ARTIGO – Moro, na marra, morou? Por Marli Gonçalves

Morou? ( entendeu, compreendeu, manjou, sacou, apreendeu, atinou, captou, percebeu? ) Já fui logo correr atrás de uma gíria bem de época para poder combinar com o climão geral. É uma brasa, mora! Ele já deu entrevista dizendo com todas as letras que jamais seria político, mas voltar atrás no que já se disse, e esquecer o que se escreveu ou prometeu, é praxe por aqui, e ele não será mesmo nem o primeiro nem o último. Como se moverá Sergio Moro nesse tabuleiro?

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Não aguentei o ar de suspense em torno da decisão do juiz Sergio Moro de aceitar ser o xerife do novo Governo Bolsonaro, ops, aceitar ser o Super Ministro da Justiça + Segurança Pública + Funai + CADE + PF + uma penca de órgãos. É de um amigo a melhor definição sobre o fascínio e atração do poder: a limusine na porta. Essa limusine veio caprichada, com o tanque de combustível tão cheio que pode chegar até a próxima eleição, daqui a quatro anos. Se não for abalroada, porque também pelo que assistimos não faltarão inimigos, que esse povo é mesmo uma brasa, mora!

Primeiras sugestões: tirem os espelhos das salas. Comprem paletós para os egos. Aumentem as soleiras das portas. Não bebam nada que oferecerem. Não aceitem bombons de estranhos. Rezem. Depois penso outras formas de sobrevivência no habitat Bolsonariano.

Mas tudo vai depender de tudo, morou? Primeiro de não ocorrer nenhum pega interno, por exemplo, com o astronauta Marcos Pontes, que deve estar se mordendo todo. Indicado Ministro da Ciência e Tecnologia, despencou do noticiário assim que o Moro apenas informou que iria se encontrar com Bolsonaro para conversar e decidir. E logo já chegou ao Rio de Janeiro com uma nota oficial prontinha no bolso do paletó. Prevenido, esse juiz.

Imaginem a ciumeira geral e aquele certo temor. Afinal, ninguém sabe ao certo a dimensão de tudo o que o paladino juiz sabe, ouviu, leu, guarda na toga, esconde atrás do sorriso enigmático.

De um lado cartada de mestre de Bolsonaro – “mito” atrai “mito” para perto de seu controle – não consigo deixar de pensar, porém, que também ele arrumou uma boa sarna para se coçar, abriu a porta de casa ao único e maior rival que poderia ter nesse momento. O povo brasileiro resolveu acreditar que existe e sair atrás de seres novos para arrumar os trilhos.

Ao mesmo tempo, também muito espertamente, com Moro, Bolsonaro alivia as próprias costas, divide as responsabilidades.

Heróis, paladinos, donos da verdade no Céu e na Terra, concentração de poderes, emissão contínua de motes religiosos, juntando gente certinha, aparadinha, tradicional. O momento que se espalha pelo país é masculino, branco, cara lavada, usa cashmere jogado nos ombros, passa gel no cabelo, adora uma camisa branca engomada, um terno cinza mal cortado. Não tem brinquinho, barba, nem tatuagem, rabo-de-cavalo e tiara, então nem pensar. A República agora é “Barra da Tijuca”, classe média, zóio azul, vai em outro hospital, e até o time para o qual torce não tem só preto e branco.

man_hampsterÉ aguardar no que vai dar, e logo, o que vai mudar até na moda e costumes que espalharão. Não será uma revolução nem um golpe. Dois meses até a posse e ainda muita água pra rolar debaixo das teias que Bolsonaro planeja montar e que já atraem as moscas azuis.

Está tudo tão rápido que até resolvi fazer e convido você a participar: um programinha – faço gravações quase diárias #ADEHOJE, #ADODIA, em vídeos curtos e naturais de conversa ou mesmo desabafo sobre as incertezas do momento e o nosso inabalável otimismo e vontade de que as coisas deem certo, mesmo quando ficamos com os dois pés atrás. Nas redes sociais, Facebook, Instagram, no YouTube, no site e no blog. Me acha, vai!

