ARTIGO – Placas, sinais e desvios. Por Marli Gonçalves

 O sinal está fechado para nós, todos, os que são jovens, os que já passaram por isso e os que estão chegando.  O tempo passa ligeiro, alta velocidade, e sempre parece que estamos na contramão, sem saber para que lado virar, quando parar. Acabamos sendo multados por isso.

Desde muito criança tenho a mania de ler tudo o que passa pela frente.  Os letreiros das lojas, as faixas espalhadas pelas ruas, os cartazes, os muros. As placas dos carros, inventando expressões e frases surgidas com as três letras. No final do dia o cansaço urbano, incluindo a falta de horizontes daqui de São Paulo, onde procuro frestas entre prédios para espichar o olhar. Não admira que nossa visão seja tão embaçada.

A desorientação é geral.  A da realidade, de nossos caminhos.  Que nos fazem perder-nos sempre e que agora até se julga possível de reverter com aplicativos , mostrando os traçados que bem entendam que devamos seguir. Mas que nos fazem perder ainda mais. Experimenta precisar de orientação: as placas não estarão lá, ou estarão tortas, chutadas, pichadas, sujas, cobertas, erradas.

Por aqui a coisa anda ainda pior, porque é ao léu, ao vento da decisão de algum gênio dentro de algum gabinete. De repente criam uma faixa que não existe, uma ciclovia feita por cones patrocinados de um banco, revertem a mão de direção e você tem de andar e olhar no relógio porque é confusão total de horário para ir e vir. Apareceu agora a mania de pendurar faixas horrorosas atravessando as avenidas e que, se quiser saber qual é o alerta, é melhor parar e ir a pé bem debaixo delas para tentar ler toda e tentar entender o que dizem, sempre com sérios problemas de pontuação.  Já vi uma de cinco linhas, e as letrinhas, Ó, o tamaninho delas. A tal faixa exclusiva de ônibus funciona de tal hora a tal hora, mas só depois de uma outra tal hora, dependendo se se é sábado, domingo ou feriado. Se está quente ou frio, seu sexo, se gosta de azul ou de vermelho, se tomou café-da-manhã, etc.

Sinceramente, anda difícil fazer tudo direito. E preciso lembrar que a tal famigerada faixa de ônibus, que você tem de invadir em alguma hora ou para procurar caminhos ou para poder virar para onde está indo, custa uma multa de infração gravíssima. Tão sem nexo porque igual a que tomam aqueles caras que todo dia a gente vê matando ou aleijando as outras pessoas nas ruas, atropeladas, ou porque estão bêbados e resolveram barbarizar. Gente que anda armada com a direção, pedais e rodas.

Não tem como não fazer um paralelo com o momento que vivemos, essa confusão sem precedentes e que parece um buraco sem fim. É o vai não vai, o não-anda-nem-sai-da-frente, lombadas, obstáculos, desvios, guinadas mal sinalizadas que nos pegam desprevenidos.

Estradas que não dão em nada, pontes que não ligam nada a lugar algum. Ruas sem saída. Rotatórias que nos fazem ficar girando em torno do mesmo assunto, como se outros caminhos nos fossem bloqueados.

Sem direção e congestionados, com duas dezenas de candidatos que se atropelam e que não sinalizam para onde querem nos conduzir, entre eles alguns veículos bem antigos e ultrapassados que já pararam e nos deixaram na mão várias vezes quando mais precisávamos.

Precisamos urgente rever nossas orientações, nossas placas. Que sejam escritas em bom português. Fora. Chega. Não. Já vai tarde. Não somos idiotas. Parem. Cuidado com nossas crianças. É hora de mãos à obra mais à frente.

Que não nos multem mais por seus próprios erros e omissões.

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Marli Gonçalves, jornalista – a minha predileta é “É Proibido Proibir”.  Muito boa para agora, essa época de fazer Carnaval com tudo.

