ARTIGO – Segunda Etapa, e lá vamos nós! Por Marli Gonçalves

E salve-se quem puder. Semana que vem. Acredite. Chegou o segundo semestre de 2020 e, se está aí do outro lado, por favor, sorria. Você está vivo, e isso não é pouco visto o que passamos nesses últimos seis meses. E a força que precisaremos para vencer os próximos

Todo ano nessa época gosto de brincar de fazer o réveillon do segundo semestre, na passagem de junho para julho. Este ano, então, vamos fazer assim: nessa hora, à meia noite, uma prece forte pelos milhares de mortos e um agradecimento verdadeiro pelos que estão bem, pelos que se curaram. E por nós, que estamos contando a tal triste história.

Passou rápido. Perdemos muito da dimensão do tempo, esse sempre misterioso contar das horas. Aprendemos. Tivemos e temos medo. Coragem. Ir até ali já é um desafio. Como já vivi muito mais de meio século, dá para dizer: quanta coisa mudou, quantas coisas que jamais imaginaríamos estão acontecendo, aqui, especialmente, e no mundo todo. Quem algum dia pensou em viver uma época assim? Que não poderíamos nos tocar, abraçar, beijar, amar. Que afogaríamos e embebedaríamos nossos corpos (e coisas) no álcool? Em gel. Que temeríamos também o andar da política. Que tantas mentiras novamente nos atordoassem.

E há ainda esse vaivém que a todos nos deixa a cada dia mais confusos. Uma hora pode isso; na outra não pode mais. Autoridades batendo cabeça, cientistas fritando os miolos, as equipes de Saúde tentando controlar o que mais já está claro que é incontrolável, pelo menos por enquanto.

E o combate? Como lidar com os negacionistas, com a ignorância, com a ignomínia, essa palavra que diz tudo?

Como lidar com as pessoas nas ruas que nos pedem ajuda, olhos fundos, muitas esfregando a barriga no lamento para demonstrar que estão com fome, o desespero máximo que poderá se juntar ao frio que anuncia sua chegada pelas bandas de cá?

Não sei dizer realmente se estamos melhores ou piores do que outros países, que todos têm problemas a resolver, mas uma coisa é certa: nesses meses, mais do que em muitos outros locais, aqui estamos guerreando contra vários inimigos, muito além da pandemia, do vírus, das incertezas. Gafanhotos políticos que corroem a democracia, os princípios básicos da liberdade, tentam por abaixo os pilares básicos que construímos tão esforçadamente, picotam a cultura nacional, tentam impor e limitar costumes, e ainda aparecem gatunando onde podem, inclusive nos remédios e equipamentos de salvar vidas, ou na absurda remarcação de preços, na cobrança impiedosa de impostos que não vemos serem aplicados. Na pressão para que quem precisa sucumba ao rebaixamento geral imposto, muitas vezes para apenas quem tem, ter mais, acumularem mais e mais. Levantam poeiras e fumaças para que muitos não consigam avistar qualquer porta de saída. Suas declarações nos ofendem, por acreditar talvez que já estejamos mortos e sem reação. Eles nos cansam, atrapalham nossa concentração para prosseguir.

Depois, correm, doam alguma coisinha aqui e ali, pedem desculpas, clamam pelos céus, se dizem perseguidos e, como agora, buscam parecer até que querem entendimento. Se fosse uma relação pessoal devíamos denunciá-los como espancadores domésticos, do tipo que todo dia bate e depois promete que isso nunca mais vai acontecer. E é só esperar que sempre vem mais. Melhor se separar antes.

Nesse segundo semestre, enfim, será quando saberemos se realmente aprendemos algo, se a solidariedade cantada em verso e prosa será mantida, e se esses dois Brasis – contrapostos –  tão claramente delineados numa descrição perfeita feita pelo jurista José Paulo Cavalcanti em artigo – poderão se encontrar, nem que seja um pouco mais lá na frente para a reconstrução desse chão. Vamos a ele, que ainda tem muito 2020 por aí.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO – O planeta das pessoas sem rosto. Por Marli Gonçalves

Nas ruas, grande parte das pessoas que vejo – seja de minha janela, ou nas pequenas e essenciais escapadas – não tem mais rosto, mas ainda consigo ver em seus olhos o medo, a insegurança, essa incerteza geral de todos nós do que é que, de forma geral, vai sair disso tudo. As máscaras encobrem os lábios que já não podem beijar, os narizes que temem respirar aquela bolinha cheia de coroas que nos inferniza, presas nas orelhas que escutam os acordes de mortes anunciadas, as falas e atos cheios de ignorâncias, mas apenas um pouco de protestos vindos desse povo cordato e resistente

Astronautas da Estação Espacial Internacional voltam à Terra em plena pandemia e encontram outro planeta… O planeta das pessoas sem rosto.

A ideia espalhada da produção doméstica das máscaras de pano, de retalhos, feitas artesanalmente, trouxe ao menos alguma alegria visual nesse momento tão sério. Estampadas, de bolinhas, com bichinhos, coloridas, trazem um pouco de cor a esse momento cinza chumbo. Com slogans, as “Fora Bolsonaro!” agora já tem até na versão de apps para que se aplique e use nas imagens digitais.

Ainda a grande maioria – e sinceramente não sei onde as compram – é daquela descartável, branca, impessoal; tem quem use a profissional, que aliás deveriam estar disponíveis abertamente aos profissionais da saúde que reclamam sua falta na luta que travam, assim como luvas, aventais e tudo mais, além de respiradores. Para que se decrete o uso obrigatório de máscaras, que tal fornecê-las? Quando são encontradas à venda é um verdadeiro assalto à mão armada, custavam centavos, vinham em caixas; agora custam, quando aparecem, cada uma, muitos reais. E atentem, dessas, simples, que deveriam ser usadas apenas duas horas.  Quem pode pagar? Claro que estão sendo usadas, as mesmas, por dias … As de pano, agora, pelo menos parecem bem mais democráticas.

Aliás, assaltos à mão armada tornaram-se bem comuns e é como vemos os preços subindo que nem malucos nos mercados, o valor abusivo dos frascos de álcool em gel que juram estar sendo vendidos a preços de custo;  nos exames de laboratórios em busca de saber se o vírus está presente, se esteve; nas taxas de entrega dos indispensáveis pedidos a domicílio; nos preços dos remédios que agora fizeram a “gentileza” de informar como congelados. Obrigada, Senhor, mas cadê fiscalização?

O poço das diferenças sociais está aberto e é muito fundo. Dentro dele está o resultado de décadas de descaso com a infraestrutura, com saneamento, com investimentos na saúde e equipamentos. A burocracia chega à tampa, como vemos no desespero das filas em busca da esmolenta ajuda emergencial, e onde a palavra emergencial parece apenas decorativa. Amanhã chega, depois, talvez, no fim do mês, contas digitais para quem, em um país ainda com grande índice de analfabetos, nem ao menos tem ou sabe lidar com esse mundo tecnológico e caro, muito caro. Computadores, celulares, internet? Se nem água há em muitas das localidades! Utopias que desfilam diante de nossos olhos, que logo serão cobertos por escudos.

Tudo isso só não nos têm livrado de estarmos todos num mesmo barco, e o rádio da embarcação nos informa que estamos à deriva, porque o capitão está alucinado. Jogou ao mar os marinheiros que conduziam o timão, e dá – sem parar – sinais desencontrados à uma população apavorada.

Temos de, acima de tudo, viver para ver qual planeta verdadeiro sairá disso tudo, desse tempo sombrio, e a cada dia, infelizmente, esmorecem as teses de que sairemos melhor como pessoas, como terráqueos que somos esperando que os astronautas tenham nos trazido alternativas lá de onde vieram, desse infinito Universo desconhecido.

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ARTIGO – Colapso da razão. Por Marli Gonçalves

Derrocada, desmoronamento, ruína – os melhores sentidos de colapso, a palavra que era ameaça, mas já chegou, se instalou e precisamos nos livrar dela. Assistimos à derrocada, desmoronamento, à verdadeira ruína da inteligência, do bom senso, da ética, em uma parte da população brasileira que apela para a ignorância por falta de argumentos, consciência, informações ou mesmo por má-fé – o colapso da razão

Collapse OS, o sistema operacional para sobreviver ao apocalipse ...

Escrevo sob forte impacto e tristeza, de quem acabou de saber que perdeu um amigo, um grande jornalista, que foi sempre um exemplo de cidadão: Randáu Marques. Morreu do coração, o coração que em seu corpo só emitiu amor e carinho com seus colegas. Randáu, além de ter sido uma pessoa simplesmente maravilhosa, do bem, foi o precursor da luta pelo meio ambiente, um dos primeiros que nos informaram e fizeram entender a ecologia e sua intima ligação com a raça humana e sua sobrevivência. Sabe Cubatão, que já foi o endereço da morte, com seus bebês nascendo sem cérebro? Sabe a Mata Atlântica? Muito antes de Partido Verde! Sabe tudo isso que ainda estamos ouvindo hoje da menina Greta? Pois é, Randáu nos alertava em pleno anos 80 do que poderia vir, do que viria, do que veio. Falava sobre a natureza como ninguém. Tive a honra de trabalhar com ele no Jornal da Tarde.

Escrevo também sob forte impacto dos números que todos os dias atravessam o limite da vida, dos mortos por um vírus muito real, muito visível, muito devastador, mas que ainda tem quem não acredite nele, não leve a sério a única forma  – difícil, sim, mas única – que temos de desacelerar seu caminho de destruição e morte, o isolamento social, a quarentena. E eu não quero ver, nem saber de mais pessoas tão importantes nesse mundo sendo levados por ele na sua barca maldita, que agora tem navegado lotada, e em todo o mundo. São perdas, todas, inestimáveis, e com elas, principalmente os idosos, se enterra conhecimento, vivência, lutas vencidas, histórias que mal tivemos tempo de honrar, em todos os campos do conhecimento.

