#ADEHOJE – – ATENÇÃO, BRASIL!

#ADEHOJE – – ATENÇÃO, BRASIL!

 

SÓ UM MINUTO – Enquanto ficamos distraídos com a novela Neymar no paraíso das camisinhas, o mundo corre sob nossos pés. E o Brasil continua com a marcha-a-ré engatada, continuamente. Essa semana assistimos o anúncio de decisões mortais e inexplicáveis no Código de Trânsito. Ao vaivém das informações – agora Bolsonaro diz que desistiu do decreto para fazer sua Cancun em Angra dos Reis. Do decreto, mas não da ideia. Na Argentina, onde foi meter o bedelho na eleição alheia, começaram a falar numa tal meda Mercosul, peso-real. Como se fosse hora, na balbúrdia que ambos os países estão metidos. Os milicianos cariocas, veja só, estão conseguindo escapulir. Repara.

Não sei onde viram só 0,13% de inflação. Acho que quem calcula não faz compras nem em feiras nem em mercados. Só pode. Ou medem em coisas que não são as que compramos. As que não usamos.

Coisa boa vai ser torcer para o Brasil a Copa do Mundo de futebol feminino, que finalmente ganhou luz. Ah, teve até meteoro dando show nos céus do Rio Grande do Sul.

Neste sábado, comemoro meu dia. Obrigada desde já a todos pelo carinho.

ARTIGO – Em busca do prazer perdido. Por Marli Gonçalves

Vou falar desse assunto um pouco proustiano porque creio que muito mais gente pode estar se sentindo assim e talvez seja bom trocarmos ideias, um pouco de filosofia, essa conversa particular. Não confunda prazer com felicidade. Prazer é fugaz, mas alegria necessária no nosso árido cotidiano.

 

Anda faltando prazer. Anda me faltando prazer. Demorei dessa vez um pouco mais do que de costume para distinguir o porquê de uma certa tristeza no fundo do coração, como definiria e responderia como me sinto, claro, caso alguém me perguntasse. O que anda meio difícil, que alguém queira saber de outro realmente se está tudo bem. Tudo bem, tudo bom. Cada vez mais as relações são fugazes, superficiais e as pessoas estão voltadas aos seus próprios umbigos e a como salvar os seus rabos. Não é uma crítica. O mundo está assim mesmo. Cabe a todos admitirem onde o sapato aperta.

Mas especialmente quem vive só, ou melhor, convive consigo mesmo, tem de estar esperto ao que o seu eu interno está sentindo, até para evitar o agravamento enquanto é tempo. Quem pode, pode, faz análise, viaja, tira ano sabático, inventa uma moda, sai comprando coisas – que comprar coisas é sempre bom. Quem não pode… escreve.

Pode ser a aproximação de mais um aniversário, os teimosos e inúmeros cabelos brancos que despontam revelados pelo espelhos. E que parecem rir da sua cara quando se tenta puxá-los da cabeça. Pode ser essa sensação de ter se tornado invisível justamente para aqueles os quais mais gostaria de estar sendo vista. O tempo correndo.

Pode ser por causa de tanta coisa. Pode ser esse país maluco e desorientado, todo dia ouvir índices bons descendo, índices ruins subindo, o tempo escorregando numa rotina qualquer. A repetição das desgraças que poderiam ser evitadas, e das tragédias que, por mais longe que seguidamente ocorram, nos afetam a sensibilidade – cada vez mais acompanhamos ao vivo muitas delas e diante de nossos olhos elas se desenrolam sem que possamos interferir em nada.

Tenho um bom amigo psicanalista, um vizinho de quem gosto muito, também jornalista, e que um dia vi conseguir mudar um monte de coisas na vida dele. Continua mudando. Me contava que para se “salvar” diminuiu drasticamente o número de horas “GloboNews”; se informa no estritamente necessário. Já eu não posso fazer isso, por conta da atividade, mas detectei uma parte da minha própria angústia: os plins 24 horas vindos da internet, dos e-mails, das redes sociais, do SMS, do Whatsapp, que agora ainda tem mais essa. Cancelar notificações: ajuda.