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Marli Gonçalves, jornalistaA gente precisa ficar conversando o tempo inteiro, para ninguém dormir no ponto.

Brasil, Final de 2018, na organização para andar

 

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ARTIGO – Conscientizadores digitais: onde estão vocês? Marli Gonçalves

Balela essa história toda de influenciadores digitais, além de ser muito chato ficar lendo quantas bobagens incutem na cabeça dos coitados e coitadas que os seguem cegamente. Ou melhor, vidrados nas telas das maquininhas que teclam desesperados e esparramam não sabem nem mais o que, para onde. Crias artificiais, espalham vento, à base de muita grana e contando que a internet aceita tudo. Quero ver nascer os conscientizadores digitais, fundamentais em um momento tão importante como esse agora

Você pega uma bacia, enche de água quente, joga umas ervas aromáticas. Chá? Para beber? Faz bem à saúde? Nãoooo! É para, digamos, sentar em cima, para fazer uma tal vaporização genital. Tem ainda quem pague até 50 dólares (o que na nossa moeda daria uns 200 contos) para que alguém faça para ela esse tal “tratamento”, já que deve ser mesmo muito difícil ferver uma água e jogar matinhos cheirosos dentro. Para o que serve além da chance de queimar os fundilhos ainda não descobri.

Isso é só um exemplo das bobagens indicadas pelos tais influenciadores, e que os portais ainda têm a pachorra de publicar com destaque e passar para a frente todos os dias, e o que é pior, tudo isso figura sempre entre os itens mais lidos – mesmo quando o mundo está se acabando. Reparou, né?

As tais blogueiras de moda, influenciadoras, por exemplo, essas então se divertem, ganhando muito dinheiro e tudo para indicar produtos, o que fazem com a cara mais lavada ou pintada do mundo. Uma hora dizem que o quente é usar maiô; depois o quente é usar de novo a asa delta dos anos 70 – mas que seja mais profunda, fique bem aqui em cima, tipo o estilo que o Borat usa. Não, esquece! Agora a onda já é usar a parte de cima do biquíni ao contrário. “As famosas estão usando” – é o mote. Peraí, que enquanto eu escrevia, mudou tudo: o legal agora é usar biquíni branco. Atenção, que isso também já pode ter mudado enquanto você lê. Quem paga mais?

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Papai, sábio papai caboclo velho, sempre dizia que tem otário para tudo. E dizia isso sem saber que as coisas na internet estavam muito piores do que as que via no mundo real. As pessoas gostam, praticamente pedem, imploram, para serem enganadas, ludibriadas, “influenciadas”, guiadas. Miolo mole, papai definia, seguido de um palavrão e um resmungo: “papagaios de botina” – já escrevi sobre essa expressão. (https://marligo.wordpress.com/2010/05/22/artigo-os-nomes-das-coisas-e-as-coisas-dos-nomes/)

Visto de forma um pouco mais poética, essas coisas me fazem lembrar de O Flautista de Hamelin, dos Irmãos Grimm. Contratado para acabar com uma infestação de ratos na cidade, o flautista os hipnotizou e os afogou, mas na hora de receber o que tinha sido combinado pelo serviço, desconversaram. Ele não teve dúvidas: tocou sua flauta de novo, só que desta vez hipnotizou e sumiu com todas as crianças da vila, que o seguiram la-la-lá alegremente, sendo trancafiadas numa caverna.

Aqui, os tais influenciadores – palavra que já está ficando chata de tanto ouvir – tocam suas flautas incessantemente. E o som se expande pelas redes sociais: são notícias mentirosas, pesquisas manipuladas, celebridades e subcelebridades fotografando, filmando e divulgando até os gases que aspiram. Centenas de agências juram que podem ensinar – com dicas óbvias, mas dadas como se fossem o maior segredo de Estado – a quem pagar, certamente, para também ser flautista. Mesmo que isso custe a própria dignidade como vimos essa semana em denúncia recente na área política. Já não são só mais robôs que manipulam informações; são gentinhas que recebem um trocado. Para trair atraindo.