Escrevo me sentindo muito revoltada – e perplexa – com o governante que  mais uma vez começou e terminou a semana nos ameaçando com suas grotescas palavras, atos, declarações e chamadas incessantes da população para a fila da morte, lá onde não há um metro de distância uns dos outros nas covas que se abrem continuamente guardando os corpos de pessoas de todas as classes sociais, e que não pararão de chegar nelas se não houver um basta enquanto for tempo.

Ao ver o número de pessoas aqui em São Paulo, o epicentro nacional, saltitantes pelas ruas, lotando-as bem coladinhos uns aos outros, respirando, espirrando, tossindo, cuspindo; abrindo clandestinamente seus comércios, largando os cuidados básicos para evitar a disseminação descontrolada do vírus, e sem precisão, sem serem obrigadas já que não trabalham em serviços essenciais, tristeza e medo se misturam. Estarão eles se achando deuses, eleitos como imortais, fortes e viris, desconhecendo o perigo e seguindo o tal irresponsável Messias e seus asseclas? Acreditam que assim a economia – como se vidas pudessem ser descartadas – não será afetada?

Acreditarão eles que o remédio propagandeado sabe-se lá por qual interesse, dia e noite por um ignorante, mau militar, mau líder, péssimo político, funcione mesmo?  E que gotas dele pingarão do céu sobre suas cabeças coroadas os isentando de serem infectados e que, se o forem, bastarão pílulas mágicas? No mundo, inclusive em lugares desenvolvidos, mais de um milhão de infectados, a morte de muitos milhares diariamente já não teria sido evitada se o remédio fosse tão mágico? Médicos, cientistas perdem o tempo precioso que poderiam estar dedicando às suas pesquisas para vir a público desmentir essa eficácia, alertar para os grandes riscos colaterais.

Estarão todos surdos? Incapazes de ver a progressão aqui em nosso solo? Acham talvez que os hospitais de campanha improvisados sendo construídos a toque de caixa são para enfeitar as cidades?

Os especialistas temem o colapso da Saúde e que virá caso um grande número de pessoas sejam infectadas ao mesmo tempo e necessitem de internação, respiradores, atenção médica, isso além de tudo o que diariamente leva pessoas aos hospitais, já tão deficitários muito antes disso tudo. Um outro grupo que busca se contrapor teme o colapso da Dona Economia, como se essa antes já não estivesse tão cambaleante e sem ações e respostas positivas, e que agora querem usar para justificar um governo até aqui de fracassos, escândalos, gafes, com poucos ministros bons entre um grupo que parece ter se evadido da escola ainda no jardim de infância. Irresponsáveis, serão julgados pela História.

Pois nós, eu e uma grande parcela da população, temos uma informação: já há um grande colapso: o da razão. E todos nós seremos vítimas disso, de uma forma ou outra, hoje ou no amanhã que há de chegar, mesmo que com seus passos duros, caminhando e aprofundando ainda mais as disparidades sociais desse país.

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ARTIGO – Uma loteria macabra. Por Marli Gonçalves

Estranho quem ainda não acredita no poder letal do Covid-19 como se fosse – como se alguém pudesse ser – totalmente imune a ele neste momento entre os mais terríveis da história recente da humanidade. Aposto que apostam em ficarem ricos nas loterias onde realmente a chance de ganhar é uma entre muitos milhares, milhões. Nela acreditam; até pagam por isso. A maior desgraça mundial hoje, além do vírus, é a ignorância, e que aqui no Brasil há anos contamina nossos dias

The National Lottery Draws - BBC

Tenho tido terríveis crises de ansiedade, que culminam com palpitações, dores de cabeça, pensamentos desencontrados e preocupados, medos e angústias, além de uma revolta especial com ignorantes, que antes até conseguia suportar com alguma paciência, mas que hoje atingem também a minha saúde.  Começo com essa afirmação porque creio firmemente que o momento é de sermos sinceros uns com os outros, trocarmos ideias, sensações.  Que a gente ponha para fora o que sentimos, em prol até de ao menos mantermos um mínimo de sanidade mental.  Estamos – e agora a expressão parece fazer sentido – dentro de caixas, nossas casas, isolados. E mesmo que não totalmente sós me parece que nunca vivemos de tal forma bruta essas sensações todas e elas são totalmente individuais. Difíceis de serem descritas, mas que atingem e por mais que queiramos nos fazer de fortes.

Como você está? – pergunto. Embora não possa ajudar muito e a cada dia esteja mais claro que não temos a menor noção do que realmente ocorrerá nem na hora seguinte, nem no dia seguinte, nem quanto tempo levará. Os inimigos se multiplicam, além do contágio: os boletos chegando, empregos partindo, notícias de um mundo todo em looping contando diariamente mortos às centenas, e especialmente aqui no Brasil a ameaça constante de um governante absolutamente alucinado atrapalhando o serviço de quem está na linha de frente: seus próprios ministros, autoridades em saúde, profissionais, cientistas, imprensa.

Aqui não se trata mais – incrível – de aversão, que é total, de política, direita, esquerda, vitória, derrota, mas chamar a atenção para o caminho que as coisas rapidamente tomarão se mantida essa perigosa toada.  Um presidente que dissemina notícias falsas, que atiça confrontos, que alimenta um gabinete de ódio formado por seus filhos e aconselhadores do mal, próximos. Um homem incapaz de movimentos de união, mas capaz de provocar e comandar atos e pronunciamentos que, se mantidos,  certamente ou levarão a uma insurgência jamais vista ou a uma desumana catástrofe social. Capaz, como o fez agora, de conclamar o país para um jejum (!) religioso quando dele se esperam determinações, sim, mas para acabar com a fome que já faz roncar barrigas entre os humildes, miseráveis, as primeiras vítimas da desorganização nacional empurrada anos a fio.

Não é normal, gente. Algo precisa ser feito, não sei se é possível interdição, camisa-de-força, forçar renúncia ou impeachment. Ou pedir, em uníssono, com panelas, gritos ou o que quer que seja, que se cale. Que deixe em paz quem está no campo da guerra.

Dele não se ouviu até agora uma só palavra de alento, apenas ironias desrespeitando as centenas de famílias já em luto, algumas com várias perdas ligadas entre si.

Dele não se ouviu até agora uma palavra contra os aproveitadores que cinicamente aumentam barbaramente os preços, somem com insumos. Nenhuma de suas ordens veio para acabar com os abusos, ou para proteger quem precisa. Vive apenas de suas próprias alucinações, rompantes, daquela meia dúzia que diariamente vai saudá-lo no cercadinho improvisado do Palácio, criando fatos que alimentam robôs, que por sua vez alimentam a ira dos ignorantes.

Dele não se ouviu até agora nada que preste.

O inimigo é um vírus que se respira, invisível. Ainda indomável e desconhecido, mutante. Nos Estados Unidos já há mais mortes do que no 11 de setembro. Aqui já há mais mortes do que em quedas de Boeings, barragens rompidas, desabamentos, enchentes. É mais do que uma guerra, necessitando armas diferentes, e guerras não escolhem idades. Todos atingidos – inclusive o bem maior, a liberdade.

A situação ainda está em andamento, advertem os especialistas de todo o mundo que buscam correr para conter, evitar o pior quadro que se aproxima, mais crítico ainda em vários locais onde líderes ousaram desafiar a realidade e que agora apenas correm para não serem julgados pela História como genocidas.

Precisamos continuar no jogo.  E para isso marcarmos e seguirmos os passos corretamente, para que não saia ainda mais cara essa loteria em que estamos metidos. Vamos ganhar esse jogo. Todos nós. Dividiremos o prêmio da vida.

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ARTIGO – Deepfakes: o futuro que nos espera e enganará. Por Marli Gonçalves

Apavorante. Em deepfakes eles podem tirar sua roupa, fazer você falar o que quiserem, colocar você em qualquer lugar do mundo, ou até participando de um animado vídeo pornô. Muito mais. Pior: dependendo do que possam pretender, nem precisam de você. Podem criar as pessoas que quiserem com as características e pensamentos que bem entenderem

São Tomé? Já era. Essa de acreditar só no que se vê está indo por terra e em toda a Terra. Estamos em perigo real, de vermos criados mundos paralelos completos, como a própria Criação, como religiosamente acreditamos que foi. Sete dias, descanso, costelas, ceias – tudo ultrapassado. Sairão de máquinas potentes, hardwares, guiados por mentes com domínio tecnológico, e nos serão apresentados em vídeos tão perfeitos que não será possível perceber sua manipulação. Com eles, facilmente o sentimento coletivo poderá ser manipulado.

São deepfakes, vídeos criados por softwares de inteligência artificial, que conseguem utilizar fotos e gravações da voz de alguém para criar um vídeo falso dela, mostrando não apenas ela fazendo algo que nunca fez como ainda dizendo algo que nunca disse. Ou criar essas pessoas, totalmente virtuais, com idades, raças, credos, ideologias, gêneros. Que surgirão buscando nos influenciar, domesticar, pensar como elas, até nos fazer ter raiva de outras que sejam reais. Distopia total.

Lembram daquele vídeo tosco do agora Governador de São Paulo João Doria, e que surgiu pouco antes das eleições? Ele, numa suruba. Como o conheço pessoalmente e fui capaz de jurar que por vários motivos não era ele naquela cena – ambiente sujo, etcs, principalmente os etceteras… – não me toquei à época do perigo, nem do que se tratava exatamente. E é mais, muito mais, do que mera manipulação de imagens. É infernal. Aquela era bem tosca, assim como grande parte do que está sendo feito ainda é rudimentar, produzido por nerds digitais e por pura diversão, humor, gracinhas.

