ARTIGO – Sexo com todas as letras. Por Marli Gonçalves

É um mundo todo colorido, chega a ser extravagante. Tem linguagem própria e até uma entonação especial, em som de vozes às vezes fanhosas que podemos reconhecer rapidamente, embora ultimamente algumas moças fitness também estejam falando no mesmo tom, sei lá se por hormônios ou anabolizantes. É um mundo que sempre existiu, mas estava escondido, e agora quer se mostrar com todas as suas letras, dúvidas, anseios.

Não sei se percebeu, mas os simpatizantes andaram sendo atirados para fora do trem das letrinhas que compõem o movimento pela diversidade sexual. O S sumiu da forma que ainda é a mais conhecida, LGBT. Mas agora tem mais completa, decore: LGBTQIA+.

É tanta variação de identidade sexual possível de existir que andaram decidindo que pode ser tudo isso, mais um asterisco, ou um sinal de +. Senão ficariam discutindo mais e aí não teriam nem tempo para o prazer. Até acabar de falar as letras, a outra pessoa dormiria.

Esse + representa qualquer outra forma que ainda possa, sei lá, surgir dia desses, e não qualificada em LGBTQIA. Tentando traduzir: lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros, queers, intersexuais e os assexuados. Mas você pode encontrar referências com todas essas, e ainda com mais letras T, dois Ts; pode encontrar também com o P de poliamor, ou C, de curioso. Pode até encontrar um vagão duplo: LGBTTQQIAAP (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, transexuais, queers, questionadores, intersexuais, assexuais ou aliados – simpatizantes – e pansexuais). Qualquer maneira de amor valerá. Amor que agora ousa falar seu nome, com todas as letras.

O importante é que a diversidade sexual realmente tem agora presença e visibilidade proporcional ao aumento da população mundial, à globalização e às inúmeras formas de comunicação e informação que se espalham. A questão está sendo politizada, e a luta por liberdade e direitos civis se ampliou ao se juntar todas essas letras de todas as formas de se viver o próprio corpo e o amor.

Mas ninguém está inventando a roda. Nem o fogo. Apenas aparecendo – mais maquiado, operado, assistido, modificado, aceito, mais abertamente fora de armários, seja qual for o seu tamanho. Abriram-se as portas. Há muita gente inclusive tirando uma boa lasquinha nessa assimilação. Comercialmente está uma festa: é cerveja, aplicativo de transporte, propaganda de cosméticos. Pena que não dão dinheiro para a causa geral, apenas para as estrelas contratadas. Daniela Mercury é uma que fatura muito bem com a sua opção. As outras cantoras da MPB me parecem mais verdadeiras. Enfim…

Para vocês terem ideia do tamanho que a coisa tomou, a Parada Gay de São Paulo é um dos maiores eventos turísticos do país. Calcula-se em 45 milhões de reais o valor que injeta na cidade, e com seus turistas gastando, em média, cada um, R$ 1.500,00. É dinheiro!

Mas o investimento que oficialmente chegou aos realizadores não passou de um milhão e meio. Sei disso porque o organizador cultural este ano foi um grande e querido amigo, Heitor Werneck. Há meses o estou acompanhando; ele se consumindo para trazer coisas boas para a festa, representativas e com caráter social. Por exemplo, o grupo de 50 travestis que tirou da Cracolândia, dando casa e comida e um bom papel para elas ensaiarem um show para a Avenida Paulista. Isso poucos veem e dão valor.

Ainda esses dias assisti, e me emocionei muito, à pré-estreia de Divinas Divas, o documentário dirigido pela atriz Leandra Leal, que revive os áureos tempos do Teatro Rival no Rio de Janeiro e a primeira geração de artistas travestis do Brasil.

Rogéria, Valéria, Jane Di Castro, Camille K, Fujica de Holliday, Eloína, Marquesa e Brigitte de Búzios formaram, na década de 1970, o grupo que testemunhou o auge da Cinelândia e brilhou nos palcos internacionais, especialmente de Paris. Hoje, todas com mais, bem mais de 70, contaram muito do que foram obrigadas a passar, no país em plena ditadura. Ficou claro que para sobreviverem àquela época tiveram de passar a quilômetros da política e da realidade que abatia o país. Recomendo o filme a todos, que talvez dessa lista só conheçam a Rogéria. Cada uma delas tem uma história, trilhou um caminho, nos fazem pensar, e muito, no quão bobagem e perda de tempo é e sempre será o preconceito.