O mundo verde e amarelo dos dedos tamborilantes precisa agora urgente da ação de um maior número de conscientizadores, didáticos, que falem sobre as histórias que viveram. Levante a blusa, mostre as cicatrizes se for o caso. Fale dos livros que não pôde ler, dos filmes e peças de teatro que não pôde ver porque tudo era proibido, censurado. Trate das dificuldades que enfrentou, e lembre principalmente do quanto isso atrasou a sua vida, tempo irrecuperável, quase tanto quanto o desse momento que agora nos castiga. Recorde a eles os planos econômicos enlouquecedores. Você pode provar tudo o que fala.

Recortes de jornais, velhas gravações, arquivos gerais. Muito bom espaná-los sempre com ares democráticos frescos. Só assim serão todos senhores de seus ouvidos. E de suas decisões.

Precisamos, agora, urgente, nos precaver: resguardar as nossas conquistas para que, aconteça o que acontecer, não mais sejamos atingidos tão brutalmente. Por ninguém.

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Marli Gonçalves, jornalista – Cadê vocês? – apareçam. Prometo: vou curtir, seguir, compartilhar.

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Setembro, finalmente.

ARTIGO – Postes desencapados. Por Marli Gonçalves

PosteNão encoste no poste. Eles são frágeis, sem ideias, a não ser as que colam neles, servem só para atravancar e segurar mal e porcamente os malditos fios que teimam em não ser enterrados. Agora, metidos, querem de novo participar das eleições

Estaca, pau, toco, se já é difícil definir melhor os postes, agora eles tentam nos atrapalhar novamente nas eleições. Se estamos nessa penúria já é por causa de uma posta presidenta que caiu tarde, nos deixando a sua sombra da meia-noite, o vampiro que se escondia por detrás da chapa quente. Não é que agora estão tentando “emplacar” outros e outras?

Não sei se dar com a cara no poste é pior do que os acintes que nos impõem dia após dia. Auto concessão de aumentos de salários de e para quem já ganha o máximo e que, se aprovados, farão uma perigosa transmissão de valores para todas as esferas, ressonantes. Pior, quem poderia parar essa gracinha são justamente aqueles que – justamente pelos agraciados – serão julgados logo mais à frente.

Bem, e as aterradoras discussões do espetado país que solta para o Dia dos Pais quem matou o seu com requintes de crueldade?

Justiça? Querem debater para intervir sobre nossa cultura e religião, os nossos corpos, e aceitam, plácidos como postes inertes, que um preso por eles julgado, julgado e julgado se arrogue da porta para fora com megafone, receba mais visitas do que as casas da mãe joana, e ainda queira ser candidato à presidência da República. O espetáculo continua: agora, além do ap triplex, alguém já tinha ouvido falar da chapa triplex? Preso, poste, vice. Três em um. E um monte de inteligentinhos batendo palmas pros malucos dançarem. O que bebem para se encostar nos postes? Acham mesmo que essa é uma atitude avançada, de esquerda, de compromisso social, popular, correta?

Ou será apenas tanta insegurança que acham que seguir um líder, um Messias, um Bessias, os salvará? O mesmo com relação aos patriotinhas de araque, quem quer o poste Palmito, apelido que ele próprio disse que tem mostrando seus pálidos cambitos, e que pretende pendurar insígnias militares no nosso viver, contaminando tudo com toda a sua atroz ignorância.

O momento é sério. Estamos em grandes dificuldades. Não temos um candidato sequer que possa ser defendido sem ruborizar. Para relaxar, até porque já não tem mais outro jeito a não ser esperar o dia seguinte, estamos brincando, fazendo memes, até nos esforçando para tentar ouvi-los em debates e entrevistas para ver se, quem sabe, espremendo bem, sai algo que preste. E dia a dia só piora. Falam uma língua desconhecida, desqualificam nosso idioma, usam termos pomposos, prometem o que é impossível e fazer o que nunca fizeram quando puderam.

