#ADEHOJE, #ADODIA – LULA FRITO, COM MOLHO DE DILMA E OUTRAS MORDIDAS

#ADEHOJE, #ADODIA – LULA FRITO, COM MOLHO DE DILMA E OUTRAS MORDIDAS

Estranho: procurei nas chamadas de todos os principais portais e…o Lula sumiu? Todo dia uma nova denúncia, um novo inquérito torna mais difícil a vida do ex-presidente Lula. Agora é com o envolvimento internacional, em cima daqueles, sim daqueles casos de negócios com a África. E a Dilma vai ser molho, porque está assando. Pelo que se diz, novos trechos da delação de Antonio Palloci vêm justamente contar coisas “interessantes” do governo dela, desses descaminhos que nos levaram à situação atual, chula, que nos encontramos. E a Hamburgueria lá de Salto, SP, que teve a ousadia de fazer trocadilho com a Maria da Penha, nomeando um hambúrguer porque este é feito com repOLHO ROXO. É muita cara de pau, ousadia, em um país que a cada dia tantas mulheres morem vítimas de feminicídio. É o fim da picada. E o fim do mundo, que toda hora temos algum, não? Ainda tem muito mundo para se acabar.

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ARTIGO – Ninguém está falando… Por Marli Gonçalves

E precisamos pensar e falar de tantas coisas. Ninguém tem mais tempo nem de falar, nem de ler, nem de ver tudo o que circula, muito menos de ouvir. Quer dizer, ninguém, ninguém, não é bem assim. Tem quem tenha tempo para tudo isso, inclusive para preferir enviar por tudo quanto é canto nas redes sociais vídeos que gastam mais tempo e dados para serem baixados do que para saber do que se trata.

“… O Sol nas bancas de revista. Me enche de alegria e preguiça. Quem lê tanta notícia?“ …Imagine se o Caetano Veloso  profetizava isso lá há 50 anos, em Alegria, Alegria, como tanta coisa mudou até hoje. Nas bancas de jornal, de um tudo, impressionante, cada dia empurrando mais para lá os jornais e revistas. Outro dia vi uma que vende consertos de sapatos. Viraram pequenos mercadinhos nas esquinas da vida. Melhor que lá no Posto Ipiranga.

Aliás, postos que cada vez também são menos frequentados com o preço sideral da gasolina e outros combustíveis na bomba que estoura nos nossos tanques e bolsos. Aumentando o preço e a temperatura de tudo o que consumimos e que, como vimos recentemente, chega no lombo dos caminhões.  Reparou que o abastecimento ainda não está nada normalizado? Que os preços estão siderais?

É muito louco, meio esquizofrênico. Passamos dias e dias tendo overdose de alguns assuntos. De repente eles somem como num passe de mágica. Foram atropelados por outros sem que tivesse sido concluído o anterior. Exemplos, essa história do frete e preços e os coitados sobreviventes do incêndio no prédio do centro de São Paulo, que continuam lá. Talvez você não saiba, estão lá naquela mesma praça, sem banco,  amontoados em barracas, esquecidos, tendo de roubar banheiros químicos de outros lugares para usar, porque o Governo demorou mais de um mês para lembrar desse detalhe.  Uma situação horrorosa, dramática, vergonhosa.

Ah, e a cada dia é maior o número de pessoas vivendo em barracas, nas ruas, canteiros, praças, avenidas, viadutos e buracos (literalmente) que encontram. Ou vestidas com caixas de papelão, sacos de lixo, jogadas pelas ruas como se lixo fossem. Eles não têm representação política, não são de esquerda, não votam, aliás, nem no PT, nem são vistos pelos aparelhados Movimentos sem alguma coisa. São nômades, não invadem, ocupam; mas as ruas. Não são nem gente, parece; e aquelas crianças já têm seu futuro altamente comprometido.

Pronto, chegamos a mais um assunto que nos fez, vejam só, invejar a Argentina essa semana! As proles. Lá, ao menos está havendo a discussão parlamentar sobre a descriminalização do aborto, com possibilidade até de aprovação de uma lei sobre o assunto.  Adianta sentar em cima do assunto? Não!

(Não me venham falar – acusando-os de não usarem- em métodos contraceptivos, informação, bibibibododó. Essas pessoas não têm o que comer. Muitas são analfabetas. Aliás, acaso você aí já precisou comprar remédios populares nas farmácias? Pois é, simples não é. E as pessoas que cito agora não têm nem identidade, literalmente. Muito menos receitas).