Mas a tecnologia, e em pouquíssimo tempo, está ficando a cada dia mais apurada. E perigosa. E a gente aqui ainda preocupado com as fake news, que já abalam muitas estruturas e poderes, elegendo líderes desconcertantes, trazendo riscos inclusive à vida humana quando trata de saúde, como no caso das vacinas, ou causando linchamentos, que também já ocorreram. Para você entender: com deepfakes até o Drauzio Varella, em carne e osso, pode aparecer em vídeo condenando a imunização. Claro que não será ele, mas poderá ser tão perfeita a produção do falso, que você bateria o pé que, sim, você viu, você recebeu o vídeo, era ele, falando, a voz, os movimentos, os tiques. A técnica é a síntese de imagens, vídeos e sons, combinados e sobrepostos cuidadosamente.

Inacreditável é que o assunto perturbador ainda não está com a devida atenção dos governos e nações. Os deepfakes representam a mais nova ameaça à cyber segurança, sem que ainda se saiba como combatê-los. Não há regulação, normatização, legislação ética sobre a sua má utilização com os geradores de textos falsos, imagens falsas, vídeos falsos, clonagem de vozes e, o máximo, clonagem de personas. Se hoje nem as fake news conseguem ser combatidas, imaginem se esses novos monstros o serão em curto espaço de tempo. A inteligência artificial aprimorada aprendendo, sendo nutrida por informações, a criar um mundo falso em algoritmos.

Apavorante, repito. Discursos de ódio, manipulação nas eleições, ataques aos movimentos sociais, as relações humanas, tudo poderá ser afetado de forma ainda mais violenta do que o que já vem ocorrendo celeremente em todo o mundo. Tudo virtual, não haverá como prender o autor de calúnias, difamações, informações falsas que aparecem nas imagens, porque ele simplesmente não existirá. E o mundo ainda não está preparado para capturar os jovens, em geral, muito jovens, que já detêm essa tecnologia, a operam cada vez melhor, e estão gostando muito, orgulhosos dessa brincadeira que inventaram. Sem limites, farão nascer exércitos que hipoteticamente podem ser maiores do que os chineses, com a fidelidade dos soldados norte-coreanos, e com a loucura dos radicais.

Fica a dúvida: como agirão quando tiverem noção do poder que essa poção mágica poderá lhes proporcionar? Devemos temê-los? Afinal, estarão criando uma nova civilização. Como se deuses fossem. De mentira. Mas o que é verdade, ultimamente?

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Site Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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Veja, Obama não disse isso:

#ADEHOJE – – O MUNDO OLHANDO DE ESGUEIRA PARA O BRASIL

#ADEHOJE – – – O MUNDO OLHANDO DE ESGUEIRA PARA O BRASIL

 

SÓ UM MINUTO – Os olhos queimam, anda difícil de respirar, o céu do dia virou noite em São Paulo, a água da chuva preta, preta. E eles negam. As lojas fecham, ninguém tem dinheiro para nada. E eles dizem que está tudo bem. Agora, o homem que nos desgoverna tem coragem de acusar as Ongs pelas queimadas que há tanto tempo denunciamos. A ignorância não tem limites. Gente que não entende nada, patavinas, é posta em locais chave, inclusive na área de educação. A cultura, coitada, também atacada…

Até quando? Parece que amanhã, sexta, tem manifestação pe4la Amazônia. Concentração no Masp, seis da tarde. Confirmem

ARTIGO – Vulneráveis. Por Marli Gonçalves

Ameaças chegam de todos os lados e a cada dia parece mais desesperador o simples ato de viver. Não bastassem as ameaças físicas, agora também temos as virtuais, cibernéticas, digitais, intrometidas, sórdidas e perigosas. Para completar, as mulheres ainda são as maiores vítimas de ameaças de exposição de fotos íntimas, sequestro de dados e extorsões

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Invasão, vazamentos, hackers, apps de mensagem, comunicação, criptografia, Telegram… saudades do tempo em que só ouvíamos falar em vírus, que a gente imaginava como pequenos insetos ou bactérias contaminando nossos computadores. Agora o problema são ratos e vermes cibernéticos, em forma humana, escondidos em algum canto escuro. Nossos celulares, tão tecnológicos, esses aparelhinhos que viraram os verdadeiros “pets” digitais que carregamos para cima e para baixo na mão, na coleira, no bolso, na bolsa, com lindas capinhas cada vez mais variadas, chamativas  e sofisticadas – já repararam que loucura está isso? – se viram contra nós, quase que literalmente. E não é para tirar foto selfie com a câmera da frente.

Nossa vida está toda ali.

Nunca ouvimos falar tanto, tão frequentemente, e de forma tão espalhada, desse assunto que, se você pensar bem, não precisa ser autoridade, importante, celebridade, coisas assim, para ser “invadido”. É, inicialmente, gente que se diverte tentando enganar os outros, atrapalhar o serviço, armados até os dentes, mas – incrível – a arma é alguma forma de inteligência nesse campo da informática que ainda age, fala e se comunica em uma língua estranha à grande maioria de nós. Já tentou ler algum desses manuais? E as orientações para nós, pobres mortais, que quem mexe com isso acha que é tudo fácil, mas que a gente não consegue entender a sopa de letras, comandos, o que falam, os termos técnicos, uma nova língua aborígene e extraterrestre para os leigos. Principalmente quando tentam dizer o que é que temos de fazer. Que normalmente dizem que é fácil e se irritam, abruptos, com nossa total lentidão frente aos dedos ágeis deles quando se movimentam nos dispositivos.

Essa semana nosso site Chumbo Gordo ficou fora do ar por quase 48 horas. Fiquei quase esse tempo todo tentando resolver, isso ainda depois de descobrir que havia sido um ataque hacker. Foi uma dor de cabeça. Como se um bando de formigas atacasse um açucareiro ao mesmo tempo e ele tombasse (eu explico bem mais simples, né?).  Eles chamam isso de derrubar. Outro dia tínhamos sofrido um ataque, mas no site da empresa, e foi identificado que vinha de provedores instalados na Rússia. Garantimos: nós não conhecemos ninguém lá, muito menos inimigos. Os ratos não têm terra, se espalham – justamente para não serem localizados. Os caras, em geral, são contratados para o serviço sujo, ou ganham enganando trouxas com páginas falsas, ofertas mirabolantes, e-mails que se forem abertos pescam coisas e senhas dentro do seu computador. Assim como você já deve saber que tem quem venda, e bem caro, perfis, robôs, curtidas, seguidores.  Eles vivem disso. O que vem ajudando a divulgação maciça de fake news, e a defesa ardorosa de “certas” coisas, pessoas e poderes nas redes sociais.

Virou tudo território de ninguém.

Nesse território vimos a prisão de quatro cidadãos do interior de São Paulo acusados de, por meios difusos, entrarem na conta de mil pessoas, grande parte, autoridades. Não está claro ainda se roubaram as pessoas comuns e se, das tais autoridades, pegaram o que lhes é de mais valioso: a intimidade, as conversas, as decisões. Até o presidente teria sido “invadido”, mas daí nada de bom sairia mesmo…Já pensaram as conversas dele? Com os “meninos”, Filhos do Capitão, ou mandando a esposa preparar um ragu? Descendo a lenha em alguém que o contrariou?

Brincadeiras à parte, esse assunto é muito sério, está cada dia pior e não enxergamos como resolvê-lo exatamente. Ainda vamos saber muito, a não ser que seja, como quer o ministro da Justiça, todo o material apreendido destruído, queimado, “desaparecido”. Quem são mesmo esses presos? Venderam? Deram de graça? Qual interesse? Político, de verdade, de ideologia, não está parecendo, e devem estar sendo escarafunchados.

Sobre a nossa vulnerabilidade, especialmente a das mulheres, surgiram leis, mas que só funcionam – se é que funcionam – depois do leite bem derramado e das fotos espalhadas pelo vento virtual que ninguém consegue ensacar. Tenho pensado muito nestas questões e estou convencida, inclusive, que grande parte dos feminicídios que estão ocorrendo, esse verdadeiro horror, são decorrência de problemas com celulares, mensagens, privacidade invadida. Uma mensagem ingênua pode ser lida e entendida de qualquer forma por alguém contaminado pelos ciúmes e pela insegurança. Já tive, e de alguma forma ainda tenho, problemas por causa disso, e que me impedem de mandar mensagens para alguém na hora que gostaria. Pode ser interceptada, a palavra do momento, e causar barulho, que não desejo para ninguém.

Dá medo. E cada vez mais homens e mulheres se comunicam por esses meios, inclusive por trabalho e necessidade.

Sabem que ando até com receio de mandar beijos no final das mensagens?

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Marli Gonçalves, jornalista – Consultora de Comunicação, editora do site Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para as mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. Lançamento oficial dia 20 de agosto, terça-feira, a partir das 19 horas, na Livraria da Vila, da Alameda Lorena. Já está nas livrarias e à venda online, pela Editora e pela Amazon.


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ARTIGO – Natureza humana e o Feminismo. Por Marli Gonçalves

 

A paixão é da natureza humana. Por ela, enlouquecemos, nos transformamos, às vezes até nos subestimamos. Muitas coisas são da natureza humana, mas é importante pensar sobre elas para modificar essa natureza, especialmente quando mostram seu lado escuro. As mulheres têm uma importância enorme nessa criação e é preciso fazer todos compreenderem muitas das questões que nos diferenciam para que haja paz nessa relação. Simples de entender e apoiar, desde que não haja preconceitos. Muito prazer, esse é o Feminismo.

