ARTIGO – Ansiedade, no momento teu nome é Brasil

Ansiedade, o Mal do Século? Ataca agora todo um país e, por incrível que pareça, é a única coisa que nos une a todos, em momento eleitoral tão dividido, violento, crucial. Me diz se não está aí também contando os dias, horas, minutos para acabar com essa expectativa, para mim uma das maiores do período democrático, pelo menos do que vivi.

ANSIEDADE ELEITORAL

Palpitação, tensão, nervosismo, até medo do que pode acontecer nos dias e horas que faltam para aquele final de tarde, começo de noite, quando os resultados começarem a ser divulgados, e depois disso.

De um lado, esse de cá, tanta vontade de se livrar desse bagulho (e de sua família e asseclas) o mais rápido possível e enquanto é tempo, e depois de viver aflições e ouvir desrespeitos praticamente todos os dias dos últimos quatro anos, que estamos até meio doentes. Brigamos entre nós quando deveríamos estar todos juntos em uma só direção e objetivo, sem divisões, como as que inclusive nos causaram todo esse desgosto.

É o que temos, sei bem que não é, sem dúvidas, o melhor dos mundos, mas é preciso decidir o mais rápido possível para que se aplaquem esses temores, ou melhor, para que possamos caminhar com mais segurança no caminho que as urnas traçarem, seja qual for, e logo, juntando os cacos. Teremos muitas coisas para resolver e necessitaremos de estar fortes para defendermos a ameaçada democracia custe o que custar. Hora da união da oposição. Seria maravilhoso que essa pendência principal fosse decidida logo, para acabar com a agonia e esclarecer quais serão as próximas fases do jogo.

Essa é a montanha-russa da política, movimento aparentemente normal, se estivéssemos vivendo momentos normais, o que não é decididamente o caso. Mais uma vez, por exemplo, as eleições legislativas, tão importantes quanto a decisão para os cargos de presidente e governador, estão sendo escamoteadas e vemos apenas aquelas pessoas aparecendo com frases curtas e em geral sem sentido, ou apenas em fotinhos e acenos. Aqui em São Paulo tem candidato ao Senado apelando para o seu cachorrinho que promete levar para a Brasília, tem astronauta perdido no espaço, cada um de espantar. Pouco nos atemos, por exemplo, não só ao rol de propostas mirabolantes, mas a aquelas letrinhas miúdas que trazem lá embaixo o nome de suplentes, na maioria francos desconhecidos e que poderão, como tantas vezes já mostrou a história, serem os que acabam sentados lá nas cadeiras do Congresso. Por momento assim na eleição anterior, além de acabarmos governados por um perigoso sem-noção, elegemos algumas das piores legislaturas de todos os tempos no Congresso e nos Estados. Aliás, anda perdido por aqui até um siderado candidato ao governo do Estado que não sabe nem onde ele próprio vai votar.  Sem um Waze nem para casa volta.

Tudo isso é o caldo grosso da política. Fatos que criam em todos essa ansiedade, faz ficar esperando resultados de pesquisas, tem tomado o tempo de muitos nas redes sociais se atacando entre si, insuflados pelo ódio reinante e desgastante cultivado nos últimos difíceis tempos que vivemos, pela pandemia que acabou por dominar nossa atenção, de um lado, e do outro, ver o quanto eles aproveitaram para se armar, tomar as cores da bandeira, disseminar mentiras absurdas, tentar destruir a imprensa, atacar e desmerecer conquistas fundamentais.

Enquanto isso, vamos nos distraindo um pouco tentando relaxar. As farmácias vendendo calmantes como nunca. “Influencers” surgindo de todos os lados e poucos sabem como se criam, mas sabemos o que comem, o que vestem, onde gastam, com quem transam. Ideias de desafios – alguns pegam, como esse último de postar foto com 13 livros de lombada vermelha, que – tudo bem – mas adoraria exatamente entender o sentido, além do vermelho e do 13, para virar voto. Artistas se mobilizam em fotos, vídeos, músicas e até hinos, como o do inominável, que lista em mais de 13 minutos os absurdos do bagulho – tantos foram que o vídeo ficou mesmo bem longo.

Legal. As mãos surgem, de um lado apontando, fazendo arminhas; do outro, transformando as tais arminhas no L, de Lula, o líder político ressuscitado desse país que se distraiu e esqueceu de formar novos quadros sérios e fortes o suficiente para encarar a caneta desse atual presidente apenas ignorante, que acha que é de direita porque ouviu dizer por aí, que subiu ao poder e dele quer se apropriar. Ainda acha que pode vencer jorrando impropérios e comprando com migalhas exatamente quem mais vem sofrendo com toda a situação. E não é só de ansiedade, mas de fome, de falta de saúde, trabalho, moradia, saneamento, segurança, já soterrados por dívidas.

Esses que ninguém engana, de mãos calejadas.

___________________________________________________

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 

ARTIGO – Primaveras que vivemos para ver. Por Marli Gonçalves

Primaveras que damos graças em estar aqui para ver em meio a tantas perdas, tristezas e apreensões – e essas não são só eleitorais, são de uma infinidade que a memória guarda e que se aviva a cada acontecimento presenciado, e eles se sobrepõem com assustadora rapidez. Alguns para o bem, mas muitos para uma acelerada piora.

PRIMAVERAS

Flores para que te quero. Clamemos pela primavera, a estação que chega precisa às 22h04 do próximo dia 22 de setembro. Também chamamos primaveras quando se consolida uma luta, quando muitas pessoas se unem em torno de mudanças, de alguma conquista, lembra? Primavera Árabe ficou bastante conhecida. Uma estação que renova, ou pelo menos tenta, nossas esperanças, o ar fica mais respirável, e até os animais mudam seu comportamento, saindo da hibernação, procurando parceiros, apresentando seus filhotes. Borboletas e abelhas se apresentam mais ativas, ajudando a colorir o mundo aos nossos olhos. Momentos únicos.

Pois bem, cada um guarda suas lembranças. Até quando fazemos aniversário, mesmo que em outras datas, completamos poéticas e marcantes primaveras. São tempos memoráveis e certamente a deste ano será recordada por muitos outros temas. Saindo aos poucos de uma terrível pandemia, nós, os que sobreviveram, pensamos em voar por aí como borboletas visitando o que restou, e quando então chegamos à conclusão de tudo e quanto muito se modificou nesses últimos anos, quase três da aflição mundial. Somados aos quatro da aflição nacional de um desgoverno agressivo também acompanhada pelo mundo, como o é a guerra, como são as guerras, a mais visível no momento, na Ucrânia.

A normalidade, como se costumava, essa não volta mais, dada a experiência vivida por muitas gerações eternamente marcadas, seja como órfãos, pelas sequelas, pelos novos hábitos, pelas vacinas que serão sempre reaplicadas, pelos cortes em áreas fundamentais à sobrevivência. Não há como entender experiências esquecidas que a ignorância leva a que novamente possamos sofrer, antes erradicadas; por exemplo, quem são esses os que não sentem o pavor da poliomielite que a tantos aleijou por toda a vida, não vacinam seus filhos?

As primaveras que vivi para ver incluem de um tudo, experiências seja na vida pessoal, profissional, amorosa, e na de ver um país que tinha tudo para deslizar suave pela História, mas sempre acabou tropeçando, virando mato, pisando nas flores, queimando suas largadas. O tal país gentil, tropical, quando conseguíamos achar graça até do horário eleitoral, nem isso hoje, que deu tiririca em tudo.

País que, a cada crítica que faço, daqui da realidade que vivemos, recebo de revide comentários que enumeram para que eu considere – nem sei bem como as acham – coisas boas, que deveriam ser mais que óbvias e obrigatórias. Às vezes penso se não há mesmo um monte de planetas diferentes aqui nesse mesmo lugar. Planetas e órbitas onde se isolam economia, riqueza, pobreza, alegria, esperança, ética e liberdade, comportamentos e conquistas que nos são tão caros. Cada qual com seus habitantes.

Esse meu mundo – e creio que da maioria – tem muitas flores, sim, que jamais me afastarei delas e de otimismo pelo seu florescimento, mas não há como negar os espinhos, os percalços, as pragas, os cortes, os perigos de alguns venenos.

O momento é agora. De plantarmos mudanças e primaveras, da forma que pudermos, com quem pudermos contar, e uma delas é extirpar o que nos causa tanta vergonha diariamente, principalmente a nós, mulheres, que atacam insistentemente. Desejam anular o tanto, mas ainda pouco, que alcançamos, nossa honra, liberdade, igualdade. O fazem semeando a discórdia, matando, queimando e envenenando os nossos corpos, fazendo surgir sementes do mal que considerávamos que jamais veríamos brotar novamente na História. E que sempre pergunto a mim mesma: de onde saiu essa gente tão pavorosa? Onde escondiam seus ódios, pensamentos sórdidos, qual foi a tampa aberta?

Uma delas, o resultado que levou à eleição de 2018, que agora temos o dever de fazer voltar de onde veio e de onde nunca deveria ter saído. Na época, confusa, muita gente não sabia mesmo quem era e o que significava o ser que acabou vitorioso, que tanto tentamos alertar, e ainda por isso somos punidos diariamente – tentam destruir o jornalismo, essa profissão fundamental e a qual me dedico há décadas, nunca tão menosprezada.

Agora, sabemos, todos, o que era aquilo. Não há como negar, a não ser os que ainda estejam com seus sentidos tapados por um torpor fétido e nauseante espraiado no ar que busca tirar nosso viço, que é muito além do que perfilam, esquerda, direita, e que nem de direita ou esquerda o são.

Que nosso campo seja o da esperança. Que façamos desta, agora, uma primavera mais do que especial. A do recomeço, até para que possamos poder colher as flores boas e desprezar novamente os musgos, se for necessário.

___________________________________________________

MarliMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

ARTIGO – Se até o santo desconfia. Por Marli Gonçalves

Quando a esmola é demais, o santo desconfia. Nós, também. Os pobres, mais ainda. Se liga, que nem é esmola, ninguém é santo, e o dinheiro que está entrando e vertendo nesse jogo enganador, populista, sórdido, é seu, meu, nosso. Estão batendo nossa carteira na cara dura, buscando votos, roubar a eleição, deixando o país ainda mais na tanga do que já está.

esmola demais, santo desconfia

Somos nós que abastecemos esse cofre cada vez mais arrombado esta semana e que já vinha sendo dinamitado sem dó. Se as notas, tal qual os bancos fazem para proteger os caixas eletrônicos de assaltos, fossem manchadas de tinta rosa, aí que a gente ia ver o que é pink money, e não seria a criativa economia LGBTQIA+. Mostraria a devassa do verdadeiro cangaço reinante na política, escangalhando nossa economia, ao qual sucessivamente estamos sendo submetidos, A PEC Kamikaze foi só mais um passo na direção do abismo, e de muitos outros que nos derrubam ao despenhadeiro.

Quase cinco bilhões de reais já tinham sido destinados aos partidos políticos – essa miríade de letrinhas sem ideais que se confundem e se fundem – para essas próximas sofridas eleições deste ano. No Congresso Nacional, nessa que é uma das piores legislaturas de que se tem notícia nas ultimas décadas, pelo menos as que vivi, e olha que já vi coisa bem ruim, falar em situação e oposição parece até piada. De lá só chega alguma péssima notícia, manipulação, retrocesso em questões sociais, corte de verbas para áreas essenciais, reuniões clandestinas, orçamento secreto com distribuição de emendas, sabe-se lá de quê, para onde vão, e mesmo se chegam a algum lugar. E por qual preço, qual apoio, qual fala mais reacionária que outra; qual explicação mais esdrúxula para isso tudo passar, lindo, liso, votação após votação. Com números chocantes.

Falam em ajudar os pobres, os mais vulneráveis, inventam um tal estado de emergência, estupram a Constituição, e são todos filmados fazendo isso. Não disfarçam nem ao datar o que fazem em ano eleitoral – auxílios, sem cálculos reais, e com data precisa de vencimento, fim desse ano mesmo, dirigidos em busca de votos de quem, por graça e alguma sorte, em filas na chuva e no sol, chegar a receber a tal esmola, ops, apoio, cala boca, fumaça nos olhos, decantada, especialmente por esses que nos delegam que os próximos meses até outubro serão tenebrosos, violentos, e que até lá vão inventar de um tudo para melar qualquer decisão, entre as muitas que estarão em jogo.

Não vai funcionar, porque as pessoas não são bestas. Sabem que falta tudo, comida na mesa de milhões de brasileiros, remédios básicos, cuidados mínimos com o que é nosso em todos os terrenos, todos os campos. A inflação corroendo qualquer mínimo esforço por melhoria de vida, juros destrutivos, ricos ficando cada vez mais ricos e fanfarrões, enquanto ouvimos as mesmas cantilenas. Pior, agora também já são ouvidos berros horrorizados. De quem precisa, de quem dá e de quem tira.

Assistimos – e inacreditavelmente, ainda impassivos – ao desmonte geral do pouco que conseguíamos construir nos poucos anos vividos de democracia capenga depois da ditadura militar que nos enlutou por mais de duas décadas, e que de novo tentam fazer ressurgir das cinzas em focos que não conseguimos extinguir, que se esconderam em baixo de peles de cordeiro. Até porque nosso extintor não funcionou nem para promover um mínimo de educação política, formação de novos quadros. Olhe bem: na geral são aqueles mesmos, de sempre, no comando, e do que se costuma chamar situação e oposição; os outros aparecem apenas como fantoches, sobrenomes de continuidade, ou nomes aos quais se adaptaram como pastor tal, cabo xis, coroné não sei quem – que nos lembram a miúda política eleitoral geral, o Pedro do Açougue, o Claudinho da Geladeira, o Manoel do Posto. Em sua maioria, ainda, homens, com poucas mulheres, muitas apenas a reboque.

As costas largas da pandemia já se mostram pequenas para arcar com todo o peso que aproveitadores desse momento desgraça nela descarregam, até como se realmente estivessem preocupados com isso, com as ondas que continuam crescentes, mortais. Mas não conseguem nem conter nem explicar a loucura instalada, agora ainda com tremenda violência política e com ideias delirantes brotando da cabeça inclusive de militares assanhados e doidinhos para fazer que sejam sacadas as armas que espalharam.

___________________________________________________

Marli - perfil cgMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

ARTIGO – Paraísos artificiais. Por Marli Gonçalves

Nos paraísos artificiais que vivemos, não precisa nem de drogas para esses efeitos, alguns alucinógenos, outros nem tanto, reais de doer. Drogas – e das pesadas, batizadas, misturadas com coisa ruim – são essas que nos enfiam diariamente goela abaixo. Não pode, pode. Decreta-se. Publica no Diário Oficial e a gente aguenta. Tudo fora da ordem, na desordem, e seja lá mais o que for.

 paraisos artificiais

“Trabalhar que é bom, ninguém quer, né?” – meu pai sempre dizia isso quando via umas situações – e olha que elas não eram nem de perto parecidas com as que estamos vivendo em realidade, verso, prosa, metaverso, universo paralelo, supermercado, justiça e bem mais. Faço uma adaptação: “Protestar na rua contra tudo isso, ninguém quer, né?”.

Me desculpem os carnavalescos, mas se tem coisa que considero a mais idiota dos últimos tempos foi esse Carnaval artificial, fora de hora, coisa mais esquisita, decretada, assim como todos os acintes que vivenciamos. Não, não sou daquelas que detesta carnaval, gosto até dos bloquinhos, mas tudo tem hora; e a hora não era esta. Ficou uma coisa isolada, e olha que andei por aí algumas horas pelo menos para ver se encontrava alguém, podia até ser uma criancinha com algum adereço, fantasia, alguma pluminha, aquele ar folião. Talvez até mudasse de ideia se encontrasse blocos espontâneos, fossem pequenos grupinhos. Nada. Aqui em São Paulo a coisa realmente se concentra na avenida que não é mais avenida, o Sambódromo. Com alguns ecos. Onde “permitiram”. Não sei no Rio.

A mim, tudo soa falso. “Jeca”, até, se me permitem. Não é porque estamos saindo de dois anos do horror da pandemia que tinha de obrigatoriamente ter o que estão chamando de Carnaval, e Carnaval não é. Pior, vou dizer: estão tentando programar mais outro, para julho. Para satisfazer os blocos. E eu que sonhei tanto com o dia em que, livres do vírus (o que ainda não estamos), iríamos às ruas cantar e dançar – na minha cabeça haveria um dia que isso aconteceria. Não por decreto, como esse ministro da Saúde miserável anuncia, dando pauladas na pandemia que ainda mata mais de cem pessoas por dia, e no mundo fica no vai e volta.

