#ADEHOJE – APOIAR O QUE É BOM. E CRITICAR O HORROR

#ADEHOJE – APOIAR O QUE É BOM. E CRITICAR O HORROR

 

SÓ UM MINUTO – Primeiro, FELIZ SEGUNDO SEMESTRE na medida do que for possível a todos.

Aqui, a gente conversa. Às vezes, com ironia e humor para aguentar melhor o tranco. Quem acompanha sabe que as críticas não são questão de ideologia, esquerda, direita, que isso é bobagem quando todos precisamos avançar e sair do inegável buraco em que estamos metidos já há alguns anos. Muitos anos, muitos governos, muitos roubos. Se não tomarmos consciência de que é preciso união, vamos continuar perdidos. Assim, precisamos torcer para que o presidente Bolsonaro que em seis meses de governo nos deu tantas manchetes vergonhosas, com ataques a coisas que nos são tão caras e à nossa liberdade individual, tome tento. Que Bolsonaro pare de agir como se estivesse na cozinha de sua casa, acompanhe as pessoas e técnicos de seu governo, os bons, os ouçam.

As manifestações de ontem foram expressivas, mas menores, e muito mais em apoio a Sergio Moro e à Lava Jato do que exatamente pró-governo, que tem aprovação despencando. É preciso também tomar muito cuidado com os ataques à imprensa e ao STF, ainda os guardiões da democracia e quem nos informa da realidade.

 

ARTIGO – Padecer no Paraíso. Por Marli Gonçalves

 

O que isso quer dizer exatamente, se é bom ou ruim demais, só o sabem as cinco letras que choram, e provavelmente de raiva quando elas pensam em dar boas chineladas, com vontade de falar umas verdades

Lá vêm, aliás já estão em todos os locais e em todas as formas com os apelos de compre aqui, dê isso, ela vai adorar aquilo, ofertas que nada têm de ofertas. Referências à bondade, beleza, candura, entrega, amor incondicional, quanta alegria e felicidade! Só padece quem não tem? Só padece quem já perdeu a sua? É para quem não quis ser mãe cortar os pulsos?

Ano após ano, essas datas estabelecidas para render homenagens e que viraram grandes momentos comerciais servem muito para a gente ter ideia de como anda a nossa sociedade. Algumas dessas datas avançam pouco, ano a ano tão iguais, tão integradas e indiscutíveis que é o caso de alertar para que paremos um pouco para pensar que raio de paraíso é esse, além da adocicada palavra.

As mães estão felizes? Cada vez que ouço, por exemplo, a quantas desanda a educação no país, ou  mesmo fico sabendo quanto está custando a mensalidade de uma escola privada, de uma universidade, ou mesmo o preço de um livro, eu, que não tenho filhos, me solidarizo com as mães do mundo real. Sempre acho que aí tem o mundo real, verdadeiro, dia a dia brabo e complexo, inseguro; e o outro, da fantasia, da propaganda enganosa, das crianças embonecadas, das celebridades que tornam seus partos e filhos bem tratados em filtros de luz nas fotos e patrocínios, e que ninguém mais nem fala que é para a poupança, pro futurinho.

O que todos eles vão ser quando crescerem? Nada saberão sobre o pensamento, sobre a filosofia, a história, o pensamento? Saberão fazer as contas, ler e entender sobre o que tanto falamos? Voarão em foguetes? Passearão por outros planetas? Descobrirão curas para doenças hoje letais? Saberão a importância da liberdade? Terão aprendido a respeitar as mulheres, a igualdade? Ou terão sido engolidos pelos dispositivos digitais com os quais convivem desde tão cedo? Terão de passar pelo que estamos passando? Conseguirão usar a roupa que estamos usando?

As coisas em volta vêm mudando com extraordinária rapidez. Mas o ser humano ainda é frágil e ao mesmo tempo insano. Em um país que não respeita o mínimo da dignidade e de suas próprias leis, os fundamentais direitos sociais e reprodutivos que deveriam dar condições de decisão às mulheres sobre o que querem mesmo e, se querem, se terão condições de ter e criar seus filhos é cruel mostrar a elas só o lado paraíso – é clamar pelo seu padecimento.