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Feminismo é para todos. Embora seja um movimento predominantemente feminino, pela igualdade de direitos em todas as áreas, luta por questões relacionadas às mulheres e às suas características inclusive físicas, por toda uma série de coisas que deveriam já estar há muito reconhecidas – mas que ainda não estão – diz respeito a todos. A toda a sociedade. Todos os sexos, idades, raças, classes sociais, gêneros. O feminismo trata do aprimoramento da natureza humana. É preciso acabar com os clichês e estereótipos que o envolvem, para que venha à luz. Quando nela chegar e puder ser visto claramente, não haverá dúvida: todos seremos feministas. Quem não for, bom sujeito ou sujeita não é… Não será.

Não é radicalismo. É a lógica. Quem pode ser contra a igualdade salarial entre homens e mulheres exercendo a mesma função? Quem pode limitar – e cada dia mais as mulheres conseguem glórias em novas e espetaculares áreas – as suas atividades, seu avanço? Quem lhes pode negar proteção em suas fragilidades? Quem lhes pode negar seus direitos e necessidades em saúde, justiça, participação na vida pública, tantos passos ainda a serem dados e respeitados?

 Apenas os que pregarem a dominação, a injustiça, o machismo, a incompreensão e a violência. E cada dia fica mais claro quem é parte desse grupo que dissemina o ódio, encobre a violência, ainda tenta manter o controle bruscamente, porque percebe que sua derrota se torna inevitável, rápida. Esses se isolarão.

Andam falando muito em mandar as mulheres nas missões espaciais à Lua. Bom. Mas demorou, hein?!? Agora há pouco bateram palmas para a nossa Seleção Feminina de futebol, mas elas há muito estão nessa batalha, e com muitas vitórias, vide Marta, que arrasou mais ainda ao jogar com a sua boca pintada, mulher, ironizando as velhas falas. Conhecemos mulheres interessantíssimas, do mundo inteiro, fortes, corajosas, e enfrentando poderosos.

Informação é fundamental. Mas as mulheres infelizmente, ainda não integram naturalmente as pautas de imprensa, embora vejamos que cada dia mais nela trabalhem, numerosas. Ainda aparecemos, sim, destacadas, mas como ETs e aí todo mundo se surpreende como esta ou aquela mulher chegou tão longe, seja no feito, no poder, no comando. A primeira mulher isso, aquilo vira manchete. Tantas outras passam despercebidas.

Há muito as mulheres vêm sendo assassinadas, violentadas, assediadas, cruelmente, mas foi só em 2015 que se moldou o termo feminicídio, que agora conta essas mortes às centenas; e precisou que estrelas de cinema abrissem as cortinas do espetáculo para que se percebesse o que ocorre todos os dias no trabalho, nos transportes, dentro das casas, nas relações. Assim por diante. Quem pensa nas crianças, que já devem ser educadas para esse novo mundo de igualdades? Quem pensa nas mulheres velhas e sem viço que vagam pelas ruas? Homens podem envelhecer com muito mais tranquilidade e sem cobranças – e vejam que até a Xuxa anda falando muito sobre isso.

Por isso e outras que tenho horror ao termo “empoderamento” que virou chiclete, uma espécie de adesivo. Ninguém precisar dar poder às mulheres, aos homens, aliás, a ninguém. Cada de um de nós o detém. E da natureza humana e de caráter individual encontrá-lo. Seja para ser como se quiser ser, seja para chegar cada vez mais longe.

Falo mais uma vez sobre esse assunto – que quem me acompanha sabe que está sempre na minha mira – porque agora escrevi um livro que chega nas livrarias esta semana, e que lanço oficialmente dia 20 de agosto, aqui em São Paulo: Feminismo no Cotidiano – Bom para as mulheres. E para homens também. Pela editora Contexto, que me convidou para esse que é o segundo livro da coleção “Cotidiano”. O primeiro foi de Luiz Felipe Pondé, Filosofia no Cotidiano.

Escrevi sobre o que vejo, vivo, e sei que viveremos ainda por um bom tempo. Realidades, sem teorias, mostrando o que se passou e o que se passa. Voltado para homens e mulheres. Hoje o movimento feminista se apresenta vibrante e abrangente – e talvez por isso mesmo estejamos assistindo a um recrudescimento contra ele, e com teses estapafúrdias. Não precisa se embandeirar.  É só ser. Viver. Deixar viver. Melhorando essa terrível natureza humana que parece sempre buscar conflitos.

Apresento a vocês, com orgulho, meu livro, e a fé de que passemos a andar um pouco mais rápido nesse assunto, ainda com conquistas tão lentas.

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Marli Gonçalves, jornalistaConsultora de Comunicação, editora do site Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para as mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto, e que está nas livrarias e à venda online, pela Editora e pela Amazon

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ARTIGO – Papai faria 100 anos. Por Marli Gonçalves

Parece título de Gabriel Garcia Márquez, mas na verdade é porque andei lembrando que o meu pai completaria 100 anos nessa próxima semana. Chegou só aos 98, cansado da vida que viu.  Um Século, e a sensação que agora estamos voltando, mas a um tempo errado

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Que século foi esse! Visto 100 anos para trás poderia parecer que o mundo ali entraria apenas em desenvolvimento e progresso, com a arte imperando, invenções importantes, um ciclo de glórias, inovações. Em paz, depois da tristeza da Primeira Guerra Mundial que atingiu em cheio a Europa, e que buscava renascer de suas cinzas. Os “Loucos Anos 20” eram vividos com alegria, com importantes transformações de costumes, e a vida parecia ter adquirido novos sentidos. Os Estados Unidos tornara-se uma das maiores potências e era também centro de irradiação de novidades em todos os setores.

O cinema florescia, a música – o jazz e o blues envolviam a exuberante vida noturna, a moda libertava mais o corpo da mulher, que deixava de ser mera coadjuvante. Já votava, se fazia presente e atuante nos acontecimentos, na opinião, na literatura, na pintura. Espetáculos, movimentos como o Surrealismo, o Dadaísmo, na moda, Coco Chanel. Foi a era das inovações tecnológicas, da eletricidade, da modernização das fábricas, do rádio e do início do cinema falado, entre tantas outras descobertas e avanços.

No Brasil, os reflexos são simbolizados na Semana de Arte Moderna, embora sempre seja a política um fator de atraso, e aqui não foi diferente. Mas havia a reação, as pessoas estavam felizes e parecia que um mundo novo chegaria, com igualdade, deixando pra trás a crueldade.

Triste sina. Com a quebra da Bolsa de Nova York, a 24 de outubro de 1929, deu-se a Grande Depressão e uma nuvem carregada pairou, finalizando o período dos sonhos. De lá para cá, outros vieram, foram, vieram, insistiram.

Mas as promessas de que os horrores das guerras não se repetiriam, que o desenvolvimento acabaria com a fome e com a miséria, que a ciência triunfaria, que os homens e mulheres se respeitariam, tantas promessas… vêm ficando pelo caminho. Que cessariam as perseguições por etnias, credos, raças, gêneros, que direitos civis e humanos seriam respeitados, quantas promessas! Estamos no espaço, mas destruindo a Terra que habitamos.

Tudo isso e muito mais passa diante de meus olhos quando lembro de meu pai, com quem convivi bem de perto nos últimos anos de sua vida. Hoje vejo por que ele era tão cético – já tinha vivido quase um século para saber, ter certeza, que os “papagaios de botina”, só assim se referia aos políticos e líderes, não têm palavra e pouco pensam no bem-estar geral. Com sua pouca cultura, mas muita vivência, acompanhou as ondas do tempo que chegou aos nossos dias.

Tristeza de ver o país disputado por toscos, de esquerda, centro e direita, que nos deixaram completamente sem opções em todas as esferas. Angústia de assistir ao desfile de falsos e hipócritas buscando manipular a opinião pública com moralismos, como se ela própria não pudesse ver e sentir com clareza o ambiente em que vive, não tivesse discernimento nem carregasse de memória a enorme lista do que precisa realmente de atenção e de construção.

Estamos voltando, regredindo, e diretamente ao que de pior houve nesses últimos cem anos.

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 – Marli Gonçalves, jornalista – Como gostaria agora de ver os nossos Anos 20 com outro ângulo, para querer viver até os 100 e poder contar novas histórias de outras gerações.

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Brasil 2019, limiar

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ARTIGO – Epidemias no Barco Brasil. Por Marli Gonçalves

Atenção, atenção! Várias epidemias nos mais variados graus se espalham vigorosas pelo país sem que as autoridades tomem providências. Em alguns casos, as autoridades até ajudam ampliar a contaminação. Oposição também é responsável pela contaminação continuar se espalhando mesmo depois da sua fragorosa derrota por incompetência, para buscar justificá-la. O bom senso já está em falta no mercado.

Vacine-se enquanto é tempo. Busque ajuda. Busque abrigo entre amigos com quem ainda possa conversar, se os tiver, escolha aqueles que escutam e argumentam com base em fatos. Afaste-se imediatamente dos teimosos que teimam que o WhatsApp é a melhor fonte para se banharem e dos que parecem não ter mais jeito, não querem mesmo se curar nunca mais. Vão cegos, até bater a cabeça na parede desolados quando descobrirem o tempo que perderam por pessoas que não mereciam sua idolatria. E se acaso mereciam, todos descobriremos juntos só bem mais adiante.

À esquerda, se observarem, depois que o jato lavou, há muitos que conseguiram a cura depois de saber dia e noite, todo dia, durante os últimos anos, de algum desvio do grupo da igreja, ops, partido, ao qual pertenciam. Quase perda total. Mas ainda há seres a resgatar também desse outro lado do rio. Tentam nadar até a margem a cada delação que é divulgada, ou quando nem eles acreditam mais nas bobagens que seus dirigentes fazem, como por exemplo viajar para adular ditaduras falidas.

