ARTIGO – 60, por hora, na vida. Por Marli Gonçalves

Acordei e era idosa. Sentei na cama, movi os braços, as pernas. Corri para o espelho. Chequei se continuava tudo ali no lugar, forcei um pensamento mais arrojado e tudo bem, valeu, pelo menos a meu ver, ele surgiu coerente e livre. Ufa! Tudo bem, tudo legal. Na noite anterior, coisa de um minuto para outro eu tinha pulado de fase no jogo da vida, chegando à casinha 60, aquela na qual é preciso parar um pouco, pensar e esperar quais serão as próximas jogadas.

Tudo igual. Que bom. Agora ganhei um epíteto a mais: idosa. Se provocar, tem mais: sexagenária; sessentona – palavra que pesa um pouco nas costas, principalmente as femininas. Os sessentões parecem mais galãs. As sessentonas, quando citadas, dão a entender que são espevitadas e pouco virtuosas. Usada como adjetivo aponta ironia com a informação que dará em seguida “Sessentona isso, sessentona aquilo, sessentona apresenta namorado trinta anos anos mais novo”…

Tem o coroa também, meio gíria antiga, que um dia alguém me explica. É usado para definir qualquer pessoa que seja mais velha do que quem a declama. “É uma coroa enxuta”, uma frase, por exemplo.

Engraçado, ainda bem que me preparei antes, buscando não ter muita ansiedade, meditando bastante e observando como pode funcionar para mim e para os outros. Do meu canto, me observo e observo. Consigo agora até tocar no assunto por aqui.

O redondo 60 é número bonito, sonoro, imponente e importante. Deve ter algo a mais para oferecer. Tanto que horas têm 60 minutos e os minutos, 60 segundos. Dizem que 60 era o número mais admirado pelos babilônios, que dividiam o círculo em 60 partes, e que foi assim a base na qual estabeleceram o calendário, e calcularam os tais 60 minutos da hora e 60 segundos do minuto. Achavam o número harmônico. Tem o número. 60. A palavra. Sessenta. Sixty, que tem som sexy. Soixante, em francês. Perde um “s” em espanhol, vira sesenta.

Dizem que não pareço que tenho sessenta; tem quem ache que eu não devia nem falar, mas nunca menti. Acho legal. Então até já me organizei para tirar a tal documentação que comprove onde eu precisar que agora, de um dia para o outro, ganhei uns direitos, uns descontos, mereço um outro tipo de tolerância obrigatória e até umas leis de proteção, o tal estatuto. Um lugar diferente nas filas. Vou procurar direitinho o que mais posso ter de vantagem. Porque as desvantagens já conheço e estou vendo não é de hoje nessa sociedade que pouco valoriza a experiência, e nos torna invisíveis.

Estamos aí com força total. Como o tempo passa. Outro dia eu tinha nascido, no outro cresci, fui adolescente e sempre mulher. Nenhuma das fases tão marcada a ferro e fogo como esta. O que foi bom porque carreguei e mantenho as outras partes: ainda sou criança, adolescente, adulta, vivi e agora – como determinam – sou idosa, essa fase marcada com um círculo em volta. Tô brincando com isso com meus amigos e amigas. Ouvi muitas gargalhadas e, dos que já passaram dos 70 e quase já chegam ao 80, ouço dizem: esse é um novo começo. E é neles que me fio. Afinal, quando nasci eles já eram até maiores de idade.

Adoro saber do ano de 1958, e me vejo como um acontecimento igual a muitos daquele tempo onde tudo parecia abrir um novo caminho para o país, para as ideias, arejando ideais, e com grande criatividade artística. Creio que foi um ano bem alto astral. Mais alguns anos que se seguiram também, até que apagaram a luz por 21 anos.

60 anos depois, cá estamos nós, e esse ano agora caminha carrancudo. Valeu a pena? Olho para trás e me preocupo muito é se vou ter energia e vontade de novamente lutar enfileirada para que não consigam fazer desandar de novo o tempo que conquistamos e que se perde. Combater chatos e caretas, e outros tantos que pensam torto, e querem regredir ainda mais.

Uma preguiça imensa aparece do nada. E sei que é uma sensação que invade muitos de nós, hoje idosos, e alguns ainda mais idosos –  que não deve demorar a surgir classificação posterior, já que estamos vivendo mais. Os idosos e os mais idosos, todos por aí com muita energia, superando a garotada que parece já ter nascido cansada e isolada em suas redes sociais.

Temos visto terríveis casos de suicídios, de pessoas famosas que aparentavam ser totalmente realizadas. Penso que talvez elas tenham querido apenas congelar o tempo. Porque sempre há o medo, muito medo,  do que virá.

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 Marli Gonçalves, jornalista – Tá bom, admito, esperei 48 horas para só depois escrever tudo isso. Queria ter certeza do que é que podia ter mudado de um dia para o outro.

São Paulo, junho de 2018

                                               marli@brickmann.com.br e marligo@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

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ARTIGO – Desmonte e monte, desmonte

                   Desmonte e monte, desmonte

Por Marli Gonçalves

butterfly_17Fico olhando minha gatinha arrumando o lugar em que vai deitar. Ela apalpa, com uma pata e outra, alternando, como se macerasse uvas para produzir um bom vinho. Durante longos minutos fica ali, meio alheia, concentrada na sua atávica tarefa de arrumação, que não sei se é para esquentar ou esfriar o lugar, que nem sempre é o mesmo. Me faz pensar se nós também não vivemos por aí montando e desmontando nossas próprias camas, palavras e atos. Efeito borboleta butterflies

Ando pensativa. Acontece sempre, mas especialmente quando está para mudar de um ano para o outro, ou eu mesma mudar de ano, aumentar um número. E também na Lua cheia ou quando a vida me coloca diante de obstáculos ou decisões. Quando preciso desmontar alguma acomodação para logo montar algum caminho que chegue a outra acomodação. Igual ao solo, a terra que se amolda aos nossos pés, busco meu lugar, no espaço e tempo, para continuar crescendo. Sobrevivendo, agindo.

É uma atividade muito solitária e particular. Porque é como se entrássemos numa máquina do tempo e levados a revisitar determinados períodos, e aí aparecem alguns fatos, pessoas e decisões que moldaram o que é agora, formando um painel que você precisa primeiro estilhaçar, picotar, para formar o quebra-cabeça que quer remontar, criando um novo desenho.

Não é fácil desmontar. Nada. Principalmente nessa selva cheia de armadilhas e camas de gato da experiência humana, quando para se livrar de uma teia, cai em outra. Não é fácil desmontar a insídia que você nem ao menos conhece o teor total e criada por alguém para desconstruir e pulverizar sua imagem diante do que ama. Desmontar o ódio, o ciúme, a mentira e a ignorância que catequiza os distraídos.

Não é fácil desmontar os malfeitos e isso também, por óbvio, é pensamento que surge no delicado momento político que vivemos no país, diante dos olhos de quem quer ver, e inquietando a todos nesse prazo de dias em seis meses que passamos a percorrer. Em que tentamos sair do atoleiro e para isso temos de por correntes em rodas pouco confiáveis, mas as únicas que temos e que têm de girar, até porque não temos mais forças para sair atrás empurrando, preferindo esperar do outro lado da linha.

Os brinquedos de nossas tenras infâncias, muitos, eram de montar e desmontar. Se não eram, desmontávamos só para ver como é que tinham sido feitos, curiosos como cabe às crianças ser. O problema sempre era perder as peças, que espalhávamos, e aí não conseguir nunca mais fazer voltar ao que era, original. A solução fazer bico, olhando em busca de ajuda, ou deixar para lá, escondendo tudo, e logo nos encantando por outro brinquedo. Esse é o lado bom de ser criança. A responsabilidade relativa.

Mas não somos mais, infelizmente, petizes, e nem mais brinquedos são os fatos com os quais temos de lidar, agora sem tempo para troças.

De repente parece que ao redor não se deram conta disso, e baixou algum Erê (o espírito criança, que gosta de guaraná e bolo e se suja, se lambuza quando vem nesse plano) em pessoas que considerávamos mais sérias e maduras. Ou o que foi aquilo do prefeito de São Paulo de molecagem passando trotinho no opositor de quem não gosta, que dele fala mal? O que é que se pensa ordenando os meninos a irem para as ruas escracharem o que nem bem entendem, armados com sprays de tinta, contra armas, cassetetes e pimenta, pensando estar vivendo em cenas de HQ, ficção, algum Mad Max da Avenida Paulista? Brincando de brigar, de fazer fusquinha? Amigos atacando amigos, pessoas demonizando artistas, artistas demonizando cidadãos que, se são do bem não se sabe, mas como desinformados que certamente são acabam agindo e pensando de forma grotesca.

Como vamos desmontar esse foguete complexo?

Pergunto porque não sei respostas, nem as minhas, quanto mais as de nós todos, e muito menos as desse jogo político que lembra o rouba montes dos jogos de cartas. No momento tento só recuperar umas peças que andei perdendo, enquanto percorria outras fases dessa nossa longa história na qual os personagens principais envelhecem, mas ainda dão frutos que podem ser decisivos para começar de novo.

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Marli Gonçalves, jornalista A teoria do caos estabelece que uma pequena mudança ocorrida no início de um evento qualquer pode ter consequências desconhecidas no futuro. Eu só quero ser a borboleta e seu efeito.

São Paulo, 58+58.

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ARTIGO – SP, Mato sem cachorro. Por Marli Gonçalves

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ficamos chateados de ver nossa cidade assim!!!!Faz calor. Derretemos. Tempo seco, não dá para respirar. Se chove nos afogamos nas ruas alagadas, paramos nos faróis imediatamente intermitentes, amarelos piscantes se é que ainda haverá o amarelo, se é que haverá luz para piscar, se haverá guarda, se der para passar pelo cruzamento. A cidade engole um pouco da gente todo dia. São Paulo até lambe os beiços

São Paulo se alimenta de gente, da gente. Todo dia nos consome um pouco mais, e aqui não tem praia, vista bonita, nem como ver pôr do Sol de cima de alguma pedra, batendo palmas – até dá, mas é preciso improvisar muito. Aqui isso tudo é na hora do rush, da tortura do dia a dia das pessoas que o tempo inteiro estão indo de um lado a outro, cruzando suas linhas mal planejadas que opõem os locais de trabalho dos locais de moradia, que por sua vez se opõem aos locais de estudos, de lazer, e até de fé, que agora se processa em campos enormes, abertos, templos faraônicos.

Tudo é grande, megalopólico (saiu assim a palavra). Megalopólico. Uma engrenagem que somos nós que engraxamos, numa relação luxuriosa e antropofágica, permissividade e controle, numa dualidade que poucos lugares, creio, possam oferecer. São Paulo é uma cidade-país, que tem tudo de monte. Nos gabamos do que temos e não conhecemos, apenas respiramos, depois pensando de onde saem tantos tipos que aparecem para nos surpreender e contar suas histórias.

Aqui se anda desviando. De coisas jogadas pela janela. Dos cocôs da artilharia de pombos que vêm do céu; do cocô dos cachorros, como casca de bananas. Das balas perdidas. Dos malucos bêbados na direção das máquinas. Nos desviamos das árvores maltratadas que deixam seus pedaços cair para ver se chamam a atenção antes de desmaiar e cair inteiras, deitadas no solo, exaustas, cansadas de servir como escora para lixo, óleo, tudo o que jogam aos seus pés, impunes. Tenho sempre a impressão de que aqui são detestadas.20160116_164749

A cidade limpa se suja. São ofertas de milagres, trabalhos amorosos, feitiçarias anunciadas em faixas em postes e cada vez mais ousadas em suas propostas. Anjo do amor, feiticeiro da felicidade. Pai Xavier, Mãe Benta do Nhocuné. Buscam incautos. Outros magrelos se juntam aos bandos, cada qual vindo de uma região para um desafio mortal, fazem piruetas para subir em prédios e rabiscar gigantescos sinais incompreensíveis. Às vezes se distraem, caem e morrem estatelados no asfalto, lamentados por alguns momentos, esquecidos rapidamente porque aqui nunca ninguém viu ou sabe de nada, pode perguntar. Ninguém viu. Não sabe de nada. Não quer se comprometer, me tira fora dessa. Eu só estava passando. Sim, ouvi uns gritos, mas achei que era alguma festa.Por favor, mantenham a cidade limpa!

Mas também aqui chegam os artistas com tintas coloridas, latas de aerossóis, ideias na cabeça, poesia concreta. Procuram muros, esquinas, cantos. E pintam seus personagens. Colam adesivos. Agora também carimbam o chão de algumas vias. Invisíveis, certamente nas madrugadas agitadas, vão deixando recados que no dia seguinte nos farão refletir melhor quando com eles nos depararmos. Mais amor por favor.

Tenha paciência com eles. São protestos de tudo. São diários e congestionam as vias, bloqueiam as passagens, irritam quem não os integra e que naquela hora queria só estar bem longe dali. Atrás deles, dos protestos, agora também as bombas, as cacetadas, o perigo do grupo anarquista mascarado de jovens que consideram que nada lhes foi dado e que, portanto, não têm nada a perder, meninos piratas que não querem crescer e se acham heróis da luta já perdida. Batem bumbo, sem noção.

Ah, tanto falam, tanto tentam humanizar essa cidade que não notam que ela já é a mais humana de todas, principalmente nas nossas maiores imperfeições. Cidade egoísta, cheia de ciúme de outras, e em suas ruas cada vez mais se estendem corpos cansados como as árvores, e que se camuflam como o lixo em residências imaginárias, de sacos pretos, de papelões.

São Paulo, 462 anos de vida. Parabéns. Você é o espelho desse país, desse momento agoniante que vivemos, no mato sem cachorro, na crise que te abarrota de placas de Aluga-se, Vende-se, Passa-se o Ponto. Zonas sujeitas a alagamento. Focos de mosquito. Proliferação de escorpiões. Mapas de violência. Pontos negros. Perigo de assaltos. Cuidado ao atravessar.

Vamos soprar suas velas.dlrcity

Daqui, 2016.

Marli Gonçalves é jornalista – Desta cidade de idade, da qual se espera tudo e de onde menos se espera é que não vem nada mesmo.

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“Pintoficação”. Suspensão. Burlesco. Shibari. Contorcionismo. Danças. É a Festa Especial Luxúria, neste sábado, 9. Conheça as regras, e tudo certo. Por Heitor Werneck

ESTRELA DA FESTA
ESTRELA DA FESTA

Edição especial de aniversário do Projeto Luxúria com direito a “pintoficação”

No próximo sábado (09), acontecerá a edição especial de aniversário do Projeto Luxúria idealizado pelo estilista e produtor de eventos, Heitor Werneck.  Com o tema “Fardas e Uniformes”, os fetichistas poderão ousar no dress code e quanto melhor o look, menor o valor da entrada.

olhão2Em comemoração aos 08 anos de Projeto, Heitor irá suspender o corpo usando ganchos passados através de perfurações na pele (suspensão corporal). A pista será comanda pelos Djs Nagash Sagan, Maxw Stacy, Nick Angel e Yuki Fujita .

Também outras atrações farão parte da noite, como: dança egípcia (Giselle Kenj), pole dance (Alessandra Valença), burlesco (Mayriska Krasni), contorcionismo (Katia), Shibari (Toshi San), exposição de fotos e filmes (Alexandre Medeiros). Já quem se interessa por “pintoficação” poderá conferir diversos modelos de esculturas do artista Shoker.

Os valores de entrada variam de acordo com o traje, ou seja, dress code com o tema da festa de R$ 40,00 à R$ 60,00, fetichista (látex, couro, vinil ou fantasia) R$70,00, roupa preta R$ 120,00, roupa íntima R$ 150,00 e casual (jeans, camiseta, entre outros) R$ 220,00.

O Projeto Luxúria acontece no Templo Club, localizado na rua Treze de Maio, 830 – Bela Vista. Para saber mais, acesse: www.facebook.com/projetoluxuria.

Informações:
Local: Templo Club.
Endereço: Rua Treze de Maio 830 – Bela Vista.
Horário: A partir das 00h.
Telefone: 11 2592 4474.
Aceita todos os cartões de débito de crédito.
Aceita cheques.
Possui ar condicionado

(FONTE ASSESSORIA DE IMPRENSA DO PROJETO LUXÚRIA)

HEITOR WERNECK – IMAGEM DA SUSPENSÃO (PROJETO LUXÚRIA)