Brasil, desorientado, 2018

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ARTIGO – Pelo em ovo: procura-se. Para fugir do tema principal. Por Marli Gonçalves

marcha-feminista

São diálogos surdos, discussões estéreis. Beiram o ridículo porque não há argumentos, só contrapontos de ataques. Entendi. O que se quer é brigar. Não é resolver nada, nem conversar civilizadamente. Cada um puxa a sardinha para o que melhor lhe convém. Antigamente chamávamos isso de tirar uma sardinha…

Mais especificamente “tirar a sardinha com a mão do gato” – tentar obter vantagem com o esforço de outra pessoa. Juro, nunca vi tanta gente entendida em feminismo, assédio, violência contra a mulher, etc. etc. Quem dera fosse verdade e houvesse mesmo tantos homens e mulheres preocupados com o assunto, tão claramente exposto para quem quiser enxergar. Chega de abusos, chega de assédio. Exigimos respeito. #timesup. Acabou esse tempo. Faz tempo, embora pareça que isso aconteceu só por esses dias. A luta é antiga.

E assédio é assédio – “insistência impertinente, perseguição, sugestão ou pretensão constantes em relação a alguém”. Assédio não é paquera. Assédio não é sedução. Há uma enorme distância entre as coisas. Aqui, na França, nos EUA, na Cochinchina. Todo mundo sabe disso, sempre soube. Então porque essa chatice, esse desvio de debate? Sobrou até para o fiu-fiu dos operários nas construções, como se eles fossem grandes produtores e diretores de cinema, grandes empresários fazendo contratações; sobrou para todo mundo foi uma enorme confusão.

Que loucura. Com lances de guerra diplomática entre mulheres americanas e francesas, quando ambos os lados obviamente expõem o problema de forma absolutamente clara, complementar, mulheres importantes, vestidas de negro ou não, negras ou não, belas ou feias, estrelas ou não. Estão fazendo o que melhor podem e sabem fazer: dando publicidade a um assunto muito doloroso, do qual pouco se falava publicamente, e que muito mais do que a metade da população já sofreu. Ou vocês pensam que são só as mulheres que enfrentam assédio? Homens, não? Não sabem o que ocorre, por exemplo, no meio gay? Sabem sim, só não querem é tratar com seriedade.

Querem brigar. Opinar nas redes sociais, que ficam cada dia mais chatas por causa dessas coisas. Acham bonitinho ser do contra. Chamar de feminazi as mulheres que denunciam, que vêm a público, que abrem as cortinas sobre o que antes era apenas velado, apoiado como “normal”, “acontece no meio artístico”: o teste do sofá, as promessas, os convites, o aproveitamento de momentos frágeis, a imposição do silêncio. A concorrência entre as pessoas usando o sexo como arma.

Estou vendo mulheres que até considerava interessantes caindo nessa esparrela. Passei a vida até agora aguentando aquela frase bobagem – sou feminina, não feminista – dita com a boca cheia de um orgulho ignorante de ambas as coisas.

Agora chega. Quero ver o assunto ser, sim, discutido, mas seriamente.

E seriamente quer dizer com providências. Em cima da terrível realidade. Contra o absurdo e crescente assassinato de mulheres, violência dentro de casa, falta de proteção do Estado que cria leis, mas não as cumpre. Pela proteção e assistência real às vítimas de estupro, contra a prostituição infantil, por informação e conscientização que chegue às mulheres de todas as classes sociais, para que possam, inclusive, proteger as suas crianças.

Cartas na mesa. O mundo real está aí diante de nossos olhos. Não venham com absurdos como o daquele grupo teatral de Florença, na Itália, que teve a audácia de vangloriar mudar o final da consagrada ópera Carmen, de Georges Bizet. Na versão deles, para “não aplaudir a violência contra a mulher”, a cigana Carmen que nos fascina há mais de 140 anos não é morta pelo seu ciumento José. Mas será ela que irá matá-lo. Resolveram a questão?

