ARTIGO – O planeta das pessoas sem rosto. Por Marli Gonçalves

Nas ruas, grande parte das pessoas que vejo – seja de minha janela, ou nas pequenas e essenciais escapadas – não tem mais rosto, mas ainda consigo ver em seus olhos o medo, a insegurança, essa incerteza geral de todos nós do que é que, de forma geral, vai sair disso tudo. As máscaras encobrem os lábios que já não podem beijar, os narizes que temem respirar aquela bolinha cheia de coroas que nos inferniza, presas nas orelhas que escutam os acordes de mortes anunciadas, as falas e atos cheios de ignorâncias, mas apenas um pouco de protestos vindos desse povo cordato e resistente

Astronautas da Estação Espacial Internacional voltam à Terra em plena pandemia e encontram outro planeta… O planeta das pessoas sem rosto.

A ideia espalhada da produção doméstica das máscaras de pano, de retalhos, feitas artesanalmente, trouxe ao menos alguma alegria visual nesse momento tão sério. Estampadas, de bolinhas, com bichinhos, coloridas, trazem um pouco de cor a esse momento cinza chumbo. Com slogans, as “Fora Bolsonaro!” agora já tem até na versão de apps para que se aplique e use nas imagens digitais.

Ainda a grande maioria – e sinceramente não sei onde as compram – é daquela descartável, branca, impessoal; tem quem use a profissional, que aliás deveriam estar disponíveis abertamente aos profissionais da saúde que reclamam sua falta na luta que travam, assim como luvas, aventais e tudo mais, além de respiradores. Para que se decrete o uso obrigatório de máscaras, que tal fornecê-las? Quando são encontradas à venda é um verdadeiro assalto à mão armada, custavam centavos, vinham em caixas; agora custam, quando aparecem, cada uma, muitos reais. E atentem, dessas, simples, que deveriam ser usadas apenas duas horas.  Quem pode pagar? Claro que estão sendo usadas, as mesmas, por dias … As de pano, agora, pelo menos parecem bem mais democráticas.

Aliás, assaltos à mão armada tornaram-se bem comuns e é como vemos os preços subindo que nem malucos nos mercados, o valor abusivo dos frascos de álcool em gel que juram estar sendo vendidos a preços de custo;  nos exames de laboratórios em busca de saber se o vírus está presente, se esteve; nas taxas de entrega dos indispensáveis pedidos a domicílio; nos preços dos remédios que agora fizeram a “gentileza” de informar como congelados. Obrigada, Senhor, mas cadê fiscalização?

O poço das diferenças sociais está aberto e é muito fundo. Dentro dele está o resultado de décadas de descaso com a infraestrutura, com saneamento, com investimentos na saúde e equipamentos. A burocracia chega à tampa, como vemos no desespero das filas em busca da esmolenta ajuda emergencial, e onde a palavra emergencial parece apenas decorativa. Amanhã chega, depois, talvez, no fim do mês, contas digitais para quem, em um país ainda com grande índice de analfabetos, nem ao menos tem ou sabe lidar com esse mundo tecnológico e caro, muito caro. Computadores, celulares, internet? Se nem água há em muitas das localidades! Utopias que desfilam diante de nossos olhos, que logo serão cobertos por escudos.

Tudo isso só não nos têm livrado de estarmos todos num mesmo barco, e o rádio da embarcação nos informa que estamos à deriva, porque o capitão está alucinado. Jogou ao mar os marinheiros que conduziam o timão, e dá – sem parar – sinais desencontrados à uma população apavorada.

Temos de, acima de tudo, viver para ver qual planeta verdadeiro sairá disso tudo, desse tempo sombrio, e a cada dia, infelizmente, esmorecem as teses de que sairemos melhor como pessoas, como terráqueos que somos esperando que os astronautas tenham nos trazido alternativas lá de onde vieram, desse infinito Universo desconhecido.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO – Colapso da razão. Por Marli Gonçalves

Derrocada, desmoronamento, ruína – os melhores sentidos de colapso, a palavra que era ameaça, mas já chegou, se instalou e precisamos nos livrar dela. Assistimos à derrocada, desmoronamento, à verdadeira ruína da inteligência, do bom senso, da ética, em uma parte da população brasileira que apela para a ignorância por falta de argumentos, consciência, informações ou mesmo por má-fé – o colapso da razão

Collapse OS, o sistema operacional para sobreviver ao apocalipse ...