Eu sempre as adorei, desde menina. Sempre fui fascinada por artistas travestis e vedetes que, inclusive, têm tudo a ver entre si. Sempre fiquei maravilhada com o brilho de suas roupas e acessórios, por seu apego às divas, às grandes estrelas de cinema; sempre me encantei pelo seu despojamento, pela nudez tranquila, pelo sucesso que faziam nos palcos com seu talento. Pelos amores que conquistaram mundo afora, algumas até a condessas chegaram, seus amantes milionários. E por tudo que as vi ultrapassarem: agressões, prisões, porradas, mortes.

Foram pioneiros. Era tempo de mais glamour no melhor sentido da palavra. Meio perdido hoje, com todo mundo se enfeitando para participar da Parada com os repetitivos produtos chineses da Rua 25 de Março reproduzindo o arco-íris, a grande imagem que se sobrepõe a todas as letrinhas.

Não tem mais volta, os armários se abriram. É hora de todos aceitarem, dizerem não à homofobia, ajudarem a garantir a todos os direitos de todos. Entender que muitas são suas formas, seus desejos, a conformidade de seus corpos. O que querem mostrar com orgulho, na Parada e em todos os dias de todos os anos, com seus trejeitos e expressões, com saúde, longe da violência que nos tem a todos como alvos.

BANDEIRA

___________________________

20170607_194808Marli Gonçalves, jornalista – Uma das coisas que viveu para ver acontecer. Abriram-se as cortinas. Pela janela entrou ar fresco.

São Paulo, semana da Parada de todas as letras, 2017

 

____________________________

marligo@uol.com.br – marli@brickmann.com.br

@MarliGo

ARTIGO – Crueldade. Por Marli Gonçalves

Crueldade

Por Marli Gonçalves

jail 4Nunca se falou tanto em prisão, disso, daquilo, de um, de outro, coercitiva, temporária, preventiva, o escambau. Nunca se viu tanta gente desejar, sorrir, aplaudir, soltar fogos, dar gritinhos de prazer, comemorar a prisão de outras pessoas que nem conhece mas para as quais deseja o pior possível. Será que se tem noção do que é uma prisão, como deveria ser, qual sua função?

mao apontando direita[Atenção, aviso: esse texto não tem o objetivo de defender ninguém, corrupto, corruptinho, corruptão, colarinho branco ou colorido. Muito menos o de fazer proselitismo político de qualquer linha, babar para qualquer juiz, entrar para a direita ou esquerda. É uma crônica em que se tenta refletir. Só que qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real não é mera coincidência. ]mao apontando esquerda

A liberdade é o maior bem que existe. Ah, sim, é. É o que pode haver de mais valioso ao ser humano. Não só: creio que aos pássaros e aos animais a liberdade também tenha valor imensurável. Nada de gaiolas, jaulas, redes, gradis, cercas, ausência de luz, do Sol e da dimensão do tempo, das horas, dias e anos. E como os animais são a princípio sempre inocentes, ao contrário dos malvados humanos, sua detenção pode ser ainda muito mais cruel. Dependendo de suas espécies, são presos para serem mostrados, alguns como troféus. Alguns, para que cantem.

Não posso deixar de traçar paralelos, chamar a atenção para um ângulo da questão que está contribuindo para que pioremos muito como cidadãos, fazendo com que desçamos muito na escada evolutiva. O que é que estamos fazendo, como autômatos? Ligando a televisão para saber quem foi a presa do dia? Na casa de quem tocaram logo cedo para levar para viajar para um certo lugar? Plantões jornalísticos se formam para ver o avião decolar, helicópteros são usados para acompanhar o comboio policial. Ainda bem que perderam a mania de divulgar diariamente o cardápio como faziam no início.