 Para identificar os atingidos pelo vírus “iniuriam rei publicae” (Equivocado político): são aqueles que de um lado e de outro pregam ódio dia e noite, demonizam artistas e a cultura, detestam jornais e jornalistas que descobrem malfeitos, atacam e ameaçam a torto e direito quem ouse discordar de seus adorados gurus. Grande parte deles pode ser encontrada nas redes sociais, onde procriam.  Lá, nem mais tanto se preocupam com anonimato, e têm prazer em agir, com posts e imagens, mãos pesadas não lavadas que a tudo compartilham – incluindo as informações falsas distribuídas por robôs blocks. Os mais afetados, perceba, costumam desejar a morte de seus oponentes, depois de xingá-los com todas as pechas possíveis; as mais preconceituosas, as preferidas. Detalhe: a maioria faz essas propagandas sem ganhar nada, e costumam bater no peito por isso, se achando o máximo. No Twitter, o novo prazer de certos soldados é “subir” à exaustão hashtags bobas comandadas por um ex-músico que considero já foi genial, mas infelizmente nos abandonou para sempre. Ficou bobão, tontão, cabeção.

Algumas das epidemias registradas: deselegância e incapacidade de mínimo raciocínio, grossura ao nível máximo, preconceito e moralismo barato com cara de inveja e arrependimento, ou do que até já fez, ou do que adoraria fazer, mas não tem coragem, com gotas de covardia.

Já se observa também claramente uma nova cepa: os que dependendo do momento, mudam de opinião sobre fatos. Exemplo: tem hora que o Ministério Público é tudo de bom, todos heróis; em outra, usurpadores, sabotadores. O mesmo acontece com juízes do STF, que variam de anjos a demônios com espantosa velocidade. Outro exemplo, o Grupo Globo, especialmente a tevê. Essa se alterna entre os lados, como a mãe de todos os males, conspiradora aliada de outros grupos de comunicação, ora de “direita”, ora “comunista”.

De positivo informamos que epidemias, no entanto, são transitórias. Tendem a virar endemias, mais controladas, localizadas apenas em algumas regiões. O pior cenário é se virarem pandemias, quando se espalham pelo planeta. E já há focos, graves, em formação, e que podem ser encontrados em todos os continentes, inclusive bem perto daqui.

Tentemos uma cura rápida. Porque como o barco é o mesmo, não adianta gritar “Salve-se quem puder!”. Ele adernaria de vez.

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Marli Gonçalves, jornalista –  Sem choro nem vela verde e amarela.

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Brasil, 2019

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#ADEHOJE – YUKA, A TORNEIRA MÁGICA DE DINHEIRO E OUTRAS TRAGÉDIAS

#ADEHOJE – YUKA, A TORNEIRA MÁGICA DE DINHEIRO E OUTRAS TRAGÉDIAS

 

Só um minuto – Nada tem graça hoje, neste belo dia de Sol. Morreu Marciano, morreu Marcelo Yuka, símbolo da luta contra a violência urbana que dizima sem dó. Enquanto isso continua a saga da fritura de Flávio Bolsonaro, o Filho do Capitão eleito senador. Na conta dele, tinha dias que pingaram 2 mil reais por minuto, em dinheiro, no caixa da Assembleia do Rio de Janeiro. A morte, aos 17 anos, da ginasta Jackelyne da Silva, será melhor investigada a pedido do pai dela. Caiu e morreu horas depois. Creio que erros médicos podem ter sido cometidos. No México um oleoduto explodiu e matou outra dezena de terráqueos. Na França os coletes amarelos estão nas ruas novamente. E o Datena acusado de assédio sexual contra uma repórter do Brasil Urgente. Dias quentes.

#ADEHOJE, #ADODIA – O MUNDO FERVE, ENQUANTO POR AQUI FICAMOS SÓ OUVINDO

#ADEHOJE, #ADODIA – O MUNDO FERVE, ENQUANTO POR AQUI FICAMOS SÓ OUVINDO

 

 

ESCAPOU DOS BLACK FRIDAYS DA VIDA? UFA. HOJE QUERO FALAR DE UMA SITUAÇÃO QUE HÁ MUITOS ANOS, DÉCADAS NA VERDADE, VIVI MUITO PARECIDA, EM PARIS. MANIFS. MANIFS POR LÁ SÃO VIOLENTAS. HOJE O PAU TÁ COMENDO ENTRE A POLÍCIA E OS COLETES AMARELOS QUE RECLAMAM DA ALTA DOS COMBUSTÍVEIS. LEMBRAM DOS CAMINHONEIROS AQUI? QUANDO ME MACHUQUEI – QUEBREI O FÊMUR DA PERNA DIREITA – – A POLÍCIA PASSOU POR CIMA DA MANIFESTAÇÃO QUE EU COBRIA – ERAM ESTUDANTES SECUNDARISTAS LUTANDO POR MELHORIAS NA EDUCAÇÃO. POR AQUI A GENTE FICA VENDO O TAL “NOVO” MINISTRO DIZER – EM DOCUMENTO – COMO SOMOS, OU MELHOR, COMO ELE ACHA QUE SOMOS. O SILÊNCIO DOS NOSSOS ESTUDANTES PREOCUPA…OS ACADÊMICOS ATÉ QUE ESTÃO SE LEVANTANDO AQUI E ALI…

Brasil, mostra sua cara. Mas com dignidade. Por Marli Gonçalves

Eleições, dias que deveriam ser de festa e hoje são de discórdia, como se os principais e visíveis problemas fossem sentidos só por uns ou só por outros. Violência e virulência, assuntos deslocados, mentiras pavorosas, egoístas hipocrisias religiosas e uma cordata ignorância entraram no campo onde todos perdem. E isso não é futebol que nos deixa tristes apenas por alguns dias

Eleições, dias que deveriam ser de festa e hoje são de discórdia, como se os principais e visíveis problemas fossem sentidos só por uns ou só por outros. Violência e virulência, assuntos deslocados, mentiras pavorosas, egoístas hipocrisias religiosas e uma cordata ignorância entraram no campo onde todos perdem. E isso não é futebol que nos deixa tristes apenas por alguns dias

Serão anos duros pela frente, haja o que houver, isso está muito claro nesse país que não só está dividido, mas cortado em pedaços arrastados e espalhados salgados e com gosto de fel pelos chãos de todas as regiões. As eleições deste ano marcam um dos períodos mais tristes que vivemos, pelo menos desde que vim ao mundo, e já são seis décadas. Ainda – ainda, repito, e que pare por aqui – apenas não comparável aos 21 anos de uma ditadura que nos feriu, censurou, torturou, matou, cortou as asas de nossa imaginação, deixando apenas um toco de esperança, e que mal ou bem vinha de novo se reconstruindo.

Está uma tristeza, um desalento. Mas do que isso, um processo de cegueira coletiva, surdez geral, insanidade e infantilização de costumes, busca de falsos heróis, falta de educação, gentileza, raciocínio, de comunicação interpessoal. Não tem graça alguma, mas tem quem se ache o máximo por apoiar uma pessoa que reúne as piores outras pessoas ao seu redor, com a pior família, além dos piores pensamentos, o despreparo, e que pode nos levar a situações insustentáveis inclusive diante do mundo hoje globalizado do qual dependemos economicamente.

Do outro lado, há os que surgiram impondo um candidato fraco, fracóide, querendo nos fazer de palhaços. E que não é ele, é o outro, mas o outro está preso, e ele atua por telepatia, sem vontade própria, sem segurança, sem qualquer condição. E sem pedir desculpas pelo mal que fizeram e nos levou ao ponto onde estamos. Para eles, a culpa é sempre “dos outros”, como sobreviventes de Lost. O avião caiu, mas eles o querem remontar só com peças velhas. Ainda assim batem no peito como vestais. Também são machistas e a real é que tratam questões de comportamento de formas muito duvidosas e claudicantes.

Onde foi que nos perdemos dessa forma? Para agora termos diante de nós duas forças tão perigosas? Para onde correr? Onde está a ponte?

Há quem diga que foi tanta corrupção aparecendo. Credite isso apenas à Liberdade, e jure fidelidade a ela. A corrupção sempre esteve aí, inclusive no tempo das fardas, mas não podíamos dizer, não podíamos saber, não podíamos falar, não podíamos escrever.

Há quem diga que a violência está espalhada. E está mesmo, de uma forma terrível, mas só piorará porque poderão ocorrer confrontos ainda mais violentos e não só entre bandidos e organizações criminosas, mas entre pessoas comuns babando de ódio como as que já estamos encontrando nesse momento, inclusive amigos que considerávamos e que agora vemos apoiando, aplaudindo a insanidade, de um lado e de outro.

Mas o Brasil não é uma laranja cortada, e nós não somos gomos. Aproveito esse espaço para um apelo emocional, de coração: não deixem imperar a ignorância. Nossos maiores problemas são comuns a todos. Parem de se infernizar e nos infernizar usando mentiras, desconhecendo a história, falando esse português ruim. Procurem saber mais sobre sistemas políticos antes de falar em comunismo, fascismo. Entendam melhor o que é a cultura, as características regionais, leis de incentivo, como funcionam. Abram os olhos, esfreguem bem, vejam: as mulheres e crianças vêm sendo as maiores vítimas da ignorância e do apelo à violência.

Mais: redes sociais não são a vida real. Não faça e não deixe circular informações falsas. A realidade já é bem terrível, não precisa ser piorada, e precisa da imprensa forte e livre para ser vislumbrada – não bata palmas para malucos dançarem. Sejam eles de esquerda, direita – não são socos de uma luta de boxe ou MMA.

Não podemos quebrar nossa cara, nem termos nossas orelhas deformadas fazendo ouvidos moucos para situação tão delicada.