Não para de crescer o número de adolescentes grávidas principalmente nas classes mais baixas e que talvez vejam nisso apenas a beleza de poder afinal ter uma boneca, de carne e osso, e ainda a possibilidade de criar uma família, saindo da sua, desistindo da sua. Como falar em controle da natalidade no país do Bolsa Família, que renega a educação sexual, que fecha os olhos para a realidade do monumental número de abortos ainda clandestinos, que não oferece qualquer salvaguarda a essas pessoas invisíveis? Que não sente os nove meses, nem enxerga o inferno da depressão pós-parto?

Como as mães lidarão com a visível revolução de costumes, de gêneros, as novas e variadas formas de amor? Dizem que seus corações aceitam tudo, perdoam tudo, que defendem seus filhos como as leoas, mas lembro que estas contam com o apoio de outras leoas, e ainda não é muito clara a solidariedade entre as mulheres.

Dia das Mães deveria ser momento de ampla reflexão sobre a condição da mulher, mas não se vê nessa época serem feitas pesquisas sobre o que realmente acontece, como se sentem, suas angústias, a visão do mundo que vislumbram. Esse seria o grande presente: uma radiografia do que é ser mãe hoje no Brasil, no Sudeste, Sul, Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Perceber que a Mamma África vive entre nós.

——————————gravida anda

Marli Gonçalves – jornalista

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

Maio de 2019

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ARTIGO – Vai ficar aí parado, só olhando? Por Marli Gonçalves

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VAI FICAR AÍ PARADO, SÓ OLHANDO?

MARLI GONÇALVES

Onde andam os machos e as fêmeas de verdade? Ando muito impressionada com a apatia que parece estar tomando totalmente a cabeça e o corpo dos brasileiros e, mais uma vez, pergunto se não será a água cada vez mais enlameada que bebemos. Garoto é morto, asfixiado por um segurança de supermercado, na frente de várias pessoas, e ninguém se mexe? Ou melhor, se mexe, sim, mas para pegar o celular e gravar – na vertical, inclusive…

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Essa é só mais uma. Ainda não digeri o fato do menino Luan, de três anos, ter morrido atropelado por um trem do Metrô de São Paulo. Ele fugiu do colo da mãe e saiu do vagão onde estava. Desespero. Mas ninguém lembrou de acionar a alavanca de emergência. O trem partiu. O corpo de segurança do Metrô levou uma hora, repito, uma hora, para procurá-lo onde obviamente ele teria ido correndo atrás do trem que partiu como se nada estivesse ocorrendo, e onde estava a mãe. O que veio atrás colheu o menino de jeito.

No caso do Rio de Janeiro, um jovem negro, Pedro Henrique, de 25 anos, acusado de furto de alguma bobagem, foi asfixiado e morto por um segurançazinho qualquer coisa em um supermercado Extra, na frente de dezenas de pessoas e da própria mãe, e ninguém tirou o segurançazinho de cima dele. Só ficaram gritando, e, claro, gravando com o celular, para a posteridade, dos filmes nacionais de horror, que farão corar até Quentin Tarantino.

A moça que se aventurou para salvar o motorista do caminhão no qual bateu o helicóptero que caiu matando o piloto e o jornalista Ricardo Boechat está sendo chamada de Mulher-Maravilha. Sua ação magnífica e corajosa foi gravada por celular: enquanto ela tirava enormes pedaços de ferro, movida por força descomunal, o marido gravava… Leiliane Rafael da Silva, 28 anos, ainda teria antes tentado salvar o próprio Boechat, e se não tivesse sido contida teria explodido junto segundos depois. Sua história, sua doença rara, o que inclusive a impediria de ter tanto estresse e feito tanta força física veio à tona depois. (O marido justificou que ficou gravando para mostrar para a mãe dela como Leiliane era teimosa, vejam só).

Agora, por força do destino, do caso que chamou a atenção, conseguirá finalmente a cirurgia no cérebro pela qual batalha há meses. Mulher de fibra.