Na minha lista de amigos nas redes sociais, muito ampliada por causa da profissão, vejo gente que passa o dia e parte da noite teclando impropérios, jogando toda a sua energia para pedir que se aprisione alguém desses que viraram rotina, ricos ou políticos. Os olhos brilham, as palavras pesadas brotam, e eles escrevem quase pedindo justiça com as próprias mãos, tortura, maus tratos. Por eles, desculpem, mas é o que passa, nem comida essa gente deveria receber. Se pudessem jogariam ratos, baratas e serpentes venenosas dentro das celas.

Se pudessem pagariam entrada, como se faz no Zoológico, para ir vê-los, fotografá-los, atiçá-los. As filas virariam quarteirões. Pensam que, como os canários, todos dentro das gaiolas sairão cantando, delatando.

Incomoda que não os vejo, contudo, usando dessa mesma energia para os assassinos de mulheres que estão brotando como nunca em nosso solo, apenas para dar um exemplo da contradição. Especialmente querem capturar o sapo-rei. Querem os peixes grandes, ricos e famosos, as celebridades. Repara como já se assemelham as coberturas jornalísticas de viagem a ilhas e as viagens às prisões e carceragens. O carro da esposa de um, a bolsa da mulher do outro…

Pense no que é uma prisão, o horror, e que gente de bom sentimento não pode se esbaldar com a prisão de outro ser, por mais que esse mereça e aí, se culpado for, punido e condenado for, não há dúvida, ali pagará mesmo por seu crime, porque, repito, é o horror. Não é por menos que vários barris de pólvora andam estourando em todo o território nacional.

Sim, porque visitava conheci bem uma prisão. Um presídio político, aliás, o do Barro Branco, em plena ditadura, onde semanalmente ia ver amigos meus, e era do Comitê de Anistia. Olha que dia de visita era especial. As grades ficavam abertas, e as crianças corriam de cela em cela naquele pequeno espaço, naquele corredor onde cada porta era de uma organização política diferente. Mas da minha mente jamais saiu a visão daquele pátio tenebroso, da privada turca cravada no chão, da frieza e do barulho dos pratos e colheres de alumínio, do olhar triste e melancólico da hora da despedida, do som do portão se fechando atrás de mim.

E olha só que coisa: justamente homens que estavam ali presos porque lutavam – de uma forma ou outra, sim, pelo poder político de visionários líderes – mas que antes de mais nada foram presos quando buscavam alcançar a liberdade que pudesse propiciar à política ter algum poder.

Toda prisão pode merecer ser revogada. Pensa só. Mas com a cabeça, não com o fígado.

jail 1

____________________________

oculos fendiMarli Gonçalves, jornalista – Cadeia para quem precisa. E nem toda nudez será castigada.

SP, 2016

 

____________________________________________
E-MAILS:
MARLI@BRICKMANN.COM.BR
MARLIGO@UOL.COM.BR

ARTIGO – Ordem e Progresso? Falta alguma coisa. Por Marli Gonçalves

bandeira BRPositivo operante. Estou numa saia meio justa e nem sei se justifica, porque ainda não tenho exatamente certeza do que acho mesmo desse lema adotado pelo governo que chamarei novo, mas só porque é novo, não por seus integrantes. Ordem e Progresso. Tem alguma coisa nele que já me incomodava ver estampado na bandeirabandeira BR

Amigo querido, conheço o publicitário Elsinho Mouco, e sua equipe, que foi quem bolou já começar o primeiro dia do governo Temer com uma nova simbologia, imagem, motivação. Achei perfeito terem pensado nisso, em um novo visual, que fosse astral. Foi ele quem encontrou a solução dentro de casa, rapidinho, nas imagens das manifestações de ruas com milhões de pessoas enroladas nelas, nas bandeiras brasileiras. Elas estavam nas ruas nas mais diversas aplicações, tamanhos, tecidos – e renderam dinheiro para os ambulantes. Se não é todo o mundo que conhece, certamente todos os brasileiros a conhecem. O verde de nossas matas, o ouro de nossas riquezas, as estrelas de nosso céu azul, e no seu meio, , o lema! Simples, compreensível, assimilável.