Vivo dias angustiantes. Sei que não sou só eu que não sou nem de lá nem de cá, e que procura a tal saída dessa caverna pré-histórica em que nos trancaram. Para acharmos, o trabalho terá de ser coletivo, e teremos de nos dar as mãos. Firmemente. Sem traições.

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Marli Gonçalves, jornalista – Volto a repetir: solteira, sem filhos (e sobrinhos, etc.). E se me perguntar “E daí?” – direi que, veja só, estou me preocupando tanto com um futuro e que é meu por um tempo bem menor do que o das gerações que muitos de vocês estão criando nesses dias que se passam hoje e que por descuido estão esquecendo de ontem.

marligo@uol.com.br e marli@brickmann.com.br

Brasil, outubro 2018

ARTIGO – Utopias, Distopias. Realidade. Por Marli Gonçalves

“O que é comumente chamado utopia é demasiado bom para ser praticável; mas o que eles parecem defender é demasiado mau para ser praticável”.

[John Stuart Mill, 1868, em discurso no parlamento britânico]

 Que será de nosso futuro? Poderemos continuar sonhando os nossos sonhos ou seremos ainda testemunhas de horrores sem fim? O mundo todo se vê diante desse dilema. E são seriados de tevê que batem os sinos do perigo para acordar nossas mentes, em ficções que, mais do que científicas, são políticas. Já assistiu The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia)? Pois fiquei apavorada com a clareza do seu recado, descrito como uma distopia.

Você também sabe e deve ter ouvido por aí. Verdade. Foi notícia. Já soube de mulheres apedrejadas até a morte? De outras que tiveram o clitóris extraído para inibir o prazer? De locais onde mulheres são obrigadas a gerar filhos, mesmo sem querer? Lugares onde só se toleram os padrões de gênero convencionais, e que penalizam com prisão e morte quem ousa o espelho? Sei que há quem pense que se armar é a solução. E que no mundo todo existe muita gente que escarafuncha na religião e na Bíblia até achar algum desígnio ou versículo que justifique qualquer de seus atos violentos.

Há quem queira uma sociedade organizada por líderes sedentos de poder, propondo sim um novo governo, mas militarizado, hierárquico, não laico e no qual as mulheres parecem ser vistas ou como erros ou como ideais para formar família com papai. Menino, menina. Rosa. Azul.

Já se chama Realidade.

Então é isso a distopia? Na definição: “lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação; representação ou descrição de uma organização social futura caracterizada por condições de vida insuportáveis, com o objetivo de criticar tendências da sociedade atual”.

As aias da série baseada em romance escrito em 1985 pela canadense Margaret Atwood têm os olhos marejados com olheiras profundas que em si falam de uma tristeza universal. Andam em pares, sempre uniformizadas em candentes e longas vestes vermelhas. Um chapéu-touca branco, engomado, oculta os seus rostos e cabelos. Observadas por soldados fortemente armados vestidos de negro saem apenas quando mandam ou para fazer compras em lugares assépticos. “Aos seus Olhos”, como se homens pudessem ser os olhos de Deus.

Uma vez por mês, em seu período fértil, são encaixadas entre as coxas de suas senhoras que lhes seguram as mãos enquanto assistem silenciosas ao que chamam “Cerimônia”. As pernas das aias são abertas e elas estupradas até que fiquem grávidas. Então, por nove meses as tratam bem, depois as jogam fora. Ainda estão vivas, aliás, apenas porque são férteis. Ali são obrigadas a ter filhos, que logo lhes são retirados, e aí seu futuro fica ainda mais incerto. Se não o fossem, já teriam sido mortas ou logo morreriam em colônias de trabalho forçado e tóxico, o destino das infiéis, ou que tenham feito qualquer coisa não aprovada em sua vida anterior. A que tinham antes dessa “revolução”, ou golpe, que matou e mata ou tortura sem dó. Em nome do Senhor

Chama-se República de Gilead essa sociedade retratada na série. Em um futuro que não parece distante – porque há detalhes que neles nos reconhecemos – um grupo cristão fundamentalista toma o poder nos EUA e lá estabelece esse terrível e cruel regime totalitário. Embora texto escrito há mais de 30 anos aponta para o mundo onde já estamos de certa forma plantados.

Por que é que eu estou falando disso? Achei que talvez fosse bom sugerir que assista antes da eleição. Procure. Quem tem NET, no Now e na Paramount. É de uma beleza emocionante, não por menos tem ganhado vários prêmios. Está na terceira temporada (aqui, ainda na segunda). Sem spoiler. Não sei ainda no que vai dar, estou muito curiosa e ansiosa para saber. Igual a nós todos aqui por esses dias.

The Handmaid`s Tale vale – principalmente para as mulheres – uma reflexão e tanto, muito além de nossas utopias ou de distopias. Muito real. Já vimos algumas partes desse filme. E dessas guerras.

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Marli Gonçalves, jornalista – Gostei de escrever sobre um seriado de tevê. Mas não consegui deixar de pensar nos paralelos.

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Brasil, 1,2,3…Era uma vez…

ARTIGO – 60, por hora, na vida. Por Marli Gonçalves

Acordei e era idosa. Sentei na cama, movi os braços, as pernas. Corri para o espelho. Chequei se continuava tudo ali no lugar, forcei um pensamento mais arrojado e tudo bem, valeu, pelo menos a meu ver, ele surgiu coerente e livre. Ufa! Tudo bem, tudo legal. Na noite anterior, coisa de um minuto para outro eu tinha pulado de fase no jogo da vida, chegando à casinha 60, aquela na qual é preciso parar um pouco, pensar e esperar quais serão as próximas jogadas.

Tudo igual. Que bom. Agora ganhei um epíteto a mais: idosa. Se provocar, tem mais: sexagenária; sessentona – palavra que pesa um pouco nas costas, principalmente as femininas. Os sessentões parecem mais galãs. As sessentonas, quando citadas, dão a entender que são espevitadas e pouco virtuosas. Usada como adjetivo aponta ironia com a informação que dará em seguida “Sessentona isso, sessentona aquilo, sessentona apresenta namorado trinta anos anos mais novo”…

Tem o coroa também, meio gíria antiga, que um dia alguém me explica. É usado para definir qualquer pessoa que seja mais velha do que quem a declama. “É uma coroa enxuta”, uma frase, por exemplo.

Engraçado, ainda bem que me preparei antes, buscando não ter muita ansiedade, meditando bastante e observando como pode funcionar para mim e para os outros. Do meu canto, me observo e observo. Consigo agora até tocar no assunto por aqui.

O redondo 60 é número bonito, sonoro, imponente e importante. Deve ter algo a mais para oferecer. Tanto que horas têm 60 minutos e os minutos, 60 segundos. Dizem que 60 era o número mais admirado pelos babilônios, que dividiam o círculo em 60 partes, e que foi assim a base na qual estabeleceram o calendário, e calcularam os tais 60 minutos da hora e 60 segundos do minuto. Achavam o número harmônico. Tem o número. 60. A palavra. Sessenta. Sixty, que tem som sexy. Soixante, em francês. Perde um “s” em espanhol, vira sesenta.

Dizem que não pareço que tenho sessenta; tem quem ache que eu não devia nem falar, mas nunca menti. Acho legal. Então até já me organizei para tirar a tal documentação que comprove onde eu precisar que agora, de um dia para o outro, ganhei uns direitos, uns descontos, mereço um outro tipo de tolerância obrigatória e até umas leis de proteção, o tal estatuto. Um lugar diferente nas filas. Vou procurar direitinho o que mais posso ter de vantagem. Porque as desvantagens já conheço e estou vendo não é de hoje nessa sociedade que pouco valoriza a experiência, e nos torna invisíveis.

Estamos aí com força total. Como o tempo passa. Outro dia eu tinha nascido, no outro cresci, fui adolescente e sempre mulher. Nenhuma das fases tão marcada a ferro e fogo como esta. O que foi bom porque carreguei e mantenho as outras partes: ainda sou criança, adolescente, adulta, vivi e agora – como determinam – sou idosa, essa fase marcada com um círculo em volta. Tô brincando com isso com meus amigos e amigas. Ouvi muitas gargalhadas e, dos que já passaram dos 70 e quase já chegam ao 80, ouço dizem: esse é um novo começo. E é neles que me fio. Afinal, quando nasci eles já eram até maiores de idade.

Adoro saber do ano de 1958, e me vejo como um acontecimento igual a muitos daquele tempo onde tudo parecia abrir um novo caminho para o país, para as ideias, arejando ideais, e com grande criatividade artística. Creio que foi um ano bem alto astral. Mais alguns anos que se seguiram também, até que apagaram a luz por 21 anos.

60 anos depois, cá estamos nós, e esse ano agora caminha carrancudo. Valeu a pena? Olho para trás e me preocupo muito é se vou ter energia e vontade de novamente lutar enfileirada para que não consigam fazer desandar de novo o tempo que conquistamos e que se perde. Combater chatos e caretas, e outros tantos que pensam torto, e querem regredir ainda mais.

Uma preguiça imensa aparece do nada. E sei que é uma sensação que invade muitos de nós, hoje idosos, e alguns ainda mais idosos –  que não deve demorar a surgir classificação posterior, já que estamos vivendo mais. Os idosos e os mais idosos, todos por aí com muita energia, superando a garotada que parece já ter nascido cansada e isolada em suas redes sociais.

Temos visto terríveis casos de suicídios, de pessoas famosas que aparentavam ser totalmente realizadas. Penso que talvez elas tenham querido apenas congelar o tempo. Porque sempre há o medo, muito medo,  do que virá.

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 Marli Gonçalves, jornalista – Tá bom, admito, esperei 48 horas para só depois escrever tudo isso. Queria ter certeza do que é que podia ter mudado de um dia para o outro.