E os “novos” – que surgem, batendo no peito que são novos e chegam com as mais milenares práticas do dá aqui, que eu retribuo lá?

Não fizemos reforma política. Agora será uma maçaroca e é no que eles mais uma vez se fiam com a nossa distração. Talvez poucos entendam ainda que no dia da eleição vão encontrar uma urna repleta de fotos, e que terão que apertar para presidente (que vem com o vice dependurado), dois senadores, governador, deputado federal e estadual. Seis vezes aquele irritante alarme triiimmmm vai tocar. Pela ordem: deputado federal, deputado estadual ou distrital, senador primeira vaga, senador segunda vaga, governador e presidente da República.

Um monte de postes. Um do lado do outro. No meio da rua. Para tropeçarmos, darmos topadas neles. E estarão interligados transmitindo essa energia ruim que já sentimos no ar. Aterrados estamos nós.

Mariposas, quem nos dará uma luz?

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Marli Gonçalves, jornalista – Se tivesse um cachorro, o levaria para irrigar esses postes.

Brasil, 2018

marligo@uol.com.br e marli@brickmann.com.br

ARTIGO – Nossa derrubada Torre de Babel. Por Marli Gonçalves

Nossa derrubada Torre de Babel

MARLI GONÇALVES

Tá louco. Você fala uma coisa e o povo entende outra. Escreve sobre uma coisa e o povo entende outra. Parece que a cada dia a comunicação entre os seres se torna mais difícil e os deuses agora devem estar é tampando os ouvidos para não se afetarem por tanta besteira vinda de um certo país da América do Sul

Conta a Bíblia, no Gênesis, que a uma determinada altura dos acontecimentos os homens quiseram subir até bem perto do céu para demonstrar sua tecnologia e capacidade de instalar-se perto de Deus. Imagine, eles lá no bem bom dando ordens e nós aqui embaixo só levando pedradas. Também queriam ficar conhecidos, ganhar poder. Teriam então se disposto a construir uma gigantesca e colossal cidade em uma torre de barro, pontuda, semelhante a uma lança, desafiadora, que chegasse até lá em cima. Tarefa a que deram início em conjunto porque inicialmente ali todos se entendiam, falavam a mesma língua. Não era igual obra ou reforma de hoje em dia que você pede para fazer uma coisa e te entregam outra.

Teria então o Senhor, irritado com a arrogância e soberba dos construtores, decidido mostrar quem é que que mandava ali (ou aqui nisso tudo). Não gostou nada do que viu, embora tenha até se espantado com a capacidade humana, até a achado bonitinha, mas quis parar logo com tudo aquilo, prevendo que dali sairia uma espécie de poderosa empreiteira que poderia mandar em tudo.

Não deu outra. De uma só canetada acabou com a brincadeira. Desceu, confundiu a língua de todos, e os dispersou sobre a Terra. A maior confusão.

Nesse pisão – maior barata voa da história – pode ter escorregado e empurrado aqui para esse continente umas turmas muito estranhas. A brasileira, entre elas. Assim, não há Cristo que faça com que nos entendamos século após século, década após década, dia após dia, principalmente quando perto de períodos eleitorais ou quando se trata de jogos e times de futebol e escolas de samba, entre outros competitivos assuntos.

constructionAqui tenta ganhar quem grita mais alto. Se bate no peito quando fala em outro idioma, mesmo que seja esquecido o próprio, natural. Somos criativos até para mudar o sentido das palavras, ou para impostá-las, fazendo firulas que as tornam formas de poder e domínio, vide contratos de seguradoras, bancos, leis, tratados e teses que não se entende nada desde seu próprio título, muito menos ao que se referem e para o que podem servir.

Aqui se fala e não se cumpre o que se fala. A palavra dada não tem valor. Palavras lançadas como flechas apenas pairam no ar, como se fossem, hora dessas cair bem em cima das nossas cabeças. Esqueçam o que se falou. esqueçam o que se escreveu. Esqueçam o que foi prometido. Mentiras são como praga de gafanhotos, devastadoras.