Mais um #precisamosfalar. Descriminalização da maconha.  Fechar os olhos? Tampar o nariz?  Só assim para não perceber que a cada dia corre mais livre por conta própria, em todos os lugares, todas as idades, além das pesquisas sérias sobre seu uso em medicina.

Não aguento hipocrisia, nunca aguentei , e é uma das coisas que mais me aborrecem nesse pais. Esse atraso, essa cegueira moral que tentam impingir – ou com leis que não são e nunca serão cumpridas, repressão errada , ou simplesmente esquecendo o assunto- a toda uma sociedade que precisa avançar sob o risco de acontecer o que já vemos se aproximar, o retrocesso.

Não dá para falar aqui de todos os assuntos importantes, os verdadeiros direitos humanos, atropelados nas estradas da vida e, inclusive, na imprensa que, coitada, esmorece, atacada, pobre, manipulada. Até desbancada.

Estamos precisando fazer de novo uma publicação que até hoje tem seu nome marcado na história para ser usado de novo: Realidade.

Precisamos falar sobre isso, sobre ela, a realidade, nua e crua.

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Marli Gonçalves, jornalista – Enquanto isso, a bola está rolando lá longe, quase do outro lado do mundo.

 São Paulo, 2018

marli@brickmann.com.br e marligo@uol.com.br

ARTIGO – 60, por hora, na vida. Por Marli Gonçalves

Acordei e era idosa. Sentei na cama, movi os braços, as pernas. Corri para o espelho. Chequei se continuava tudo ali no lugar, forcei um pensamento mais arrojado e tudo bem, valeu, pelo menos a meu ver, ele surgiu coerente e livre. Ufa! Tudo bem, tudo legal. Na noite anterior, coisa de um minuto para outro eu tinha pulado de fase no jogo da vida, chegando à casinha 60, aquela na qual é preciso parar um pouco, pensar e esperar quais serão as próximas jogadas.

Tudo igual. Que bom. Agora ganhei um epíteto a mais: idosa. Se provocar, tem mais: sexagenária; sessentona – palavra que pesa um pouco nas costas, principalmente as femininas. Os sessentões parecem mais galãs. As sessentonas, quando citadas, dão a entender que são espevitadas e pouco virtuosas. Usada como adjetivo aponta ironia com a informação que dará em seguida “Sessentona isso, sessentona aquilo, sessentona apresenta namorado trinta anos anos mais novo”…

Tem o coroa também, meio gíria antiga, que um dia alguém me explica. É usado para definir qualquer pessoa que seja mais velha do que quem a declama. “É uma coroa enxuta”, uma frase, por exemplo.

Engraçado, ainda bem que me preparei antes, buscando não ter muita ansiedade, meditando bastante e observando como pode funcionar para mim e para os outros. Do meu canto, me observo e observo. Consigo agora até tocar no assunto por aqui.

O redondo 60 é número bonito, sonoro, imponente e importante. Deve ter algo a mais para oferecer. Tanto que horas têm 60 minutos e os minutos, 60 segundos. Dizem que 60 era o número mais admirado pelos babilônios, que dividiam o círculo em 60 partes, e que foi assim a base na qual estabeleceram o calendário, e calcularam os tais 60 minutos da hora e 60 segundos do minuto. Achavam o número harmônico. Tem o número. 60. A palavra. Sessenta. Sixty, que tem som sexy. Soixante, em francês. Perde um “s” em espanhol, vira sesenta.

Dizem que não pareço que tenho sessenta; tem quem ache que eu não devia nem falar, mas nunca menti. Acho legal. Então até já me organizei para tirar a tal documentação que comprove onde eu precisar que agora, de um dia para o outro, ganhei uns direitos, uns descontos, mereço um outro tipo de tolerância obrigatória e até umas leis de proteção, o tal estatuto. Um lugar diferente nas filas. Vou procurar direitinho o que mais posso ter de vantagem. Porque as desvantagens já conheço e estou vendo não é de hoje nessa sociedade que pouco valoriza a experiência, e nos torna invisíveis.