Escrevo sob forte impacto e tristeza, de quem acabou de saber que perdeu um amigo, um grande jornalista, que foi sempre um exemplo de cidadão: Randáu Marques. Morreu do coração, o coração que em seu corpo só emitiu amor e carinho com seus colegas. Randáu, além de ter sido uma pessoa simplesmente maravilhosa, do bem, foi o precursor da luta pelo meio ambiente, um dos primeiros que nos informaram e fizeram entender a ecologia e sua intima ligação com a raça humana e sua sobrevivência. Sabe Cubatão, que já foi o endereço da morte, com seus bebês nascendo sem cérebro? Sabe a Mata Atlântica? Muito antes de Partido Verde! Sabe tudo isso que ainda estamos ouvindo hoje da menina Greta? Pois é, Randáu nos alertava em pleno anos 80 do que poderia vir, do que viria, do que veio. Falava sobre a natureza como ninguém. Tive a honra de trabalhar com ele no Jornal da Tarde.

Escrevo também sob forte impacto dos números que todos os dias atravessam o limite da vida, dos mortos por um vírus muito real, muito visível, muito devastador, mas que ainda tem quem não acredite nele, não leve a sério a única forma  – difícil, sim, mas única – que temos de desacelerar seu caminho de destruição e morte, o isolamento social, a quarentena. E eu não quero ver, nem saber de mais pessoas tão importantes nesse mundo sendo levados por ele na sua barca maldita, que agora tem navegado lotada, e em todo o mundo. São perdas, todas, inestimáveis, e com elas, principalmente os idosos, se enterra conhecimento, vivência, lutas vencidas, histórias que mal tivemos tempo de honrar, em todos os campos do conhecimento.

Escrevo me sentindo muito revoltada – e perplexa – com o governante que  mais uma vez começou e terminou a semana nos ameaçando com suas grotescas palavras, atos, declarações e chamadas incessantes da população para a fila da morte, lá onde não há um metro de distância uns dos outros nas covas que se abrem continuamente guardando os corpos de pessoas de todas as classes sociais, e que não pararão de chegar nelas se não houver um basta enquanto for tempo.

Ao ver o número de pessoas aqui em São Paulo, o epicentro nacional, saltitantes pelas ruas, lotando-as bem coladinhos uns aos outros, respirando, espirrando, tossindo, cuspindo; abrindo clandestinamente seus comércios, largando os cuidados básicos para evitar a disseminação descontrolada do vírus, e sem precisão, sem serem obrigadas já que não trabalham em serviços essenciais, tristeza e medo se misturam. Estarão eles se achando deuses, eleitos como imortais, fortes e viris, desconhecendo o perigo e seguindo o tal irresponsável Messias e seus asseclas? Acreditam que assim a economia – como se vidas pudessem ser descartadas – não será afetada?

Acreditarão eles que o remédio propagandeado sabe-se lá por qual interesse, dia e noite por um ignorante, mau militar, mau líder, péssimo político, funcione mesmo?  E que gotas dele pingarão do céu sobre suas cabeças coroadas os isentando de serem infectados e que, se o forem, bastarão pílulas mágicas? No mundo, inclusive em lugares desenvolvidos, mais de um milhão de infectados, a morte de muitos milhares diariamente já não teria sido evitada se o remédio fosse tão mágico? Médicos, cientistas perdem o tempo precioso que poderiam estar dedicando às suas pesquisas para vir a público desmentir essa eficácia, alertar para os grandes riscos colaterais.

Estarão todos surdos? Incapazes de ver a progressão aqui em nosso solo? Acham talvez que os hospitais de campanha improvisados sendo construídos a toque de caixa são para enfeitar as cidades?

Os especialistas temem o colapso da Saúde e que virá caso um grande número de pessoas sejam infectadas ao mesmo tempo e necessitem de internação, respiradores, atenção médica, isso além de tudo o que diariamente leva pessoas aos hospitais, já tão deficitários muito antes disso tudo. Um outro grupo que busca se contrapor teme o colapso da Dona Economia, como se essa antes já não estivesse tão cambaleante e sem ações e respostas positivas, e que agora querem usar para justificar um governo até aqui de fracassos, escândalos, gafes, com poucos ministros bons entre um grupo que parece ter se evadido da escola ainda no jardim de infância. Irresponsáveis, serão julgados pela História.

Pois nós, eu e uma grande parcela da população, temos uma informação: já há um grande colapso: o da razão. E todos nós seremos vítimas disso, de uma forma ou outra, hoje ou no amanhã que há de chegar, mesmo que com seus passos duros, caminhando e aprofundando ainda mais as disparidades sociais desse país.