O problema é que está chegando a hora de tentarmos nos entender. De ser dada informação e uma educação suficiente para que a população consiga raciocinar, discernir, compreender sozinha o que é que está sendo dito, o que significa e aonde levará. Hora de usarmos uma linguagem clara e comum. Agora, sim, tipo a daquele locutor de tevê que durante o jogo fica o tempo inteiro dizendo exatamente o que está acontecendo, como se não fôssemos capazes nem de enxergar e precisássemos de sua santa ajuda para entender o que se passa ali naquela partida.

Agora, sim, entraremos em outro campo, precisaremos saber tudo sobre os jogadores, o seu passado e o que pretendem de futuro com suas jogadas e estratégias, quais bandeiras levantarão, se as jogadas serão individuais ou coletivas, como se movimentarão no cenário global. E, principalmente, quais serão os seus salários. E os nossos.

Que tudo isso seja dito em linguagem bem clara, olhos nos olhos. Inclusive utilizando sinais – bem simples, para todos poderem entender, e com as mãos poderem apertar as melhores opções nas teclas. Confirmar.

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Marli Gonçalves, jornalistacomo a música de Caetano, (…)“A língua é minha Pátria/ eu não tenho Pátria: tenho mátria/ Eu quero frátria”…”(…)“Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões/ Gosto de ser e de estar E quero me dedicar a criar confusões de prosódia/ E uma profusão de paródias/ Que encurtem dores/ E furtem cores como camaleões”(…)

marligo@uol.com.br/ marli@brickmann.com.br

Babel, faltando pouco mais de dois meses, 2018

ARTIGO – A estupidez é humana. Por Marli Gonçalves

A estupidez é humana

Resultado de imagem para estupidez animated gifsPor Marli Gonçalves

Ignorante, grosseiro, insensível, bruto, desinteligente. O estúpido é a própria manifestação da rudeza da dura palavra que o define, e nos assusta com a dimensão que um ato seu pode tomar de uma hora para outra nos trazendo graves problemas com as suas ações. É assustador ver o mundo povoado de estúpidos, tropeçamos neles nas ruas e em todos os setores – na internet se multiplicam. A estupidez é exclusivamente humana, uma doença maldita que pode ser de estirpe ou transmitida pela ganância e pelo egoísmo

Todo mundo tem a capacidade – e até certo direito – de ser estúpido vez ou outra. A possibilidade de sê-lo em algum momento de raiva e embotamento. Ter surtos de estupidez. Fazer uma quando acorda enviesado, e até sem se aperceber disso. Mas que seja passageiro e, depois de consciente, curado desse mal, até revertê-lo positivamente. Não pode deixar entrar no sangue.

O que anda me afligindo e creio que você, meu querido leitor, também possa estar sentindo o fato grave: estamos assistindo a gigantescos surtos de estupidez humana coletiva. Tipo um estúpidozinho novamente conseguir puxar cordões de outros estúpidozinhos iguais para segui-lo, levantando bracinhos, abanando bandeiras e rabos, dando gritinhos com palavras de ordem que a ouvidos sensíveis soam como bombas. Já vimos filmes assim que pensávamos estar superados – e eles têm um desenrolar “não bom”, “nada bom”.Resultado de imagem para stupid animated gifs

Uma grande amiga ligada desde sempre a sintonias mais invisíveis e elevadas me conta que alguns mestres estão sentindo e reportando explosões esquisitas, de rompimento de energias estranhas, para assim dizer, simplificando um pouco. Preveem que já estamos passando por momentos espirituais perturbadores, para os quais só podemos escapar se nos prepararmos tentando manter corações abertos e pensamentos positivos. Aí é que está difícil.