Não pode ser séria essa gente. Isso é tirar sardinha. Teatral, hein? Mudar no papel, no roteiro, parece fácil. Queremos ver é mudar a realidade.

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Marli Gonçalves, jornalista – Feminista desde que se entende por gente. Feminina. Viva, para poder contar a história de quantas vezes conseguiu enfrentar essa realidade. Com a consciência cada vez maior de quantas vezes e o quanto isso tudo atrasou sua vida.

Brasil, 2018

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ARTIGO – Religiosamente… Por Marli Gonçalves

Estou aqui. Assim vão indo as semanas. A 51, boa ideia, Natal. Na 52, acabou. Chegamos agora à antepenúltima, à quinquagésima deste ano esquisito demais da conta. Não que os últimos também não tenham sido, e bastante, mas esse nos mostrou claramente o limbo e a enorme mediocridade que enfrentamos, e o que nos deixa rezando para todos os santos ou energias para que tudo consiga um bom termo

Não sou muito boa nesse negócio de religião. Dizem que você tem de ter uma, mas eu capto várias, seja para sobreviver e me resguardar, seja para entender os desígnios que nos são impostos diariamente ou ainda as linhas do destino, como se traçam. Como se embaraçam também.

Mas, religiosamente, semana após semana estou aqui escrevendo, pondo no papel meus sentimentos mais verdadeiros, me expondo até um pouco demais nesse mundo cheio de divisões em duas partes, e que na maioria das vezes não me encaixo em nenhuma delas.

Esse ano mais uma vez escrevi sobre tudo. Não foi por falta de querer, mas não pude escapar da política nacional, essa que nos envenena os poros, e que permeia tudo com suas consequências tão fortes em nossas vidas. Que afeta nossos bolsos, nossos planos, nossos sonhos.

Tentei, vocês sabem, sempre dar algum toque bem humorado, uma ironia aqui, outra ali que escorrega enquanto a gente batuca as teclinhas. Houve semanas em que isso foi muito difícil, como as quando acompanhei os últimos dias do meu pai em um hospital, e quando contei com a companhia e a solidariedade de meus leitores com os quais compartilhei emoções – e fiquei muito mais forte e muito menos sozinha por isso.

No ano, em cada uma de suas semanas, como faço desde 2008, religiosamente, repito, acompanhei cada fato que se podia destacar no momento, temas que me deram vontade de escrever, fatos que fizeram nossos dias do ano, muitos aos quais, provavelmente, teremos de voltar no ano que vem, como a violência geral, a violência contra as mulheres, a violência dos debates de poder.

No radar, também os meus temas preferidos: liberdade, jornalismo, contra a censura, feminismo, sexualidade, direitos, a observação de para onde se descaminha a humanidade e a luta pela vontade de ter um país melhor, sem tanta hipocrisia.

Toda hora acabamos, eu e os que assim como eu têm brio na cara, coragem e a honra de ter os seus pensamentos e opiniões seguidos publicamente, de nos insurgir contra quem quer acabar com nossos direitos individuais, com a liberdade, com a sexualidade, com o inabalável e expressivo crescimento da força da mulher, ou tentando impor a censura e implodir de vez com a imprensa.

Com os artigos publicados em todo o país, de Norte a Sul, um monte de cantinhos a que jamais antes imaginaria chegar, cada leitor me motiva a mesma coisa: viver. Mesmo sob tantos trancos e barrancos. Falo “meus leitores” com gosto, porque tenho alguns invejáveis, seja por seus poderes e importância, por sua inteligência, ou pela clareza com que debatem comigo, mesmo quando não concordam com algumas posições, digamos, mais libertárias.

Enfrento, claro, muitas fúrias e xingamentos. Mas recebo muito mais forças, elogios, opiniões solidárias e agradecidas, respostas e confidências às quais agradeço diariamente a confiança que me é depositada, e que tento honrar em resposta às dezenas de mensagens que recebo toda semana.