No novo símbolo que pretende substituir aquele horror da Pátria Educadora, que ficou só no discurso da posse da Dilma 2, a escolha caiu para o azul, em dégradé, o branco. O amarelo do ouro, aquela riqueza que a bem da verdade sumiu mesmo ultimamente, aparece só na faixa que circunda o globo que por sua vez se destaca, e parece pedir ordem e progresso em letras verdes, não tão garrafais, mas verdes. Bonito ficou. Ponto positivo. Uma coisa nacionalista. É, pode ser. Para recuperar um pouco do orgulho nacional. Sim, era preciso.

Aliás, passadas já algumas horas dos fervilhantes acontecimentos, podemos ver outros pontos positivos. Entre eles, a calmaria geral como se nada de diferente estivesse acontecendo, e como se houvesse, sim, um enorme alívio coletivo, interrompido apenas por murmúrios angustiados soluçando golpe, golpe, golpe, como se precisássemos bater nas suas costas para fazê-los desengasgarem. E o rebuliço das redes sociais, com seus militantes encastelados, de um lado e de outro formulando revoluções e resistências, ambos inúteis quando precisamos apenas de muita realidade. Até para entender o que foi isso tudo.

Horas depois da saída de um, já havia um outro governo entrando pela portinha quase que completo assumindo a direção – e até com símbolo! Isso eu achei genial. Tipo em horas trocamos tudo, bem, quase tudo – claro, cheio de resquícios esquisitos do passado recente e personagens que ainda nos deixam pasmos com suas incríveis capacidades de adaptação, troca de opinião e posição, e que colocam pedras e névoas em cima de seus passados. Se hay gobierno, yo estaré con él.

Voltando ao lema Ordem e Progresso preciso dizer que me incomoda ouvir isso e lembrar imediatamente de OSPB, Organização Política e Social Brasileira, que éramos obrigados a estudar como matéria. Literalmente, obrigados. Porque ensinava disciplinas, distribuía regras, obrigações e normas, disso e daquilo, uma coisa horrorosamente reacionária e limitadora. Pelo menos é assim que lembro, estudando no segundo grau no tempo da ditadura. Muita coisa que a gente precisava decorar. Eu odiava.

“O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”. “O progresso é o desenvolvimento da ordem”. Ideais republicanos. Teoria positivista de Augusto Comte (1798-1857) foi a origem do Ordem e Progresso de nossa bandeira. Esse Comte era tão louco que chegou até a elaborar um calendário, para “desenvolver o espírito histórico e sentimento de continuidade”. Vejam só: a proposta era que o ano tivesse 13 meses de 28 dias, cada mês exatas quatro semanas, e um ano bissexto para a compensação. O dia restante no final de cada ano seria para a celebração dos mortos.

LABRASIL0219Nos anos bissextos, o outro dia que sobraria, seria para, ainda segundo a proposta dele, dedicar às Santas mulheres (?!?), ou a uma determinada mulher (?!?). Impressionante o tamanho da concessão, não? – puxa, que homem generoso com as mulheres!

Ah, vá! Mas o mais doido é que ele também propôs dar nomes aos meses, glorificando importantes da religião, literatura, filosofia, ciência e política, nessa ordem, e todos bem masculinos: Moisés, Homero, Aristóteles, Arquimedes, César, São Paulo, Carlos Magno, Dante, Gutenberg, Shakespeare, Descartes, Frederico II e Bichat, esse último nome, bem acentuado, e que foi um importante anatomista francês.

Foi saber disso para ficar ainda mais preocupada com o grupo de vetustos senhores – sem nenhuma senhora – que entrou na cabine de direção do Brasil e dessa Ordem e desse Progresso. Começo imediatamente a achar melhor propor para a gente ir cuidar das nossas vidas e de nossos costumes – do que nos é de mais precioso. Vamos dar um tempo para ver o que conseguirão fazer.

Mas enquanto isso, alertas, vamos voltar a dar atenção e cuidar de nossos avanços de comportamento, das conquistas que tivemos, lembrar das leis que derrubamos e nas que precisamos ajustar. Do que necessitamos para nossas ordens, para o nosso progresso. E, fundamentalmente, para conseguir a palavra que bem que poderia já ter vindo também estampada no novo símbolo, arejando, como lema: Liberdade. Tornaria a ordem e o progresso menos reacionários.

Senti muito a falta dela. Que isso nunca seja literal.