Além do mundo invisível da energia, encafifei por identificar a estupidez em vários desses fatos entrelaçados que nos angustiam. Einstein disse que a estupidez humana certamente era infinita, talvez mais até que o próprio Universo, e vemos provas disso quando a nação mais poderosa do mundo elege em seus caminhos tortuosos um de seus mais impressionantes e significativos exemplos, Donald Trump. Uma sombra moral que vomita preconceitos e que desenterra o que de mais horroroso pode haver, o moralismo, a intolerância, a incongruência, a divisão, o ódio, as divisões de classe, de gênero, de religião.Resultado de imagem para estupidez animated gifs

Ele quer muros, exclusão. Talvez até nem queira mesmo de verdade tudo isso, mas juntou milhões de pessoas que disseram sim, revelando ao mundo o perigo da estupidez, e o número de contaminados.

O historiador italiano Carlo Cipolla (1922-2000) produziu um conhecido ensaio que estuda o que chama as Leis Fundamentais da Estupidez Humana, e onde as lista com precisão que nos ajuda a saber mais, identificar, e entender porquês. Para ele, alguns estúpidos causam normalmente apenas perdas limitadas, enquanto outros conseguem causar danos impressionantes não só a um ou dois indivíduos, mas a inteiras comunidades ou sociedades.

“Sempre e inevitavelmente cada um de nós subestima o número de indivíduos estúpidos em circulação”;

“A probabilidade de certa pessoa ser estúpida é independente de qualquer outra característica desta mesma pessoa”;

“Às vezes uma pessoa estúpida é uma pessoa que causa um dano a outra pessoa ou grupo de pessoas, sem, ao mesmo tempo, obter qualquer vantagem para si ou até mesmo sofrendo uma perda”;

“A pessoa estúpida é o tipo de pessoa mais perigoso que existe”;

“As pessoas não estúpidas subestimam sempre o potencial nocivo das pessoas estúpidas. Em particular, os não estúpidos esquecem constantemente que, em qualquer momento e lugar, e em qualquer circunstância, tratar e/ou associar-se a indivíduos estúpidos demonstra-se infalivelmente um custosíssimo erro”; “O estúpido é mais perigoso que o bandido”.

Enfim, a liberdade é azul, a fraternidade vermelha, a igualdade, branca. E a estupidez, humana e invisível. Descolorida.

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Marli Gonçalves, jornalista – Vinganças que matam; amores que matam; mentiras que pregam: não há elogio possível à estupidez que caiba nesse ensaio. Este ano, não mesmo.

SP, no impressionante 2016

ARTIGO – Pode me escutar um minuto? Por Marli Gonçalves

conversaTem de pedir por favor? Pagar? Comprar uma ficha? Você diz uma coisa e respondem outra. Ninguém mais dá mais atenção um ao outro? Reparou? Virou uma competição de egos, de desgraças, coisa para novos estudos sobre intercomunicação e a nova Torre de Babelconversa 2

Melhor falar com o espelho, com a parede, com o teto, pensar em voz alta para achar que tem alguém ouvindo, mesmo que esse alguém seja você. Pelo menos não ficará frustrado com a forma que as relações tomaram ultimamente, nesses tempos de internet, que não há por que negar influenciam e vêm mudando de modo impressionante a nossa forma de interagir. Talvez seja por isso que tanta gente conversa longamente com seus bichos de estimação, esses nos dão atenção, pelo menos podemos achar isso – e todo mundo precisa de atenção por mais de um minuto.

Pega o exemplo de um post no Facebook. Ando apavorada com isso, com o jeito que cada pessoa tem de entender algo e que se desvia de tal forma com o comentário que faz do que você escreveu que é preciso até voltar, reler, verificar o que foi que você próprio escreveu, se não está maluco, se não foi mudado por algum hacker ou pelo próprio teclado cheio de vontades.

Tudo superficial. Não adianta “desenhar” também, nem falar lentamente, nem usar palavras fáceis, mais didáticas, arroladas com toda a calma que Deus lhe concedeu. A impaciência se une à prepotência e aí a coisa degringola de vez.