Estamos aí com força total. Como o tempo passa. Outro dia eu tinha nascido, no outro cresci, fui adolescente e sempre mulher. Nenhuma das fases tão marcada a ferro e fogo como esta. O que foi bom porque carreguei e mantenho as outras partes: ainda sou criança, adolescente, adulta, vivi e agora – como determinam – sou idosa, essa fase marcada com um círculo em volta. Tô brincando com isso com meus amigos e amigas. Ouvi muitas gargalhadas e, dos que já passaram dos 70 e quase já chegam ao 80, ouço dizem: esse é um novo começo. E é neles que me fio. Afinal, quando nasci eles já eram até maiores de idade.

Adoro saber do ano de 1958, e me vejo como um acontecimento igual a muitos daquele tempo onde tudo parecia abrir um novo caminho para o país, para as ideias, arejando ideais, e com grande criatividade artística. Creio que foi um ano bem alto astral. Mais alguns anos que se seguiram também, até que apagaram a luz por 21 anos.

60 anos depois, cá estamos nós, e esse ano agora caminha carrancudo. Valeu a pena? Olho para trás e me preocupo muito é se vou ter energia e vontade de novamente lutar enfileirada para que não consigam fazer desandar de novo o tempo que conquistamos e que se perde. Combater chatos e caretas, e outros tantos que pensam torto, e querem regredir ainda mais.

Uma preguiça imensa aparece do nada. E sei que é uma sensação que invade muitos de nós, hoje idosos, e alguns ainda mais idosos –  que não deve demorar a surgir classificação posterior, já que estamos vivendo mais. Os idosos e os mais idosos, todos por aí com muita energia, superando a garotada que parece já ter nascido cansada e isolada em suas redes sociais.

Temos visto terríveis casos de suicídios, de pessoas famosas que aparentavam ser totalmente realizadas. Penso que talvez elas tenham querido apenas congelar o tempo. Porque sempre há o medo, muito medo,  do que virá.

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 Marli Gonçalves, jornalista – Tá bom, admito, esperei 48 horas para só depois escrever tudo isso. Queria ter certeza do que é que podia ter mudado de um dia para o outro.

São Paulo, junho de 2018

                                               marli@brickmann.com.br e marligo@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

ARTIGO – Bang Bang geral. Por Marli Gonçalves

Mãos ao alto! A bolsa ou a vida!– ah, agora nem tem mais isso. É a frio mesmo, ou com aquele linguajar de “mano”: perdeu. O mundo está virado. As pessoas estão loucas. Loucas e inseguras, em todos os lugares. Nos centros urbanos. Nas cidades do interior as explosões viraram rotina. O medo impera em todas as classes sociais, e a morte pode vir por nada. Ou por tudo isso.

 Mas não se preocupem. Os seus problemas acabaram. O governo acaba de anunciar a criação de mais um órgão, instituição, elefante branco, ralo, nome, título pomposo – você escolhe como quer chamar o tal SUSP – Sistema Único de Segurança Pública, seja lá o que isso queira dizer. Se acompanhar seu irmão da Saúde, o SUS, já viram em que brejo estaremos.

Vai fechando a garganta e agora piora porque a gente assiste ao crime, várias vezes, com vários ângulos, gravados por câmeras – às vezes até da própria vítima – espalhadas pelas cidades que ainda são burras. Câmeras, quem sabe um dia se por ventura nos transformarmos em cidades inteligentes poderão servir para garantir sobrevivência, não só registrar o que já está virando até certo sadismo. Algumas tevês ainda editam ou cortam partes mais violentas, outras aumentam a audiência mostrando tudo, ad nauseam, repetidamente, com apresentadores babando em cima.

Teve bate-boca severo por aí esses dias, com o caso da PM que, certeira, detonou o peito do ladrão na porta da escola onde estava com a sua filha. Houve  outros casos de reação, mas esse foi emblemático, porque era uma mãe, policial, loura, véspera de Dia das Mães, e ainda homenageada com flores pelo governador em ano de eleição; tudo bem enganchado, como se fala na linguagem jornalística.

Quem em sã consciência pode criticar? Há muito não via uma legítima defesa tão bem executada, exímia. O problema é que isso está dando margem para a volta dos dinossauros, dos trogloditas que ficam atirando insanidades de seus computadores, e acabam apoiando e piorando essa terrível escalada da violência – o bang bang – em que vivemos, ressalte-se que não é só no nosso país. Mas aqui temos mais ignorantes de plantão ou, pior, nas ruas, como candidatos, se aproveitando da aflição alheia.