Assim, religiosamente, com fé, mãos juntas, chamando todas as forças do Universo, quero desejar a todos vocês um fim de ano verdadeiramente sensacional e cheio de amor e paz. Fico aqui de plantão, alerta, como uma soldadinha, se necessário for, para preservar esse seu direito inabalável de ser feliz.

 Marli Gonçalves, jornalista – Isso é que é presente. Estar presente.

SP, véspera, Natal, 2017

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ARTIGO – Ziquizira Brasilis. Por Marli Gonçalves

 Eles sempre existiram. Mas agora andam saindo das tocas inclusive de dia, atrás de comida para alimentar seus instintos torpes. E a comida deles – infelizmente – é a nossa liberdade, os princípios democráticos, a alegria. Não dá para calar porque a situação esquisita está numa crescente. Homens e mulheres cheios de ódio que parece estão gostando de nos irritar devem ser iluminados urgentemente. Não resistirão se formos firmes. Voltarão para as suas profundezas

Quer chamar atenção? Coloca uma melancia no pescoço! Capaz até de a gente achar engraçadinho porque pelo menos seria inofensivo. Mas não são nada inofensivas e nem brincadeiras as ações que temos presenciado espocar aqui e ali e que têm aumentado a frequência de uma forma preocupante. Do que vivem? Como conseguem dormir? Quem lhes deu tamanha ignorância e tanta ousadia? Onde estão os criadouros que os fermentam?

Tenho muito ouvido falar que é culpa da internet, das redes sociais que dá voz aos idiotas. Verdade. Dá mesmo. Mas encafifei que acabamos generalizando muito e o que é essencial nos escapa. O que temos de fazer é buscar os ninhos, os ovos de serpente chocados. Tipo localizar quem é a abelha rainha, a formiga mãe, o macho dominante. Quem é o enrustido problemático, o mentecapto cafajeste, o religioso doente, a mente do Mal. Nesses ninhos reside o mal que alimenta os boquirrotos, que comem as minhocas que lhe são servidas e as regurgitam nas redes. Esses são bem reais, orgulham-se de seus pensamentos e ações torpes, adoram dar entrevistas, aparecer na foto – e sempre com suas segundas intenções, acreditem.

Vergonha. Quantas vezes esses últimos dias li amigos meus falando que estavam com vergonha por conta de acontecimentos armados por essa gente nefasta. Vergonha! Vergonha do Brasil. De ser brasileiro, do papelão. Pior é realmente ruborizar e querer morrer diante das insanidades. A filósofa perseguida como bruxa, queimada como boneca, escorraçada no aeroporto. O cantor com cabelinhos de caracol, símbolo de uma era e da qualidade de nossas criações, achincalhado, tachado e #hashtagueado como pedófilo. Uns deputados obscuros e obscurantistas querendo levar à força um artista para depor lá no picadeiro deles – coitado, já pensaram você ser obrigado a ficar lá ouvindo e sendo agredido por aqueles “pelasaco”? Pelasacos são muito chatos. Os nossos, então, ainda por cima são muito burros.

Que dizer dos que, além de não nos deixarem andar para frente, com as mulheres decidindo o que fazer com seus corpos e úteros, quererem proibir o aborto das meninas e mulheres estupradas? Só pode ser gente muito ruim e sem sensibilidade para também querer ver nascer uma criança sem cérebro.

A coisa não pararia aí nos últimos dias. Houve o ápice. O absurdo da divulgação de um vídeo de um ano atrás no qual o mais do que conceituado jornalista William Waack aparece – fora do ar – resmungando e dizendo uma frase, sim, de cunho racista. Mas que é manjada até. E de maneira alguma isso querendo dizer que ele, William, seja racista, até por ser  impossível – uma vez que vem de uma família de ascendência de negros; mas nunca fez disso pilar. Pois bem. William Waack foi decepado, decapitado, dissecado e, pior, demitido, desconsiderado. E claro com um monte de gente (até uns bem admiráveis) aplaudindo seu linchamento público em prol de seus ideais supostos politicamente corretos – ah, como eles são corretos! Só eles são os bons, os puros. Pior ainda descobrir a origem, que isso foi arte de dois jovens cheios de dreads, blablabá, piriri pororó! Justiceiros… Dá até palpitação. Pavor.