Leandro Karnal, o historiador meio filósofo, outro dia em um programa de tevê tocou nesse assunto. Chamou a atenção para a absoluta falta de continuidade das conversas, o que eu já vinha notando há algum tempo. Nunca a expressão palavras ao vento soou tão verdadeira. Você diz que está morrendo e a pessoa fala que está frio, ou que também está morrendo, você precisa ver como ela anda se sentindo mal, precisa ir ao médico e não tem tempo, mas é assim mesmo, e aí desfia um rosário particular – ai se não prestar atenção. E à esta altura você, lá, morto, caído, estirado, pronto para ser enterrado.

animated_conversationPara Karnal há, inclusive, uma nova linguagem surgindo. Fiquei horrorizada porque ele ainda admitiu que ela não levará muito mais em conta, por exemplo, o uso de plurais. Os “s” todos mordidos, comidos, em extinção. Os verbos andam massacrados, e às vezes as notícias têm de ser lidas mais de uma vez para serem entendidas tal a confusão da narração. Há dias, acreditem, apareceu uma mulher com cabelos azuis numa matéria e que até agora não ficou clara sua participação na história.

Como ultimamente se fala feio; como se escreve feio! Frases capengas com vocabulários pobres e alterados como as rosas de Hiroshima.

Como se pensa feio. Há uma crise na intercomunicação que deve ser levada em conta para entendermos o momento atual de um país onde idiotas viram heróis e qualquer coisa é celebridade por dez minutos ou dez dias, esquecidos mais rapidamente ainda.

Imagino os professores nas salas de aula falando para dependentes de smartphones loucos para teclar com quem está fora dali, mandar uma selfie, curtir, compartilhar. Nunca se foi tão social e ao mesmo tempo antissocial.

Dentro desse quadro psicótico se desenvolve a nossa política, ouvimos aqueles discursos delirantes e coligações inimagináveis, que vêm produzindo um dia a dia insuportável e cada dia mais cansativo para quem ainda esperançoso aguarda mudanças.

Essa semana vai ser difícil, com a patética escolha da nova presidência da Câmara, já com mais de dez candidatos, uma baciada de sujeitos e sujeitas que não representam nem apresentam nada de bom. Fomos aos milhões às ruas, mas como cada um falava uma coisa, parece que acabamos todos não sendo ouvidos e assim condenados a ficar trocando seis por meia dúzia por mais algum bom tempo.

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Marli Gonçalves, jornalista – Me escuta aqui um minuto.

São Paulo, 2016

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ARTIGO – Fúrias, furiosas fúrias. Por Marli Gonçalves

Gifs%20Anim%E9s%20Feu%20%2850%29Muito impressionada com a capacidade humana para odiar, maldizer e amaldiçoar, pensar mal sobre quem não pensa igual. Muito triste também por estar vendo um país nervoso, dividido sem necessidade e perdendo a essência e alegria que é o nosso próprio rebolado

Depois de escrever o artigo da semana passada, sobre a minha visão, sobre como eu vi ou não vi passar esses 50 anos desde o Golpe de 1964, senti na pele e fiquei totalmente horrorizada com a incapacidade de diálogo que parece estar permeando esse nosso Brasil, até outro dia um simpático, amoroso, musical e cálido país da América do Sul. Fui chamada de tudo quanto é coisa – de petralha, comuna, esquerdinha, entre as mais “publicáveis”, nesse território qualquer coisa que é a internet e anonimato misturado com covardia. Virou mesmo o campo dos covardes, dos brutos, dos incitadores. Sites e jornais importantes publicaram o artigo, e pude ler centenas de comentários e ver grande repercussão, incluindo os muitos xingamentos, até porque é bom lembrar que quem quer xingar tem muito mais afinco do que quem quer falar bem. Faz questão de ir lá xingar, ofender, falar impropérios, vomitar sua bílis, ocultos atrás de computadores. Eles não querem só ter a razão, não admitem a outra parte. E nesse caso apareceu gente defendendo tortura , morte, ditadura. Apavorante.

Apareceram homens e mulheres que obviamente não conheço, e sinceramente nem pretendo. Duvidaram até da minha memória, como se crianças de seis anos fossem abobados sem relação com seu redor. E ai de quem tentou defender o mesmo ponto de vista que o meu! Tomou bordoadas uma em cima da outra. Não há chance de entendimento.