Sinto que as pessoas estão apáticas pela sucessão de fatos que parecem não serem reais de tão dramáticos. Até esse momento, o presidente da Vale e o presidente do Flamengo ainda não foram presos, pelas tragédias de Brumadinho, mais de 300 mortos e o prejuízo ambiental incalculável, e do Centro de Treinamento, 10 meninos mortos, respectivamente.

Aliás, estão por aí distribuindo todos os dias suas declarações estapafúrdias e tentativas de se isentar dos fatos. Os jogos continuaram marcados, os treinos feitos no mesmo lugar e a rigorosa lentidão das apurações, desnecessárias, porque a culpa já é tão evidente, tão visível, que apenas protelam. Só para lembrar, o Flamengo, desde 2017, tinha recebido 31 multas pelas instalações sem segurança. Quer que eu repita? 31. Vai ver se pagaram alguma, se tomaram providências. No caso de Brumadinho, a própria Vale admite que já havia até calculado o que ocorreria com o rompimento da barragem, quantas mortes seriam estimadas, etc.

É difícil assistir impassível à covardia humana na realidade. O engraçado é que no mundo virtual todo mundo é macho, xinga, fala o que quer, chama para briga, mas protestar de verdade, agir? Uai.

Sinto isso na pele cada vez que, por exemplo, bobo até, mas exemplo da apatia e dormência, tiro lixo do pé das árvores por onde passo. Ficam me olhando como se eu fosse uma marciana recém-saída do disco voador, e até olhares de reprovação sinto. Ué, o lixo estava tão socadinho, tão arrumadinho no pé da árvore … Minha campanha é real: #árvoreNãoélixeira. Talvez quando elas caírem em suas cabeças, se toquem. Ou não.

Já me meti em muita encrenca nessa vida, e de nenhuma me arrependo, nem das que me coloquei em risco, algumas que deram boa dor de cabeça. Não consigo ficar parada ou quieta diante de injustiças, abusos, violência contra mais fracos. Mas sozinha sei que não faço um verão.

Onde estão vocês? Onde está todo mundo?

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Marli Gonçalves, jornalista – Aliás, o que está sendo feito – de verdade – para impedir a impressionante morte de tantas mulheres por machos de araque? Já chegam a centenas, só nesse ano que mal começou.

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

São Paulo, 2019

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ARTIGO – O Pior Ralouin do Mundo. Por Marli Gonçalves

Tudo bem que, como todas as questões têm dois lados, pode não ser o pior, mas o melhor, a partir do ângulo que se queira do Ralouin BR que se aproxima e que atravessará todo o país. Se você for um daqueles chegados numa história de terror, sem doces e sem travessuras, vai gostar do Halloween desse ano – que vai ser mesmo de amargar. Mas vamos viajar um pouco para o mundo das fantasias, do futuro, ou dos pesadelos, se preferir. Venha…

 

Era uma vez uma criancinha que acabou ficando cheia de dores e com problemas sérios na coluna cervical. Não que ela tenha tido essa mania de ficar olhando o celular com a cabeça baixa, pescoço curvado, não; ao contrário, foi porque ela passa muito tempo olhando para cima sempre que pode, teimando, com o pescoço bem levantado. Ela quase não sai de casa, fica ali, estudando à distância, que tinham achado que essa era a melhor forma dela não se contaminar com ideias sociais ou revolucionárias. Inventaram até um kit-papão para assustar a garotada.

Quando ia na janela ou no quintal, tinha essa mania, ficava com o pescoço quebrado pra cima, olhando o céu, esperando que passasse pelo menos uma – uminha que fosse já a faria feliz – cegonha, carregando um bebê na trouxinha, como disseram que foi assim que chegou nessa casa pro papai e pra mamãe. Nunca ensinaram a ela como os bebês eram feitos. Ela não sabia de nada dessas coisas, porque não achavam certo explicar nada para criança. Esses adultos! A cegonha nunca passou.