Mas devemos ter pisado muito no pescoço do padre e estamos pagando por isso. Para finalizar o coreto apareceu o conhecido designer austríaco Hans Donner querendo, sim, falando sério, com gente aplaudindo, mudar a bandeira do Brasil. Legal, né? Querendo acrescer a palavra amor. Ficaria Amor, Ordem e Progresso na tira, no arco central que mudaria a posição para ascendente, ao contrário da forma atual. O verde seria degradê. O amarelo. Digamos que é uma coisa super simples de ser desenhada, reproduzida… Degradê. Degradê! Um veeeeerde… Amareeeelo. Não é genial? As estrelinhas ficariam ali mesmo onde estão.

Vocês também não gostariam de dar um golinho nessa bebida que ele sorve?

Que o Brasil está precisando de Amor, não há dúvida. Que as bandeiras brancas hasteadas que já deveríamos estar fazendo tremular nas ruas deveriam trazer amor estampado, não há dúvida.

As coisas estão tão esquisitas que só pode estar havendo uma epidemia de ziquizira. Ziquizira Brasilis, suco de nossas jabuticabas.

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Marli Gonçalves, jornalistaMais amor, por favor. Mas na real, para ser a bandeira de todos.

 Brasilzão, e ainda tem o Aécio querendo cantar de galo!

 

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ARTIGO – Uma hora dessas. Por Marli Gonçalves

Vapt, você nem percebeu, tão anestesiados que já andamos, mas acabaram de roubar uma hora sua. Dizem que vão devolver lá pelo ano que vem, parece que em fevereiro, depois de o Carnaval passar, mas já não será a mesma hora, acredite.

Puxa, eu sei e consigo entender que tem um monte de gente que adora o tal horário de verão vindo de cima por decreto. Até eu – depois de pelo menos uns três meses – acabo me acostumando e começo a gostar. Mas aí é tarde e logo volta tudo como era antes. Meu reloginho biológico que já não é o mais certinho fica insano.

O dia fica mais longo e se aproveita a claridade – o argumento mais comum para a defesa do roubo que, pior ainda, nós mesmos nos roubamos ajustando os relógios. Justamente por isso, aliás, existe o tal horário de verão, pra não ter de ligar a luz.

Não entendo, contudo, não valer para todo o país, o que dá uma confusão horrorosa de horários e fusos que creio que quem viaja bastante fique bem tonto. Vale para dez Estados e o Distrito Federal. Tá lembrado que para o Amazonas e Acre ficamos, aqui no Sudeste, com 3 horas de diferença? Três horas. A outros, como Roraima e Rondônia, nos adiantamos duas horas. Enquanto eles acordam, pensamos em almoço. Enquanto estamos na happy hour eles estarão ralando. Sacanagem. A Bahia – lembro vagamente, já fez um levante contra a mudança e pelo que vimos conseguiu se livrar, assim como outros do Nordeste.

Brincadeira. Oficialmente, o Brasil se orienta pela Hora de Brasília. Quer saber qual é a hora agora, tem site pra isso. O www.horariodebrasilia.org.br e o www.horadebrasilia.com.

Esse último tem até mais informações. Por exemplo, olha só, o que é que quer dizer quando você olha no relógio e os números das horas e dos minutos coincidem, um prato cheio para os supersticiosos. Exemplos: 00:00 – O pedido que você fizer nessa hora se realizará. 16:16Alguém deseja te beijar. 23:23A pessoa que te ama nunca te trairá. E as horas invertidas: 10:01Quem você ama está com outra pessoa. 23:32Alguém está zombando de você.