Não há seriedade em torno de soluções. A intervenção no Rio de Janeiro – e as alarmantes ocorrências diárias contínuas com aumento de 86% de tiroteios, por exemplo – demonstrou ainda que não há também respeito a qualquer farda, nem verde. Virou um pega para capar. Uma caçada cruel. Bandidos X policiais X cidadãos, em todas as ordens dos fatores.

O buraco, que não é só o da bala, é mais embaixo. Não há políticas públicas ou sociais que analisem os fatos, a expansão das organizações criminosas, as regras penais, socialização, corrupção de autoridades. Pensam em criar verbas para segurança expandindo nada mais nada menos do que os jogos de azar, loterias. Deve vir algum também dos senhores das armas e suas empresas de calibres mortais.

Enquanto isso, as pessoas por aí pensam em se armar para enfrentar o clima de Velho Oeste, os arrastões nos saloons, defesa de seus bens e propriedades. Daqui a pouco algum gênio da raça vai propor a distribuição de vistosas e brilhantes estrelas de xerife.

Para se armar, tem de saber o que é uma arma, como se usa, onde guardar, e ter a cabeça no lugar. Há muitos anos, ainda no Jornal da Tarde, fiz um curso de tiro (e modestamente creio que ainda atiro bem) para uma reportagem sobre o assunto. À época estava frequente a morte de adolescentes que esqueciam a chave para entrar pé ante pé em casa de madrugada, e de crianças, mortas pelos próprios pais e suas pistolas guardadas debaixo do travesseiro. O coitadinho sentia medo no meio da noite, ia pedir achego na caminha e tomava um tiro, ali na porta do quarto, confundido com invasores. Vi muitos casos.

Temo uma nova onda de armamento. Nunca tive problemas com armas, que meu pai usava e sempre me ensinou o perigo delas. Mas gosto mesmo é de lembrar de minha mãe se defendendo com boas panelas na mão, ou com tamancos de madeira que tirava rápido dos pés quando alguém mexia com a gente.

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Marli Gonçalves, jornalista – Apenas para lembrar: há profissões que obrigam a jamais recuar diante do perigo ou de algum fato, mesmo não estando em serviço. Médicos devem se apresentar. Jornalista é outra delas – o dever de denunciar malfeitos é juramento (espero que os novos profissionais saibam disso). Os policiais também o são 24 horas, fardados ou não. Não tem nem conversa.

marli@brickmann.com.br/ marligo@uol.com.br

 Brasil, segurança seria progresso, 2018

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Haitiana estuprada no Paraná e o silêncio mortal. Cadê as autoridades? Cadê as Mulheres? Cadê todo mundo?

Aqui de minha parte, apenas agora fiquei sabendo. E passo a cobrar também. Cadê vocês, autoridades, solidariedades? Cadê???

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https://contraponto.jor.br/o-silencio-constrangedor-sobre-o-estupro-coletivo-da-haitiana/

fonte: BLOG CONTRAPONTO, DE CELSO NASCIMENTO- MATÉRIA DE RUTH BOLOGNESE

O silêncio constrangedor sobre o estupro coletivo da haitiana

(por Ruth Bolognese) – Uma haitiana grávida sofreu um estupro coletivo em Mandirituba, na Região Metropolitana de Curitiba, por 4 homens, com adendos de crueldade e na frente do marido. Até agora, nenhuma liderança de movimentos de proteção à mulher se manifestou. A OAB está calada, assim como a comissão de de direitos humanos da Assembleia e outras tantas organizações da “sociedade civil organizada” dispostas a gritar quando a causa é política.

Nem mesmo a governadora Cida Borghetti, que sempre se identificou com a defesa dos direitos das mulheres em sua carreira política, fez qualquer gesto de solidariedade à haitiana. Mesma indiferença da primeira mulher comandante da PM do Paraná , coronel Audilene Rocha, colocada no cargo também para enfatizar a valorização da mulher no atual governo.

A pergunta que precisa ser feita é: se a haitiana fosse branca, moradora de um bairro nobre da Capital e passasse por uma situação tão dramática quanto traumática, a reação das nossas representantes políticas e sociais seria a mesma?

Ainda mais que estupro coletivo não é um crime comum no Paraná, e as circunstâncias são estarrecedoras, principalmente por ter atingido uma mulher grávida que já sofre as consequências da migração por pobreza e numa tentativa desesperada para melhorar de vida.

A haitiana, grávida de um mês, e o marido foram surpreendidos no domingo (13), dentro de casa, e além do estupro coletivo o casal teve todos os pertences roubados, conforme conta o jornal Tribuna do Paraná. Os quatro suspeitos foram localizados pela Polícia Civil de Mandirituba e estão presos.