Mas ainda havia escolas, que bom! Havia ainda outros lugares fechados, como condomínios, onde grupos de crianças podiam ainda brincar todas juntas, sem adultos no meio, e meninos e meninas podia conhecer suas diferenças rosas e azuis ou roxas. Brincavam de mocinho/a e bandido/a, de pega-pega (ops!), de médico, uai, sim, que tem brincadeiras que atravessam o tempo. Como essas crianças de hoje são muito inteligentes, logo descobriram vários cantinhos onde podiam brincar longe das câmeras, que estão espalhadas em muitos lugares, vigiando tudo o que acontece. Sentiam coisas diferentes, viam até uns duendes, uns serezinhos que apareciam para fazer cócegas que eles gostavam muito.

d06db-bruxa2bhalloween2b21E então chegava o final do ano, e as Festas. Alegria! Tiro ao alvo! As criancinhas eram então ativadas, incentivadas a, além de acreditar no Papai Noel, acertar nele, já que andava de vermelho, essa cor tão perigosa, com os seus revólveres, mãozinhas em riste. Tinha virado moda ensinar as crianças a atirar – com cinco anos já começavam – seguindo uma moda lançada por um presidente que a alardeou, contando que foi como criou os machos que eram seus filhos. A filha só brincava de princesa do país tropical que adorará vê-la crescer nos próximos anos.

Aconteceu na história que os vampiros, lobisomens, diabinhos, elfos e duendes, bruxas, e até os santos e suas imagens, que passaram a ser boicotadas, começaram a se juntar, e se unir aos negros, índios e mulheres, homens sensíveis e também com mais muita gente que não aceitava que mandassem em suas vidas particulares, o fato que a todos unia. Logo na época de Páscoa lançaram um movimento, uma campanha. Não, não era mais para procurar os ovinhos de coelho, mas um outro ovo, os da serpente, ovos que tinham sido rompidos numa eleição ocorrida fazia pouco tempo e muitas dessas serpentes se espalhavam pelo país, sacudindo seus chocalhos, envenenando as famílias, e atacando quem não conseguiam mais hipnotizar com suas ideias retrógradas e bravatas.A bruxa queria pegar a menininha

Moral da história: passaram todos a ficar esperando a chegada de um novo protetor, que fizesse outras promessas – que o povo adora acreditar em promessas. E agora, quando de noite esse povo dorme, sonha com ele, o Saci, que pelo menos em folclore dizem que protege a mata e o meio ambiente, uma das primeiras vítimas desse pesadelo todo. Assim, crianças, no próximo 31 de outubro, Ralouin, preparem-se. Já estaremos todos pulando com uma perna só sobre brasas. E bem ralados.

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Marli Gonçalves, jornalista – Também acredita em contos de fadas. Cuidado com a Cuca.

marli@brickmann.com.br   /   marligo@uol.com.br

2018, booo!

ARTIGO – Seja o que Deus quiser. Por Marli Gonçalves

Deus salve o rei. A sorte está lançada. Alea Jacta Est. As pedras estão catapultadas. O jogo vai começar. Ou vai ou racha, de vez. Que vença o menos ruim.

Sim, sim, desolador o horizonte de onde tenta surgir alguma esperança de mudança e orientação desse país tão bonito, tão rico, tão simpático e ao mesmo tempo tão maluco, que vive eclipsado por galáxias inferiores. Deus caprichou quando semeou o que viria a ser esse nosso chão. Agora só resta apelar a Ele.

Caveat emptor. “Cuidado, comprador”. O risco é seu quando for escolher os produtos que vai pôr na cestinha da urna eletrônica, os ovinhos de onde espera que saiam soluções para pôr fim a essa agonia que nos afunda ano após ano, aprofundando perigosamente as diferenças sociais. Cada vez que pensamos agora, vai, somos colocados diante de um muro, já cheio de gente se equilibrando em cima, se é que me entendem. Muro que novamente aparece como uma barreira protetora, pedindo que rezemos aos seus pés.