Resolvi não responder a nenhuma agressão, mesmo as que me dirigiram diretamente. Não há argumentação possível para quem acha certas coisas. Por outro lado, também recebi cartas até legais e absolutamente válidas de pessoas que fizeram questão, na boa, de me dizer como para elas não foi tão ruim esse período, que viveram felizes, livres, sem problemas. O que eu poderia dizer a elas? “Que bom que para você foi assim. Para mim não foi” – ia ser pouco. Sempre haverá quem estará bem enquanto outros não; é de lei.

Insistiram comigo que naquele momento não havia corrupção, nem roubalheiras, e que os militares e conspiradores estavam caindo do céu, para livrar o país do perigo vermelho – que devíamos agradecer esse tempo de horror.

LOVEAinda bem que é só virtual, pela internet onde agora todo mundo vira revolucionário, e só por ali – igual ficar rico em Banco Imobiliário. Tanta gente perigosamente pensando em fechamento que insistiram em tentar, botando as manguinhas de fora, sem qualquer base real, nem sentimento, nem emoção, muito menos organização, reeditar uma marcha de outrora, totalmente sem sentido para os dias de hoje, 50 anos depois. Meio século. O chabu foi histórico, gracias. Não é assim que se acaba com a praga, com os atuais carrapatos no poder.

cookiesA fúria dos ataques me fez lembrar até das mitológicas Fúrias, ou Erínias, as três pavorosas irmãs com asas de morcego e cabelos de serpentes famintas, nascidas de gotas de sangue – Tisífone (Vingança), Megera (Rancor) e Alecto (Cólera). Vingadoras, atacavam os mortais gritando, enlouquecendo-os, perseguindo-os, fazendo-os penar, castigados.

Vejam só onde chegamos. Como poderemos modificar as coisas agindo assim de forma tão funesta? Já não bastam os informes que nos chegam diariamente de Brasília dando conta de uma presidente sempre colérica, de difícil trato, sempre em fúria com todos que a cercam apavorados? Escrevi “Dilma irritada” no Google – em segundos, 3500 resultados se apresentaram. “Dilma furiosa”, 678 resultados apareceram em 0,38 segundos, junto com imagens destes momentos. Apavorantes. Muitos esgares presidenciais. Poucas soluções. Nenhuma temperança.frank1-7

Política é coisa séria. Mas estamos vendo virar enorme piada de mau gosto, atropelados todos os dias por revelações espantosas, vindas de todas as direções. Quem é honesto, batalha direito, mas patina enquanto outros lesam com facilidade. Penso que se realmente essa turma toda estivesse preocupada com valores morais estaria batalhando em muitas outras direções, ao invés de ficar batendo só nesta tecla, pobre tecla, os governantes.

Estamos com furiosos soltos na praça, Que dizem que é a mulher que provoca o estupro. Um povo de ascendência predominantemente negra que se junta e vai aos estádios promover o racismo, ou que se junta para espancar o torcedor do outro time. São bandos atrás de desgarrados. Médicos que atendem idosos no chão, ou que se recusam a ajudar uma grávida em trabalho de parto. Policiais que ferem e arrastam suas vítimas. Bandidos que atiram pelas costas. Bebês atirados no chão. Organizações criminosas no comando de instituições, oficial e extra-oficialmente. A barbárie de justiceiros amarrando pés-de-chinelo em postes e se comprazendo em praticamente chicoteá-los. Pedaços de corpo encontrados em bairro nobre da cidade dentro de sacos de lixo cuidadosamente espalhados. É ou não é a fúria que enfrentamos?

parler_beaucoupSome-se a estas, estas nossas fúrias, as outras, invencíveis, fúrias da Natureza, que devastam, secam, molham, inundam, avançam, queimam. Que nos tiram a água, a terra, o ar, a energia e a Paz.

Por onde começar para não terminar?

chuva de floresSão Paulo, perplexa, 2014
Marli Gonçalves é jornalista Com as melhores intenções.

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as três fúrias: