ARTIGO – Estação muda. Por Marli Gonçalves

Normalmente a chegada da primavera é saudada com alegria, como um tempo de renascimento, procriação, vida, florescimento. Normalmente. Mas não nesse ano de 2020; não nesse momento em que o nosso chão tanto queima, nosso céu se esfumaça, nossa energia se esvai. E continuamos mudos. Ou talvez não, o que ocorre é que alguns ouvidos ainda estão moucos.

MUDA

Vai mudar a estação, sim. Será primavera. Às 10h31 da próxima terça-feira, 22, será primavera no Brasil, o equinócio, e a luz do Sol incidirá igual sobre os dois hemisférios, 12 horas dia, 12 horas noite. Mas temo que a nossa noite aqui vai nos parecer maior, estendida que está com suas sombras sobre nós nos últimos tempos.

Você reparou nas nossas estações mudas, mudando? Saímos do verão aflitos com o que viria, no dia 20 de março, já com a anunciada pandemia, já em isolamento social. Assim passamos o outono inteiro e o inverno que chega ao fim nas próximas horas. E está tudo tão louco que o dia mais quente do ano se deu agora, no inverno. Como será, como estaremos no próximo ciclo? Como será o nosso próximo verão, a partir de 21 de dezembro, dias antes do Natal, da virada do ano?

Continuaremos mudos? Que continuaremos com nossos narizes e bocas cobertos com máscaras parece inevitável. Que os nossos sorrisos continuarão invisíveis, talvez até porque ultimamente pouco sorrimos, sem motivos para tal, com sequências de notícias desagradáveis e momentos de angústia, é quase certo.

Mas nossos olhos, mesmo que irritados como os nossos corações e mentes, precisarão manter-se abertos para prestarmos atenção e continuarmos a caminhada sem cair ou tropeçar em tantos buracos, verdadeiras fendas abertas nesses últimos meses e que durarão anos com suas consequências, sejam na natureza, no comportamento, no nível de vida, na economia, na saúde e educação. Seja na cicatrização desse rompimento entre as pessoas, entre a ciência e a razão, impostos pela política.

A uma parte dessas pessoas, ainda não parece suficiente que mais de 135 mil brasileiros tenham sido vencidos pela Covid-19; mais de 4 milhões e meio atingidos. Não são capazes de se enternecer por mais nada, com seus arroubos de ignorância, covardes que se dizem corajosos, como se coragem fosse assim. Fosse isso.

Uma oposição desunida; e um rebanho atrás de espaço que conquistam, violentos, tacando fogo, sem entender que a carne que queimará não será a do churrasco que fazem nas aglomerações com que insistem a desafiar a realidade, mas a dos milhares de animais acuados e aprisionados pelas chamas, e nos campos e plantações que já chegam ardendo em nossos bolsos com os preços altos, falta de produtos.

O ciclo da primavera está em risco. Estações mudam, estações mudas. Mas não podemos continuar mudos.

Temos compensações e precisamos de mudanças, e mudanças, transformação, trocas, só são feitas iniciando plantios. E plantios se fazem com mudas. Sementes, vida pra brotar, renascimento.

Pessoas continuando mudas assistindo a tudo pegar fogo não ajudam nada nisso.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO – Nas ruas, com fé, todos os corpos de Cristo. Por Marli Gonçalves

Ruas frias, quentes, religiosas, coloridas, para todos. Tem Marcha para Jesus, Parada do Orgulho Gay, procissões, e até torcidas uniformizadas. Têm fogueiras, quentão, danças caipiras. Quem põe mais gente na rua, se esse ano vai ser maior ou menor, quem vai, quem aparece, mobiliza daqui, dali, conta quantos juntos por metro quadrado. Essa semana vai ter muito povo nas ruas, rezando ou brincando, festejando ou protestando no mundo paralelo que corre junto à realidade, a parada dura. As pessoas estão com seus “corpus” nas ruas, e o espírito, santo.

RUAS

O povo caminha nas ruas. De alguma forma, por mais diferentes que pareçam, o objetivo comum sempre é conseguir. Conseguir viver, conquistar, ser feliz, agradecer, nem que para isso também precise protestar, mostrar força, e até escandalizar um pouco para ver se as coisas andam mais rápido.

Feriado em alguns lugares, só ponto facultativo em outros, dia para começar a enforcar a sexta-feira. Na quinta-feira, dia de Corpus Christi vamos saber de muita gente nas ruas, seja percorrendo avenidas na evangélica Marcha para Jesus, seja nos belos, coloridos e artísticos tapetes de serragem que adornarão os caminhos dos católicos e seus templos.

Nos pés, na sola, dentro de seus sapatos, os evangélicos levam escritos os seus pedidos na longa caminhada onde entoam seus cânticos, seguindo seus líderes. É a tradicional Marcha para Jesus. Os shows são todos de clamor, gênero gospel, sempre aquela palavra dirigida à fé, louvores e glorificações em uma adoração sem imagens.

Em tantos outros locais, nas mãos, os católicos carregam as velas acesas que simbolizam suas promessas, suas dívidas, seus desejos. A reza tenta chegar aos ouvidos daquele que não é visto, mas sentido e homenageado com adoração. A procissão de Corpus Christi lembra a caminhada do povo de Deus, peregrino, em busca da Terra Prometida. Os fiéis admiram e passam sobre os tapetes feitos durante a noite para serem admirados, trilhados e espalhados durante o dia. Quem sabe possam ser vistos por Deus, lá do céu. Por isso tão extensos, tão belos, e tão efêmeros.

LGBTNo domingo, a Avenida símbolo de São Paulo, a Avenida Paulista, tomada pela diversidade na Parada Gay, ou melhor, LGBTQIA+, todas as formas e letras de amor que valham a pena. A música é eletrônica, barulhenta, vem da dezenas de trios elétricos que desfilam, embalam a diversidade, a liberdade sexual, as conquistas e avanços. A caminhada é feita com dança, feliz, como em uma festa de Baco, embalada. O capricho das roupas, as fantasias, as transformações também de certa forma louvam a vida, a possibilidade de transformação da sociedade, a cultura da alegria. O arco-íris, suas sete cores, as bandeiras que tremulam e também pedem proteção. A divina e a da sociedade.

Eles vêm de todos os lugares, fazem alarido, têm todas as idades, formas, classes sociais, cores de pele, alguns trazem suas famílias, criam personagens, se equilibram em imensos saltos plataforma, sacodem suas perucas, piscam com cílios postiços, seios postiços, traseiros postiços, e o que mais puder ser postiço para desfilarem garbosos, estrelas máximas nesse dia do ano. Os homens, como mulheres; muitas mulheres, como homens. Lá, se é o que se quiser ser. Inclusive religioso, católico, evangélico, umbandista, que todos levam suas representações.

O Brasil, que bom, decididamente, aprendeu o caminho das ruas. Esperamos agora que todos caminhem juntos também para empurrar o país para a frente, e à frente de seu tempo, para o futuro melhor que nos observa, solene, ao longe.

Andar com fé eu vou que a fé não costuma falhar.


Marli Gonçalves, jornalista

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Brasil, inverno, 2019


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#ADEHOJE, #ADODIA – PAZ, POR FAVOR. E MAIS CONSIDERAÇÃO COM A GENTE

#ADEHOJE, #ADODIA – PAZ, POR FAVOR. E MAIS CONSIDERAÇÃO COM A GENTE

 

 

Paz, paz, paz! A vida parece não ter mais valor. São chacinas, assassinatos, como o do ex-governador Gerson Camata, em Vitória, Espírito Santo. Um homem pega a ex-mulher, joga gasolina e taca fogo. Outros passam atirando, explodindo, como em games. A violência está disseminada. Fora isso, temos cara de otários? Viu que apareceu o tal Queiróz, dos Bolsonaros e Bolsonarinhos??? Totalmente amestrado, em entrevista absurda, encomendada, diz que é homem de negócios, que gasta muito, e que tem um monte de doenças, inclusive unha encravada ( …só faltou isso mesmo…) para explicar porque vem faltando aos depoimentos marcados na Justiça. Tentamos ser otimistas, mas nem começou e a profusão de problemas faz com que a gente anteveja mais um ano duro, cheio de sobressaltos. O futuro e a aproximação de uma visão de mundo perturbadora.

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#ADEHOJE, #ADODIA – ANIMADO, WOW: VIADUTO DESPENCA, LULA SE PEGA COM JUÍZA, MENOS MÉDICOS, BC…

VIVA A REPÚBLICA! HOJE O DIA ESTÁ BEM ANIMADO NO NOTICIÁRIO. CIDADE SEM MANUTENÇÃO, VOCÊ ESTÁ PASSANDO E O CHÃO SOME. ACONTECEU, NO VIADUTO, QUE CEDEU, ARRIOU. E NA MARGINAL PINHEIROS, COM SORTE, MUITA SORTE, SEM VÍTIMAS. OUTRA COISA DOIDA FOI A DEBÂCLE ENTRE O LULA E A JUÍZA GABRIELA HARDT, SUBSTITUTA DE MORO…E O BODE D A INDICAÇÃO DE ERNESTO ARAÚJO PAR A O ITAMARATY, O PROGRAMA QUE VIROU MENOS MÉDICOS, O BC… UFA! NOS PRÓXIMOS DIAS VEREMOS O QUE VAI DAR TUDO ISSO.

ARTIGO – Que venha a Primavera brasileira. Por Marli Gonçalves

flor abrindoHá de chegar a nossa primavera, para que os dias possam voltar também a ser mais normais, que possamos realizar as coisas, com mais perspectivas, e não tenhamos mais de perder tanto tempo só cortando prazeres das nossas vidas, nem mais discutindo e pensando nas pragas que devassaram esse nosso imenso jardim. Eles não são flores que se cheirem.

animated-flower-image-0106Pensa só há quantos anos, de novo, a gente não tem calmaria real, não relaxa, fica só vendo o país ir para a cucuia. Nos últimos meses aconteceu que a coisa se acelerou, não dá mais para eles esconderem nas propagandas. Tanto tentamos alertar que não era bem assim, mas caiam bolsas em nossas cabeças. Bolsa Família. Bolsa Casa. Bolsa Bolsa. Embolsa bolsa. Agora vemos e sentimos bem perto de nossos narizes e olhos a tal da miséria que tanto insistiram que haviam exterminado. A gente aplaudia a parte boa, apoiava, mas sempre mostrando que não havia planejamento entre as muitas notas de populismo, que a jurupoca ia chiar. Não quiseram ouvir. Aliás, ainda tentam se fazer de moucos, nos chamando de golpistas.

Transbordou.

animated-flower-image-0130Se muitos movimentos políticos foram chamados de primaveras, porque não a Primavera Brasileira, bonita, colorida, diferente, divertida? Quem sabe não poderemos aproveitar a estação e fazer florescer uma nova cultura, mais ampla, solidária, construtiva? Nas ruas, com alegria, em paz, vamos tentar buscar a solução, a que seja melhor, que possa agregar e reunir o maior número de pessoas e representações. Houve a Primavera dos Povos, a Primavera de Praga, a Primavera Árabe, e até em Portugal, se não foi primavera, tinha flor no meio, a Revolução dos Cravos.

Mas tem de ser nessa estação que começa agora, 23, desta semana de setembro. Pensa que temos três meses, que não nos resta muita alternativa. Temos de parar de andar em círculos, onde todos os dias parece que lemos a mesma edição do jornal, cheias de achismos, chutes, previsões plantadas, diz-que-disse. Essa xingação mútua não tem sentido algum nem ajuda a desempacar. Vamos atarracar uma mangueira nesse Lava Jato para adubar novas ideias e perspectivas.

Pega a primavera, a fina flor, as pessoas na flor da idade, as flores raras, as flores que já desabrocharam e perderam espinhos, vamos cultivar as flores da retórica do convencimento por um projeto decente, de retomada de rumo. Revolução de comportamento, com a marca da personalidade brasileira. Pensamentos dogmáticos tradicionais não têm cabimento agora.

Já dá para ouvir o canto dos pássaros assobiando, rebolando bonito as suas asas, atrás de penas para se coçar e procriar. O acasalamento é a cara da primavera, das cores e das flores, das pessoas. Vê se me entende e ajuda: puxa mais gente e sementes.

Comadre Florzinha
Comadre Florzinha

Senão, olha que eu vou chamar a Comadre Florzinha para aterrorizar e puxar o pé de vocês de noite. Conhece a história dela, lenda do folclore pernambucano? Foi uma menina que se perdeu na mata, morreu, mas seu espírito ficou perdido na floresta e com o tempo ela passou a aterrorizar vilas e fazendas, com suas aparições. Dizem, e ela vive aparecendo, que é parecida com aquela outra assustadora garota de O Chamado, que mora em um poço. Florzinha tem longos cabelos negros. Mas à noite eles, os cabelos, pegam fogo e viram chicotes ardidos para cima do lombo de quem não lhe dá as coisas de que mais gosta, fumos, mel e mingau. Arteira, adora dar nós nos rabos dos cavalos. Ela também ataca quem não trata bem as árvores e protege a natureza como fada – pode ser menina-moça boazinha também. Comadre Florzinha.

“A ironia é a expressão mais perfeita do pensamento”, escreveu a grande poetisa portuguesa Florbela Espanca.

cao e homem lindoSão Paulo, 2015, tenso.

Marli Gonçalves, jornalista – Reconhece essa estrofe de canção? …“Pelos campos a fome em grandes plantações /Pelas ruas marchando indecisos cordões/Ainda fazem da flor seu mais forte refrão /E acreditam nas flores vencendo o canhão”… Pois é. Nervos à flor da pele …“Vem, vamos embora que esperar não é saber /Quem sabe faz a hora não espera acontecer”

 Aguarde! Prepare-se. Chumbo Gordo vem aí.

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