Estamos encastelados. Nesse muro moderno não vamos lá lamentar e nem deixamos pedidos escritos com nossos desejos. Nele, projetamos vídeos de celular – com imagens claras deitadas e áudios sofríveis, mas que apontam a realidade e muitas das necessidades – o que queremos. Mais, do que precisamos. Quem acompanha a série, a exibição, pode perceber o estado atual das coisas, a pobreza, as obras inacabadas, as estradas intransitáveis, a dificuldade de expressão do povo em sua própria língua pátria. Pode perceber também a imensidão dessa terra de que às vezes esquecemos a real dimensão, as diferenças, os tipos, os sotaques, os nomes das localidades, alguns que até contam a história de sua criação, levam os nomes de seus fundadores; outros, que trazem poesia; alguns, sua condição geológica, rochas, grutas, montanhas, montes.

Tudo muito lindo parece mostrar um país inteiro que sabe o que quer. E, corajoso, não quer só mostrar o lado bom de onde vivem. Apontam as faltas, como recém descobertos árbitros de vídeo.

Deus brincandoNão, não está a oitava maravilha, faltam escolas, educação. Faltam diversidade, tolerância, cuidados com a natureza e riquezas naturais. Condições de trabalho, produção e formas de escoamento em uma malha de transportes integrada. Falta muito, além de esquerda, direita, centro.

Rezamos a todos os santos – muitos até homenageados com os seus nomes nessas cidades, onde sempre têm uma capelinha – e o que nos aparece? Os mesmos de sempre, atarracados como carrapatos no poder, querendo se reeleger. Pior, alguns que nem eleitos mereciam ter sido e querendo agora mais, governar, sentar na cabeceira da mesa. Subir na vida nas nossas costas.

Mais de uma dezena de candidatos a presidente, dezenas de senadores, centenas de deputados vão procurar você de novo. De algum jeito vão tentar chegar a você e à sua decisão. Vão se desculpar pelo que não fizeram, vão prometer o impossível, pedir desculpas e perdão por seus erros, tentarão explicar botando sempre a culpa em outro alguém. Até em você, preste atenção. Nossas costas são largas.

Nós mesmos já estamos nessa – nos culpando mutuamente como idiotas, já que ninguém merece que nos engalfinhemos. A maioria que ganha num determinado momento pode se dissolver logo. O que vimos na Era PT, e depois no tchau para a Dilma – “qualquer coisa seria melhor”, pensávamos.

Vejam só: “o qualquer coisa” foi mais uma decepção, um desastre. O líder popular não era bem assim, e a primeira mulher coisa e tal foi um festival de vacilos. Faça as contas: são muitos anos deixados para trás.

O direito de errar, de mal avaliar. O problema se torna mais dramático agora que as candidaturas se apresentam e são todos tão questionáveis, alguns muito mais questionáveis que outros. Novos, que são velhos. Alguns que se mostram e às suas verdadeiras faces, piores ainda quando questionados.

Nos deixam entre a cruz e a caldeirinha. Entre a cruz e a espada. Entre o agora ou nunca. Entre o céu e o inferno. Entre o amor e a guerra. Entre o ódio e a paz. Entre o ontem e o amanhã.

Vox Populi, Vox Dei. Voz do povo, Voz de Deus. Seja mesmo o que Deus quiser. Mas lembra que cada povo tem o governo que merece, não é mesmo? Frases feitas repletas de realidade.

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Marli Gonçalves, jornalista. Tomara que o final seja Veni, vidi, vici (Vim, Vi, Venci). Em latim ou em português bem claro.

marli@brickmann.com.br e marligo@uol.com.br

BRASIL, AGOSTO A GOSTO, 2018

ARTIGO – Ninguém está falando… Por Marli Gonçalves

E precisamos pensar e falar de tantas coisas. Ninguém tem mais tempo nem de falar, nem de ler, nem de ver tudo o que circula, muito menos de ouvir. Quer dizer, ninguém, ninguém, não é bem assim. Tem quem tenha tempo para tudo isso, inclusive para preferir enviar por tudo quanto é canto nas redes sociais vídeos que gastam mais tempo e dados para serem baixados do que para saber do que se trata.

“… O Sol nas bancas de revista. Me enche de alegria e preguiça. Quem lê tanta notícia?“ …Imagine se o Caetano Veloso  profetizava isso lá há 50 anos, em Alegria, Alegria, como tanta coisa mudou até hoje. Nas bancas de jornal, de um tudo, impressionante, cada dia empurrando mais para lá os jornais e revistas. Outro dia vi uma que vende consertos de sapatos. Viraram pequenos mercadinhos nas esquinas da vida. Melhor que lá no Posto Ipiranga.

Aliás, postos que cada vez também são menos frequentados com o preço sideral da gasolina e outros combustíveis na bomba que estoura nos nossos tanques e bolsos. Aumentando o preço e a temperatura de tudo o que consumimos e que, como vimos recentemente, chega no lombo dos caminhões.  Reparou que o abastecimento ainda não está nada normalizado? Que os preços estão siderais?

É muito louco, meio esquizofrênico. Passamos dias e dias tendo overdose de alguns assuntos. De repente eles somem como num passe de mágica. Foram atropelados por outros sem que tivesse sido concluído o anterior. Exemplos, essa história do frete e preços e os coitados sobreviventes do incêndio no prédio do centro de São Paulo, que continuam lá. Talvez você não saiba, estão lá naquela mesma praça, sem banco,  amontoados em barracas, esquecidos, tendo de roubar banheiros químicos de outros lugares para usar, porque o Governo demorou mais de um mês para lembrar desse detalhe.  Uma situação horrorosa, dramática, vergonhosa.

Ah, e a cada dia é maior o número de pessoas vivendo em barracas, nas ruas, canteiros, praças, avenidas, viadutos e buracos (literalmente) que encontram. Ou vestidas com caixas de papelão, sacos de lixo, jogadas pelas ruas como se lixo fossem. Eles não têm representação política, não são de esquerda, não votam, aliás, nem no PT, nem são vistos pelos aparelhados Movimentos sem alguma coisa. São nômades, não invadem, ocupam; mas as ruas. Não são nem gente, parece; e aquelas crianças já têm seu futuro altamente comprometido.

Pronto, chegamos a mais um assunto que nos fez, vejam só, invejar a Argentina essa semana! As proles. Lá, ao menos está havendo a discussão parlamentar sobre a descriminalização do aborto, com possibilidade até de aprovação de uma lei sobre o assunto.  Adianta sentar em cima do assunto? Não!

(Não me venham falar – acusando-os de não usarem- em métodos contraceptivos, informação, bibibibododó. Essas pessoas não têm o que comer. Muitas são analfabetas. Aliás, acaso você aí já precisou comprar remédios populares nas farmácias? Pois é, simples não é. E as pessoas que cito agora não têm nem identidade, literalmente. Muito menos receitas).

Mais um #precisamosfalar. Descriminalização da maconha.  Fechar os olhos? Tampar o nariz?  Só assim para não perceber que a cada dia corre mais livre por conta própria, em todos os lugares, todas as idades, além das pesquisas sérias sobre seu uso em medicina.

Não aguento hipocrisia, nunca aguentei , e é uma das coisas que mais me aborrecem nesse pais. Esse atraso, essa cegueira moral que tentam impingir – ou com leis que não são e nunca serão cumpridas, repressão errada , ou simplesmente esquecendo o assunto- a toda uma sociedade que precisa avançar sob o risco de acontecer o que já vemos se aproximar, o retrocesso.

Não dá para falar aqui de todos os assuntos importantes, os verdadeiros direitos humanos, atropelados nas estradas da vida e, inclusive, na imprensa que, coitada, esmorece, atacada, pobre, manipulada. Até desbancada.

Estamos precisando fazer de novo uma publicação que até hoje tem seu nome marcado na história para ser usado de novo: Realidade.

Precisamos falar sobre isso, sobre ela, a realidade, nua e crua.

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Marli Gonçalves, jornalista – Enquanto isso, a bola está rolando lá longe, quase do outro lado do mundo.