Muito louco esse momento, todos os dias, coroados com o perigoso presidente sem noção fazendo graça/desgraça e troça com a Justiça, desafiando a Constituição, dando indulto para seu amigo ordinário e que, como ele, não tem apreço algum pela democracia. Não, o talzinho não foi injustiçado, nem martirizado, nem preso apenas por ter roubado um pedaço de carne ou shampoo; nem é miserável – essas coisas sociais, como  miséria e o desespero,  não incomodam esse amontoado que temos de chamar de governo  e que está louco para fechar o tempo e continuar nele. Também não é liberdade de expressão ameaçar ministros e suas famílias, convocar ataques, juntar gente para soltar fogos no Supremo Tribunal Federal. Acreditem, por favor, seja como for, com os que estão lá, questionáveis, egocêntricos, mandados, o STF ainda é o último poste em pé de proteção que temos.

Que 2022 seria um ano difícil, nenhuma novidade. Ano de eleições, de Copa do Mundo, de consequências pós-pandêmicas, de economia titubeante e até guerra longe que ecoa aqui. Mas insuportável até para nosso bem estar psicológico – como anda – não era esperado. Perigoso em seus caminhos políticos. Ainda temos de aguentar na tevê propaganda de partidos famosos por sua adesões seja ao que for disputando agora quem é mais… conservador! De doer. Um diz que é o verdadeiro; o outro diz que é o primeiro, sempre com um amontoado de afirmações desconexas e gente tão falsa quanto seus cabelos grudados e o apelo a ver quem é mais reacionário, quem atrai o que há de pior se criando e procriando celeremente fora do cercadinho.

Viva Baudelaire! Que preguiça! Estão tornando o paraíso Brasil um pesadelo tal que a nossa reação quando acordados vem sendo jogar a toalha.

___________________________________________________

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
No Twitter: @marligo
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

ARTIGO – Laços de amizade. Por Marli Gonçalves

Sei, sei sim, Laços de Amizade, parece nome de novela mexicana, mas qual novela ultimamente que não é mesmo meio misto de mexicana, paraguaia, “guatemalteca” e afins?  A que termina essa semana, Lugar ao Sol, chega a ser surpreendente nisso – e não se trata de realismo fantástico, mas de como os assuntos se entrelaçam e são finalizados na maçaroca, na pancada, igual querem fazer com a pandemia

laços de amizade

Sempre tem um acidente de avião ou helicóptero que mata um, dois ou mais personagens, e como dali não sobra nada, nem precisa ser mostrado – economia boa de recursos; tem  a mãe que não é mãe, o pai que não é pai, muito menos o filho é filho, e suas variações; idas e voltas amorosas, casamentos, e revelações, muitas revelações,  como se os espectadores fossem todos obtusos e ficassem sempre aguardando as redenções, o maniqueísmo do bem e do mal, o expurgo das culpas. O cansaço dessa fórmula talvez demonstre a causa e o crescimento da loucura por seriados gringos e seus roteiros mais sofisticados.

Mas quero tratar da realidade, dos laços de amizade reais. Laços grandes, pequenos, médios, apertados ou frouxos, mas laços. De como é bom ter alguém para chamar de amigo ou amiga, tantas vezes laços maiores do que os mantidos com os próprios familiares. Com o advento das redes sociais, no entanto, o sentido da palavra amigo se modificou, ficou mais aberto. Temos milhares de amigos, que aceitamos, mas não conhecemos e, na maioria dos casos nunca conheceremos pessoalmente, mesmo que alguns até bem gostaríamos. Tenho seguidores, leitores, por exemplo, dos quais sei muito, fatos íntimos, converso e troco ideias, mas que de repente podem passar ao meu lado na rua sem que nos reconheçamos. Há, de qualquer forma, um bonito tipo de sentimento envolvido na relação. Oi, amigo!

Só que nada como o real. As pessoas que conhecemos, admiramos, com as quais percorremos alguns trechos da vida, com lembranças, aprontos, muitas vezes até atritos nos pensamentos discordantes um dia, mas resolvidos. Com essas pessoas nos preocupamos, ficamos apreensivos quando – mesmo que talvez distantes, e andamos um bom tempo distantes de tantas coisas! – delas não temos boas notícias. O que tem se tornado comum, inclusive, situações e desfechos alardeados via redes sociais. O Facebook tem dia que mais parece um obituário. E lá se vão os conhecidos, os amigos, pedaços de nossa histórias, deixando a sensação ruim daquele café combinado, do encontro, o telefonema adiado. Aquela pergunta não feita.

No momento, por aqui, a apreensão é enorme com um amigo ligado a uma máquina e aguardando  a chance de um transplante de coração, e outro com um diagnóstico terrível daquela doença para qual o mundo ainda não encontrou cura ou vacina, embora já ande passeando pelo espaço, até com venda antecipada de bilhetes milionários em naves particulares. Os dois são jornalistas, um mais jovem que eu, com 58; outro, já mais velho, por volta de 76. O que fazer nessa hora, a não ser orar, torcer? O que dizer para quem os acompanha, para suas famílias, como aplacar a angústia? Como apoiar, inclusive os seus outros amigos, alguns muito mais próximos deles ainda, que também quedam desnorteados?

Difícil. Não lembro se já contei que tenho muito poucos amigos reais – grande parte perdi, seja nas ondas terríveis anteriores ocorridas em outras décadas, seja nessa agora que nos devastou de tanta gente importante, e que só um dia mais lá para a frente teremos noção desse tempo de pandemia. Pandemia agora desmascarada e que tentam acabar a pauladas em ano eleitoral, embora esteja ainda tão presente, tão letal quanto a guerra. Quanto as guerras.

Há quatro anos não via um desses poucos amigos, do casal que mudou-se para Madri em busca de seus sonhos e de proporcionar ao filho adolescente a chance de como cidadão do mundo poder realmente fazer suas escolhas, meu afilhado postiço, hoje já com 19 anos e estudando em Haia, na Holanda.

Alexandre está aqui em casa, onde vai passar uma temporada, e essa convivência foi o que me fez lembrar mais uma vez do valor de uma amizade real, especialmente para mim que só tenho meu irmão nessa vida (e uma gatinha que aqui também habita, membra honorária da família). O tempo passou, mas a distância de continentes em nada alterou o respeito que mantivemos desde sempre, demonstrado inesquecível na solidariedade sem par que esses amigos também dedicaram à minha mãe e ao meu pai quando mais precisávamos.

Interessante.  Pois não é que nos conhecemos nus, despidos, em uma praia naturista do  Nordeste? Ainda hoje creio que foi esse conhecimento tão inusitado e natural, sem disfarces, que nos tornou tão unidos, diferentes de amizades outras em geral dependentes de recursos, interesses, e um enorme tempo necessário para se conhecer a essência de um e de outro até ganhar confiança.

Laços de amizade são fundamentais para contarmos. Para nossa sanidade mental, e até para orientar nossos caminhos – que não nos desviemos. Como diz a música, amigo é mesmo coisa para se guardar debaixo de sete chaves.

___________________________________________________

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
No Twitter: @marligo
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

ARTIGO – Sansão e as sanções. Por Marli Gonçalves

Deu-se que lembrei nada mais nada menos do que de Sansão, aquele, o guerreiro bíblico, da força descomunal nos cabelos, da loucura por mulheres bonitas, que viveu a vida em guerra e vinganças.

Sansão

É sanção sendo atirada de um lado a outro. A palavra da semana, igual aos bombardeios cruzando o globo. Eu não compro mais isso, você não recebe mais aquilo. Ameaça vai; ameaça vem. Vamos ver no que vai dar o tira e põe. Sobra, claro, para todo o mundo, que acaba entendendo o que é sanção bem na própria pele, vide o absurdo aumento dos combustíveis que vai impactar ainda muito mais nosso suado e surrado dinheirinho. Na cadeia inflacionária descarrilada – e que só por acabar de ser informada do aumento já sai apitando nas esquinas, nas feiras, no supermercados num batida maldita que só trará mais miséria. E universal.

Muito louco como quando passamos por tempos difíceis como os que estamos vivendo coletivamente, de guerras, doenças, notícias esquisitas, de um tudo ao mesmo tempo agora, vem à nossa cabeça a lembrança de cada coisa, Igual sonho que puxa da memória o inimaginável, sabe-se lá onde estava guardado, e para onde volta depois.

O tal Sansão, antes que esqueça de frisar, não é personagem do cotidiano pessoal, já que por acaso histórias bíblicas, a própria Bíblia, admito, é para mim um estranho emaranhado de personagens, e não gosto nem um pouco de mexer com religião. Aliás, ultimamente só de ouvir falar em mito tenho urticária.

Lá, muitos personagens se destacam mais que outros, viraram expressões populares de fatos, como Caim e Abel, traição, assassinato entre irmãos. Muitos outros exemplos.

Aficionada, sim, mas pelas mitologias, onde também seus personagens esbarram entre si, gregos, romanos, cada povo contando seu lado. No caso, Sansão tudo a ver com Hércules, ambos fortes, másculos, violentos, e com mulheres tecendo suas histórias, em um caminho da destruição, da luta pelo poder, ordenamentos, opressão, divisões políticas e crenças.

Sansão nasceu durante uma guerra, com sua nação lutando contra os filisteus. Já nasceu com a missão de ser o libertador de Israel, um Nazireu, homens israelitas dedicados a servir a Deus. Eles tinham que se abster totalmente de álcool, nunca tocar em um cadáver ou cortar o cabelo. Daí seus longos cabelos serem tidos como símbolo de força – dada por Deus, aquele que dá e tira. Força que teria acabado e ele sendo aprisionado, cegado e torturado por confiar em uma mulher, que conhecemos como Dalila, que o vendeu por moedas aos inimigos ao descobrir seu segredo e tosar sua cabeleira. Seu final foi a própria morte, mas levando consigo um bom punhado de inimigos, assim que o cabelo cortado cresceu. E entrando para a história infinita como um herói bíblico. Cheio de recados com moral.

Resumi bem, porque assim vejo a guerra. Vítimas de todos os lados e banho de sangue, pelo poder. Claro que hoje temos ainda o terror nuclear, aquele boom do qual ninguém quer ser testemunha. Mas o crescendo que assistimos de explosões, foguetes e êxodo de milhões parece coisa antiga, aquela mesma que juramos há mais de 75 anos atrás que não se repetiria. O que mudou, o que é mais “moderno”, são as forças de cada lado, globalizadas, as nações envolvidas que ultrapassam o continente em questão, os tiros políticos com as balas de sanções que atingem distâncias muito maiores. Dezenas de gigantescas empresas e corporações que abandonam a Rússia nesse momento vão manter seus funcionários com salários, segurança, amor, carinho, leite e pão nesse período que já se mostra incalculável, seguidos acordos de paz fracassados?

Sanções também são censura. Não é que eu acabo de me por em risco falando do Sansão? Acredite: a Câmara votou urgência em projeto que proíbe o uso da palavra Bíblia fora do contexto desses caras que dela se apossaram.

“Fica terminantemente proibido os termos ‘Bíblia’ e/ou ‘Bíblia Sagrada’ em qualquer publicação impressa ou eletrônica de modo a dar sentido diferente dos textos consagrados há milênios nos livros, capítulos e versículos utilizados pelas diversas religiões cristãs já existentes, seja católica, evangélica ou outras mais que se orientam por este livro mundialmente lido e consagrado como Bíblia”,  primeiro artigo do projeto de autoria do tal deputado Pastor Sargento Isidório (Avante-BA).

Aí vocês me perguntam. No meio de tanta coisa importante para se fazer, cuidar, resolver? Veja bem. E vou piorar a situação quando explicar que eles fizeram isso porque acreditam piamente que há quem esteja planejando uma Bíblia gay. Sem comentários.

O que foi que nós fizemos de mal para termos de aguentar essa sequência assassina de bombardeios de ignorância, preconceito, descasos, bobagens, retrocessos dia e noite aqui em nosso sofrido país?

Não admira os cabelos brancos revoltos pululando na cabeça de uma população que só queria deitá-los e dormir em paz. E que acordam sem eles, sem forças.

___________________________________________________

Marli - perfil cg – MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
No Twitter: @marligo
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

ARTIGO – Ah, é Guerra? Por Marli Gonçalves

É muita coisa junta atraindo, merecendo e roubando a nossa atenção. Pandemia, mortes; guerra, mortes; violência, mortes; usinas nucleares em chamas, o mundo todo envolto em dramas, pó, chamas. Gente chata. Busca por sobrevivência. Me diz: quanto tempo você está conseguindo ficar pensando só em sua própria vida? Planejando qualquer coisa? Como se concentrar sem ser egoísta?

ah, é guerra!

Um dia após o outro, com calma. Respire fundo. Tenha pensamentos positivos. Concentre-se. Reze, reze muito. Apegue-se ao presente. Não será por falta de conselhos, mesmo que alguns sejam praticamente inexequíveis nesta altura dos acontecimentos.

Não teremos mesmo muitas outras opções, pelo menos não nos próximos dias, talvez meses, e que não se permita que essa agonia prossiga por anos. O ar irrespirável da guerra, mesmo que lá a mais de 11 mil quilômetros de distância, nos tira o fôlego, e especialmente o tempo de pensar em nossas próprias vidas, problemas e soluções.

Por aqui, os dias do Carnaval, que já não estava aquela beleza, ficaram muito piores ainda com os ecos da invasão russa à Ucrânia, não bastassem os gritos de perigo da pandemia, seu vírus e suas cepas continuamente renovadas. Nos últimos anos aqui em São Paulo o Carnaval tinha virado uma temporada de alegria, com diversão, blocos na rua – as pessoas nem mais viajavam tanto, abandonando a cidade, abarrotando estradas – e agora já vimos tudo isso de novo. Como se todos que pudessem sair, corressem para algum lugar onde pudessem relaxar, esquecer, ouvir o canto de pássaros, mergulhar com peixinhos. A cidade aqui ficou uma tristeza só. E olha que em 2021 já tinha sido punk, mas agora somou-se pandemia e a guerra lá, com ecos por aqui, e que já nos aperta e morde os tornozelos.

É uma guerra não contida só em suas fronteiras. É uma guerra que envolve os brasileiros, seja por estarem lá, ou por perto, ou no todo ameaçado continente europeu – e isso é muita gente, contando seja com familiares, ou mesmo nossos amigos – tanta gente que havia se pinicado daqui em busca de futuro. Para completar, a política errática do desgoverno Bolsonaro, que não sabe se vai ou se fica, se pula ou corre, e que abraça, para nossa tristeza, o lado dos ditadores. Não, não vou deixar de criticar uma inacreditável parte da esquerda nacional ainda capaz de vomitar tantas sandices, abanando o rabo russo, como se esse lhe coubesse em um caso tão claro de violação de direitos humanos e espalhamento de terror.

Quem não se sente perdido nesse mar de bombas, fake news, autoritarismo, oportunismo ideológico e de outras nações, violações, alarmes tocando dia e noite, mais um êxodo migratório gigantesco e desconfortável?

Tudo isso em 2022, logo já em seu início. Ano que se já não era simples para nós, piorou, quando aguardamos ansiosos uma eleição ainda indecifrável, com lista de candidatos pouco atrativos e nessa grudenta divisão que nos assola há anos, limitante e emburrecedora, capaz de nos por aqui, também, em uma guerra particular.

Ah, não quero ouvir falar de guerra! Ah, não quero saber de números da pandemia! Ah, não quero saber de noticiário!  – Tenho ouvido tanto isso, que acabo entendendo a apatia em que nos encontramos. E exageram.

Para vocês terem uma ideia, acreditem ou não, ouvi da gerência da academia que frequento – a mocinha foi capaz de dizer aos meus ouvidos que a terra há de comer, como se diz –  que as tevês estavam ligadas em canais de esporte por conta do “ambiente esportivo”. O que passava quando reclamei, coisa que parece as pessoas esqueceram como é, submetendo-se silentes a tudo, e era de manhãzinha? Das cinco tevês, três sintonizavam uma mesma e sangrenta luta de boxe; as outras duas, comentaristas sportvianos sentados nas suas mesinhas, e visto em tevês claro que sem som. As boquinhas se mexendo.

(…e eu só queria ver o mar, por exemplo, nas ondinhas das surfistas do Canal OFF, ou uma Ana Maria Braga com suas receitas deliciosas, um desenhinho animado, uma previsão de tempo…).  

A guerra não é aqui. Mas vai sempre ter alguém ou algo bombardeando nosso mais que valioso momento reflexão.

___________________________________________________

Marli - perfil cgMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):

Instagram: https://www.instagram.com/marligo/

No Twitter: @marligo

Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com

No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

ARTIGO – Os bufões da guerra. Por Marli Gonçalves

Um amigo, sábio, silencioso, tranquilo, sempre muito equilibrado, de repente o vejo publicar no Facebook uma série de imagens de bufões, palhaços, saltimbancos. Apenas elas, sem qualquer texto. Nesta loucura que vivemos, até demorei um pouco para entender o claro recado que ele deixava – sua opinião sobre a guerra que assistimos atônitos

bufões da guerra

Mas entendi, e com clareza. Há mesmo vários bufões envolvidos nesse conflito mundial que desembocou na invasão da Ucrânia pela Rússia, e não estou querendo aqui fazer qualquer análise dessas super sérias de geopolítica ou histórica, que já tem bastante gente fazendo isso, alguns com aquela velha cara de “conteúdo”, de sabichões.

Faço apenas o registro atual de que nesse conflito e em tantos outros que vivemos eles estão lá, os bufões; pior, no poder, com poderes. São variados. Há os poderosos como Vladimir Putin, da Rússia. Os que caíram de paraquedas, como Volodymyr Zelenky, que preside a Ucrânia desde 2019, e que, portanto, era até há pouco apenas um ator humorista, alçado ao cargo por sorte e porque a política internacional também têm os nossos mesmos problemas – o voto tentativa no novo, no desconhecido, no salto no escuro, para tentar fugir da política tradicional, a aposta no tal diferente. Isso quando podem votar livremente, e o que não é o caso em locais como China, Coreia do Norte (do bufãozinho esquisitinho), a Venezuela de Maduro, e mesmo da Rússia, que ali também liberdade não há. Uns toda hora tentando derrubar outros. Com bombas, tanques, foguetes, envenenamentos, ataques hackers, poderio nuclear, estrangulamentos econômicos, patadas.

Tudo sem a menor graça.

Só que depois do inefável Trump, os Estados Unidos, a super potência, elegeu Joe Biden, o que tanto aplaudimos, mas que também rapidamente virou decepção com aquele eterno sorriso embutido, olhinhos fechados disparando ameaças de pouca efetividade. Claro que você está aí lembrando de vários outros nomes e interesses envolvidos nesse furdunço e entendendo como essa salada muito pouco divertida se transformou no maior conflito armado desde a Segunda Guerra.

Vai sobrar para nós. Aliás, já está sobrando com queda de Bolsa, aumento do barril do petróleo, escassez de produtos, problemas para a importação de trigo, e a angústia de centenas de famílias brasileiras com seus membros ilhados no meio de tudo isso.

Temos um bufão especial para chamarmos de nosso. O presidente Jair Bolsonaro se esmera em nos enrubescer e envergonhar ainda mais diante do barulhento e mortal cenário internacional com o seu comportamento irresponsável – que não encontrei palavra melhor para definir, no mínimo, a forma como está conduzindo o país nesta situação. Mais uma vez destoamos, inclusive de nossos vizinhos. Agora é torcer apenas para que a situação atual não se agrave ainda mais, torcer pelo cessar-fogo. Esperar para que mais essa ferida cicatrize. Mas a marca vai ficar. Já ficou.

Não sei se por conta da superficialidade das redes sociais, se por conta da pandemia que deixou todo mundo atazanado, das constantes crises econômicas, de uma confusão de extremos ideológicos, ou se da cultura do ódio que novamente vemos surgir, a verdade é que ninguém mais leva a sério nada.

E tudo é muito sério. Parece que tudo pode. Nem os próprios bufões são levados a sério entre eles, em parlamentos, grandes mesas, parlatórios, pronunciamentos, reuniões, em suas grandes entidades. Em seus próprios países.

Nós não os levamos a sério.

Ultimamente surgiu mais uma chatinha modinha de linguagem. O tal “é sobre isso”é sobre aquilo”, que talvez você já tenha notado, usado toda hora para resumir argumentos numa discussão, de forma a clareá-los. E encerrar a discussão.

Então, lá vai. É sobre isso. Ninguém mais se leva muito a sério, nem na hora do voto. Não se leva mais a sério nem os perigosos bufões. Mas os bufões, ah, estes pessoalmente se levam muito a sério, e querem permanecer poderosos, custe o que custar, já não são mais só apenas os bobos da corte. Vide os nossos.

___________________________________________________

Marli - perfil cgMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
No Twitter: @marligo
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

ARTIGO – 2022, que os patinhos na lagoa nos ajudem. Por Marli Gonçalves

2022, Dois mil e vinte e dois, dois patinhos na lagoa, como a gente chama o desenho bonito do número. Um ano que chega se arrumando, tentando se reorganizar, mas por mais otimistas que possamos ser, traz também tantas incertezas que os patinhos da lagoa estarão nadando em círculos

2022 dois patinhos na lagoa

2021 foi realmente um dos mais difíceis anos, e acredito que também deve ter sido o mais difícil de muita gente. O esgotamento geral após dois anos de pandemia; a sobrevivência física e financeira. O equilíbrio emocional perdido nos frangalhos, nos baques de perdas irreparáveis e notícias esquisitas todos os dias.

Difícil mesmo se situar em um planeta bolinha que parece ter sido sacudido por um chute tão certeiro que tantas coisas ficaram sem pé nem cabeça geral, e que já vamos para mais de dois anos de vidas modificadas.

Estamos fazendo um rescaldo e quando já estávamos até mais alegrinhos, boom, chega essa nova cepa ômicron – daqui a pouco, nesta toada, logo se esgotará o alfabeto onde se busca seus nomes para batismo. O fim de ano de todos está balançado, ainda inseguro com suas festas limitadas e o receio do que virá por aí.

Na verdade, já estamos sentindo muito claramente o que tanto temíamos, que essa coisa toda, e põe coisa nisso, não vai passar assim de uma hora para outra. Que as tais ondas ainda podem nos dar um caldo.

Outro dia, até fiz silêncio ao ouvir de um amigo que entende dessas coisas de medicina fazer uma observação pertinente, e que lembrou até de forma bem humorada: se nem os dinossauros resistiram aos primeiros seres da criação, as tais bactérias e vírus!

Com o tempo até desenvolvemos formas de lutar essa batalha, as vacinas entre elas. Mas ainda, infelizmente, não desenvolvemos formas de combater a ignorância que parece agora se alastrar de forma avassaladora sugando a energia de todos nós e, como nos mais terríveis filmes de ficção/ terror, tomando o corpo e a mente de alguns habitantes por ela contaminados e que passaram a circular no planeta disseminando não só a própria ignorância, como o ódio, aumentando todos os perigos enfrentados. Pior, alguns desses seres governam. Chegaram ao poder e nele efetivam como podem seu rastro de destruição.

O Brasil está contaminado, aqui aconteceu, e pelo pior tipo, o malvado, cínico, que se diverte enquanto a natureza queima, as pessoas passam fome, a violência se alastra. Agora, quer dizer, na verdade não só agora, porque as crianças sempre são as primeiras vitimas de tempos obscuros, até elas estão no alvo deste enredo fantástico, quando se pretende negar de todas as formas que possam ser imunizadas.

2022 bate à porta, e parece que não chega com roupa nova. Vem novamente acelerado, cheio de datas para as quais precisaremos estar bem preparados e, embora esgotados, buscarmos forças para o combate. Chega cheio de perguntas: vai ter Carnaval, vai ter Copa? – as mais inocentes delas.

Aqui teremos eleições, e cheias do dinheiro que tiraram do que nos seria mais importante, desviado para campanhas e partidos. Um país que já começa o ano num buraco danado, com crises institucionais, com uma inflação que corrói, ricos ficando mais ricos, pobres mais pobres, e os do meio achatados como sardinhas.

Um redemoinho que já faz com que aqueles dois patinhos na lagoa batam suas perninhas patinhas bem firmes para tentar parar de rodar e conseguir chegar em alguma margem segura. E que ninguém sabe onde está.

Até 2022!

 ___________________________________________________

Marli - perfil cgMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):

Instagram: https://www.instagram.com/marligo/

No Twitter: @marligo

Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com

No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

ARTIGO – Dezembros vividos e vívidos. Por Marli Gonçalves

Desde, especialmente,  a eleição do desgoverno atual, os meses têm sido ainda mais difíceis e absurdos do que normalmente já o eram no país. Uma escalada dramática e 2022 está por perto tentando abrir a porta da esperança. Resolvi – veja o quanto somos resilientes – rever algumas frases de meus artigos publicados justamente nos três dezembros passados e que acabam por nos dar conta dessa agonia, porque elas ainda, infelizmente, tratam do nosso cotidiano atual. Parece que foi hoje, foi ontem, e precisamos mudar o amanhã

DEZEMBROS

“A bola de cristal se enevoa.  Uma nuvem de fumaça cobre as reais intenções de um jogo que está no tabuleiro, onde as peças, escolhidas e posicionadas, em grande parte são militares, outras evangélicas. O objetivo comum, convergente para o centro, mas uns já pensam em “comer” (linguagem de jogo) os outros, ou derrubá-los no caminho”. PREVISÕES: FURDUNÇO GERAL (8-12-2018)

“O problema é sempre o homem, o real. Assim acontece em outras crenças, devoções, lideranças religiosas de todos os credos. Excelentes comunicadores, hábeis negociantes, constroem impérios com tijolos da crença, que mantêm com financiamentos a pleno vapor. Tudo em nome de Deus, da criação, da Bíblia, das juras, imposição de pecados e culpas, de uma moral para os outros”. A MORAL ALHEIA E OS SALVADORES CHEIOS DE CULPAS (14-12-2018)

“Não por menos agora a moda seja a comunicação de tudo, vai, me diz se não é verdade, de tudo, sendo feita via redes sociais. O Twitter é o predileto dos políticos que anunciam o que bem querem, o que pensam e muitas vezes nem pensam para escrever, o que fazem muitas vezes em alterados estados na madruga…e depois do rolo, correm para apagar. Outra coisa que também é digna de nota: escreveu, não leu, o pau comeu, ou seja, não dá mais para apagar. Em algum canto do planeta alguém copiou, printou, fotografou, guardou, salvou, arquivou e vai esfregar na cara de quem disse que não disse, na primeira hora que for possível. Por enquanto a única saída é alegar que foi hackeado, que teve o computador invadido e as contas usadas”. COMUNICAÇÃO DO ALÉM. PARA ALÉM DE NÓS. (21-12-2018)

“Que os próximos trezentos e tantos dias sejam de Paz, boas notícias, que não percamos nunca a força de enfrentar a maré e voltar à tona. Inclusive fazendo ondas, inventando modas e nos reinventando”. MERGULHE. E VOLTE SEMPRE À TONA. (28-12-2018)

“O que é amizade nesses tempos atuais? Nas redes sociais, temos e chamamos de amigos pessoas que nem conhecemos, pior, muitas que jamais conheceremos. Fazemos e desfazemos esses laços apenas com um clique, sem dor. Agora é hora do tal amigo secreto, quando pessoas que se odeiam se sorteiam e pensam seriamente em dar presentes mortais”. AMIGO NÃO É PARA SER OCULTO (6-12-2019)

“Apavorante, repito. Discursos de ódio, manipulação nas eleições, ataques aos movimentos sociais, as relações humanas, tudo poderá ser afetado de forma ainda mais violenta do que o que já vem ocorrendo celeremente em todo o mundo. Tudo virtual, não haverá como prender o autor de calúnias, difamações, informações falsas que aparecem nas imagens, porque ele simplesmente não existirá”. DEEPFAKES: O FUTURO QUE NOS ESPERA E ENGANARÁ (13-12-2019)

“Chegou o final do ano e ainda está lá. E muitos dos que me leem entenderão a surpresa porque, inclusive, nem achávamos que seria tão ruim assim; só que foi ainda pior do que as previsões, coisa de louco esse time todo, e que se mantém com apenas uma pequena parte de jogadores em forma. Os outros só deformam, chutando bola plana, pisando no tomate e arremessando abobrinhas”. O JOGO CONTINUA (20-12-2019)

“É desejar muito que tenhamos mais consideração, respeito, que nossos ouvidos não ouçam tantas bobagens e provocações, cada uma que até parece duas? Esse desejo é geral, antes que eu esqueça de frisar, porque esse será ano eleitoral e vai ter muita gente querendo meter os pés pelas mãos. A política não pode se distanciar das pessoas e é a municipal, a que nos cerca mais de perto, que deverá ser escolhida agora. Sua cidade, seu bairro, sua rua, sua casa.

 Não quero mais também ver tanta gente jogada nas ruas dormindo um sono como se tivessem sido desligadas de repente. E ali caíssem, como sacos de lixo, em sarjetas, calçadas, debaixo de árvores, pontes e viadutos, ou vagando nas ruas com suas mochilas rotas onde levam o muito pouco que têm”. É DESEJAR MUITO? (26-12-2019)

“E daí? Daí, nada. Nadica. Do jeito que estava, está, ficará, derrubará mais. Não há como não fazer um paralelo com a situação política. O que adianta tantos comentaristas, tantas notícias, análises, tantas revelações, reportagens, denúncias, médias móveis de casos e mortes na montanha russa dos gráficos? O tal presidente, os tais ignóbeis Filhos do Capitão, os tais ministros, os políticos em suas amadas reeleições até por falta de opções, a insana marcha da doença nas burras aglomerações que espalham a morte – tudo aí, assim como as esburacadas calçadas, passeios e meios-fios”. TROPEÇOS E TROPICOS (4-12-2020)

“Parem! Essa exaustão contínua, diária, nos leva a caminhos sem volta, nos tornando – a todos – tristes, amargurados. Revoltados. Descrentes. Apavorados. Tudo já andava muito difícil, mas a pandemia chegou para tornar a situação brasileira praticamente insuportável pela insanidade que atinge os que deveriam buscar soluções; pior, aplaudidos por desinformados por essa impressionante turba de ignorantes gestados nesses tempos e que vêm saindo dos ralos”. POR FAVOR, PAREM, AGORA! (11-12-2020)

“Nunca, creio, pelo menos desde que nasci, e isso já faz tempo, desejamos tanto um ano realmente novo e que ocorra uma mágica –as coisas sendo resolvidas, a pandemia controlada e que uma luz de consciência se abata sobre os governantes. Ou, então, que eles sejam abatidos, pelo nosso bem”. 2021, O ANO QUE TANTO DESEJAMOS (18-12-2020)

___________________________________________________

Marli GonçalvesMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________
(se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
No Twitter: @marligo
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

ARTIGO – Terrivelmente tudo. Por Marli Gonçalves

O momento terrivelmente que passamos é total, com a expressão podendo ser aplicada para definir praticamente todos os acontecimentos pelos quais passamos ou somos informados. A pergunta é: e se piorar, o tempo vai fechar mais ainda?

CORONAVIRUS - TERRIVELMENTE

É terrível.  Tenho me sentido assim, terrivelmente aborrecida, e lutando, girando igual Giroflex, movimentando a cabeça para todos os lados, buscando encontrar coisas, pessoas, experiências legais que possam me fazer sentir, de alguma forma, ao contrário, melhor, terrivelmente feliz, animada, mais confiante em mudanças. Aqui e ali até que tudo bem, mas sei ser mais por conta de meu espírito otimista e bem humorado, e que às vezes nem sei bem como ainda consigo manter.

O clima de final de ano já não ajuda muito, convenhamos. O clima de final de ano de dois seguidos dominados pela pandemia e tudo o que significa, e as mudanças que ela não para de trazer, eis o mundo transformado numa caixinha de surpresas. O que estamos encontrando aí fora, no tal novo normal, bem diferente, e tenho passado um tempo observando para entender melhor, ainda sem clareza e com muitas dúvidas.

Vejo os estádios de futebol lotados e as festas dos times campeões nas ruas. Vejo de longe, claro, nas telas. Incrível como nosso país se mobiliza pelo futebol. Se mobiliza também pelos shows, especialmente os gratuitos, que andaram pipocando nesse momentinho de maior abertura. Nessas horas o medo é substituído pela euforia. Aglomerações nesse momento parecem provocações para forçar até onde tudo isso vai.

Mas raramente vemos o país mobilizado para melhorar. Ouvi, e você também, e com toda a certeza, muitas vezes, que assim que fosse possível haveria manifestações para mostrar o desagrado com a política desse governo cada vez mais mal avaliado – nas pesquisas, nos papéis frios, nas decisões e indecisões, excesso de bobeiras, nos resultados cada vez terrivelmente ruins em todas as áreas,  economia, saúde, educação, saneamento, uma lista enorme que inclui a incapacidade de controle, organização, compreensão e ação efetiva.

Estou aqui esperando, sentada, balançando a perninha. Sem entender porque – à beira de um ano eleitoral fundamental – ainda estamos tratando com os mesmos candidatos, alguns do século passado, nos mesmos debates e embates, as mesmas divisões, os mesmos erros prontos a serem novamente cometidos. Ou pior, perpetuados. O povo nas ruas, sim, no futebol, nos shows, e também no bate perna de milhões à procura de emprego, de algum trabalho, do que levar para casa, aglomerados em filas e plataformas de transportes públicos que nunca se expandem, a não ser em promessas.

Já ouvimos os batuques ecoando um incerto Carnaval. Sabemos de festas já canceladas de Ano-Novo. Máscaras continuarão obrigatórias, tenha certeza, por mais um bom tempo, embora cada vez mais estejam sendo abaixadas, criando conflitos com os que querem se cuidar. Corremos para vacinar mais e mais, ao mesmo tempo que as nossas porteiras e fronteiras continuam sedutoras aos que se recusam a elas. O coronavírus continuamente trocando de roupagem arreganha os dentes para todo o planeta.

Aí chega uma dúvida cruel. O que acontecerá se acaso as coisas se complicarem demais e novamente? Ou seja, se for preciso que se tomem decisões verdadeiramente radicais? Quero dizer, fechar tudo, parar tudo. Isso é terrivelmente possível.

Vai ter guerra? Desobediências que poderão levar a conflitos civis? Quem mais tentará se aproveitar desse momento? Qual será o comportamento nacional?

O futuro comprometido está próximo de, além de ter sido aceito um ministro “terrivelmente evangélico” para integrar pelas próximas décadas o principal tribunal de decisões fundamentais, todos entendermos na pele que esse não é um bom advérbio. Terrivelmente é tudo de ruim; assustador, forte, violento.

Temos de falar sobre isso. Ainda teremos muito o que falar sobre isso tudo.

___________________________________________________

Marli GonçalvesMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
No Twitter: @marligo
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

ARTIGO – Máscaras, Carnaval e nossas agonias. Por Marli Gonçalves

Uma pressa que pode nos custar muito caro essa de liberar o uso de máscaras justamente nesta época e quando surgem novas ondas em todo o mundo, que podem rapidamente se transformar em tsunamis. Estamos em um país descontrolado e agora mais uma nova e terrível cepa liga o alarme da prudência em volume máximo

  Aconteceu exatamente assim no ano passado, lembram? Quando as coisas começaram a melhorar um pouco o povo já botou as manguinhas de fora incentivado pelos malucos negacionistas e ignorantes que nos desgovernam. O resultado: 2021 foi um massacre, e logo em abril o número de mortes já ultrapassava as ocorridas em todos os meses anteriores. Já chegamos em 614 mil mortes, ao todo. Diga esse número em voz alta, para entender o tamanho. Lembre de quantas pessoas perdeu; perdemos. E não aprendemos.

Parece até que queremos um repeteco, e não haverá fogos de artifício, pular sete ondinhas, fantasia e samba no pé, bloquinho e desfiles que mostre acerto nas decisões que vêm sendo anunciadas. Isso, claro, quando há alguma decisão.

Antes até da liberação – aqui em São Paulo prevista para 11 de dezembro o fim do uso de máscaras em locais abertos – já está insustentável e visível que os cuidados estão sendo largados pelos caminhos. Basta olhar o número de máscaras jogadas pelo chão nas ruas, como exemplo. A dificuldade de termos de explicar para os engraçadinhos em que data estamos. Nas academias – a que frequento me dá uma boa ideia – as máscaras caem dos narizes; os funcionários enfrentam o ódio quando alertam os egoístas seres. Tem mais essa: alguns alunos cariocas, e como lá liberaram a farra, os caras querem esticar o mapa e usar isso como argumento, acredite quem quiser.

Ultimamente as pessoas não ouvem as notícias inteiras, assim como, também, ou só leem as manchetes ou só o que lhes convém. Fazem questão de não assimilar a realidade. Tristeza maior é ver jovens não indo se vacinar, ou ainda “esquecendo” o calendário da segunda dose. Deprimente ver pessoas que além de não se vacinarem, ainda saem por aí fazendo campanha mentirosa contra as vacinas, ou mesmo disfarçando que tomaram, já que, do meu ponto de vista, na realidade está praticamente nulo esse controle.

Nesses tsunamis, vacinas ainda são a nossa única tábua de salvação. Eu conto ou vocês contam que, se nem quem tomou as três doses, como é o meu caso, está totalmente garantido, imaginem eles! Pior, podem estar, como nos piores filmes de ficção, andando por aí, sendo os agentes da morte, de transmissão. Vermes.

Estamos no fim de mais um ano bem difícil, onde já não há mais espaço nem para piorar. Inflação crescente comendo nossos tornozelos, miséria grassando, violência aumentando, sistemas em colapso. Governo que continua testando nossa paciência de uma forma nunca vista. Entrada de ano eleitoral, com personagens surgindo e sem propostas viáveis para qualquer via de direção.

Uma grande campanha agora seria “Vamos salvar 2022”. Mas pelo visto vamos ter de apelar mesmo é para Todos os Santos, e em nome de nossa saúde mental.

Ou você ainda não reparou que está todo mundo meio que pirando por aí?

___________________________________________________

Marli GonçalvesMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
No Twitter: @marligo
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

ARTIGO – Confusão geral, teu nome é Brasil. Por Marli Gonçalves

Os Trapalhões, os mais reais que poderiam existir, estão entre nós. Pior, no governo, mandando e desmandando. Nos deixando lelés. Duvido que você já tenha visto tanta confusão junta, ao mesmo tempo, em todas as direções. Tantas mentiras, literais trapalhadas, falta de rumos, interferências indevidas, prejuízos gerais.

confusão

Na geral dá aquela esquisita sensação que tudo quanto é desgraça, notícia ruim, acontecimentos estranhos têm a ver com essa situação geral. Gente, até tubarões aparecendo no litoral. Pernambuco? Não! Em São Paulo. E machucando gente no rasinho. Chuva de poeira. Florestas sendo destruídas. Populações dizimadas, fome, miséria, números bons caindo; números ruins crescendo. Muita coisa está fora da ordem. Inclusive nossas cabeças vivendo tudo isso.

“Os Trapalhões” estão entre nós. Os Trapalhões metem o nariz onde não são chamados. Onde são chamados, inclusive nas urgências, não aparecem nem para dar explicações – já que não as têm, óbvio. Está alucinante a absurda forma com que esse governo federal vem tratando todos os temas, e a loucura acaba se espalhando por todo o território, nos levando a um tempo cada dia mais terrível, vergonhoso, inacreditável. Violento.

Um fala, o outro nega; um decreta como se fosse a Casa da Mãe Joana, sem consultar quem de direito que reclama e fica no ar. Todos os dias revelações de malfeitos ou de desleixos, mas são tantos e tão numerosos que nos dias seguintes acabam soterrados por outras de fatos ainda mais absurdos, o que impede a resolução daqueles lá atrás. E assim vamos indo, e num ensurdecedor silêncio e desorganização social. O Trapalhão-mor vocifera bobagens por onde anda, seja no Oriente ou Ocidente.

Senão, vejamos, só essa semana: vacinação e Enem.

Vacinação: porque que acaba aparecendo uma boa pulga atrás de nossas orelhas? Alguém está ganhando com isso? Sabe aquele governo negacionista que atrasou a compra de todas as vacinas e que só depois de muita pressão mexeu a bundinha e agora quer, como diria o Gil do Vigor, se regozijar em cima disso como se tivessem virado os mais competentes do mundo? Pois bem, a vacina de uma dose só que parecia perfeita já não é mais – tem de tomar mais uma e da outra. A outra também precisa de mais uma. E a primeira, do Butantan, que foi a pioneira e que tanto ajudou, fica esquecida porque o cara lá não gosta do cara daqui. Aquela que teria tecnologia fornecida para ser produzida aqui, cantada e divulgada em verso e prosa pela Fiocruz, necas de pitibiriba.

A Anvisa reclama que não vem sendo consultada. Os prazos são mudados de acordo com o humor de alguém no Ministério da Saúde. Uma hora, depois de seis meses, outra, depois de cinco meses, para o reforço; segunda dose já foi de três meses, agora já nem sei mais, qual de qual, quando. Os governos estaduais e municipais acabam correndo atrás para atender, muitas vezes sem nem ter as doses das vacinas nos seus postos. Casa da Mãe Joana é pouco.

Fora isso, cadê o plano de 2022? Onde estão os contratos? Vamos ter um novo plano de vacinação ou será novamente a loucura que já vivemos? Vai comprar de quem? Já tem contrato? Já estão reservadas? Estão vendo, acaso, que o mundo inteiro está em pânico? Conseguem acompanhar o perigo do relaxamento geral? Vamos fazer um samba para o Carnaval? Olê, olê, olê, olá! Dingobel, olha o Natal. Isso vai longe ainda.

Enem: 37 servidores pedem demissão e afirmam que as provas estão sendo manipuladas. Repito, 37, trinta e sete. O tal ministro pastor de risinho sarcástico que comanda a pasta da Educação, servil, apoia o que o ser vil falou de agora o exame estar com a cara do Governo. Deus nos livre! O nome disso é claro: Censura.  Interferência. Desmonte de tudo o que funcionava de alguma forma. Até no Censo estão querendo meter o bedelho nos questionários.

Bate-cabeça. Com tudo isso, quem consegue deitar o cabelo em paz? Me digam. Quem?

___________________________________________________

Marli GonçalvesMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
No Twitter: @marligo
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

ARTIGO – Ora, bolas! Por Marli Gonçalves

Ora, bolas, que se não dermos tratos à bola não conseguiremos sair desses obstáculos e dilemas todos colocados em nossos caminhos; pedras, que ao contrário das bolas, não rolam sozinhas por sopros, necessitam serem chutadas. As bolas são voláteis, ágeis, trazem em si a simplicidade da forma e o movimento. Investidas de encanto nas jogadas garantem pontos. Não é à toa que estão sempre por perto, ganhando seus variados sentidos.

BOLAS -
        OBRA DE YAYOI KUSAMA

Vamos precisar todos bater um bolão. Porque ganhar um bolão é só sonho de apostas e loterias de toda a vida, e que em geral se esvanecem semana após semana, como as bolinhas de sabão. As bolas, pensa, estão em quase tudo, paradas, móveis, correndo, pulando, fazendo e acontecendo. Até esse vírus maldito que parou o mundo, que forma tem? Bolinha, cheia de espetos, mas bolinha.

E olha que pode ser por isso mesmo que as bolas e bolinhas – estampadas, em todos os tamanhos, cores, combinações, claro sobre escuro, escuro sobre claro – estão  novamente no auge da moda e para qualquer lugar que se olhe, estarão lá, nos vestidos, blusas, sapatos, gravatas – andam empurrando para lá as listras. Petit pois, em francês, como ervilhas. Poás, em bom português.

Lembram da brincadeira que se faz com as mãos, e os ossos são vistos como elas, bolinha ui, bolinha ui?  Não lembra? Coisa antiga. Tudo bem. Mas você sabe que é bem bom fazer exercícios com uma bolinha nas mãos, fisioterapia barata, antiestresse, alivia as tensões a ansiedade, fortalece os punhos. Quando você aperta uma bolinha dessas, ocorre uma tensão muscular e ao soltar, o movimento vira um relaxamento não apenas físico, como também emocional. Usada também para massagens; e tem ainda aquela bola maior – bola suíça ou bola de Pilates – com a qual se faz uma sorte de exercícios de ginástica.

Estudos afirmam que apertar bolinhas com durezas diferentes, com a direita, com a esquerda, ajuda até a resolver problemas diferentes, embora os pesquisadores ainda não consigam explicar bem o porquê. Uma bolinha mais rígida serviria para lidar com questões de “ligar os pontos”: combinar informações existentes, comparar ideias – como um quebra-cabeça, palavras cruzadas ou uma charada. Por sua vez bolinhas mais macias ficaram ligadas ao pensar criativo, criar soluções do zero.

As bolas surgem nos mais variados contextos, inclusive nos jogos amorosos – se falava em dar bola para alguém, quando o interesse por outra pessoa precisava ser demonstrado. Tudo bem, isso é cringe? Ok, mas você entendeu – já deve ter dado bola para muita gente por aí.

Uma das maiores e mais originais artistas plásticas do mundo, Yayoi Kusama, uma japonesa hoje já com 92 anos, passa a vida a criar com elas, as bolas. Arte que a tornou famosa e salva da própria esquizofrenia – ela vive há décadas, por livre vontade, em um hospital psiquiátrico, mas nunca parou de criar com o que chama “pontos do infinito”.

Ora, bolas, ora, porque pensar em tantas bolas? Aconteceu só de lembrar que o fim do ano está aí, e imediatamente vieram à tona na procura de por onde andavam aqui em casa as bolas de Natal, aquelas bonitas, cheias de brilho, que usamos para as decorações, as coitadas que dormem em caixas o resto do ano.

Junto, veio a sensação de que o tempo corre rápido demais e que andamos girando em torno de nós mesmos sem conseguir solucionar nosso próprio país, um ambiente que ficou muito mais pra lá de tóxico  nos últimos anos em que temos sabido e ouvido diariamente os mais estapafúrdios comentários e que aos homens de bem deve causar o famoso e doído chute nas bolas, os testículos.

Esperando ainda que não esteja ocorrendo, para fugir dessa realidade, nenhum aumento no uso de bolinhas, que hoje estou terrível em lembrar termos antigos, e como pelo menos eram assim conhecidas as pílulas, psicotrópicos.

Ah, verdade! Trocaram uma letra. Agora chamam de bala!

Bolinha, ui, bolinha, ui, bolinha! E os meses se passaram. Veja com suas próprias mãos. Ligue os pontos.

___________________________________________________

Marli GonçalvesMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
No Twitter: @marligo
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

ARTIGO – Gritos da Terra. Por Marli Gonçalves

Ensurdecedores, gritos vindos de todos os cantos, boa parte deles serão descritos agora em seus aterrorizantes detalhes durante a COP26, que acontece nesses próximos dias na Escócia. O Brasil tenta tapar os ouvidos, mas levará muitos puxões de orelha.

GRITOS

Vulcões eclodindo, tremores, tempestades vermelhas de areia e pó, incêndios, secas e inundações fora de época, temperaturas e fatos anormais, prejuízos nas lavouras, fome, miséria, pandemia, populações dizimadas, retrocessos políticos de toda a ordem, e uma lista interminável de gritos da Terra, em todos os idiomas. Milionários que antes queriam sair apenas de seus países, agora querem ver se arrumam até um outro Planeta para fincarem suas boquinhas, seus poderes e suas fortunas.

E nós? Diante do mundo todo em encontros anteriores prometemos e não cumprimos nem um pouquinho, até pioramos, as metas que ajudariam – a nós mesmos e ao planeta  – a baixar a temperatura e a rapidez do declínio trazido pelas mudanças climáticas a cada dia mais visível, sofrido, sentido, mortal. Ao contrário, nos últimos anos a tal boiada vem passando solene por aqui, matando, desmatando, queimando, derrubando, de forma devastadora. Agora, com uma pastinha vazia debaixo do braço, chegaremos lá no encontro para tentar dar alguma satisfação, autoridades contarão suas mentiras, com dados e percentuais que a gente nunca sabe bem como conseguem calcular de forma tão enviesada as suas desculpas esfarrapadas.

Passaremos com cara lavada pelos ambientalistas que com suas coloridas faixas, pedidos e protestos já ocupam as entradas e onde, também lá, o nosso atual desgoverno será achincalhado, e claro que ainda haverá quem ouse chamar isso de indevida interferência externa nos negócios nacionais. E, como estamos sendo desgovernados por um brucutu, nada surpresos ficamos em ver o machão marrento desistindo de aparecer, como se isso pudesse poupá-lo. O próprio vice-presidente, Hamilton Mourão, afirmou que  “jogariam pedra” em Bolsonaro se acaso ele aparecesse por lá, foi ele quem disse, justificando a ausência do ser não-vacinado, embora o presidente tenha mesmo viajado à Europa, mas para a Itália, receber uma homenagem que inventaram para ele numa cidadezinha governada pela direita, com… 4739 habitantes. Ah, sim, nós estamos pagando por isso. Bem caro.

Só gritando muito, mas em português, alto.

Nem precisamos esperar um encontro internacional tão importante para gritar, uma vez que por aqui todo santo dia temos o que lamentar, pisam sem dó em nossos pés e calos, nos dizem barbaridades, tomam decisões que lamentaremos por muito tempo ainda, e não vemos em qual direção apelar para que um mínimo de bom senso recaia sobre os dirigentes – e aí, ressalte-se, em todos os níveis.

