ARTIGO – Sonhos pra que te quero. Por Marli Gonçalves

Do que são feitos, como os formamos, os alimentamos? Podemos ter o poder mágico de desejar tanto algo que aquilo se realiza? Sonho é motor da vida, o que lhe dá algum sentido. Sonhos também são termômetro de amor, e a base sobre a qual se pode construir as relações e tecer a realidade. Se não houver um sonho comum, por menor que seja, saia fora.

Fim de ano começa, não tem jeito, a cutucar a cabeça da gente aqui e ali instigando o famoso balanço, avaliações, cosquinhas nos fatos e decisões, checagem no nosso almoxarifado interno. Adoraríamos poder projetar minimamente lá na frente. Mas nem com toda essa modernidade, isso ainda não foi inventado.  O destino está sempre um ou dois passos adiante.

Aprendi de forma muito dura, pensando nessa nossa capacidade de sonhar, um detalhe. O de que uma relação amorosa não segue em frente se não houver um sonho, um plano, uma vontade onde ambos estarão incluídos. Nesse sonho de amor, não há egoísmo; não pode haver; é ganha-ganha. É sonho de valsa que se dança junto, rodopiando pela vida afora. Obtido, deve ser sempre seguido de outro, de outro. Talvez seja essa a tal chama do amor.

Toco no assunto porque é fim de ano quando todo mundo faz planos que não deixam de ser sonhos.

Mas também porque cheguei a me emocionar ao encontrar um amigo que há muito não via, mas que há anos acompanho em sua grande paixão pelo companheiro, a parceria que estabeleceram. Fiquei – e ficaria mais algumas horas – ouvindo-o falar dos planos, do sonho. Pega isso, vende isso, pega o dinheiro, divide, faz isso; uma parte para a família, irmãos, irmãs, para que eles consigam começar algo.

Constrói isso e isso, aluga por tanto, que vai render tanto.

Quando a conversa acabou, tal a objetividade e a lógica dos passos, dos cálculos, tal a vivacidade da descrição que já praticamente eu também via aquilo tudo realizado, e o que tenho certeza se concretizará em breve. Um terreno na praia, alguns chalés coloridos, quatro de cada lado de uma pequena capela ao centro, tudo bem bonitinho e simples, enfeitado por flores e plantas, um espaço para casamentos. Nada de pousada,  que isso aí dá é muito trabalho. A norma para quem alugar é devolver tudo exatamente como encontrou. Limpo. Pronto.  Uma boa horta, com alimentos para consumo próprio e que possam ser distribuídos para projetos sociais.

Estou falando de um casal jovem, menos de 40 anos, ambos bem estabelecidos. Querem antes de mais nada sair fora de São Paulo. Ali nesse espaço do sonho que construirão pretendem viver e morrer. Juntos, alegres, parceiros.

Com a crise nacional, essa névoa de tristeza pairando sobre os costumes e a liberdade,  mais e mais sei ou vejo deslocamentos, amigos arrumando malas, enxugando a vida, tentando se livrar das aporrinhações , vivendo novos sonhos, buscando qualidade de  vida.

Tudo surpreendentemente planejado, ironicamente para poder morrer em paz, e viver mais leve e feliz até esse dia inevitável.

Perseguimos sonhos, corremos atrás deles, nos esbodegamos por eles. Ele podem ser bem doces como o pãozinho recheado que leva seu nome e que quando bem feito é mesmo um sonho.

E podem ser bem amargos quando largados no caminho, quando viram pó, pisoteados pelo abandono. Mas não se pode esmorecer.

Importante é que eles sempre se renovam, ouvi dizer.  Os sonhos de que trato são aqueles tipos de sonhos para se viver acordado, bem acordado. Por que não?

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Marli Gonçalves, jornalistaAnda perguntando por aí, para se alimentar da esperança dos outros: Qual é o seu principal sonho?

 Brasil, noites de verão com esse misto de luzes e sonhos

 

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Um poema inédito de Capinam. Jóia rara, que trago para todos.

 

feito enquanto fazia uma viagem, há uma semana.  Ele mandou a um grande amigo em comum, precedido dessa mensagem:

…vamos viajar nos trilhos sem trens, para ver quem vem e vai em busca dos sertões que a gente arrancou dos corações…

 Estou levando dois passageiros de fé, que sentem saudades das estações onde passamos a olhar os brasileiros que buscavam vida, nas cidades que nem conheciam, mas onde estava a festa, trabalho e pão.

 Aqueles Viramundos, que vinham lá dos fundos dos brasils…..para eles, por eles, por nós….que caminhamos sem os trilhos da utopia….

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trem_sorrindoGENTE, CADÊ O TREM?

 Gente, cadê o trem que vai levar a gente

Em novas trilhas a sonhar brasis

Cadê trilho de futuro, cadê estrada de pasárgada,

Lagoas de coalhada, cadê São Saruê, cadê?