 São Paulo, 2018

marli@brickmann.com.br e marligo@uol.com.br

ARTIGO – Balança, balanço, balança. Por Marli Gonçalves

Daqui a pouco começaremos a ver as plaquinhas nas portas arriadas  – “Fechado para Balanço”. É o controle que muitos comerciantes fazem logo no início do ano.  Nós, individualmente (creio que todo mundo, de alguma forma), fazemos nessa época, nos nossos cantinhos, com os nossos botões, o nosso balanço interno. Pomos tudo na balança. O ano que se vai, pensa só, foi deles, do balanço e da balança, e olha que nosso chão chacoalhou um bocado.

O século vai chegar à sua maioridade.  A gente fica remoendo ali nos pensamentos se fez tudo o que tinha para fazer. Lembra tudo o que aconteceu – nessa hora a memória funciona que é uma beleza, principalmente para lembrar maus bocados. Aí imediatamente procuramos quais foram os momentos bons para contrapor, enquanto tentamos recordar tudo o que prometemos, lá no final do outro ano, que faríamos neste ano. Fizemos? Ainda bem que muita coisa só a gente sabe que se prometeu, melhor assim, menos mal. Fica mais fácil falhar.

Passou rápido demais. Se me permitem, sinto que está mesmo passando tudo mais rápido. Deve ser esse afã impressionante que o mundo digital abriu diante de nós. Fica tudo tão em constante mutação que ficamos correndo atrás, numa infrutífera tentativa de alcançar a ponta da linha. E ela corre de nós.

Viver nesses tempos é distante da calmaria da imagem do balanço, aquele dos parques, das redes, das cordas nas árvores, dos playgrounds, e que alguém vem por detrás e empurra para dar impulso, e que a gente dá aquela risada nervosa quando vai lá na frente, tentando não se estabacar no chão.

Estamos mais para o navio que balança no mar bravio. Enquanto o samba toca, a gente balança, requebra, dá um remelexo. Assim superamos os solavancos, os abalos, que nos deixam tão balançados. Ô, marinheiro marinheiro/Marinheiro só/Ô, quem te ensinou a nadar/Marinheiro só/Ou foi o tombo do navio/Marinheiro só/Ou foi o balanço do mar…

Amor, amor deixa balançado. Desamor também. Tomar decisão deixa balançado. Medo de tomar algum revertério.

Ficar doente deixa tudo muito balançado. O corpo da gente também vive entre a balança e o balanço, às vezes bom, dançando. Balançamos a cabeça, os ombros, os braços, as pernas quando a cadeira em que sentamos é maior do que nós.

A balança que não serve só para nos fazer prometer regime, corta isso, corta aquilo, é também equilíbrio, harmonia, proporção. Os dois pratinhos paralelos. Quando a gente pesa os prós e os contras a sua imagem é recorrente. Uma balança ajuda em muita coisa. Tanto foi ano dela que em boa parte do tempo estivemos  ligados em decisões de tribunais, que andam regendo os movimentos e desígnios do nosso país. Ritmos loucos.

O balanço geral, hoje chamado muito pomposamente de demonstração contábil, é parecido ao que fazemos pessoalmente – especialmente nesta última semana do ano, quando a coisa “bate” que o tempo passa. Medindo ativos, quantas vezes o fomos; passivos,  quantas vezes nos submetemos. Mais: o capital que conquistamos, os lucros, os prejuízos, o aspecto geral de nossos negócios.

Anote bem os resultados. Esse ano, quando o século chega à maioridade, devemos estar mais maduros, responsáveis, prontos para encarar o futuro. Esse futuro aí, o da realidade, não aquele que ganha voz de conselheira nos comerciais de final de ano dos bancos na tevê – logo eles que na realidade tanto empatam o nosso.

Vamos pular essas ondas. Que venha 2018. Tomara que nele o maior balanço seja mesmo o do nosso andar faceiro, da nossa ginga por todas as boas estradas que o destino nos levar.

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Marli Gonçalves, jornalista – Olha só que definitiva a letra dessa música do Tim Maia, “Balanço”: Deixo de viver o compromisso/ Longe de qualquer opinião/Farto de conselho e de chouriço/ Maltratando o velho coração. Ovo de galinha magra/ Gora/Todo mundo que eu conheço/Chora.

2018, pode entrar. Estamos te esperando

marligo@uol.com.br
marli@brickmann.com.br
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