Os próximas dias e tempos nos ameaçam com outros fatos perturbadores, fazendo com que nem adiante apelar aos celtas e suas simpatias de Halloween: inflação descontrolada, greve de caminhoneiros, aumento ainda maior do preço de combustíveis, desabastecimento, fim do Bolsa Família e desencaixe total do novo Auxílio Brasil, descrito por todos os economistas como uma bomba-relógio  que, se der algo a quem precisa, e excluindo muitos, o fará com uma mão e tirará solerte com a outra. O bang bang geral parece querer tomar as cidades de assalto.

No Dia de Finados choraremos os mais de 605 mil mortos, entre eles, certamente, pessoas que já fazem muita falta a mim, a você, a todos nós. E, no dia 15, quando deveríamos festejar a sonhada República, poderemos mesmo é estar nas ruas gritando porque diariamente só vemos serem praticados atos bem pouco republicanos.

___________________________________________________

Marli GonçalvesMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________
 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
No Twitter: @marligo
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

ARTIGO – Os medos nossos de cada dia. Por Marli Gonçalves

Nossos medos, os meus medos, os seus medos. Todo dia ouvimos falar em retomada. Flexibilização. Dá uma angústia, ao invés de alegria, por não vermos o bicho totalmente dominado. Vemos as ruas cheias, inclusive de caras de pau sem máscaras gritando suas ignorâncias. Nas cidades, o som do burburinho, das buzinas. Vacinados, muitos, mas mesmo assim, vulneráveis; uma dose, duas, três, contando com a da gripe. Você já se sente seguro?

medos

Todos os dias ouvimos também os ecos das variantes e suas letras gregas mais transmissíveis e terríveis; sabemos de pessoas próximas doentes. Importantes, morrendo, mesmo depois de ter feito tudo certo. Como passarinhos que saem dos ninhos, e acabaram atacados por gaviões que os esperavam, silentes. Países se fechando de novo por muito menos do que o que ocorre aqui, onde ultimamente desgraça pouca é bobagem, a começar nas políticas, incluindo os malfeitos e a guerra das vacinas que não chegam aos braços, mal distribuídas. A tal média móvel que nos informam num sobe e desce infernal e ainda números absurdos de mortes e contaminações – registre-se, essas são apenas os dados oficiais desse Brasilzão de Deus, onde um grita e o outro não escuta. De dez mil em dez mil, fica mesmo difícil estar tranquilo.

Pouco se fala dessa angústia, não temos ajuda real que anime a sair por aí, o que torna difícil não cuidar apenas de um dia após o outro, e olhe lá. Medo, temor, receio, pavor. Ansiedade, insegurança. Tudo muito próximo.  Parece uma praga, uma tranca. Mais de um ano e meio depois, a estranha sensação de que o mundo não só mudou, mas que está travado, correndo atrás de seu próprio rabo, em círculos e ondas. Sem saber exatamente, e o que é mais estranho, de nada, nem do tempo que as vacinas protegem, nem de como controlar as novas cepas, o que pode vir por aí em novas ondas, muito menos como fazer o que nós, individualmente, já estamos sendo obrigados, a tal retomada, girar a roda. O nariz fora da porta, o pé na rua, a vida social, uma tal vida normal que, creio, para as gerações atingidas ainda por muito tempo de nada será normal, até que isso tudo seja pelo menos um pouco ultrapassado.

Aliás, e até mudando de tema, embora tudo pertença a um pacote só, os relatos sobre os problemas ambientais que ouvimos esses dias já é outro bom motivo para tremedeiras: aquecimento global, derretimento de geleiras, incêndios, enchentes, frios e calores intensos – já não são mais previsões, mas o que até já estamos presenciando e ainda há quem duvide.  Tudo muito interligado, as doenças, os fatos, a natureza. Nossa saúde.

Sou marcada, não por uma outra pandemia que não tenho século de vida, mas por uma epidemia, a da Aids, que nos anos 80 e 90 vivemos de perto e levou embora muitos amigos, e o meu melhor amigo. Ela nunca passou, apenas mantém-se controlada e como há ainda hoje quem não acredite que esta também afeta a todos, foi sendo deixada num cantinho, sem cura, sem grandes avanços na pesquisa, mais de 30 anos depois, empurrada com a barriga. Agora, inconformada, perdi de novo muitas pessoas importantes, trechos de minha existência, de nossa história, a minha e a do país.

Nessa realidade do coronavírus o mundo até levantou o bumbum da cadeira, aliás deve ter quem esteja ganhando muito com isso. Mas não é o suficiente para acabar com o medo. E em um momento que tudo quanto é tipo de maluco negacionista esteja aproveitando para angariar seguidores, aproveitando o progresso nas comunicações, especialmente a internet, para disseminar mais ainda mentiras e esse pavor que nos faz não reconhecer mais nem os próprios familiares, amigos, vizinhos, como no piores filmes de ficção: viraram seres possuídos por um mal para o qual, parece, não há exorcismo, informação, livro, atestado que cure.

Escrevo sobre isso, sobre esse sentimento que nos paralisa, porque estou vendo que pouco se fala sobre o que passa dentro de cada um de nós, esse mal estar, e que temos sempre tanta dificuldade para expressar. Sei que não estou sozinha e, como todos, reconheço que não temos mais muito tempo a não ser realmente enfrentar, fazendo tudo direito continuamente, e dando a mão a quem precisa – são muitas essas pessoas, em todos os locais,  ao seu lado – da forma que nos for possível.

Coragem. E terceira dose já!

___________________________________________________

Marli GonçalvesMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
No Twitter: @marligo
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

ARTIGO – Estamos numa fria. Por Marli Gonçalves

Entramos e estamos numa boa fria, numa gelada, num enorme saco sem fundo. É tanta coisa acontecendo de esquisito, de ruim, e sem que possamos resolver de vez ou tomar medidas rápidas e objetivas – a solução não está só em nossas mãos, mas na de todos e em tantas mudanças e acertos – que só resta, sei lá, espirrar. Espirrar com muitos desses culpados de nossa frente

Saltos, piruetas, manobras espetaculares no asfalto, nos tatames, no mar, fôlego na piscina; as mulheres arrasando, a garotinha em cima do skate, a outra bailando com movimentos precisos bem na cara de suas próprias dificuldades. Orgulho, vitórias, e não só, também as derrotas, trouxeram distração para mais de 100 metros nas notícias e madrugadas olímpicas. Vimos novamente, felizes – mesmo que por instantes – a bandeira nacional tremulando sem que ela nos causasse essa certa repulsa que tanto fizeram que conseguiram nos fazer dela até enjoar nos últimos tempos.

Soubemos das incríveis lutas e histórias de superação dos atletas – os vimos felizes e também desolados quando ficaram pelo caminho em suas modalidades. Pelo menos ali acompanhamos um país se esforçando, lutando para se firmar e melhorar. Temos mais alguns dias para acompanhá-los e torcer.

Mas agosto está aí, sempre teremos agosto. E já está vindo embalado pela pandemia que continua matando muito mais de mil pessoas por dia e querem que isso pareça normal, quando vemos outros países indo e voltando de medidas restritivas nesse vaivém estonteante. Aqui, o pimpão prefeito do Rio de Janeiro, por exemplo, decretou que vai estar tudo bem até o outro mês e até já marcou feriado e festa. Uma vergonhosa corrida de Estado contra Estado, cada um querendo parecer melhor que outro, em campanha aberta, como se não bastasse o furdunço que virou o Governo Federal.

Às vezes acho que a água que os dirigentes e responsáveis pela condução do país tomam contém mesmo alguma coisa a mais – só pode ser. Não atingimos ainda nem os 20% de imunizados com as duas doses. Há ainda um inacreditável número de pessoas contrárias às vacinas ou que não voltaram para a segunda dose, quando necessária, como o é para a maioria. Ainda vemos quem tenta escolher qual marca tomar – e muitos desses estão tombando pelo caminho. O Ministro da Saúde ousa proclamar vitória e ações do governo, como se não tivéssemos já quase 560 mil mortos e mais de um ano e meio de pandemia muito mais cruel por causa dos erros deles.

Agora, as aulas vão voltar – e não se tem a menor ideia de como resolveremos os sérios problemas da Educação, da evasão, do atraso no ensino. O Ministério? Além de uma fala maluca do ministro, outro batendo no peito por feitos não feitos, pôs no ar uns anúncios moderninhos. Volta também o showzinho diário da CPI que, quando acabar, teremos um relatório enorme, e precisaremos torcer muito é para que ele não vá dormir em alguma gaveta.

Quem chacoalhou esse país para ele estar assim tão dividido? Quem abriu a tampa do bueiro para tantas absurdas ignorâncias? Um queima o Borba Gato; outros vêm e jogam tinta vermelha nas homenagens a Marighella e Marielle. O fogo queima nossa memória. As mentiras e notícias falsas se espalham e ecoam. O presidente monta um circo para dizer o que já sabíamos de suas acusações sobre as eleições – que ele não sabe de nada, não prova nada e isso é só mais um assunto para manter o percentual cada vez mais baixo de quem o segue, ainda achando que ele presta, mesmo vendendo seu mísero poder para outros míseros carrapatos que grudam em tudo que é governo, seja de qualquer lado do colchão. Não adianta virar, desvirar, por ao Sol.

É inverno e até o frio intenso e recorde que há muito não aparecia ataca o Sul e o Sudeste, expondo nosso total despreparo para qualquer situação extrema e a miséria que grassa nas ruas que acomodam friamente mais milhares de recém-chegados. Os preços disparam, sem controle, enquanto turistas fazem horrorosos bonequinhos de neve e a geada acaba com as plantações.

Estamos mesmo numa fria na qual entramos sem saber ainda como sair dela, estranhamente escaldados.

___________________________________________________

MARLI - cgMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
No Twitter: @marligo
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

ARTIGO – As segundas e os começos e recomeços. Por Marli Gonçalves

Ultimamente as segundas-feiras têm sido muito mais difíceis do que normalmente já eram. A sensação de começar mais uma semana, ver e ouvir a repetição dos fatos estranhos, uns atrás dos outros, sem reações que os possam deter; ao contrário, só pioram e se tornam mais ameaçadores. Na vida é assim: e até fazer aniversário anda parecendo mais uma segunda-feira

Garfield Archives — Portallos

Não é a preguiça, tão bem ilustrada na imagem do gato Garfield com sua imensa barriga laranja, e que ilustra as segundas malemolentes e um pouco mal humoradas. É o começo e o recomeço, que ultimamente tem parecido tão igual ao da semana passada, mês passada, ano passado. Bem sei que oficialmente a semana começa na segunda-feira, mas extraoficialmente, depois de passar o fim de semana tentando se livrar das cargas é nela que depositamos alguma esperança olhando para a frente, buscar fazer e acontecer, dia útil. Repete muito o que acontece na véspera de Natal, quando todo mundo parece ter sido acelerado e querer resolver tudo o que o ano inteiro não conseguiu. Se possível, sobrecarregando, inclusive, outras pessoas, passando os probleminhas adiante.

Aí ela chega. Primeiro, agora mesmo, nos daremos conta de que mais um mês se foi. Que o primeiro semestre do ano se completará. E a sensação da repetição, inclusive acelerada, de tudo o que tanto nos incomoda não passa.  É como se a realidade não admitisse o otimismo – e é, garanto, uma otimista inveterada, apesar de tudo, quem está aqui escrevendo.

Esperei passar várias segundas para finalmente admitir essa sensação. Talvez por agora ter me dando conta que fazer aniversário também virou uma segunda-feira, que a virada do mês também vai virar, para mim, logo, mais um ano completo de vida, e mais um ano – Graças a Deus, viva! – dentro da pandemia que abalou o mundo, mas destroça especialmente nosso país, pego em um dos piores e mais confusos, vergonhosos, perigosos e conturbados momentos de sua história.

Aniversários sempre são impactantes – o filme de tudo que se viveu, se sonhou, conseguiu ou não, passa na cabeça, e quando a gente chega mais longe, o filme vai virando longa-metragem. Quanto mais tempo, isso só vai ampliando, e creio que lá pelos 80 já se anunciará como uma daquelas peças teatrais do Zé Celso, do Oficina, com mais de cinco horas de duração e roteiro cada vez mais confuso e recortado.

A coisa toda está tão repetitiva que nem é preciso consultar videntes ou astros para conhecer alguns fatos do futuro: muitos ainda morrerão, inclusive pessoas próximas de nós e personalidades importantes que farão o país chorar de novo e de novo, suas histórias serão contadas; loas serão tecidos, e esperaremos as próximas; a política nos trará muitos desgostos, a divisão se acentuará, assim como os protestos, que serão incontroláveis, ou por radicalismo de algumas das partes ou pela dimensão da miséria, da fome, do desespero. Mulheres continuarão a ser desrespeitadas, e mortas. O racismo, negado como se não fosse evidente. Os ricos ficarão cada vez mais ricos. E os oportunistas surgirão, pululantes, sem disfarces, prontos a se aproveitarem de qualquer um desses fatos. Comentaristas comentarão. Comentarão muito. Os fatos serão conhecidos, e diariamente sobrepujados por outros numa repetição infinita e sem solução.

Do ponto de vista pessoal, os cabelos ficarão mais brancos, os tais fatos conhecidos cada vez mais iguais e tristemente repetitivos. Depositaremos esperança nas gerações futuras – alguns nos darão orgulho; outros, nojo. Nossa experiência se avolumará, e continuaremos firmes tentando alertar que conhecemos esses rumos, mas a rapidez que alimenta as redes sociais e esse atual tempo de vida digital talvez ignore e não dê a devida atenção ao que afirmamos e vivemos presencialmente, um estado raro que se esvai entre telas e emojis.

Assim, vamos indo vivendo – e que assim seja, Oxalá! – as próximas 52 segundas-feiras, e que muitos outros 365 dias venham. O desejo é que esses começos e recomeços sejam melhores, e que nunca falte energia para constantes revoluções interiores. Nem para as revoltas. Sem preguiça.

___________________________________________________

Marli - foto Alê RuaroMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
No Twitter: @marligo
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

ARTIGO – Nós, os perplexos. Por Marli Gonçalves

Não demora e logo nos faltarão também até as palavras para definir esse momento, já que atos para o combater – não é nem mais que se esgotaram – tão perplexos estamos que já nem conseguimos sequer imaginá-los. Estapeados todos os dias, nossos ouvidos feitos de penico, parece que todos somos tão burros e otários que não vemos mais nem quando tentam nos fazer de bestas

A cada revelação que surge – e essa semana foi bastante pródiga delas – as informações mais se avolumam, muito além ainda do que parecia impossível ter ainda ocorrido a mais daquilo tudo que todos os dias de alguma forma presenciamos. Não é nem só de agora; há anos criamos verdadeiras camadas de perplexidade em nosso couro, o que nos torna, no meu ponto de vista, um dos povos mais resistentes e resilientes do mundo.

Mas os últimos tempos têm sido realmente implacáveis. Agravados pela pandemia que nos calou, isolou, transtornou e nos fez sofrer perdas irreparáveis, além do medo, insegurança, do temor do insucesso e da derrota pessoal, não há como evitar a quase paralisia, a perplexidade diante deste cenário geral. Dá para entender porque ainda enquanto um povo estamos tão desorganizados, sem reação, cheios de dúvidas, indecisos, e até poderíamos dizer, ainda mais espantados. Perplexos. E a perplexidade paralisa.

Da janela observamos o mundo passar e na falta de alternativa cobramos o ar. O outro, os outros. Exigimos que “algo seja feito”, praticamente esquecendo que esse “algo” precisa contar também com pelo menos alguma efetiva participação nossa.

Acontece que a tal grossa camada criada em nosso couro ao longo do tempo também nos fez mais insensíveis. Para penetrá-la a flecha precisa ser cada vez mais grossa e forte. Aí reside o perigo enorme de estarmos na realidade já deixando passar como normais muitos fatos inomináveis, que nos exigiriam ação e reação imediata.

Mas é que estamos perplexos.

Somos roubados, temos nossos direitos duramente conquistados vilipendiados. Ameaçados pela volta do terror antidemocrático, pela força, enquanto ainda tiram sarro de nossas caras com ironias e gracinhas de péssimo gosto. A inação nos atinge diretamente, e mentiras deslavadas são construídas cuidadosamente para acobertar e misturar malfeitos até que sejam descobertos e, quem sabe Deus um dia, punidos.

A terra que pisamos, a força da natureza que sempre caracterizou o país com seus amplos recursos naturais, e com os quais nos tornamos de alguma forma importantes para o mundo todo, sendo consumidos, queimados, derrubados, escasseados. Gerando lucros para poucos. Não é para progresso, não se iluda. Pelo menos não o nosso, de ninguém não, só mais essa balela que tentam impingir aos mal informados, aliás uma população crescente, alimentada com ódio por esse mal que encobre de sombras o Brasil.