 

Ser tão pobre assim na beira mar e ser no sertão o nada ser

Ser tão forte antes de tudo e diante de tudo não poder

Quem da beira mar depois do vendaval não ter senão o corpo salgado

Quem menino Severino não teve ao fim do destino o couro estirado no varal

E tanto que procuraram pelos céus estrelados

A via férrea dos astros, o trem da Via Láctea

 

Brasil, meu Brasil brasileiro, de grotões, cerrados, baías…

Rio de janeiro e outros meses

O coração pandeiro bate a pergunta: cadê as ferrovias?

Cadê os trens do Brasil?

Cadê os trens que nos levem norte a sul onde mora a namorada

Cadê os trens, cadê os trilhos de leste oeste, do verde atlântico aos salões do planalto?

Quer ser feliz minha vida quer viajar

Abraçar parentes e diferentes que tocam outros sambas e baiões

Ultrapassar fronteiras de pobreza e passar riquezas de mão em mão

Abolindo as Tordesilhas e os donatários da nação

Cadê os trens brasileiros e as estações futuristas?

 

Vamos desembaraçar os rumos, derrubar os muros, fronteiras

Fazendo o velho e o novo se abraçar numa fogueira

De além mar ao sertão que de não ser já e tão pouco

Do Maranhão à Bahia

Trocar flor da sertania com as areias do nordeste

As canções de leste oeste

As orações de norte sul

Carregando as lembranças, desatando seus alforjes, suas linguagens gerais

Caçuás de causos e bisacos de farinha, fandangos dos diabos, fodanças feitas no breu

Dos túneis das velocidades, surgirão vilas e cidades, vilões, heróis e novas mocidades

Inventando sambas ligeiros, batendo zabumba  pandeiro

Adeus, adeus, dirão índios e negros

Girando nos pés de vento, semeando ventres e campos

Livrando do demônio do patrão pra morar no Piauí, Ceará, Belém

No Seridó, nos cafundós de Santarém

Do Paraná Pará Natal,

Brasil que nasce em mim e visita o que habita em ti

Mim caboclo, tu ticuna, ela miúda

Gente, cadê o trem?

 jccapinan

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Um pouquinho de Capinam, para você se situar: ( fonte: http://cliquemusic.uol.com.br/artistas/ver/capinam)

Capinam nascimento 19/12/1941

Nascido na cidade baiana de Esplanada, José Carlos Capinam é considerado um dos grandes letristas de sua geração, tendo participado ativamente do movimento tropicalista no fim da década de 60. Poeta desde a adolescência, mudou-se para Salvador aos 19 anos, onde iniciou o curso de Direito, na Universidade Federal da Bahia. Militante fervoroso do CPC da UNE, fez logo amizade com Caetano Veloso e Gilberto Gil, na época cursando, respectivamente, as faculdades de Filosofia e de Administração de Empresas. Com o golpe militar, em 1964, é forçado a deixar Salvador e vai morar em São Paulo, onde inicia os primeiros poemas de seu livro de estréia, “Inquisitórial”. Alguns anos depois, volta à capital baiana, desta vez para fazer Medicina, profissão que chega a exercer por algum tempo. Paralelamente, intensifica o seu trabalho como poeta e participa do primeiro disco de Gilberto Gil, em 1966, dividindo a parceria na faixa “Viramundo”. No mesmo ano, sua música “Canção para Maria”, defendida e composta em parceria com Paulinho da Viola, é um dos destaques do II Festival de Música da Record, obtendo a terceira colocação. Torna-se um dos mais assediados letristas da época e vence com Edu Lobo o Festival da Record de 1967, com a canção “Ponteio”. Volta a se aproximar de seus conterrâneos – compõe com Gil o clássico “Soy Loco por Ti, América”, e integra o histórico disco “Tropicália” (68), ao lado de Caetano, Gil, Mutantes, Gal Costa, Tom Zé, Rogério Duprat e Torquato Neto. Não diminui o seu ritmo como letrista e segue dividindo parcerias com grandes nomes da música, como Jards Macalé (em “Gotham City”, vaiadíssima no IV Festival Internacional da Canção de 1969), Fagner (em “Como se Fosse”) e Geraldo Azevedo (em “For All Para Todos”). Em 2000, compôs a ópera “Rei Brasil 500 Anos” ao lado de Fernando Cerqueira e Paulo Dourado, uma crítica as comemoração dos 500 anos de Descobrimento do Brasil, e dividiu parceria nos novos discos de Tom Zé (em “Perisséia”) e de Sueli Costa (em “Jardim”).

Ai, que delícia!!! Vejam o Lulinha com a bandeira gay na mão, segurando o pau, ganhando um abraço apertadinho

do www.claudiohumberto.com.br

Constrangido, Lula segura bandeira gay

Eugenio Novaes
Foto
LULA EMPUNHA A BANDEIRA GAY RECEBIDA DE ATIVISTAS

Sempre risonho e brincalhão, Lula ficou nitidamente constrangido quando recebeu hoje, ao lado do ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria dos Direitos Humanos, a bandeira do “Movimento Gay”. Além da famosa bandeira com as cores do arco-iris, Lula ainda recebeu um afetuoso abraço do portador do presente.