Marli Gonçalves, jornalista A ordem é mesmo sempre tão relativa.

São Paulo, 2016

___________________________________________________________________________
E-MAILS:
MARLI@BRICKMANN.COM.BR
MARLIGO@UOL.COM.BR
POR FAVOR, SE REPUBLICAR, NÃO ESQUEÇA A FONTE ORIGINAL E OS CONTATOS
AMIZADE? ESTOU NO FACEBOOK.
SIGA-ME: @MARLIGO

ARTIGO – Mulheres, sempre à beira de algum abismo. Por Marli Gonçalves

tumblr_n22lpobkUP1sltk8co1_500Muitas vão ler isso, virar a cara, fazer muxoxo, espernear, negar, dizer que estou exagerando, que não é tudo isso, mas nunca na frente de um espelho. A mais nova ridiculice, misto de tolice com ridículo, é ficar discutindo se qualquer tititi que tem mulher no meio é feminismo ou não. Aliás, ultimamente se afirmar feminista – e eu, já adianto, sou, até porque sei do que se trata – é equivalente a ser uma bruxinha. Errado

Pois repito: mulheres, sempre à beira de algum abismo. Sempre tendo que fazer uma escolha, tendo que se desdobrar especialmente mais, com a corda esticada no limite. Não pensem que é fácil falar tão duro, mas de novo essa semana vamos ouvir muito aquelas frases construtivas que inventaram dizer em nossos ouvidos e só não tão piores como as que aparecerão no Dia das Mães, que aí o jogo é mais duro ainda. O Dia Internacional da Mulher, 8 de março, não foi criado para vender rosas nem batons. É dia nosso, mas em outros sentidos, quando devíamos todos contemplar a situação, inclusive a sua própria situação, se for mulher. Só isso. Não é nem feriado; é simbologia. É dia criado para nunca esquecermos quando outras mulheres antes de nós começaram a se impor. Não precisa mudar nada se achar que está tudo bem. Ok? Calma. Ninguém quer brigar.

walking-woman

É certo ainda que novas formas sexuais híbridas começam a se apresentar bastante influentes, e mudando a paleta de cores do que é ser homem ou ser mulher. Há variações. No caminho o povo vai se acomodando onde lhe aprouver, tantos homens quase mulheres e mulheres quase homens, numa interessante gradação. Que acomoda a todos.candystriper_pushing_pregnant_woman_hg_clr

Mas repito: ser mulher é mais complexo, essa coisa de ser geradora, fabricante de outros humanos, importa sim. Mas não é fundamental, até porque entre nós há as que não querem fazer ninguém. É mais complexo na coragem, na força que tira sabe-se lá de onde quando acuada, nas escolhas de sofia que faz praticamente todos os dias, nem que seja escolhendo o cardápio da casa, ou a cor de seus sapatos. Se vai prender ou soltar os cabelos. Cheguei à conclusão de que as mulheres sempre têm muito mais o que decidir. O dia inteiro, toda hora. Sinto na pele.

A mulher tem de sobreviver, nascer, crescer, ter orgasmos, ser feliz, bonita e disponível, compreensiva, dedicada, delicada, ao mesmo tempo que está na máquina de moer carne do mercado. Ainda tem que esperar que percebam que é dona absoluta de seu próprio corpo, não está disposta a assédios brutos. Sem autorização, jamais toque numa mulher, nem pegue nos seus cabelos – ela pode se transformar em uma onça. Eu, pelo menos, até afio as garras.

womanHá muitos paralelos. As meninas do movimento #vaitershortinho nos lembram vagamente o que foi a polêmica da minissaia, os 20 centímetros acima do joelho que mudaram uns rumos, desnorteando revolucionários. Hoje são outras coisas as solicitadas e fundamentais. Vamos lá. Outras igualdades, se é que ainda poderá haver algo igual a outro analisado do ponto de vista de gênero.

3d animasi woman playing violin animated human animation could be wallpaper and screensaverVamos organizar melhor essa batucada.