São Paulo, junho de 2018

                                               marli@brickmann.com.br e marligo@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

ARTIGO – Terrorismo é isso. Por Marli Gonçalves

Estou querendo esticar a palavra. Dar a ela o sentido que está aqui perto de nós, já. No Brasil não tem terremoto, não tem furacão, mas não se pode mais dizer que no Brasil não tem terrorismo. Deus, ele está diante de nós!

Ou você vai dizer que não? Imaginou a mãe, na janela, aguardando o filho de 15 anos voltar da escola, vê-lo apontar ali na esquina, já pensando no almoço que vai dar a ele e imediatamente observar que agora o menino corre? Em seguida ver o filho cambaleando e caindo morto por uma bala que atravessou seu corpo trocada por um reles celular? Isso não é terror, não? Sabe o nome da rua onde isso aconteceu? Rua Caminho da Educação. São Bernardo do Campo, SP.

Uma van escolar parada à força, duas crianças, bebês ainda, levadas por bandidos, e abandonadas mais de uma hora depois numa quebrada, como se pudessem ficar ali no porta-luvas do carro? Isso não é terror, não? E o caminhoneiro mantido refém com uma arma na cabeça, salvo apenas pelas palavras convincentes de uma mãe ao seu filho perdido, e que aconselhou-o a se entregar e liberar o motorista? O que terá ela dito? Oferecido um casaquinho?

E que dizer das crianças violentadas para toda a sua existência, e que todos os dias  sofrem, sofrem muito?

Alguém disse que nenhuma definição pode abarcar todas as variedades de terrorismo que existiram ao longo da História. Concordo. Que existem, diria. Que se multiplicam. Moldadas em várias formas, se disseminam de forma assustadora, inclusive na incompetência na condução de nações. Uma variedade muito além do que se poderia imaginar.

Já parou um pouco para pensar mais sério sobre as crescentes e fervorosas pendengas internacionais, largando um pouco de lado essa nossa mesquinha política que só gera atos e fatos vergonhosos e pobres de espírito?  Está esquisito, perigoso: vocês bem sabem  que em briga de cachorros  grandes a gente sempre sai mordido. Isso é terrorismo. Topetudo loiro briga com gordinho de olhinhos puxados. Pena que isso não seja uma colorida história em quadrinhos de nossa tenra infância. Riquinho, Bolinha, Brotoeja, Luluzinha.

Terrorismo é tocar o terror. Termo usado para designar o uso de violência, seja ela física ou psicológica, em um grupo de vítimas, mas com objetivo de afetar toda uma população e espalhar os sentimentos de pavor, medo e terror. Se não é exatamente o que estamos vivendo, me digam, terrorismo é o quê?

Olha o bombardeio. Andar pelas ruas vendo corpos caídos ou moradias de papelão que se multiplicam assustadoramente nas cidades. Reparar no descuido com que são cuidados os bens públicos. A violência no trânsito. O medo em cada passo. Notícias de repetição do mesmo todos os dias. As hordas de refugiados chegando, expulsos de suas terras, vindo buscar – e logo aqui – a esperança!

Em geral o terrorismo tradicional em suas formas pretende derrubar governos. No nosso caso são os governos que estão favorecendo atos terroristas.

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marli retratoMarli Gonçalves, jornalistaQual poderá ser o abrigo seguro de toda essa guerra?

Mundo, Brasil, São Paulo, 2017

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35 jornalistas mortos no mundo, Só agora em 2017. Fonte: ABRAJI

Levantamento aponta que 35 jornalistas foram mortos no exercício da profissão em 2017

O relatório “Killing the Messenger”, divulgado no último 13.jul.2017 pelo International News Safety Institute (INSI), registrou 35 mortes de jornalistas durante o exercício da profissão em todo o mundo nos primeiros seis meses de 2017.

Segundo o relatório, 18 deles foram mortos em países que supostamente não estão em guerra. O texto ainda diz que 19 foram assassinados a tiros, 10 foram vítimas de explosões, 4 morreram no fogo cruzado e 33 deles eram residentes nos lugares onde os mataram.

Nesse período, o Afeganistão, o México e o Iraque foram os países que mais registraram baixas. Jornalistas também foram mortos no Paquistão, Iêmen, Rússia e República Dominicana.

O Afeganistão foi o local onde mais se mataram jornalistas no período. Ao todo, 9 assassinatos ocorreram em três diferentes ataques a bomba promovidos, de acordo com o INSI, pelos grupos Taleban e Estado Islâmico (EI). O objetivo era atingir diretamente a imprensa.

Já no México, o segundo país mais letal para jornalistas, 7 pessoas foram mortas a tiros. Os assassinatos geraram protestos na Cidade do México, e o presidente Enrique Peña Nieto prometeu fortalecer a proteção para os profissionais de comunicação.

A imprensa mexicana afirma que promessas não são o suficiente. “A justiça não é construída com boas intenções e declarações”, disse ao INSI a jornalista Elia Baltazar, “mas com combate à impunidade, que é a obrigação das autoridades mexicanas. Mas não há luta contra a impunidade de frente para crimes contra jornalistas. Eles não são investigados e ninguém é responsável.”

De janeiro a junho de 2017, houve apenas três casos de assassinato de jornalista nos quais o INSI observou que as autoridades identificaram e prenderam os responsáveis.

No Iraque, seis jornalistas foram pegos. A principal causa de morte foi o fogo cruzado.

O levantamento mostrou ainda um declínio do número de mortes em relação ao ano passado – em 2016, foram 49 jornalistas assassinados de janeiro a junho. Apesar disso, a diretora assistente do INSI, Anna Bevan, preocupa-se com o aumento do número de ataques físicos e virtuais à imprensa.

“[Os ataques] estão fazendo com que muitos se autocensurem ou até mesmo deixem a profissão definitivamente”, diz. “Isso tem um efeito tão danoso para as vidas individuais, mas também é tão prejudicial à democracia.”

Brasil

Neste ano, o INSI não registrou mortes de jornalistas ou profissionais de mídia durante o exercício da profissão em solo brasileiro. A diretora do instituto, Hannah Storm, afirma, no entanto, que “isso não significa que os perigos para os jornalistas no Brasil desapareceram”.

“Por muitos anos, vimos os jornalistas brasileiros lidarem com várias questões relativas à insegurança, que vão desde grupos criminosos que tentam silenciá-los até empresários e autoridades públicas corruptas que discordam com aquilo que eles reportam”, continua. O relatório do ano passado apontou a morte de três profissionais de imprensa no país – João Valdecir de Borba, João Miranda do Carmo e Maurício Campos Rosa.

De qualquer modo, ela diz, “é reconfortante que a mídia no Brasil tenha feito grandes progressos nos últimos anos na promoção de uma cultura de segurança, seja pelo aumento da cautela, pela capacitação dos jornalistas ou pela compra de equipamentos que os protejam”.

O relatório “Killing the Messenger” foi elaborado para o INSI pela Cardiff School of Journalism, no Reino Unido.

Assinatura Abraji

ARTIGO – É mentira! Por Marli Gonçalves

DIA DA MENTIRAÉ MENTIRA!

MARLI GONÇALVES

Estamos cercados por elas, as mentiras. Femininas (não existe os “mentiros”), traiçoeiras, sinuosas, às vezes muito más; outras, até que de salvaguarda, compreensíveis. Elas podem enganar, iludir, e até serem comidas, como as mentirinhas que somem em nossas bocas assim que as emitimos, ou os biscoitinhos que comemos bebendo um bom café. Mas a mentira traz verdades; uma delas, a que tem perna curta, nunca vai muito longe.

 Dizem que todo dia mentimos, todos nós, pelo menos alguma coisa, nem que seja, creio, para nós mesmos. Mas como a gente mente que isso é verdade, há um dia no ano em que ela se libera, festejada, repetida, criada, se glorifica e, inclusive, podem ser geradas aquelas mentiras bem grandes, irreais. O alvo dela pode ficar bravo, pode ficar surpreso, ou mesmo rir muito ao reparar na esparrela do Primeiro de Abril.

Adorei o que o Wikipedia traz sobre o Dia da Mentira – ou Dia das petas, Dia dos tolos, ou Dia dos bobos. Sobre ela propriamente dita: Mentira é o nome dado às afirmações ou negações falsas ditas por alguém que sabe (ou suspeita) de tal falsidade, e na maioria das vezes espera que seus ouvintes acreditem nos dizeres. Dizeres falsos quando não se sabe de tal falsidade e/ou se acredita que sejam verdade, não são considerados mentira, mas sim erros”.

Leu? Lembrou de algo, de alguém, da política? Entendeu porque estou tocando nesse assunto aproveitando o toque para chamar sua atenção? Leia de novo. Veja se não é exatamente o que está rolando nessa crise que nos desgoverna. Todos mentindo para nós. Não é de hoje. Por isso nossos sonhos parecem sempre estar à nossa frente – sonhos tem pernas longas.contra o emporcalhamento da cidade

Os que estão aí mentem para permanecer grudados e continuar construindo castelos onde o pé de feijão acabou com a fome, com os miseráveis, com as injustiças, e juram (sim, quem mente jura muito, repara, e se já tem de dizer que jura…) que nesse reino todos lhes deveriam ser gratos, cordatos e segui-los tocando bumbo e os adorando, incensando. E a flauta toca e um monte vai atrás, enganados como na fábula.

Eles estão insistentes. Insistem em afirmar que é golpe, o que será amplamente votado, decidido, esmiuçado – tudo dentro da lei que ainda tem gente que presta observando esse processo. Gatos pingados, certo, mas em posições chave e de salvaguarda da ordem democrática.

Se todos tivessem o poder de ler o futuro, seja na bola de cristal, na borra do café, nas cartas ou búzios veriam que está em andamento um plano urdido, preparado com um requinte típico dos tratantes, os que vivem das mentiras. As fogosas mentiras estão sendo misturadas às Verdades, essas senhoras vetustas que sempre encobrem parte de seus corpos com as dúvidas. Misturadas, verdades e mentiras podem entrar em ebulição.

Na palma de nossas mãos, os riscos. Pesquisas, que são feitas justamente para revelar posições mais próximas da verdade, mostram que o que se quer agora é mudança. Para o quê, vamos ver.

Talvez desmorone tudo, também é verdade. Mas quem não arrisca, não petisca, me perdoem achar essa palavra que já vem com um partido sinistro dentro.

Nascemos e vivemos mesmo cercados por mentiras. É Papai Noel, Bicho Papão, que seremos felizes e realizados, que podemos ser como bem entendemos, que somos livres, fora os que nos ensinam, a nós, mulheres. Que a Justiça prevalece. Que a imprensa é imparcial. Tá na cara que são mentiras deslavadas.

Quer verdades? Exemplos: banco não dá nada para ninguém, todos têm culpa no cartório, muitos se vendem por 30 dinheiros, por um cabide de emprego, alguns acreditam mesmo em mirabolantes planos de poder latino-americanos.

Tem uma frase de Churchill sobre a mentira, e que me lembrou muito a carta mandada às embaixadas dizendo que está sendo tramado um golpe no país e aquela entrevista ridícula que a presidente concedeu aos correspondentes estrangeiros. “Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir”.

Mas não poderão ficar mentindo o tempo inteiro, senão...
Mas não poderão ficar mentindo o tempo inteiro, senão…

Certo. O problema é que eles mentem tão mal que a verdade já está correndo o mundo. Nem precisa mais ser submetida ao detector de mentiras, hoje tão desenvolvido. Já em 1945 seriam pegos pelo pesquisador John Reid, que desenvolveu o primeiro monitor de movimento para a cadeira, e que media as reações detectando-as. As cadeiras estão de tal forma se mexendo hoje, querendo depor alguns traseiros, que estourariam o aparelho do cientista.

  • Marli Gonçalves, jornalista Dita muitas vezes pode até se transformar em verdade. Mas o que já foi revelado que era mentira deles todos jamais os deixará que nos façam de trouxas novamente. A realidade é a mais dura das verdades.

SP, esperando abril, 2016

gapa

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ARTIGO – O Bilhão e seus nove zeros. Por Marli Gonçalves

zeroNove zeros, um atrás do outro. Bilhão é muita coisa. Mil milhões. Um milhão de “mils”. Muito dinheiro. Muita gente. Muito roubo. Muito estrago. Para se ter uma noção do que realmente se passa ao nosso redor muitas vezes temos de recorrer à matemática. Só que atropelados dia a dia pelos fatos não temos mais tempo nem de parar para pensar e perceber qual é a verdadeira dimensão desses números. Vou tentar dar uma ajudada.zero

O mundo é muito grande, não? Tem gente para tudo quanto é lado, não? Pois somos, ao todo, ao todo, oficialmente, 7,2 bilhões de pessoas. Se cada pessoa desse mundo, incluindo as milhares que estão nascendo nesse exato momento, fosse um real, um realzinho desses, moeda, ainda assim não seria alcançado, por exemplo, o prejuízo da Petrobras, o oficial, veja bem, que ultrapassa fácil os 8 bilhões de reaizinhos. Como mentem em tudo, a gente pode tranquilamente puxar ainda mais para cima esse número. O mundo todo ainda não conseguiria tapar esse buraco. Aqui não tem avalanche nem vulcão; tem rombo. Nem precisamos de foguetes perdidos ou cometas.

Com isso, com esse valor, da mesma forma que estão conseguindo destruir um país, com mãos grandes e decisões patéticas, poder-se-ia reconstruir outro, como o Nepal, devastado pelo terremoto, incluindo aí reerguer os templos maravilhosos, as casas, os prédios. E ainda certamente sobraria um troco, porque aquele povo é dos que trocam bens por espiritualidade.

Deu para ter uma ideia? Pois é. Pior é pensar que, assim como a população mundial não para de crescer, aqui também esses prejuízos se alargam, porque não param de roubar um minuto, nem param de tomar as tais decisões patéticas. Não há um medidor para nos mostrar online quão assustador são esses números – como neste momento alguém está batendo a sua carteira.

ZEROPensei nisso – e em como é bom que haja muitas coisas que podem ser acompanhadas no momento que ocorrem – ao ficar olhando pela internet o foguetinho Progress perdido dando voltas no mundo antes de se espatifar ao entrar na atmosfera, graças aos céus, caindo nos mares. Os peixes é que não devem ter gostado desses insossos pedaços russos de nave. Assim, achei um site – http://www.worldometers.info/br/ – bem dinâmico, que fica o tempo inteiro atualizando números mundiais, população, nascimentos, mortes, despesas governamentais, cigarros fumados e as mortes por eles causados, emissões e consumo de água, energia, petróleo, etc. Não contem para o prefeito de São Paulo, mas tem até o número de bicicletas fabricadas este ano, até esse momento que congelo para contar para vocês, 48.868.804, contra 23.705.470 carros produzidos.

Coisas de milhão. Voltando ao nosso bilhão, e relembrando que cada um bi tem mil milhões, repetimos: fomos tungados, e apenas no cálculo da Petrobras, em 8 bilhões de reais. Vocês aí querendo que ainda sobre dinheiro para a Saúde, Educação, infraestrutura? Só se tomássemos a Casa da Moeda.

Não temos ainda um bom contador desenvolvido, mas uma coisa é certa: está tudo grande. Os números não param. Juros, inflação, demissões, roubos, roubos, roubos, ministérios, secretarias, desinteligências. Tudo para mais de mil, milhão, bilhão. Sem essa de percentuais, tabelinhas, infográficos. Nada como uns bons zeros para se ter noção do que os zeros à esquerda no poder podem fazer de mal. E olha que não me refiro apenas à nossa Nação.number-zero5

Dezenas, centenas, milhares, bilhões, trilhões. Ultimamente temos ouvido muito os dois últimos. Agora também é tudo K. Fulanos conhecidos têm milhares de K de seguidores, tipo Lady Gaga, Rihanna, Neymar.

Nos fazem lembrar de outra série – segundos, minutos, dias, horas, meses, anos, décadas – que lutamos para tentar sobreviver e melhorar as coisas. Nosso tempo também tem zeros, e cada vez mais temos de usá-los nem que seja pensando como pular a fogueira. Sobra pouco – quase nenhum – tempo, para falar com quem se ama, de quem temos saudades, às vezes apenas para dar um oi. Ficamos falando com grupos, nas redes sociais.

Aliás, quer saber? Vou aproveitar e fazer isso aqui mesmo: Luiz, como está? Acabou a dor? E os cachorrinhos? Já nasceram dentes na Serena? Gabi amada, você está feliz, sucesso total? Carmen, como vão as coisas aí para os seus lados? Irmão, você vem almoçar com a gente no domingo? Pradinho, que bela viagem! Mauro, se recuperando? Sua mãe continua preocupada. João, dê um beijo na Tânia e diga que rezo por ela, por forças, todos os dias. Ulysses, quando vem para São Paulo? Maria Helena, já conseguiu receber aqueles direitos autorais?

São Paulo, maio de 2015MULHER NO TELEFONEMarli Gonçalves é jornalista – – A propósito, só hoje foram enviados mais de 146 trilhões de e-mails, fumados mais de 10 bilhões de cigarros, além de feitas quase 3 trilhões de buscas no Google.

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Cálculo: 700 milhões de mulheres são vítimas de violência no mundo

FONTE: AGÊNCIA PATRICIA GALVÃO
6a00e54ee8552c883300e54f2d0f398834-800wimz_0108_10037162962-11(EXAME.com, 15/05/2014) Mais de 700 milhões de mulheres são vítimas de violência de gênero no mundo, especialmente no sul da Ásia e da África, informa um relatório do Banco Mundial (BM) divulgado nesta quarta-feira.

“A violência baseada no gênero é uma epidemia global, que afeta as mulheres em todas as regiões do mundo”, garante a instituição, destacando, contudo, “avanços sem precedentes” ao longo dos últimos anos.

Segundo o informe, pelo menos uma a cada duas mulheres (43%) no sul da Ásia (Índia, Paquistão e outros) sofreu violência física, ou sexual por parte de seu cônjuge durante sua vida.

Na África Subsaariana e no Oriente Médio, a proporção é de 40% e diminui para 33%, na América do Sul, e para 30%, na região Ásia-Pacífico, segundo o documento, que não publica dados sobre a Europa. Na América do Norte, esse percentual chega a 21%.

De acordo com o BM, um grande número de mulheres jovens no mundo têm um “controle limitado” sobre seu corpo, como acontece em relação à sexualidade e à anticoncepção, por exemplo.

Se a “tendência atual se mantiver”, mais de 142 milhões delas estarão casadas antes de completar 18 anos, já na próxima década, acrescenta o texto.

Referindo-se a um grupo mais específico de 33 países em desenvolvimento, o informe indica que 41% das mulheres garantem que não se atreveriam a pedir ao parceiro para usar preservativo.

Em relação ao mundo da política, o BM diz que as mulheres estão “claramente sub-representadas” e aponta que elas representam apenas 22% dos parlamentares e 5% dos prefeitos do mundo.

“Se o mundo quiser acabar com a extrema pobreza e garantir que a prosperidade seja compartilhada, é necessária uma participação plena e efetiva das mulheres”, advertiu o presidente do organismo, Jim Yong Kim, citado no relatório.

*Da AFP.

Acesse no site de origem: 700 milhões de mulheres são vítimas de violência no mundo (EXAME.com, 15/05/2014)