Continuando a conversa, ele citou um autor que pergunta: “Você realmente quer aquilo que deseja?” “É mesmo o que precisa?”. Porque desejar muito é constante fonte de angústia. Citou ainda mais o que faz para si, a leitura e a culinária, essa última encontrei várias vezes citada como excelente forma de prazer. Cozinhar. Criar.

Prazer é descrito como uma sensação de bem-estar, a gente demonstra alegria quando tem prazer. É uma resposta do nosso organismo. É aquela sensação agradável. Efêmera, curta, mas fundamental. Os prazeres ocorrem à flor da pele.  O dicionário é claro: sentimento agradável que alguma coisa faz nascer em nós; deleite, gozo, delícia; gosto, desejo; alegria, contentamento; boa vontade, agrado; distração, divertimento. E olha que nem estou falando do prazer sexual, que esse é outro capítulo.

Cazuza queria uma ideologia para viver. Eu quero prazer, ter mais prazer. Ideologias há muitas e ultimamente elas têm sido fonte é de enorme desprazer. Porque as pessoas se apegam a elas – talvez até em busca de preencher seus vazios existenciais – e têm ficado meio burras agarradas nessas tábuas de salvação.  Acabam tentando limitar o prazer a aquilo que alguém ao longe acena friamente buscando fanáticos para segui-los. Acabam com os nossos, em palavras, canetadas, agressões.

O prazer é coisa pessoal, individual, precisa ser livre e desimpedido, acontecer quando menos se espera, naturalmente. Prazer me faz sorrir, me impulsiona, dá ânimo, me deixa bem, combina comigo.

Mas precisa de ambiente propício. Que é o que não vem sendo o caso, também descobri nessa busca que empreendi para entender meus sentimentos.

 E você, como está se sentindo? O que é que te dá prazer?

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(CRÉDITO FOTO: Alê Ruaro, para o projeto Identidade Brasileira)

Marli Gonçalves – jornalista

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

São Paulo, no outono.

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ARTIGO – 60, por hora, na vida. Por Marli Gonçalves

Acordei e era idosa. Sentei na cama, movi os braços, as pernas. Corri para o espelho. Chequei se continuava tudo ali no lugar, forcei um pensamento mais arrojado e tudo bem, valeu, pelo menos a meu ver, ele surgiu coerente e livre. Ufa! Tudo bem, tudo legal. Na noite anterior, coisa de um minuto para outro eu tinha pulado de fase no jogo da vida, chegando à casinha 60, aquela na qual é preciso parar um pouco, pensar e esperar quais serão as próximas jogadas.

Tudo igual. Que bom. Agora ganhei um epíteto a mais: idosa. Se provocar, tem mais: sexagenária; sessentona – palavra que pesa um pouco nas costas, principalmente as femininas. Os sessentões parecem mais galãs. As sessentonas, quando citadas, dão a entender que são espevitadas e pouco virtuosas. Usada como adjetivo aponta ironia com a informação que dará em seguida “Sessentona isso, sessentona aquilo, sessentona apresenta namorado trinta anos anos mais novo”…

Tem o coroa também, meio gíria antiga, que um dia alguém me explica. É usado para definir qualquer pessoa que seja mais velha do que quem a declama. “É uma coroa enxuta”, uma frase, por exemplo.

Engraçado, ainda bem que me preparei antes, buscando não ter muita ansiedade, meditando bastante e observando como pode funcionar para mim e para os outros. Do meu canto, me observo e observo. Consigo agora até tocar no assunto por aqui.

O redondo 60 é número bonito, sonoro, imponente e importante. Deve ter algo a mais para oferecer. Tanto que horas têm 60 minutos e os minutos, 60 segundos. Dizem que 60 era o número mais admirado pelos babilônios, que dividiam o círculo em 60 partes, e que foi assim a base na qual estabeleceram o calendário, e calcularam os tais 60 minutos da hora e 60 segundos do minuto. Achavam o número harmônico. Tem o número. 60. A palavra. Sessenta. Sixty, que tem som sexy. Soixante, em francês. Perde um “s” em espanhol, vira sesenta.