Outro dia li e fiquei muito contente com a notícia de que a Marilia Gabriela vai fazer um novo TV Mulher, reeditar a ideia básica. Vai sair coisa boa daí. Multifacetada, ela acompanhou todo esse tempo a que me refiro, que não é muito, mas já são décadas. Vamos poder conversar melhor – espero que façam as mesmas boas pautas de outrora. As sexólogas também deverão ser muito mais arrojadas do que eram a Marta Suplicy e outra famosa da época, também Matarazzo, a Maria Helena, que lembro como mais conservadora.

Vamos, por favor, continuar comentando, observando, fazendo. Nos encontraremos todas à beira de nossos abismos pessoais, e onde acabamos sempre por mergulhar, no mínimo para ver no que dá.
Mulher é curiosa.

SP, 2016 programmer_woman

Marli Gonçalves, jornalista Estamos em um momento muito pulsante, que não requer divisões, mas homens e mulheres com atitude. Ah, outra coisa, antes que esqueça: se me xingar de feminista eu gamo, entendeu?

********************************************************************
E-MAILS:
MARLI@BRICKMANN.COM.BR
MARLIGO@UOL.COM.BR

POR FAVOR, SE REPUBLICAR, NÃO ESQUEÇA A FONTE ORIGINAL E OS CONTATOS

AMIZADE? ESTOU NO FACEBOOK.
SIGA-ME: @MARLIGO

———————

ARTIGO – Deputada, faça-me o favor. Por Marli Gonçalves

mulherzinha espertamulherzinha rebola com bandeiraVou te contar, viu? Tanto sangue derramado, tantas e tantos mártires, ainda falta tanto para a gente, nós, mulheres, nós, homens, conseguirmos, todo dia, tanta coisa para olhar e uma deputada dessas perde tempo para mobilizar outras e pedir lei ou regra de costumes para proibir decote? Minissaia? Impor até cor de tênis? Ah, vá se catar.

Um desserviço para a causa feminina, qualquer que seja ela.

Vá se catar! Vão, vão se catar todas as outras múmias que apoiam esse projeto ridículo da tal Cristiane Brasil, do PTB do Rio de Janeiro! Pior: ainda tentam explicar. Aproveitem e levem com vocês aqueles moralistas do pau oco que ousam ocupar o Parlamento como templo. Ficam lá pondo as mãos para cima e saudando o Senhor de um lado, e roubando a senhora de outro. (Duplo sentido necessário). Não esqueçam os de cabelos acaju, que vocês também devem achar um horror! Proíbam-se os cabelos acaju no recinto!

A gente brigando para que mais mulheres se interessem pela política, tragam suas ideias e contribuições e me aparecem essas zinhas preocupadas com outras que andam malemolentes nos mesmos tapetes que elas pisam? Façam-me o favor! O lodaçal mancha os carpetes verde e o azul do chão do Congresso Nacional, com grande parte de seus membros na berlinda, e vocês estão preocupadas com os peitos e a bunda, o umbigo e os pés e as pernas de quem transita aí. Estão malucas? Aliás, Dona Cristiane, como vai seu pai, o Senhor Roberto Jefferson? Já foi consertada a tornozeleira eletrônica que ele quebrou outro dia tomando banho em casa, onde cumpre prisão domiciliar? Por que tanto esforço para se distanciar deste seu entre vírgulas? “Cristiane Brasil, filha de Roberto Jefferson”… Vai ser sempre isso, porque não será com ideias como essa de agora que você vai sair da sombra dele e muito menos virar líder política respeitada. Também não adianta aquela cara de loura simpatiquinha de meia tigela que exibe nos comerciais, dos quais se apossou, do seu partido, que um dia foi até importante, mas agora nem mais graça tem, nem honra sua história.women40

Idiota, não percebe que a liberdade é nosso bem maior? Pergunta aí pro coroa, veja o valor que deve dar a ela e à vida- ele é bem mais interessante e antenado do que você, quase posso garantir. Acorda, vê se ainda dá tempo de fazer alguma coisa que presta aí. Faça por merecer ao menos carregar Brasil no nome.

Detesto moralistas. Porque me parecem sempre pessoas com uma reguinha na mão tentando medir o mundo pelos seus olhos podres e desfocados. Fora isso, puxa, tanta coisa importante para as mulheres deixadas de lado. O direito ao seu próprio corpo, o mais importante, como vai passar por parlamentares mesquinhas, que não querem ver nem a pele das outras, numa discussão séria?