Segundo a delegada Gislaine Ortega, que comanda a delegacia de Fazenda Rio Grande, os homens entraram na residência do casal por volta das 9h30 de domingo e, depois de roubarem a casa, decidiram estuprar a mulher, na frente do marido.

Eles só saíram da casa porque, enquanto agrediam o marido, a haitiana conseguiu fugir. Na delegacia, ela reconheceu os agressores, que confessaram o crime.

E o silêncio oficial continua.

ARTIGO – Não encoste no poste. Por Marli Gonçalves

NÃO ENCOSTE NO POSTE

MARLI GONÇALVES

 Não encoste em lugar algum porque tudo pode estar eletrificado e dar choques, terríveis como os que a gente toma a cada vez que recebe uma conta, vai ao mercado, ou escuta “eles” (bem abrangentes) falarem que está tudo controlado, que gerundicamente estarão tomando providências, estarão investigando, resolvendo. Ando no geral muito cansada de mentiras e elas não param de chegar de todos os lados e nos chocar

Tudo bem que não são só as mentiras que nos põem de cabelo em pé. As verdades dos fatos também não são de brincadeira. Não dá mais para parar nem para protestar – acredito até que é por isso que as ruas estão bem vazias, só juntam uns montinhos aqui e ali, na porta de algum prefeito, de algum órgão público. Dá até tédio. Quem está podendo, na real, sair e lutar por um mundo melhor? A cada noite parecemos Penélopes esperando o nosso Ulisses. Tecemos esperanças durante o dia, aos olhos de todos, e à noite todo o trabalho é desmanchado pela verdade: o guerreiro não chega, e nem parece estar a caminho. Não há heróis, e os bandidos se largam fácil e rápido de suas celas; isso quando chegam a entrar nelas.

Não escore seu corpinho em lugar nenhum porque além do choque estará sujeito a ser arrastado por alguma enchente, roubado quando se distrair e estiver usando o celular. Ou preso por vadiagem, isso especialmente se estiver no agora patrulhado Rio de Janeiro, onde o ir e vir em determinadas regiões, digamos, está prejudicado. Quem mora nos morros tem de fazer check-in e check-out, abrir a bolsa e os pacotes para revista, sorrir para a foto e rezar para que não apareça nada em sua ficha geral, cidadão.

 Por enquanto está igual a enxugar gelo. Não impede nada, nem que você não seja eletrocutado e, ao invés de socorrido, ainda seja roubado como aconteceu com o músico do Afro Reggae morto lá essa semana. Não há respeito a mais nada, nem a fardas, das quais convenhamos já estivemos fartos. Podemos acompanhar os tiroteios diariamente via alguns aplicativos que surgiram, justamente para monitorar a violência.

 Na geral, os ânimos também vêm dando choque. Estamos tão atrasados que, embora já estejam alinhados no horizonte mais de duas dezenas de candidatos à Presidência, o debate se resume a uma tal direita e esquerda que idiotiza tudo, teimando em dividir como quando a gente faz uma risca no cabelo. Sempre sobra um fiozinho teimoso para lá e outro para cá. Nenhum diz exatamente ao que veio, a não ser lengalengas, Nhem Nhem Nhem. Não me peçam exemplos, que vocês já estão cansados de ver e tem até um paspaquera que acha que a vida se resume a armas, aproveitando os medos que sentimos. Ainda estamos ameaçados pela criação e instalação de mais postes com fios desencapados para preencher buracos.

 Há uma evidente desigualdade, e uma minoria aproveita para se dar bem melhor ainda a cada hora que passa. Contratando mal, pagando mal, explorando, aproveitando a necessidade alheia, não apoiando a produção, apenas na especulação. Desmerecendo quem trabalha e precisa, que acaba agarrando qualquer coisa com unhas e dentes, como seres primitivos. Vivemos batalhas de uns contra os outros.

 Não me entendam mal, mas tive de recolher meu otimismo nos últimos tempos, como observadora atenta por vários ângulos. Cansada de ver triunfar só as nulidades, “de tanto ver triunfar as nulidades de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, que o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.” Rui Barbosa, se de onde está pode acompanhar algo, deve estar bobo de ver que passa século, entra século, assim é.

 Acabo de ver uma metade de uma melancia sendo vendida a 14 reais. Uma amiga querida padece e morre lentamente no leito de um hospital público e já aparece gente e parente distante cobrando contas atrasadas. Dá vontade de não querer ver é mais nada.

 Mas nem para fechar os olhos se tem mais sossego. Não há onde se escorar, encostar; apenas se deixar levar.

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Marli Gonçalves, jornalista – Consciente do inconsciente coletivo e de seu grau de insanidade.

  marli@brickmann.com.br/ marligo@uol.com.br

Brasil, 2018

ARTIGO – Placas, sinais e desvios. Por Marli Gonçalves

 O sinal está fechado para nós, todos, os que são jovens, os que já passaram por isso e os que estão chegando.  O tempo passa ligeiro, alta velocidade, e sempre parece que estamos na contramão, sem saber para que lado virar, quando parar. Acabamos sendo multados por isso.

Desde muito criança tenho a mania de ler tudo o que passa pela frente.  Os letreiros das lojas, as faixas espalhadas pelas ruas, os cartazes, os muros. As placas dos carros, inventando expressões e frases surgidas com as três letras. No final do dia o cansaço urbano, incluindo a falta de horizontes daqui de São Paulo, onde procuro frestas entre prédios para espichar o olhar. Não admira que nossa visão seja tão embaçada.

A desorientação é geral.  A da realidade, de nossos caminhos.  Que nos fazem perder-nos sempre e que agora até se julga possível de reverter com aplicativos , mostrando os traçados que bem entendam que devamos seguir. Mas que nos fazem perder ainda mais. Experimenta precisar de orientação: as placas não estarão lá, ou estarão tortas, chutadas, pichadas, sujas, cobertas, erradas.

Por aqui a coisa anda ainda pior, porque é ao léu, ao vento da decisão de algum gênio dentro de algum gabinete. De repente criam uma faixa que não existe, uma ciclovia feita por cones patrocinados de um banco, revertem a mão de direção e você tem de andar e olhar no relógio porque é confusão total de horário para ir e vir. Apareceu agora a mania de pendurar faixas horrorosas atravessando as avenidas e que, se quiser saber qual é o alerta, é melhor parar e ir a pé bem debaixo delas para tentar ler toda e tentar entender o que dizem, sempre com sérios problemas de pontuação.  Já vi uma de cinco linhas, e as letrinhas, Ó, o tamaninho delas. A tal faixa exclusiva de ônibus funciona de tal hora a tal hora, mas só depois de uma outra tal hora, dependendo se se é sábado, domingo ou feriado. Se está quente ou frio, seu sexo, se gosta de azul ou de vermelho, se tomou café-da-manhã, etc.

Sinceramente, anda difícil fazer tudo direito. E preciso lembrar que a tal famigerada faixa de ônibus, que você tem de invadir em alguma hora ou para procurar caminhos ou para poder virar para onde está indo, custa uma multa de infração gravíssima. Tão sem nexo porque igual a que tomam aqueles caras que todo dia a gente vê matando ou aleijando as outras pessoas nas ruas, atropeladas, ou porque estão bêbados e resolveram barbarizar. Gente que anda armada com a direção, pedais e rodas.

Não tem como não fazer um paralelo com o momento que vivemos, essa confusão sem precedentes e que parece um buraco sem fim. É o vai não vai, o não-anda-nem-sai-da-frente, lombadas, obstáculos, desvios, guinadas mal sinalizadas que nos pegam desprevenidos.

Estradas que não dão em nada, pontes que não ligam nada a lugar algum. Ruas sem saída. Rotatórias que nos fazem ficar girando em torno do mesmo assunto, como se outros caminhos nos fossem bloqueados.

Sem direção e congestionados, com duas dezenas de candidatos que se atropelam e que não sinalizam para onde querem nos conduzir, entre eles alguns veículos bem antigos e ultrapassados que já pararam e nos deixaram na mão várias vezes quando mais precisávamos.

Precisamos urgente rever nossas orientações, nossas placas. Que sejam escritas em bom português. Fora. Chega. Não. Já vai tarde. Não somos idiotas. Parem. Cuidado com nossas crianças. É hora de mãos à obra mais à frente.

Que não nos multem mais por seus próprios erros e omissões.

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Marli Gonçalves, jornalista – a minha predileta é “É Proibido Proibir”.  Muito boa para agora, essa época de fazer Carnaval com tudo.

Brasil, desorientado, 2018