Dizem que não pareço que tenho sessenta; tem quem ache que eu não devia nem falar, mas nunca menti. Acho legal. Então até já me organizei para tirar a tal documentação que comprove onde eu precisar que agora, de um dia para o outro, ganhei uns direitos, uns descontos, mereço um outro tipo de tolerância obrigatória e até umas leis de proteção, o tal estatuto. Um lugar diferente nas filas. Vou procurar direitinho o que mais posso ter de vantagem. Porque as desvantagens já conheço e estou vendo não é de hoje nessa sociedade que pouco valoriza a experiência, e nos torna invisíveis.

Estamos aí com força total. Como o tempo passa. Outro dia eu tinha nascido, no outro cresci, fui adolescente e sempre mulher. Nenhuma das fases tão marcada a ferro e fogo como esta. O que foi bom porque carreguei e mantenho as outras partes: ainda sou criança, adolescente, adulta, vivi e agora – como determinam – sou idosa, essa fase marcada com um círculo em volta. Tô brincando com isso com meus amigos e amigas. Ouvi muitas gargalhadas e, dos que já passaram dos 70 e quase já chegam ao 80, ouço dizem: esse é um novo começo. E é neles que me fio. Afinal, quando nasci eles já eram até maiores de idade.

Adoro saber do ano de 1958, e me vejo como um acontecimento igual a muitos daquele tempo onde tudo parecia abrir um novo caminho para o país, para as ideias, arejando ideais, e com grande criatividade artística. Creio que foi um ano bem alto astral. Mais alguns anos que se seguiram também, até que apagaram a luz por 21 anos.

60 anos depois, cá estamos nós, e esse ano agora caminha carrancudo. Valeu a pena? Olho para trás e me preocupo muito é se vou ter energia e vontade de novamente lutar enfileirada para que não consigam fazer desandar de novo o tempo que conquistamos e que se perde. Combater chatos e caretas, e outros tantos que pensam torto, e querem regredir ainda mais.

Uma preguiça imensa aparece do nada. E sei que é uma sensação que invade muitos de nós, hoje idosos, e alguns ainda mais idosos –  que não deve demorar a surgir classificação posterior, já que estamos vivendo mais. Os idosos e os mais idosos, todos por aí com muita energia, superando a garotada que parece já ter nascido cansada e isolada em suas redes sociais.

Temos visto terríveis casos de suicídios, de pessoas famosas que aparentavam ser totalmente realizadas. Penso que talvez elas tenham querido apenas congelar o tempo. Porque sempre há o medo, muito medo,  do que virá.

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 Marli Gonçalves, jornalista – Tá bom, admito, esperei 48 horas para só depois escrever tudo isso. Queria ter certeza do que é que podia ter mudado de um dia para o outro.

São Paulo, junho de 2018

                                               marli@brickmann.com.br e marligo@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

ARTIGO – Desmonte e monte, desmonte

                   Desmonte e monte, desmonte

Por Marli Gonçalves

butterfly_17Fico olhando minha gatinha arrumando o lugar em que vai deitar. Ela apalpa, com uma pata e outra, alternando, como se macerasse uvas para produzir um bom vinho. Durante longos minutos fica ali, meio alheia, concentrada na sua atávica tarefa de arrumação, que não sei se é para esquentar ou esfriar o lugar, que nem sempre é o mesmo. Me faz pensar se nós também não vivemos por aí montando e desmontando nossas próprias camas, palavras e atos. Efeito borboleta butterflies

Ando pensativa. Acontece sempre, mas especialmente quando está para mudar de um ano para o outro, ou eu mesma mudar de ano, aumentar um número. E também na Lua cheia ou quando a vida me coloca diante de obstáculos ou decisões. Quando preciso desmontar alguma acomodação para logo montar algum caminho que chegue a outra acomodação. Igual ao solo, a terra que se amolda aos nossos pés, busco meu lugar, no espaço e tempo, para continuar crescendo. Sobrevivendo, agindo.

É uma atividade muito solitária e particular. Porque é como se entrássemos numa máquina do tempo e levados a revisitar determinados períodos, e aí aparecem alguns fatos, pessoas e decisões que moldaram o que é agora, formando um painel que você precisa primeiro estilhaçar, picotar, para formar o quebra-cabeça que quer remontar, criando um novo desenho.

