça-feira.

Enquanto a maneira como se articula a segurança pública não for repensada e enquanto a polícia for treinada para enxergar inimigos do Estado onde há cidadãos, essa truculência jamais acabará. Enquanto a polícia tratar a população como se estivesse em guerra, nunca deixaremos de nos sentir intimidados e inseguros e sempre sentiremos o gosto amargo da ditadura militar persistindo em invadir o espaço em que deveria imperar a liberdade.police13

SUBSCREVEM ESSA NOTA:

Centro Acadêmico XI de Agosto
Movimento Resgate Arcadas
Coletivo Pr’além das Arcadas
UEE – União Estadual dos Estudantes de São Paulo
ANEL – Assembleia Nacional de Estudantes Livre
JUNTOS!
RUA – Juventude Anticapitalista
CAVC – Centro Acadêmico Visconde de Cairu
Centro Acadêmico 22 de Agosto
Coletivo Contraponto
Centro Acadêmico Guimarães Rosa – GUIMA
Centro Acadêmico da Farmacia e Bioquímica da USP
Ninho das Águias – Casa do Estudante da São Francisco

Sérgio Salomão Shecaira – Professor Titular de Direito Penal na FDUSP
Ari Marcelo Solon – Professor Livre-docente de Filosofia do Direito na FDUSP
Jorge Luiz Souto Maior – Professor Livre-docente de Direito do Trabalho na FDUSP
Beatriz Rodrigues Gonzaga
Juliana Soares
Mariana Marques Rielli
Pedro Kazu Gabiatti
Rodrigo Muniz Diniz
Mauricio Antunes Domingos
Camila Pinheiro
Jessica Lima
Thales Monteiro
Marina Torres Zeitounlian
Pedro Schonberger
Guilherme Giacomini
Guilherme Alpendre
Lucas Barbosa Folster
Luigi Rizzon
Julia Martins Gomes
Débora Cunha
Caio Abreu
Guilherme Talerman
Giovanna Coltri
Paola Souza
Giovanna Tavolaro
Julia Krein
Natália Takaki
Vitória Oliveira
Fernanda Apolonio
Lara Teixeira
Gustavo Rodrigues
Thiago Pereira Caetano
Ingred Souza
Vinicius Alvarenga
Luisa Bono
Isabela Covolo Somaio
Felipe Reginato
Jade Luiza Pizzo
Isabella Scuotto
Mariana Magalhães
Mariana Kinjo
Dennys Camara
Henrique Contarelli Lamonica
Alexandre Cardoso de Sousa
Guilherme Della Gurdia Pires
Vinicíus Araújo
Matheus Chodin
Carla Ribeiro
Amanda Serafim
Bruna Marques
Gabriel Henrique Rodrigues
Elis Benedetti
Lívia Fabbro
Ana Gurgel
Bruno Andrade
Pedro Pinho
Carol Monte Alto
Gabriela Branco
Felipe Mansur
Guilherme Cardoso Santos
Dannylo Teixeira
Luana Lima Teixeira
Isabella Perin
Pedro Felipe Fermanian
Leonardo Trindade
Matheus Aggio
Thais Dantas
Matheus Peres
Vinicius Bianchini
Eloísa Gomes
Bruno Lescher
Marcelo Araujo
Caio Bianco Jasper
Gabriela Sujiki
Samara Santos
Marianna Rinaldi
Luri Mizoguchi
Leticia Camargo
Gabriel Prétola
Vinicius Duque
Richard Souza
Gabriel Egidio
Maria Luiza Assad
Juliana Fonteles
Juliana Duarte
Wilson Souto Maior Barroso
Henrique Cazerta
Carla Fernandes
Cecília Barreto
Natalia Ikeds
Mariana Guarino Ferrari
Juliana Chan
Sergio Tuthill Stanicia
Gabriela Martinazzo
Juliana Rocha
Leonardo Novetti
Igor Leonardo
Isabela Martins Gonçalves
Lucas Patudo
Ca Rusig
Ana Carolina Rodrigues
Marcela Faria
Amanda Iranaga
Mariana Brandão
Luiza Telles
Ana Luísa Martins
Gabriela Souto Maior Baccarin
Fernando Saleta Pacheco
Alexandre Brito
Carlos Herculano Cubillas

Érica Meireles

fonte: colaboração social da Agência Fiquem Sabendo de jornalismo de dados públicos.