O exemplo chato está sendo dado por uma presidente que cada vez que se mete em encrenca, como faz dia após dia, dá um jeitinho de informar ao distinto público que é mulher e que por isso é combatida. Bota até saia e passa batom nessa hora.

Fica chato. Não misturem essas coisas, por favor.

Mulheres importunadas, violentadas, assassinadas, sem assistência para si nem seus filhos. Mulheres ainda ganhando menos que homens na mesma função. Meninas exploradas e traficadas. E você preocupada com as roupas que as “gostosas” daí usam?

Dignidade feminina não é isso. Tenham alguma, deputada, deputadas.

womenSão Paulo, setembro de 2015.

Marli Gonçalves é jornalista Fica brava quando vê gente que pode fazer não fazendo.

********************************************************************- E-mails:
marli@brickmann.com.br
marligo@uol.com.br

POR FAVOR, SE REPUBLICAR, NÃO ESQUEÇA A FONTE ORIGINAL E OS CONTATOS

Siga-me: @MarliGo

Amigo Marcelo Kahns me manda essa jóia que nos lembra de pedir uma coisa muito importante à China: LIBERDADE. Salve Wei Wei

Ai Weiwei – Dumbass (Explicit)

por Ai Weiwei

Music video for Dumbass by Ai Weiwei. Song by Ai Weiwei with music by Zuoxiao Zuzhou. Cinematography by Christopher Doyle. © 2013 Ai Weiwei.

From the forthcoming album, The Divine Comedy, everywhere June 22, 2013.

Download Single + Video: http://aiweiwei.com/music/dumbass

Dumbass (Explicit Lyrics)

When you’re ready to strike, he mumbles about non-violence.
When you pinch his ear, he says it’s no cure for diarrhea.
You say you’re a mother-fucker, he claims he’s invincible.
You say you’re a mother-fucker, he claims he’s invincible.
Fuck forgiveness, tolerance be damned, to hell with manners, the low-life’s invincible.
Fuck forgiveness, tolerance be damned, to hell with manners, the low-life’s invincible.
Oh dumbass, oh such dumbass! Oh dumbass, oh such dumbass!
Oh dumbass, oh such dumbass! Oh dumbass, oh such dumbass!
Lalalalala, lalalalala Lalalalala, lalalalala
Lalalalala, lalalalala Lalalalala, lalalalala

Stand on the frontline like a dumbass, in a country that puts out like a hooker.
The field’s full of fuckers, dumbasses are everywhere.
The field’s full of fuckers, dumbasses are everywhere.
Fuck forgiveness, tolerance be damned, to hell with manners, the low-life’s invincible.
You say you’re a mother-fucker, he claims he’s invincible.
You say you’re a mother-fucker, he claims he’s invincible.
The field is full of fuckers, dumbasses are everywhere.
The field’s full of fuckers, dumbasses are everywhere.

傻伯夷

当你要出击,他嘟囔非暴力,
你拧他的耳朵,他说这样不治拉稀。
你说你马勒隔壁,他说他天下无敌。
你说你马勒隔壁,他说他天下无敌。

宽恕你大爷,容忍你妈逼,
素质你妹耶,至贱则无敌。
宽恕你大爷,容忍你妈逼,
素质你妹耶,至贱则无敌。
傻伯夷啊傻伯夷,傻伯夷啊傻伯夷,
傻伯夷啊傻伯夷,傻伯夷啊傻伯夷,
啦啦啦啦啦,啦啦啦啦啦。啦啦啦啦啦,啦啦啦啦啦。
啦啦啦啦啦,啦啦啦啦啦。啦啦啦啦啦,啦啦啦啦啦。

像一个傻逼一样站出来,国家就是一只鸡啊
菊花开遍原野,哪哪儿都是傻逼。
菊花开遍原野,哪哪儿啊都是傻逼。
宽恕你大爷,容忍你妈逼,
素质你妹耶,至贱则无敌。
你说你马勒隔壁,他说他天下无敌。
你说你马勒隔壁,他说他天下无敌。
菊花开遍原野,哪哪儿都是傻逼。
菊花开遍原野,哪哪儿啊都是傻逼。