Não só na política. Em pouco mais de um ano retrocedemos décadas em autoestima. Em respeito, interno e externo. Educação, Saúde, Segurança, Saneamento, Meio Ambiente, comportamento, debate, bom  senso, harmonia, paz e convivência pacífica entre ideias e poderes vêm sendo bombardeados pelo esquecimento ou decisões grosseiras, retrógradas, ignorantes, moralistas de araque, divisionistas, e que não servem  a nada a não ser criar um exército de inimigos, que já nem sabem mais o que combatem entre si, e dos quais, daqui e dali, já quase nem conseguimos nos defender, tal a falta de lógica.

Nós, os perplexos, precisamos sair o mais rápido possível desse estado catatônico, incerto, indefinido, inseguro, assombrado, irresoluto, titubeante, abalado, desnorteado, abismado, zonzo – que não faltam definições – em que nos encontramos. Antes que essa perplexidade toda nos aprisione. E essa gaiola não é dourada.

__________________________________________________

Marli MARLI GONÇALVES– Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, nas livrarias e pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):

Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
No Twitter: @marligo
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

ARTIGO – Em cartaz, o filme de nossas vidas. Por Marli Gonçalves

Onde? Filme rodando, diariamente, em branco e preto e colorido, em nossas cabeças, em horários especiais. Quando estamos sós, quando sabemos da morte de tantos, ou de mais um alguém que fez parte de algum capítulo inesquecível

Às vezes apenas um filme de terror. O medo espreitando em cada esquina, em cada necessidade de sair de casa. Naquela dorzinha de cabeça que você sempre teve, mas agora ela é quase paranoica se persiste. Em cada espirro ou tosse, antes bem normais principalmente em quem vive em cidades poluídas como São Paulo. Sente frio, vira calafrio, põe logo a mão na testa para sentir se está com febre; se possível, verifica a oxigenação. Palpitação, taquicardia, ansiedade, sono agitado, pesadelos muito piores do que os imaginados em “À meia noite levarei sua alma”, “O massacre da Serra Elétrica”, ou em filmes de vampiros, zumbis (esses, então, tenebrosos) e tantos outros rodados enfocando doenças, hospitais, vírus, invasões extraterrestres e…pandemias. A sensação não é só de longa metragem, mas de seriados, e com várias temporadas, maratonadas, corridas por horas, mas pela vida, para nos manter, de alguma forma, por aqui.

Às vezes apenas um filme melancólico. A gente agora fica sabendo de quem até há muito não se tinha notícias, e agora sabe desse ponto final. O filme roda. Aquele telefonema que não deu – do que teriam conversado? Aquele prometido encontro adiado tantas vezes – “Vamos nos ver?” – e que agora em outras situações nessa pandemia se repete assim: “Quando acabar tudo isso, vamos nos encontrar, hein?”. Teremos tempo para tantos encontros que vêm sendo prometidos? Já tive vários deles, cancelados. Por essa força maior do fim.

E tudo isso não acaba, não acabou, piora, vem e vai. E a pessoa foi. Não deu tempo. Por onde anda mesmo aquela foto linda que a gente tinha, juntos? E toca o filme na cabeça lembrando cada momento, a vontade de homenagear e que na hora você fica até sem palavras tantos são os trechos do filme a ser montado, se possível fosse editá-lo.

Ir às redes sociais hoje é ser informado de mortes, às pencas. Terrível.  Grande parte, sem dúvida, de pessoas que você nem conheceu, mas seus amigos, sim. Suas mães, pais, avós, amigos, irmãos. Você vê as imagens, as fotos, sente a dor deles, gostaria de dizer algo que os acalentasse, mas como? Não há emoji – há pouco apareceu um, significando “força”, mas é até irritante. Melhor, se usar símbolo, o da carinha chorando. Muitas vezes, inclusive, melhor mesmo é ficar quieto, passar batido. Mandar uma boa vibração, mesmo que a pessoa não saiba – é, garanto, do que ela precisará para continuar a rodar o seu próprio filme.

Às vezes, um filme romântico. A morte de alguém que você já amou traz outras cenas, às vezes acompanhadas de música, além de bons momentos lascivos, se os viveu. Se não, se platônica foi essa paixão, resta riscá-la de vez do seu caderninho. E quando ainda ama muito e, embora possa por vários motivos estar distante, fica sabendo que essa pessoa está no leito de um hospital lutando pela vida? Talvez ela não tenha chances, talvez nunca saiba do roteiro e das cenas que você planejou e ainda tinha tantas esperanças de rodar. Ou reprisar.

Vivemos certamente um dos momentos mais emblemáticos de nossas histórias, embora agora entendamos que tudo sempre pode ainda piorar, e que outras gerações já chegarão com essa marca vinda da destruição acelerada da natureza, da incapacidade humana ou de sua incrível capacidade para o mal. A morte do menino Henry Borel, agora mais clara, elucidada com detalhes, nesse momento de comoção nacional materializa em si a agonia das já quase 350 mil mortes em nosso país, que parecem pouco sentidas.

Como se todas fossem esse menino, um brasileirinho que sorria, pulava, cantava, mas não conseguiu comunicar a tempo o que sofria diante de quem deveria amá-lo e proteger. Deixado nas mãos de quem, exatamente como quem agora governa o país, violento, cheio de papos de religião, ética, moral, de um lado, e que quando virado ao avesso, espremido, dele só sai violência, sangue, morte, frieza. Ou tentativas de escapar, entregando o “corpinho”. Ou frases que calam terrível e dolorosamente em todos nós, como a que o assassino ousou dizer ao desolado pai de Henry: “Vida que segue, faz outro filho”.

No final deste filme pavoroso que assistimos, ao vivo, além do que se passa em particular em nossas cabeças, dessa realidade toda, será que conseguiremos, depois, sei lá, fazer outro país?

Porque este aqui, este cenário geral, a locação onde rodamos os nossos filmes particulares, não anda nada bem; e não há maquiagem que corrija esses protagonistas.

___________________________________________________

MARLI

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

ARTIGO – O buraco, blefes e as cartas embaralhadas. Por Marli Gonçalves

Sopraram uma ventania no castelo de cartas. Ele já estava bem desarrumado, é verdade. Mas agora nos vemos jogados em disputas que lembram bem os jogos mais tradicionais, começando pelo buraco, passando pelo mico, rouba-montes…

Jogadores que quando se reúnem no campo usam negras togas, 11 ao todo nessa partida inicial. Um, de casa, se adianta e bombardeia, surpreendendo com carta escondida na manga. No mundo da política e da Justiça, uma decisão judicial da mais alta corte abre uma estrada enorme no tabuleiro e tira do xadrez, pelo menos no tempo de muitas jogadas, uma figura proeminente do jogo nacional do poder. Um estrondo enorme, logo seguido de outras combinações, jogadas, trucos, pifes, pafes, empáfias. Pronto. Agora o jogo é “pegue o detetive” que no dia seguinte já aparece caçado por outra proeminente decisão levada à mesa, que pretende anular todas as suas investigações e jogadas. Um mais novinho do grupo por ali, pula a casa, adiando o resultado. Dois se movimentam no tabuleiro, enquanto os outros observam os movimentos, com cartas fechadas, alguns de outras salas, outras turmas. Segue o campeonato de braço de ferro.

O coringa aparece e discursa.  Fala sobre tudo, mais de uma hora, e a partida transmitida ao vivo se espalha mais do que telefone sem fio. A mensagem assusta o inimigo encastelado, que já não anda bem, nervoso, perdido, meio alucinado com uma equipe de aliados que sabe pode perder rapidamente e ser bombardeado e afundado como se estivesse em uma batalha naval, já que vários dos seus navios, mal posicionados,  já foram avistados. Imediatamente aparece de máscara, anuncia medidas desencontradas, e põe à sua frente um globo terrestre bem redondinho. Quer jogar War, mas um War contra si mesmo, tenta contrapor Estado contra Estado.  Perde a compostura, que já não era muita, ameaça, xinga, esculhamba. Cada vez mais vira piada, jogador marcado, birrento, pouco confiável.

O pessoal do Banco Imobiliário está atônito. O mercado em ebulição, sobe, desce, compra, vende, aumenta os preços. Muitas de suas peças estão imobilizadas, dado o fechamento obrigatório que os tira do ar, limita seus movimentos por muitas jogadas. Jogam dados para o ar, esperam novas cartas, recuam casas, marcam e desmarcam novas partidas.

O buraco é bem mais embaixo. O lixo se acumula sobre a mesa, sem que ninguém consiga arrematá-lo, porque está é muito ruim. Reúne declarações grosseiras, inimizades históricas, impossibilidade de comprar uma nova seleção, e a plateia que é obrigada a assistir de casa jogos tão ruins faz barulho, começa a buscar se reunir. O jogo de paciência, solitário, há muito acabou. A palavra que se forma na Forca é I M P E A C H M E N T.

A cada momento as jogadas ficam mais tensas, duplas se desfazem, canastras são desmontadas, as sequências tão necessárias desfeitas, o jogo geral fechado cheio de blefes, trucos, deslealdades, cartas escondidas, marcadas. Ninguém bate. O buraco vira cratera.

O problema é que não há mais só um morto para pegar e encerrar a partida, “bater”.  São mais de 270 mil mortos, e aumentando a cada minuto, sem que as vacinas apareçam para ajudar o pessoal da medicina que enxuga gelo para tentar salvar mais vidas de todos que estão vendendo o almoço para pagar o jantar.

Olha o mico. De verde, amarelo, azul e branco.

___________________________________________________

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves
No Twitter: https://twitter.com/MarliGo

ARTIGO – Olhos nos olhos. Por Marli Gonçalves

Com o uso mais intenso das máscaras nos rostos precisamos aprender a lidar com as informações dos olhos que ainda conseguem fugir, transparecer dos olhares das pessoas, e elas têm trazido, de um lado, transparentes, a aflição, a visão do medo, da tristeza, a indignação; de outro, vocês sabem qual, e que nem máscara usa, apenas o ódio do descontrole e incapacidade do desgoverno diário a que estamos submetidos, de onde jorram atos cruéis e ofensas a tudo o que mais prezamos

olhos nos olhos

Você se aproxima da porta da loja, apenas, sei lá, querendo olhar a vitrine quando sai para bater pernas e tomar um ar. Sente que alguém está te olhando fixamente lá de dentro, como se tentasse atrair, puxar você, e quando o seu olhar encontra o outro vê uma enorme ansiedade, como se pudesse salvar o emprego daquela pessoa. Isso quando os vendedores já não estão nas portas, e aí é mais intenso o olhar de súplica. As lojas estão vazias, e vazias, muitas, perceptível, até de vendedores em algumas maiores onde costumávamos ver movimento. O retrato de um país em crise. Crise sanitária, econômica e política, esta, agravando ainda mais a já combalida realidade da doença que avança, dizima, modifica nossas vidas como talvez muitos de nós jamais pudéssemos imaginar.

Com o anúncio de novos fechamentos – e em quase todas as regiões e cantos – ficou mais patente uma tenebrosa angústia geral, onde a maioria concorda que não há outro jeito, mas sabe que será vítima de alguma forma.

Não temos vacinas, não temos vacinas. E ficamos apenas buscando nos alegrar diariamente com as imagens dos frágeis braços dos muito mais idosos sendo perfurados. No íntimo, os invejando, porque a partir disso talvez não fiquem mais doentes, ou se ficarem, talvez não sofram, não morram, não estejam entre esses milhares, talvez não tenham de sofrer com as sequelas que perduram meses, isso quando são sanadas.

E aí a gente tem medo. Se pudesse não respirava o ar de lá de fora. Atravessa a rua quando avista grupos sem máscaras, embebeda o corpo de álcool em gel. Se aborrece quando cruza com a ignorância e ela está em todos os locais. Se é dos que não se calam, como meu caso, volta pra casa estressado porque arrumou tretas. E só queria tomar um ar.

Nos últimos dias por aqui, nas ruas, os olhos viram o afã, de correr, de comprar – já não é mais só papel higiênico que foi loucura besta do ano passado. É comprar o que puder, até porque sabemos que tudo vai aumentar, isso se houver, porque os meus olhos há muitos dias já vêm observando prateleiras vazias, desabastecimento, poucas opções de produtos da cesta básica.  Nas feiras, os preços nas alturas inibem a compra de produtos saudáveis, que talvez até nos ajudassem a ampliar a imunidade. Nas farmácias, vitaminas em cápsulas dobram o valor dia após dia. Se esgotam sim, porque o abismo econômico se pronuncia, e quem tem, tem, e cada vez tem mais. E compra tudo o que pode. Monopoliza. Estoca.

Meus olhos também já localizam claramente os olhos dos oportunistas que se refestelam – e daí muitos deles apoiem na cara dura a insanidade do maluco presidente e sua equipe, além de seus filhos e etceteras que nos provocam os mais terríveis instintos.

Os olhos, costumamos dizer, são as janelas da alma. Vejam – reparem bem os olhos deste homem – seus olhos crispados, ríspidos, transparecem seu ódio. E também o seu medo por claramente não saber dirigir, governar, não saber o que fazer, não ter como liderar do alto de sua ignorância, e fazer tudo errado, tendo de comprar cada vez mais caro e com a corrupção sua permanência no poder. Ele, eles, porque são um grupo espalhado, nunca poderão ser perdoados. Jamais. Isso não nos será negado. Seus olhos nunca mais poderão se fechar sem lembrar das pessoas morrendo de fome, agonizando por falta de ar e oxigênio, sem emprego nas filas, dormindo em sacos nas ruas onde reviram e viram o lixo.

Podem estar vacinados em suas mansões especialmente financiadas, em seus carrões. Nos iates, jatinhos, com roupas de grife. Seus travesseiros nos vingarão todas as noites. Jamais dormirão em paz. Sonharão que estão caindo, despencando. E estarão, mesmo.

___________________________________________________

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves
No Twitter: https://twitter.com/MarliGo

ARTIGO – As agulhas de março. Marli Gonçalves

É tanta vontade de ser vacinada que até já sinto a penetração daquela agulha fina e enooorme – que diuturnamente vemos furando especialmente braços de velhinhos, mostrada nos noticiários – em meu braço esquerdo. Já até pensei em desenhar com caneta um alvo ali. Mas, março chegando e a confusão instalada me deixa apenas tamborilando os dedos à espera da vez, e essa vez toda hora muda.

Pois bem, março chegando, e já um ano dessa pandemia que desorganizou mundialmente nossas vidas, planos, instalando o medo da loteria macabra que atingiu – e isso só contando oficialmente, veja bem – mais de dez milhões de brasileiros, e se aproximando de 250 mil vidas perdidas. O estranho é que ainda fica a sensação de que, para quem é dado agir o mais rapidamente possível, parece que quem morreu não importa em nada; e que quem morrerá até que se consiga algum controle, e são milhares, não importará. “Eles” vão continuar com as suas brigas, turras, negações, politicagem, ignorância, apostas vis, desrespeito e ações criminosas.

Querem mais sacanagem do que as criminosas vacinas de vento, quando as agulhas furam e nada inoculam? Que obriga a que as simpáticas fotos e filmagens que estavam sendo feitas dos idosos felizes agora sejam mais atentas e foquem especificamente as seringas, documentando se nelas há o líquido tão aguardado? Querem mais sacanagem do que deixar velhinhos ao Sol em longas filas durante horas para lhes dizerem na porta dos postos que a vacinação foi paralisada porque acabaram?  Querem mais sacanagem do que ainda aturarmos um ministério e um ministro incompetente, as mentiras, a falta de organização, as mudanças no plano de imunização, e as filas de prioridades sendo diariamente furadas, com várias pessoas e “categorias” entrando na frente, vindas pelo acostamento? Calendários divulgados em um dia e jogados fora em outros.

As agulhas de março nos trazem águas de muitas lágrimas. À esta altura, pouco mais de 3% da população imunizada,  com a primeira dose, e ainda apenas com duas opções, a CoronaVac, do Butantan e a vacina AstraZeneca,  da Fiocruz, que reeditam a velha guerra entre São Paulo e Rio de Janeiro, e que nos fazem esperar chegar nos aeroportos aviões vindos de muito longe trazendo seus pedaços para que sejam aqui fabricadas, além de alguns pacotes com poucas doses prontas. Ainda por cima convivendo com as dúvidas que vem sendo interpostas sobre suas capacidades de conter as violentas novas cepas, e sobre suas eficácias em determinados grupos.

Nossos passos estão sendo, não sobre agulhas, mas sobre alfinetes pontiagudos, porque é cada vez maior a sensação de impotência, de tomar tapas no rosto, sem ter nem mais para que outro lado virar, fatos sobrepujando outros fatos. E ter de ver os rostos dos culpados, os mesmos, acrescidos ainda de outros piores, que ainda ameaçam nosso maior bem, a liberdade, como se a eles fosse dado esse direito, e tirados todos os deveres que um dia juraram cumprir.

Nas ruas, a miséria, o poço das classes sociais sendo cavado mais rápido e fortemente do que as covas rasas onde atônitos enterramos nossos amigos, parentes, sonhos, amores e esperanças. As espetadas atingem nossos sentimentos.

Agulhas são usadas para costurar, unir, penetrar nos tecidos para a criação de novas coisas, remendos de coisas mais antigas, costurar buracos.

As agulhas das vacinas perfuram nossos corpos com a esperança de volta de alguma normalidade. Mas esta volta – assim como o surgimento de um líder de verdade – está sendo como procurar agulhas no palheiro.

___________________________________________________

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

___________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves
No Twitter: https://twitter.com/MarliGo

ARTIGO – Que mané Carnaval? Por Marli Gonçalves

Atrás do trio elétrico só vai quem quer morrer. Inacreditável ter de ficar imaginando onde é que foi parar um mínimo de bom senso nesse país completamente desorientado, dolorido, ameaçado, mortal. E ridículo. Carnaval virtual? Lives de carnaval? Festinhas, bloquinhos? Coleção de desfiles de escolas de samba na madrugada da tevê? Jornalistas fantasiados?

sem carnaval

Alegria, alegria, você está no Brasil, onde se é praticamente obrigado a achar tudo normal, legal, engraçado. Onde o Carnaval precisa ser festejado de qualquer forma, nem que seja dançando em cima de túmulos de mais de mil pessoas morrendo diariamente, sambando em cima de leitos onde as pessoas usam sim máscaras, mas de oxigênio. Quando o oxigênio existe para lhes dar ar, e o leito puder estar disponível.  Onde o está atrasado. O país que bate palminhas e acha legal ficar vendo aviões trazendo conta-gotas para que possamos produzir punhadinhos de vacinas. Que tem um presidente que mente, um ministro da Saúde que nos deixa é doentes cada vez que o vemos tentar disfarçar sua incontrolável incapacidade.

Skindô, skindô, onde estão as vacinas que acabam – acabam, não tem, não existem, não estão prontas nem distribuídas – bem no meio de uma campanha que não alcançou ainda nem os 3% da população, de autoridades e autoritários cheios de moral, mas onde não houve preocupação em comprar de mais variadas fontes para garantir o fornecimento básico.

A vacina CoronaVac, do Butantan – que até virou samba, funk, rap, dancinha! – a única que começou e acelera um pouco o fim dessa angustiante espera. A que vemos ser comemorada aplicada em nossos idosos sorridentes estampados nas redes sociais, e que parece surtir efeito pelo menos para reforçar a importância da imunização.

A espera numa fila que todo dia, toda hora, vemos ser furada, com um plano de vacinação nacional sem pé nem cabeça, muito menos fiscalização. Ainda manipulado politicamente para aplacar iras de grupos corporativos que se apresentam como se suas vidas valessem mais do que outras.

Temos de fazer um carnaval sim. Mas no sentido de não parar de gritar, denunciar, expor esses absurdos. Uma festa pagã na qual estranhamente teremos é de passar esses dias rezando, e muito, para sobreviver a eles, para continuar esperando a ressurreição. Conclamar que as pessoas tenham um mínimo de discernimento e não nos façam sofrer ainda mais nos próximos dias, e de novo, e de novo, isso depois de vermos os resultados catastróficos das festas de fim de ano, das festas clandestinas, das praias lotadas. Do resultado do negacionismo, das notícias falsas, da ignorância cega e desmascarada. Essa montanha russa diária de médias móveis de contaminados e mortes que parece que ninguém percebe o quão alto estão os seus riscos.

Parece, e é, loucura, a “preocupação” com o Carnaval, se será feriado, ponto facultativo, e aí se descobre que já não era, a gente é que enforcava esses dias nessa festa que nos últimos anos já se dava durante quase todo o mês, nas ruas, antes até das avenidas e suas datas.

Claro que teremos saudades dos carnavais que passaram, que passamos. Mas lembrem-se  que o do ano passado, 2020, já foi bem esquisito, a névoa daquela doença que  se espalhava pelo mundo pairava sobre as multidões, e poucos dias depois dele já assistíamos, perplexos, a realidade chegando, as ruas vazias, o que jamais imaginamos viver, pandemia declarada,  a peste, um século depois.

Qual a dificuldade de entender que sem vida não há a tal economia? Muito menos a tal alegria. Como podemos ver esfregadas em nossas fuças as tais festas clandestinas, jovens sem noção, ingressos a preços exorbitantes, sem que conheçamos exatamente quem são esses bandidos organizadores, sem que eles sejam penalizados duramente? Muito triste ver, inclusive, comunidades respeitadas, como as LGBTs, também promovendo essas cirandas da morte.

Nessa toada o que veremos é uma Quarta-feira de Cinzas sendo estendida por muito mais tempo. O cheiro de queimado da luta contra a corrupção já pode ser sentido, e as máscaras continuam caindo, das caras, narizes e queixos.

Sentadinha aqui, batendo o pé, esperando o Carnaval chegar, passar. Esperando a vez na fila da vacina, essa fila que não anda, porque sempre tem alguém entrando lá na frente, e acabando com o sentimento que cada vez mais escasso fica: a esperança de que teríamos aprendido e que sairíamos melhores disso tudo.

__________________________

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

_________________________________________________

* Aproveito, especialmente para agradecer aqui a onda de solidariedade recebida de muitos que leram meu artigo “Love. Love. Love”. Minha gatinha de alguma forma virou um serzinho imortal.

______________________________________________

 (se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves
No Twitter: https://twitter.com/MarliGo

________________________________

https://www.youtube.com/embed/yQ8xJHuW7TY

ARTIGO – O presidente do leite. Por Marli Gonçalves

Tanto leite bem condensado derramado essa semana que lembrei da fábula de La Fontaine, “A Menina do Leite”. O presidente que a cada dia leva o Brasil a um poço mais profundo e em todos os sentidos deveria conhecer essa história enquanto equilibra seus desaforos, xingamentos, e reúne cada vez mais adversários.

a menina do leite

Ele caminha e só pensa “naquilo”, em 2022, acha que está armando uma arapuca, e junta tudo de ruim perto de si para sustentá-lo em pé, porque sente que está balançando. Carrega na cabeça exorbitantes caixas de leite condensado, masca chicletes, entre os itens da assustadora lista de compras do Supermercado Planalto, da ordem de 1,8 bilhão de reais. É muito dinheiro, e feitas as contas percebe-se o quanto pagam muito mais caro por tudo, e essa compra é feita ali no mercadinho da esquina, cujo dono é um pastor amigo, parente de algum político desses de quinta categoria que se aglomeram nessa legislatura federal.

Aliás, logo agora no começo de fevereiro, a coisa pode piorar e muito, dependendo dos resultados nas eleições da Câmara e do Senado, onde o presidente do leite está que nem louco fazendo mais compras, mas desta vez não de alimentos, mas de consciências. E aqueles homens – sim, a maioria ali é sempre muito masculina – são caros, exigentes, negociam cargos, benesses, empregos públicos que parece lá não faltarem, como faltam aqui fora para mais de 14 milhões de brasileiros.

O que está sendo feito de nosso país? O que acontece no Brasil que faz o novo presidente dos Estados Unidos, a nação mais poderosa do mundo, rir a ponto de ter de disfarçar quando lhe perguntam sobre seu contato com o dirigente brasileiro? O país que tem um chanceler enrolado que bate palmas para maluco em churrascaria e que acha que ser pária é bom; pior, está conseguindo que as portas dos lugares mais importantes batam bem na nossa cara.

O país que assiste apavorado seu povo ficando doente e morrendo aos milhares diariamente, alguns por falta de oxigênio. O país que não tem garantidas as salvadoras vacinas para uma maioria, porque foram às compras com listas erradas, de remédios sem efeito ou de leite condensado, chicletes, vinho, rapadura, mocotó, bombons, chantily, apenas alguns do rol maluco que agora dizem entuchar no Exército, distribuir nos Ministérios. Pior, ainda tentam explicar, como se não soubéssemos fazer contas, pudéssemos ser passados para trás. Pegos com a boca na botija, o mandante profere xingamentos contra a imprensa, e sempre com aquela sua ideia fixa, sabem qual, não? – a anal. Isso precisa ser estudado.

Cada vez mais claro como um grave caso psiquiátrico em evolução, além da incompetência que o deixa perdido igual barata tonta, busca usar a força; e a caneta, para comprar silêncios, continuidade. As ruas começam a falar mais alto, e ele fica ainda mais perturbado junto com esse seu grupinho de filhos ignorantes e desocupados e ministros como esses, da Saúde, das Relações Exteriores ou da Educação, que diz que foi um sucesso um vestibular com ausência de mais da metade dos concorrentes, e que apresenta uma prova cheia de erros e preconceitos. A lista é grande de horrores ao seu redor, com ou sem farda. Aliás, fardas que parecem estar atentas, a tudo observando de esgueira, lá de seus postos.

Acontece que, e fábula é retrato de muitas realidades com sua moral da história, o tal presidente do leite pode tropeçar – e não falta no que escorregar – e cair. Pode ser até pelo susto, de caminhões parados nas estradas, alguma derrota parlamentar, mais mortes ainda advindas de novas cepas, uma revolta mais ampla pelas vacinas que nos negam. Atormentado pelo espírito de mais de 220 mil almas, entre as quais algumas de pessoas que, em vida, foram por ele enganadas e acreditaram na “gripezinha”, negando o tudo que há meses paralisa todo um planeta.

 O leite derramado pode ser o da fábula, ou mesmo o do título de uma obra de 2009 do por eles tão odiado Chico Buarque, por acaso a história de um homem velho no leito de um hospital.

*A fábula, para quem acaso não conheça:

A menina caminhava cheia de contentamento, pois era a primeira vez que iria à cidade, para vender o leite de sua vaquinha.

Colocou sua melhor roupa e partiu pela estrada equilibrando a lata de leite na cabeça.

Enquanto caminhava, a menina começou a fazer planos entusiasmados para ganhar dinheiro: “Vou vender o leite e comprar ovos, uma dúzia. Depois, ponho a galinha a chocar os ovos e ganho assim uma dúzia de pintinhos, que logo eles crescerão e terei bonitos galos e belas galinhas. Venderei os galos e fico com as galinhas, porque são ótimas para pôr ovos. Outra vez ponho os ovos para chocar e terei mais galos e galinhas. Venderei tudo e compro uma cabrita e algumas porcas. Se cada porca me der três leitõezinhos, vendo dois, fico com um” …

Mas a menina estava tão distraída com seus pensamentos, que tropeçou numa pedra, perdeu o equilíbrio e levou um tombo inevitável. Todo o leite foi derramado no chão, para desolação da sonhadora.

E os ovos, os pintinhos, os galos, as galinhas, os cabritos, as porcas e os leitõezinhos foram pelos ares… 

Moral da história: Não se deve contar com uma coisa antes de consegui-la.

Muito menos para 2022.

________________________

FOTO: Gal Oppido

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon).

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

____________________

(se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves
No Twitter: https://twitter.com/MarliGo

ARTIGO – Políticos patéticos e outros pês. Por Marli Gonçalves

Pesadelo, esses políticos patéticos, pobres e podres de espírito, perniciosos, pândegos, estão esgotando nosso arsenal, inclusive, de adjetivos para nomeá-los. E isso não é língua do “p”. “P” de parem com isso o mais rápido possível, o país paralisado, perplexo, o povo com pavor de ficar doente e não ter nem onde cair, e perturbado com a oscilação institucional, com ameaças sem nexo, provocações desmedidas
PÊS - -HIPNOSE - PATÉTICOS

Antes de mais nada, por favor, reparem que a bronca é geral. Não é só o pavoroso presidente e seus pândegos ministros, mas também os pálidos e penosos passos da oposição, a patifaria do Congresso Nacional, as pernadas de governadores em prol de uma eleição daqui a dois anos, a preguiça das instituições da sociedade civil. Inoperantes, inconsequentes, despreparados.

Não lembro de ter visto nessa minha vida de algumas décadas, importantes décadas, um quadro geral tão desanimador, reunindo tanta fraqueza, de ética, de opinião, de ação, de comportamento.

No poder, um masculino grupo de parvos e, pior, parvos que, sem verdades e ações, teimam em espalhar mentiras dia e noite, aceitas e espalhadas quando não por robôs que as impulsionam, por imbecis que se dizem patriotas. Lembram os pelegos sindicais de triste memória, e manipulam massas de forma tão sórdida que agora causam mortes, diárias, muitas, milhares. Incentivam a ignorância, como se tal fosse o “novo normal”. Jogam com vidas, com o futuro, destroem e amargam o presente.

São pusilânimes, porque ainda por cima tentam desdizer o que disseram, mandaram, gravaram, recomendaram, e na hora que são pressionados arrumam sempre um bode expiatório. Essa semana inovaram: depois, por exemplo, de lançarem oficialmente um aplicativo no site do Ministério da Saúde de “orientação” para o “tratamento precoce” contra Covid-19, ao serem pegos no pulo, acusaram… hackers!  Que hackers são esses, hein? Aliás, agora dizer que foi hackeado é mania nacional e até o ex-senador cristão e hipócrita até a medula usou essa justificativa depois de vazar “sem querer” imagem de um pênis, que, ora!, estava em seu celular, mas saiu dizendo que foi alguém.

Não sei se você aí sabe de uma das últimas: nesse momento tão sério o General Preguiça de olhinhos redondos giratórios que descomanda todo o processo de vacinação contratou um assessor novo, para sua comunicação. Trata-se de um indivíduo conhecido como Markinhos Show, que se define, leia bem, como “Palestrante Motivacional, Master Coach, Analista em Neuromarketing, Especialista em Marketing, SEO, Hipnólogo, Mentalista, Practitioner em PNL, Músico, Empreendedor e Especialista em Marketing Político.”

Ou seja, que palavra mesmo usar para defini-lo? Fechem os olhos, concentrem-se. Vocês podem estar sendo hipnotizados pelos tais olhinhos redondos, da cara redonda, esse que para ouvir melhor, sim, ouvir melhor, precisa tirar a máscara, tal qual os inconsequentes que a abaixam para falar ao celular e que vemos todos os dias nas ruas.

Não se sinta mal se, assim como outros milhares de brasileiros, babou de inveja ao assistir a posse do novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e sua vice, Kamala Harris. Não se sinta mal se de repente tem pensamentos estranhos, não exatamente generosos quando pensa neles todos, os operantes e os inoperantes, estes que se encontram sentados sobre dezenas de pedidos de impeachment e processos legais.

Não se sinta mal. Uma coisa pelo menos parece certa nos últimos dias. Parece que é possível ver uma luz no fim do túnel, o tilintar da ficha geral caindo. E novos ventos soprando nas ruas.

Pvamos em Pfrente. Pva-Pci-Pna Pjá!

________________________

MARLI GONÇALVES

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon).

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

__________________________________________________________________________

(se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves
No Twitter: https://twitter.com/MarliGo

ARTIGO – A nossa revolta do século. Por Marli Gonçalves

Já é visível. Uma grande revolta nacional muito particular enfim parece se formar e ser urdida, ferve nas entranhas do país, e é só essa certeza e a torcida para que ecloda antes de ainda mais desmandos e outras centenas de trágicas e estúpidas mortes, o que dá forças para suportar o que assistimos, agora simbolicamente sem ar, sem o vital oxigênio

revolta

Sufocados. As pessoas estão ali, no Norte do nosso país, morrendo sufocadas, sem conseguir respirar, afogadas fora d`água, desesperadas, alinhadas lado a lado. Fique em apneia para entender esse sofrimento – quanto tempo consegue? Um minuto? Dois, se for muito treinado e saudável. Os pacientes que lotam as UTIs precisam de ajuda, e para a situação do Norte se espalhar não falta muito, acredite. Nessa toada, pode faltar, além de tudo o que já falta, oxigênio para todos. Oxigênio, minha gente.

Não, ninguém aperta seus pescoços com joelhos; ao contrário, profissionais de saúde ainda tentam bombear ar para eles com as mãos, desesperados, inventando respiradores manuais, por horas, esgotados. Lá fora, formam-se filas de novos casos e ouve-se o grito de horror, de socorro, e o choro dos familiares.

Onde estão os milionários, suas benemerências, seus jatos? Onde estão os militares que ainda se prezavam? Onde estão as organizações médicas? O que estão fazendo os congressistas? Os artistas se movimentam como podem, tentando arrebanhar tubos de oxigênio para enviar, mas podem muito pouco. A FAB? Manda, bem agora, aviões de carga para apertar parafusos fora do país.

O desgoverno é total. O General da cara redonda se reúne com o presidente e ainda ri, em meio a ampla gama de bobagens que proferem, como se não tivessem nada a ver com isso, empunhando caixas de remédios inúteis que compraram e que deve ter enchido é os seus bolsos. Em qualquer lugar do mundo já deveriam estar presos, sendo julgados por crimes contra a humanidade. Aqui, continuam livres, escrevendo declarações que serão guardadas porque haverão de ser julgados.  As pessoas pedem ar. Pedem vacinas. Pedem médicos, enfermeiros. Recebem ignorância, descaso, incompetência.

Não é mais nem de perto uma questão ideológica. Chegamos a um ponto em que esses seres só podem continuar sendo apoiados por bandidos. Ou por ignorantes iguais a eles, de má fé. A bandeira do Brasil está, sim, enfim, pintada de vermelho, do sangue de seu povo.

Brincam com as nossas vidas. Continuam com sua doente sanha negacionista, pregando contra a Ciência, contra as máscaras, nos negando as vacinas que há muito já deveríamos ter recebido e ainda nem aprovadas estão pela burocracia safada imposta pela agência governamental que dia após dia pede papéis. Mentem. O tempo passa, e o ar de todos está irrespirável.

É hora da revolta. É política genocida, sim, não há mais como negar. Precisa ser contida. Denunciada. Combatida, seja como for. Nem que seja com o sangue de quem puder partir para a batalha, como já precisamos fazer durante o período mais negro de nossa história, a ditadura, e que agora parece estar sendo revivida, e de forma ainda mais cruel. Assistimos ao vivo, diariamente, as mortes, por tortura; tiram o ar de quem precisa respirar.

Olho no espelho. Minhas olheiras estão cada vez mais profundas, porque não há quem possa dormir tranquilo assistindo a história se desenrolando dessa forma. Os pesadelos são a cada dia mais reais. Acordamos e eles estão lá, à espreita, acontecendo diante de nossos olhos bem abertos.

Não há mais muito tempo, nem paciência possível. Já! Queremos sentir a agulha entrando em nossos braços com a vacina. Será ela o remédio, a força, a coragem, a esperança, a forma de novamente sairmos ao ar livre.

E esse é justamente o medo deles, entenda de uma vez por todas porque a nós está sendo negada essa possibilidade. Eles temem o que sabem que não mais poderão controlar.

Está chegando a hora deste rompimento. A hora está chegando. Não sei como, mas dá para sentir que como está não ficará mais muito tempo. A revolta do século se aproxima. Que seja pacífica. E alegre.

________________________

FOTO: Gal Oppido

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon).

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

_________________________________________________________

(se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves
No Twitter: https://twitter.com/MarliGo

ARTIGO – Alô, alô, brasileiro. Por Marli Gonçalves

Alô, alô! Aqui quem fala é daqui mesmo. Embora Marte pareça agora até um lugar mais agradável. De alguma forma estamos muito perto uns dos outros e sofrendo as mesmas coisas, independente de nos conhecermos ou não. A fita não muda, parece que as coisas só pioram, e não sabemos até quando iremos resistir

ALÔ ALÔ

Como estão vocês? Para variar, como diz a música, estamos em guerra, você bem imagina a loucura porque a vivemos dia após dia. Tendo de escutar toda sorte de provocações, bobagens, ataques despropositados, declarações estapafúrdias e comentários insanos, vindos de quem deveria nos trazer soluções. A coisa está ficando ruça. 2021, avante!

Pensar no amanhã, planejar qualquer coisa, parece mesmo impossível. O mundo todo de ponta-cabeça, sacudido, acuado, dividido, isolado, batendo recordes de tudo o que é ruim. Não tem para onde fugir no Planeta.

Alô, alô, marciano. A crise tá virando zona. Cada um por si, todo mundo na lona…Temos de agradecer e nos contentar em estarmos vivos, no meio dessa loucura, nos resguardando e acumulando forças para uma reação geral que hoje se dá apenas em redes sociais, palavras ao vento, memes, indignações que se somam e somem nos minutos seguintes. Virá?

Aqui, contamos mais de 200 mil mortes; mais de oito milhões de contaminados. Isso, em números oficiais, porque a coisa é certamente muito pior, talvez um dia saibamos a realidade desses tempos tenebrosos. Vocês têm noção do número de pessoas doentes que não conseguem ao menos fazer exames? Sabem os preços desses exames? Já precisaram deles?  Onde estão? Quantas pessoas próximas já perdeu?

Um ministro preguiça da cara redonda e olhinhos assustados tem o desplante de, assim como o seu ridículo chefe, ousar culpar a imprensa por divulgar as parcas informações de que dispõe, e com muitas dificuldades. Nossos ouvidos feitos de penicos. Um vaivém de decisões.  Briga de poderes, de Poder. Nem uma vacina aprovada até esse momento pela agência reguladora, de Estado, mas que como as outras agências se confunde com governo, nos deixando descobertos. Fazendo de tudo, parece, para que se espalhe insegurança com relação às vacinas, sejam de onde vierem. De planos, o céu está cheio.

Como bem disse Zeca Pagodinho de forma exemplar, quero tomar qualquer uma, se possível todas, uma em cada braço, uma em que cada lado da nádega.

Ah, mas não é só isso, vejam só a ousadia – poucos dias após as eleições – do Governo do Estado de São Paulo e Prefeitura, aproveitando o recolhimento obrigatório que nos cala e tira dos protestos nas ruas, em aumentar impostos e cancelar a gratuidade do transporte público para idosos entre 60 e 65 anos. Eles se (v) (r)endem ao lobby das empresas, e nem coram.

Todos serão cancelados assim que possível. Hão de se abrir as gavetas que guardam os pedidos de afastamento. Hão de surgir as liminares que reponham nossos direitos.

Parece não ter fim o desrespeito. E adicione-se o desrespeito de parte da população com comportamento insano, como se a vida já tivesse voltado ao normal, e que viraram arminhas humanas andando por aí, aglomerados, infectando e matando sem dó, sem máscaras, rindo à toa, e ainda marcando um carnaval do horror no calendário.

Essa semana assistimos, perplexos, a democracia ser ferida em seu berço, os Estados Unidos, cantado em verso e prosa, e até aqui nosso exemplo de ordem e justiça. O mundo inteiro repudia. Menos aqui, nesse planeta Brasil onde estamos; pior, ainda ousam nos ameaçar com o mesmo nas eleições de 2022.

As nuvens negras passam em cima de nossas cabeças. Os aviões estão no ar. Temo que tenhamos de apelar ao homem mais rico do mundo, Elon Musk, que gosta de brincar e investir no espaço. Quem sabe consiga nos levar aos marcianos, que devem estar bem atentos aos sinais que captam.

Alô, alô, marcianos! Aqui quem fala é da Terra!

________________________

MARLI

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon).

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

________________________________________________________________

(se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves
No Twitter: https://twitter.com/MarliGo

ARTIGO – 2021, o ano que tanto desejamos. Por Marli Gonçalves

Nunca, creio, pelo menos desde que nasci, e isso já faz tempo, desejamos tanto um ano realmente novo e que ocorra uma mágica –as coisas sendo resolvidas, a pandemia controlada e que uma luz de consciência se abata sobre os governantes. Ou, então, que eles sejam abatidos, pelo nosso bem.

Vamos lá. Concentre-se. Minha ideia é que use aquela horinha mais sua, mais preservada, em que esteja nu, despojado, só você e a água do banho, seja de chuveiro, banheira, latinha, balde, bidê, canequinha.  Reflita. Pensa o quanto queremos nossas vidas de volta e o quanto estamos tendo por aqui dificuldades impostas por maníacos e pela ignorância para conseguir obter isso, além de tudo o mais. Ajude-nos a desejar com ênfase o fim dessa verdadeira guerra em que nos encontramos, diferente de outras, mas tão mortal quanto, e que já chega a 1,7 milhão de mortes em todo o mundo. 185 mil vidas perdidas só aqui no Brasil, e isto contando só oficialmente.

Temos de virar essa página, o mais rápido possível, e do jeito, a realidade e forma que as coisas andam, diariamente tantos desatinos, erros, “bate-cabeça”, teremos mesmo de apelar a algum outro plano. Aliás, outros planos, muitos, reais e espirituais.

Hoje estou querendo focar no espiritual. Sempre ouvi falar da força da mente humana e acredito que aqui, entre meus queridos leitores, poderemos fazer uma boa e positiva corrente para testá-la.

Que as crianças – aliás, não só elas, mas todos os que querem e precisam aprender – possam voltar sem medo às escolas, universidades, bancos escolares, que esse ano perdido precisa ser recuperado e já temos tantas deficiências nesse setor Educação.

Que os palcos possam voltar a brilhar, com arte, beleza e espetáculos que possamos ver e sentir além de telas de computadores e celulares que por mais que se tente não têm a menor graça.

Que todos possamos voltar às ruas, seguros, pelo menos quanto à essa maldita doença, já que outras formas de segurança ainda demorarão, disso não temos dúvidas. Que haja trabalho e prosperidade.

Que os idosos possam voltar a viver seus dias ao lado de quem amam, recebendo cuidados de suas famílias, beijos e abraços.

Aliás, que todos possamos de novo receber carinhos, beijos, abraços, ver os sorrisos, namorar. Que as mulheres possam procriar sem que os meses de gestação sejam de agonia e temores como vêm sendo. Que possamos nos tocar, ter prazer. Sem ter que sair desinfetando tudo.

Que os jovens possam sair, divertir-se, dançar até o chão – mas bem que eles podiam deixar esses bailes funk caírem em desuso por tanta perturbação que causam. Tantas opções poderão se abrir!

Que a Ciência, a razão, o bom senso, a Justiça prevaleçam sobre as trevas que tristemente encobrem nosso país e nos envergonham diante de todo o mundo.

Que as fronteiras se abram, e todos possamos viajar para lá e para cá. Quem foi, possa voltar. Que as portas de nossas casas novamente se abram para receber quem amamos.

Não. Não teremos Carnaval, o tal, aquele de escolas de samba, blocos nas ruas. Mas faremos um desses bem grande assim que conseguirmos a vacina que ainda pretendem nos negar. Ah, aí sim, dançaremos nas ruas como se não houvesse amanhã, mas haverá.

E pelo andar da carruagem, se tudo der certo – e vai dar, porque somos mais – logo nos encontraremos nessas ruas em protestos que precisam ser feitos e que estão apenas represados enquanto eles se aproveitam da fragilidade que tentam perpetuar, porque só assim poderiam continuar se mantendo.

Concentre-se. Vamos! Deseje.

_________________________________

mARLI

MARLI GONÇALVES –  Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. Nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

_________________________________________

(se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves
No Twitter: https://twitter.com/MarliGo

ARTIGO – Por favor, parem, agora! Por Marli Gonçalves

Parem! Essa exaustão contínua, diária, nos leva a caminhos sem volta, nos tornando – a todos – tristes, amargurados. Revoltados. Descrentes. Apavorados. Tudo já andava muito difícil, mas a pandemia chegou para tornar a situação brasileira praticamente insuportável pela insanidade que atinge os que deveriam buscar soluções; pior, aplaudidos por desinformados por essa impressionante turba de ignorantes gestados nesses tempos e que vêm saindo dos ralos.

PAREM

A senhora que cuida da portaria da galeria onde preciso entrar prepara o termômetro eletrônico para medir a temperatura. Ela está sentada. Por isso, me abaixo para facilitar, indicando a testa, o lugar correto para essa medição. Ela aponta para meu pulso. Digo para ela medir na testa. Ela teima. Digo, ou mede na testa, ou não mede, ok? Ela retruca: mas “dizem” que faz mal. Já não estou bem humorada, minha delicadeza desce o morro rapidamente, e respondo com palavras ásperas e em tom mais alto, chamando sua atenção para a bobagem. Cenas assim tornam-se comuns, dá medo até de sair de casa. Mas está decidido: se tiver a ver comigo, perto de mim, respirando o mesmo ar, haverá reação. Seja onde for: no prédio onde moro, no mercado, no transporte, na feira. Uma questão de defesa pessoal, para a qual sempre estarei pronta.

Fico chateada, mas é que ver o descaso, viver em um país que diariamente salta olimpicamente para trás sem que a reação possa ser vista se tornou um pesadelo. Minha paciência anda esgotada.

Enfim, não é só a paciência. Ando bem esgotada, e imagino que muitos de vocês aí do outro lado também estejam e possam entender do que falo com total sinceridade. Não quero por isso arrumar inimigos, ser atacada, xingada de comunistazinha, entre outras mensagens que recebo, muito menos perder leitores arduamente conquistados. Apenas alertar que estamos chegando a um perigoso limite e que precisamos falar sobre isso. Antes que seja tarde demais. E já estamos atrasados para essa conversa.

Quero, adoraria, inclusive, falar a um número maior de pessoas, atingir “não iniciados”, que isso é o que o jornalismo faz, na sua quase impossível busca por imparcialidade. Afaste ideologia, sentido de direção, esquerda, direita, esses conceitos antigos e ultrapassados. Pelo amor de Deus, parem de aceitar qualquer informação dessas, malignas, que correm pelas redes sociais que viraram campos de batalha: uns querendo ser mais famosos e ter mais seguidores que outros, a qualquer preço; redes que, mais do que papel, aceitam qualquer coisa. Parem de não prestar atenção ao que leem; e de ouvir contar e passar à frente teses estapafúrdias embrulhadas em papel brilhante. Respeitem a Ciência, a imprensa séria que está nas ruas buscando informar a realidade, nessa perigosa tarefa.

A ignorância, a maledicência, a cegueira, mata muita gente – não sujem suas mãos e consciências apoiando líderes malditos e suas equipes desgraçadamente desorientadas. Perceba quantos estão tombando, gente boa, amiga, importante, familiar, querida. Gente sua, minha, nossa. Por quantos estamos rezando fervorosamente para que sobrevivam. A situação se agrava de forma acelerada, assim como o medo dessa loteria macabra.

Apoiar o negacionismo, ir contra as regras de distanciamento, isolamento social, não usar máscaras, sair por aí em baladas, compras, esquecer o básico, não é “legal”, “liberdade”, desobediência civil, revoltinha nem revolução. É simplesmente brincar com a morte, com o futuro, com o próximo.

Continuando nessa toada é que, aí sim, vamos assistir o que é revolta, revolução social, desobediência civil – a verdadeira – e que já respiramos, sobressaltados, porque será só ela a solução caso essa situação se mantenha por mais alguns meses, assim, insuportável. E não será nem um pouco divertido, garanto; convulsões sociais não são divertidas.

Então, pensa. Juízes se digladiando entre si, tacando o livrinho da Constituição uns nos outros. Em um momento como esse não dá para perdoar e achar bonito – sem enumerar todos os fatos – um presidente e uma primeira dama que desrespeitam seu povo, inaugurando vitrines com roupas que usaram no dia que desgraçadamente tomaram posse no poder. Se possível, essas roupas deveriam ser destruídas. Não dá para aceitar que o arroz, feijão, o óleo, os alimentos da cesta básica, se tornem inacessíveis, e que sejam dadas regalias a fabricantes de armas. Não dá para aceitar que cargos do governo sejam negociados nas nossas fuças com o que há de pior na política nacional. Não dá para aceitar risadinhas irônicas, negros racistas, o meio ambiente depenado, a Cultura e o Turismo nas mãos de mais um desafinado, que pessoas que comandam a economia sejam tão insensíveis, o astronauta que vive boiando. Especialmente não dá para aceitar que o comando da Saúde esteja na mão de quem parece não saber nem onde está parado – e está parado bem em cima de decisões fundamentais para que possamos sair dessa situação. Brincando, sem vacinas, agulhas, testes, sem transparência. E sem corar.

O lugar que ocuparão na História haverá de ser cruel tanto como fazem por merecer.

Precisamos apelar para que sejam eles que estejam no finzinho. Ou, escute, não vamos aguentar. Isso não vai dar certo. Por favor, parem, agora!

_______________________________________

MARLI

MARLI GONÇALVES –  Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

_____________________________________________

(se republicar, por favor, se possível, mantenha esses links):
Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves

No Twitter: https://twitter.com/MarliGo