Melhor não olhar no relógio para não ficar cabreiro.

Já estamos vivendo uma hora dessas que, quando a gente lembra já dá vontade de arrancar todos os cabelos. De raiva. Fico até encabulada de pensar em tratar de um assunto mais leve do que os que todo dia vêm nos atormentando. Mas pensa o perigo de hora dessas, se eles começam a se sentir muito poderosos, passarem a nos dar ordens assim obrigatórias de seguir! Se mudam o tempo…Vaiqui.

Você sabia que houve um calendário revolucionário francês, criado em 1792, na Revolução Francesa? Era bem louco, anticlerical, e baseava-se no ciclo da natureza. O ano começava em 22 de setembro. Doze meses de 30 dias, três semanas de dez. E os anos tinham nomes bem, digamos, pops. Vindemiário, Brumário, Frimário, Nivoso, Pluvioso, Ventoso, Germinal, Floreal, Prairial, Messidor, Termidor, Frutidor. Isso figurou por lá 13 anos, até que o Napoleão botasse a mãozinha na barriga e voltasse ao calendário gregoriano.

Já pensaram os nossos caras inventando calendários? O dos petistas se basearia no 13 e correria em volta do próprio rabo e do Lula, que consideram o Sol iluminador. O de Temer não teria dia, só noite, para ele se encontrar com quem quiser e não parecer estranho ou vampiro. As horas do Doria seriam mais cronometradas e controladas. As dos outros tucanos ainda serão decididas em alguma reunião de muitas horas que uma hora dessas eles convocarão. Para decidir apenas quando se reunirão.

Hora dessas o que vai acontecer também é que todos eles vão acertar seus reloginhos uns com os outros e nos deixar esperando ansiosamente dia após dia o 10 de novembro de 2018 quando teremos a possibilidade de varrê-los com nossos votos.

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Marli Gonçalves, jornalista – Se esse tempo não chegar, hora dessas jogamos a toalha. Enquanto isso tentarei olhar toda hora o relógio ver se consigo coincidir com 04:04Alguém que está longe pensa em você. Mas vai servir se for 15:51Você vai reencontrar um velho amigo ou 20:02Você encontrará um coisa que pensa que perdeu.

SP, Vindemiário, 2017

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ARTIGO – Em nome delas. Por Marli Gonçalves

Se cometem as maiores barbaridades. Em nome delas. As crianças estão na berlinda e são sempre as primeiras e principais vítimas das sandices humanas. Além de vítimas de tiros perdidos, abusos de todos os tipos, agora também são queimadas em surtos de malucos, armadas em nome de guerras que não são delas, e têm o futuro roubado pela corrupção e ignorância. É preciso, contudo, que se entenda que não é preciso ter uma em casa para gostar delas, ser considerada como mulher, nem muito menos para protegê-las. Mas que as protejamos do que é real.

Virou um festival essa história de proteger as crianças da maldade que só existe na cabeça dos adultos. De, em nome delas, se arvorarem os paladinos da cultura, arte, moral, civilidade e sociedade. De tentar impedi-las de crescer, compreender, conhecer e especialmente aprender a se defenderem. De quando em quando são lembradas, muitas quando não há mais o que fazer. Quando aparecem jogadas na areia, náufragas da imigração que tentava lhes dar alguma chance. Quando surgem com suas lindas carinhas e mãos sujas do sangue da violência ou soterradas em suas péssimas e insalubres condições de vida.

Canso de – a cada vez que trato com sinceridade de algum assunto relacionado a crianças, mesmo que por distantes vias e temas – ver caras viradas, duvidosas, algumas até compungidas em piedade, tadinha dela (de mim), outras raivosas. Não, não tenho filhos. Muito cedo decidi que não os teria, e assim levei minha vida. Conheço muitos e muitas que, se tivessem consciência, deveriam ter deixado de procriar, mas usam as criaturinhas para se escudar, inclusive economicamente, porque os bichinhos podem render boas pensões, amarras amorosas e emocionais, etc. e etc. que nem preciso declinar, você aí bem sabe, já viu ou conhece e viu acontecer.