Não é fácil desmontar. Nada. Principalmente nessa selva cheia de armadilhas e camas de gato da experiência humana, quando para se livrar de uma teia, cai em outra. Não é fácil desmontar a insídia que você nem ao menos conhece o teor total e criada por alguém para desconstruir e pulverizar sua imagem diante do que ama. Desmontar o ódio, o ciúme, a mentira e a ignorância que catequiza os distraídos.

Não é fácil desmontar os malfeitos e isso também, por óbvio, é pensamento que surge no delicado momento político que vivemos no país, diante dos olhos de quem quer ver, e inquietando a todos nesse prazo de dias em seis meses que passamos a percorrer. Em que tentamos sair do atoleiro e para isso temos de por correntes em rodas pouco confiáveis, mas as únicas que temos e que têm de girar, até porque não temos mais forças para sair atrás empurrando, preferindo esperar do outro lado da linha.

Os brinquedos de nossas tenras infâncias, muitos, eram de montar e desmontar. Se não eram, desmontávamos só para ver como é que tinham sido feitos, curiosos como cabe às crianças ser. O problema sempre era perder as peças, que espalhávamos, e aí não conseguir nunca mais fazer voltar ao que era, original. A solução fazer bico, olhando em busca de ajuda, ou deixar para lá, escondendo tudo, e logo nos encantando por outro brinquedo. Esse é o lado bom de ser criança. A responsabilidade relativa.

Mas não somos mais, infelizmente, petizes, e nem mais brinquedos são os fatos com os quais temos de lidar, agora sem tempo para troças.

De repente parece que ao redor não se deram conta disso, e baixou algum Erê (o espírito criança, que gosta de guaraná e bolo e se suja, se lambuza quando vem nesse plano) em pessoas que considerávamos mais sérias e maduras. Ou o que foi aquilo do prefeito de São Paulo de molecagem passando trotinho no opositor de quem não gosta, que dele fala mal? O que é que se pensa ordenando os meninos a irem para as ruas escracharem o que nem bem entendem, armados com sprays de tinta, contra armas, cassetetes e pimenta, pensando estar vivendo em cenas de HQ, ficção, algum Mad Max da Avenida Paulista? Brincando de brigar, de fazer fusquinha? Amigos atacando amigos, pessoas demonizando artistas, artistas demonizando cidadãos que, se são do bem não se sabe, mas como desinformados que certamente são acabam agindo e pensando de forma grotesca.

Como vamos desmontar esse foguete complexo?

Pergunto porque não sei respostas, nem as minhas, quanto mais as de nós todos, e muito menos as desse jogo político que lembra o rouba montes dos jogos de cartas. No momento tento só recuperar umas peças que andei perdendo, enquanto percorria outras fases dessa nossa longa história na qual os personagens principais envelhecem, mas ainda dão frutos que podem ser decisivos para começar de novo.

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Marli Gonçalves, jornalista A teoria do caos estabelece que uma pequena mudança ocorrida no início de um evento qualquer pode ter consequências desconhecidas no futuro. Eu só quero ser a borboleta e seu efeito.

São Paulo, 58+58.

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ARTIGO – SP, Mato sem cachorro. Por Marli Gonçalves

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ficamos chateados de ver nossa cidade assim!!!!Faz calor. Derretemos. Tempo seco, não dá para respirar. Se chove nos afogamos nas ruas alagadas, paramos nos faróis imediatamente intermitentes, amarelos piscantes se é que ainda haverá o amarelo, se é que haverá luz para piscar, se haverá guarda, se der para passar pelo cruzamento. A cidade engole um pouco da gente todo dia. São Paulo até lambe os beiços

São Paulo se alimenta de gente, da gente. Todo dia nos consome um pouco mais, e aqui não tem praia, vista bonita, nem como ver pôr do Sol de cima de alguma pedra, batendo palmas – até dá, mas é preciso improvisar muito. Aqui isso tudo é na hora do rush, da tortura do dia a dia das pessoas que o tempo inteiro estão indo de um lado a outro, cruzando suas linhas mal planejadas que opõem os locais de trabalho dos locais de moradia, que por sua vez se opõem aos locais de estudos, de lazer, e até de fé, que agora se processa em campos enormes, abertos, templos faraônicos.