Parece-me que para uma sociedade chegada à ignorância, ao puritanismo e hipocrisia, isso seja algum tipo de deficiência, não ter filhos. É um reducionismo maléfico. No episódio contra a censura e contra o linchamento da mãe que levou a filha à exposição choveram comentários com a mesma bobagem proposta: se fosse seu filho ou neto, você levaria? Resposta: sim, desde que considerasse que sim. Simples. Algumas me propuseram até levar o próprio homem nu pra casa! Resposta: sabe que não seria nem má ideia?

Qualquer coisa nova que é apresentada, lá vem lépida a pergunta: e o que você acharia se fosse seu filho? Eles aplicam isso à questão da liberação das drogas, à liberdade sexual e à questão de gêneros. Diminuem a pessoa à régua deles. Não há argumentos para tanta cegueira.

Não tenho filhos porque assim resolvi. Assim como resolvi não casar. Afirmar isso não me faz melhor ou pior, nem significa que as odeie, ou que seja uma “solteirona” convicta, que não tenha tido vários casamentos sem papel. Que mania de achar que todo mundo tem de seguir a tal cartilha de família feliz com adesivo e tudo! Em compensação, posso dizer, cuidei de meus pais da melhor maneira possível. Respeito crianças, idosos, animais. Só não respeito mesmo é a hipocrisia, censura, autoritarismo e maledicência. Não respeito esses seres impostores que se aproximam.

A propósito, toco no assunto por estarmos vivendo evidentes dias de horror, atraso, censura, atrelados ao crescimento de algumas religiões que nada mais fazem a não ser impingir primeiro a culpa, acenando depois com alguma espécie de perdão e reconhecimento – mas desde que se junte ao rebanho que diz sim, atacando ferozmente outras crenças. Basta ouvir a propaganda de alguns partidos, contar quantas vezes citam com aquela cara compungida a palavra família e associam a participação da mulher aos filhos, no maior lenga-lenga.

Antigamente, quando se queria ofender uma mulher por achar que ela não devia estar ali, mandavam para o tanque. Vai lavar roupa, Dona Maria! – ainda se ouve um pouco no trânsito.

Pois agora devemos – e podemos – devolver, quando políticos sem noção vêm se meter em assuntos da vida privada e sobre os quais não precisamos saber a opinião deles. Vão cuidar de arrumar a Educação, a Saúde, a rede de esgotos! Parem de roubar as perspectivas, Senhores do Poder.

Deem uma chance às crianças. Esse será o melhor presente para elas. Dignidade. Em nome delas há muito que fazer.

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Marli Gonçalves, jornalistaNo Dia da Padroeira, reze pelos pequeninos. Eles terão de enfrentar dias bem difíceis pela frente. Nem toda nudez será castigada.

Tempos atuais 2017

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ARTIGO – Ria. Você está sendo desgovernado. Por Marli Gonçalves

Que piada de salão que nada! Tudo isso vale meme, paródia, escracho. Trocadilho. No país que é cada vez mais o paraíso dos humoristas ácidos que lidam com a realidade,  difícil discernir o que é anedota do que é verdade, sério ou importante, se é que alguém ainda sabe o que é isso exatamente.  E se fosse só na política…

Bala zunindo pra tudo quanto é lado, o pau comendo em uma das maiores favelas – ops!, comunidades – do país. As paredes esburacadas mostrando o quanto a coisa é antiga. Briga aberta de traficantes, sendo que um deles está a milhares, mi-lha-res, de quilômetros, preso, presinho, trancado, mas com telefone – pasmem – e que funciona, por onde dá ordens.

Você prestou atenção? Você ouviu os assobios das tropas do Exército que desfilavam seu verde só nas redondezas até que alguém os mandasse ir lá ver o Brasil descendo a ladeira?  E os comandantes. Um ousa dizer que está tudo pacificado enquanto a violência faz metástase em bairros nobres do Rio de Janeiro, vizinhos da cidadela. Um outro escreve no Twitter que vai pedir ajuda, o que emputece o ministro que fecha a cara porque quer um oficio timbrado, sabe como é, né, ele é o tal Poder.

Para combinar, tudo isso em plenos dias que o Rio de Janeiro tentava ao menos relaxar com seu Rock in Rio que coincidentemente ao momento alguém resolveu que viraria sigla, RiR. Combinando.  Ô mania que esse país tem por siglas!

Não é por menos que sites como o Sensacionalista e seres como o personagem Joselito Muller estão crescendo e se multiplicando. O país virou piada. Mas os maiores humoristas já estão no poder. E pretendem, parece, continuar com suas piadas de péssimo gosto.

Enquanto isso, a mídia a cada dia dá passos mais largos em direção ao empobrecimento geral da nação. E dando “ibope”. Quer um exemplo? Fácil. Vá aos principais portais e veja quais são os fatos mais lidos, aos borbotões. Pensa que é a situação econômica, a falta de remédios – inclusive básicos – nos postos de saúde, a indigência moral e ética? Não!

Com a ajuda dos personagens que a cada dia abrem mais as pernas e a mente de suas vidas pessoais, e fazem questão de dizer se transaram com um, dois ou três, se era grande ou pequeno, que botaram peito ou tiraram peito, se cortaram ou se deixaram, para não citar fatos ainda mais cretinos, esse virou o mundo atual. Todo mundo querendo ser mais “moderno” do que o outro. Mais avançado, mais arrojado, mais up-to-date, com mais seguidores até no inferno.

Um imbecil, o Roger Moreira, que sempre foi até conhecido por seu QI alto, pau grande como sempre fez questão de informar, e até com alguma anterior qualidade musical, aparece para se ultrajar e apoiar a censura, mexendo com uma artista reconhecida da forma mais chula que vi nos últimos tempos, com desenhinho. Até o pequenino sertanejo Zezé resolve declarar que a ditadura não foi “tão ruim assim”. Que tempos tenebrosos.

Legal ser como sou e como sempre fui para poder escrever isso. Quero ver alguém vir me dizer algo ou me chamar de careta, reacionária. Ultimamente, se reclamo dos governos de araque da última década, tenho sido chamada de esquerdinha, vejam só, o que já me faz rir muito com meus botões e história.

Quer saber? Estou farta de oportunistas que pegam assuntos sérios para se promover e acabar ocultando a total falta de qualidade de seus trabalhos. Na música andam brotando em solo fecundado.  Com o episódio do juiz /cura gay é só procurar, que não foram poucos a tratar da questão como se especialistas fossem, pegando o assunto a unha. No palco do Rock in Rio teve disso, teve Fora Temer com direito a brinco e beijo. Façam atenção: cada vez mais rápido eles chegam e vão. Um Ney Matogrosso que há décadas revoluciona, real, com qualidade e cultura, é coisa rara.

Sim, é fundamental dar visibilidade às causas. Mas a todas. Inclusive ao número de jovens que influenciados por ímpetos andaram se operando, fazendo significativas modificações corporais,  e estão por aí arrependidos. Ou doentes por ingestão descontrolada de hormônios. Ou, ainda, arrependidos de terem desenhado seus corpos com desenhos malfeitos e tintas tóxicas. Ou…

O que é importante não é piada, nem se limita a experiências pessoais de famosos, celebridades e subcelebridades.

Precisamos falar sobre isso. Antes que seja tarde demais. E mais do que 15 minutos.

Marli Gonçalves, jornalista Rir para não chorar.

Brasil, a caminho do 2018

 

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