Tudo é grande, megalopólico (saiu assim a palavra). Megalopólico. Uma engrenagem que somos nós que engraxamos, numa relação luxuriosa e antropofágica, permissividade e controle, numa dualidade que poucos lugares, creio, possam oferecer. São Paulo é uma cidade-país, que tem tudo de monte. Nos gabamos do que temos e não conhecemos, apenas respiramos, depois pensando de onde saem tantos tipos que aparecem para nos surpreender e contar suas histórias.

Aqui se anda desviando. De coisas jogadas pela janela. Dos cocôs da artilharia de pombos que vêm do céu; do cocô dos cachorros, como casca de bananas. Das balas perdidas. Dos malucos bêbados na direção das máquinas. Nos desviamos das árvores maltratadas que deixam seus pedaços cair para ver se chamam a atenção antes de desmaiar e cair inteiras, deitadas no solo, exaustas, cansadas de servir como escora para lixo, óleo, tudo o que jogam aos seus pés, impunes. Tenho sempre a impressão de que aqui são detestadas.20160116_164749

A cidade limpa se suja. São ofertas de milagres, trabalhos amorosos, feitiçarias anunciadas em faixas em postes e cada vez mais ousadas em suas propostas. Anjo do amor, feiticeiro da felicidade. Pai Xavier, Mãe Benta do Nhocuné. Buscam incautos. Outros magrelos se juntam aos bandos, cada qual vindo de uma região para um desafio mortal, fazem piruetas para subir em prédios e rabiscar gigantescos sinais incompreensíveis. Às vezes se distraem, caem e morrem estatelados no asfalto, lamentados por alguns momentos, esquecidos rapidamente porque aqui nunca ninguém viu ou sabe de nada, pode perguntar. Ninguém viu. Não sabe de nada. Não quer se comprometer, me tira fora dessa. Eu só estava passando. Sim, ouvi uns gritos, mas achei que era alguma festa.Por favor, mantenham a cidade limpa!

Mas também aqui chegam os artistas com tintas coloridas, latas de aerossóis, ideias na cabeça, poesia concreta. Procuram muros, esquinas, cantos. E pintam seus personagens. Colam adesivos. Agora também carimbam o chão de algumas vias. Invisíveis, certamente nas madrugadas agitadas, vão deixando recados que no dia seguinte nos farão refletir melhor quando com eles nos depararmos. Mais amor por favor.

Tenha paciência com eles. São protestos de tudo. São diários e congestionam as vias, bloqueiam as passagens, irritam quem não os integra e que naquela hora queria só estar bem longe dali. Atrás deles, dos protestos, agora também as bombas, as cacetadas, o perigo do grupo anarquista mascarado de jovens que consideram que nada lhes foi dado e que, portanto, não têm nada a perder, meninos piratas que não querem crescer e se acham heróis da luta já perdida. Batem bumbo, sem noção.

Ah, tanto falam, tanto tentam humanizar essa cidade que não notam que ela já é a mais humana de todas, principalmente nas nossas maiores imperfeições. Cidade egoísta, cheia de ciúme de outras, e em suas ruas cada vez mais se estendem corpos cansados como as árvores, e que se camuflam como o lixo em residências imaginárias, de sacos pretos, de papelões.

São Paulo, 462 anos de vida. Parabéns. Você é o espelho desse país, desse momento agoniante que vivemos, no mato sem cachorro, na crise que te abarrota de placas de Aluga-se, Vende-se, Passa-se o Ponto. Zonas sujeitas a alagamento. Focos de mosquito. Proliferação de escorpiões. Mapas de violência. Pontos negros. Perigo de assaltos. Cuidado ao atravessar.

Vamos soprar suas velas.dlrcity

Daqui, 2016.

Marli Gonçalves é jornalista – Desta cidade de idade, da qual se espera tudo e de onde menos se espera é que não vem nada mesmo.

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