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ARTIGO – Uma loteria macabra. Por Marli Gonçalves

Estranho quem ainda não acredita no poder letal do Covid-19 como se fosse – como se alguém pudesse ser – totalmente imune a ele neste momento entre os mais terríveis da história recente da humanidade. Aposto que apostam em ficarem ricos nas loterias onde realmente a chance de ganhar é uma entre muitos milhares, milhões. Nela acreditam; até pagam por isso. A maior desgraça mundial hoje, além do vírus, é a ignorância, e que aqui no Brasil há anos contamina nossos dias

The National Lottery Draws - BBC

Tenho tido terríveis crises de ansiedade, que culminam com palpitações, dores de cabeça, pensamentos desencontrados e preocupados, medos e angústias, além de uma revolta especial com ignorantes, que antes até conseguia suportar com alguma paciência, mas que hoje atingem também a minha saúde.  Começo com essa afirmação porque creio firmemente que o momento é de sermos sinceros uns com os outros, trocarmos ideias, sensações.  Que a gente ponha para fora o que sentimos, em prol até de ao menos mantermos um mínimo de sanidade mental.  Estamos – e agora a expressão parece fazer sentido – dentro de caixas, nossas casas, isolados. E mesmo que não totalmente sós me parece que nunca vivemos de tal forma bruta essas sensações todas e elas são totalmente individuais. Difíceis de serem descritas, mas que atingem e por mais que queiramos nos fazer de fortes.

Como você está? – pergunto. Embora não possa ajudar muito e a cada dia esteja mais claro que não temos a menor noção do que realmente ocorrerá nem na hora seguinte, nem no dia seguinte, nem quanto tempo levará. Os inimigos se multiplicam, além do contágio: os boletos chegando, empregos partindo, notícias de um mundo todo em looping contando diariamente mortos às centenas, e especialmente aqui no Brasil a ameaça constante de um governante absolutamente alucinado atrapalhando o serviço de quem está na linha de frente: seus próprios ministros, autoridades em saúde, profissionais, cientistas, imprensa.

Aqui não se trata mais – incrível – de aversão, que é total, de política, direita, esquerda, vitória, derrota, mas chamar a atenção para o caminho que as coisas rapidamente tomarão se mantida essa perigosa toada.  Um presidente que dissemina notícias falsas, que atiça confrontos, que alimenta um gabinete de ódio formado por seus filhos e aconselhadores do mal, próximos. Um homem incapaz de movimentos de união, mas capaz de provocar e comandar atos e pronunciamentos que, se mantidos,  certamente ou levarão a uma insurgência jamais vista ou a uma desumana catástrofe social. Capaz, como o fez agora, de conclamar o país para um jejum (!) religioso quando dele se esperam determinações, sim, mas para acabar com a fome que já faz roncar barrigas entre os humildes, miseráveis, as primeiras vítimas da desorganização nacional empurrada anos a fio.

Não é normal, gente. Algo precisa ser feito, não sei se é possível interdição, camisa-de-força, forçar renúncia ou impeachment. Ou pedir, em uníssono, com panelas, gritos ou o que quer que seja, que se cale. Que deixe em paz quem está no campo da guerra.

Dele não se ouviu até agora uma só palavra de alento, apenas ironias desrespeitando as centenas de famílias já em luto, algumas com várias perdas ligadas entre si.

Dele não se ouviu até agora uma palavra contra os aproveitadores que cinicamente aumentam barbaramente os preços, somem com insumos. Nenhuma de suas ordens veio para acabar com os abusos, ou para proteger quem precisa. Vive apenas de suas próprias alucinações, rompantes, daquela meia dúzia que diariamente vai saudá-lo no cercadinho improvisado do Palácio, criando fatos que alimentam robôs, que por sua vez alimentam a ira dos ignorantes.

Dele não se ouviu até agora nada que preste.

O inimigo é um vírus que se respira, invisível. Ainda indomável e desconhecido, mutante. Nos Estados Unidos já há mais mortes do que no 11 de setembro. Aqui já há mais mortes do que em quedas de Boeings, barragens rompidas, desabamentos, enchentes. É mais do que uma guerra, necessitando armas diferentes, e guerras não escolhem idades. Todos atingidos – inclusive o bem maior, a liberdade.

A situação ainda está em andamento, advertem os especialistas de todo o mundo que buscam correr para conter, evitar o pior quadro que se aproxima, mais crítico ainda em vários locais onde líderes ousaram desafiar a realidade e que agora apenas correm para não serem julgados pela História como genocidas.

Precisamos continuar no jogo.  E para isso marcarmos e seguirmos os passos corretamente, para que não saia ainda mais cara essa loteria em que estamos metidos. Vamos ganhar esse jogo. Todos nós. Dividiremos o prêmio da vida.

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ARTIGO – É uma vez um verão muito esquisito. Por Marli Gonçalves

Cá estou eu, numa nublada e cinzenta São Paulo, e com um dedo imobilizado até o outono. Não era pescoço de cisne o problema que de repente me aconteceu. Chama dedo em martelo, me informou o especialista, mais comum, mas não menos chato e “atrapalhante”. Não apareceu ainda nenhuma moda divertida de verão, nem aqui, nem no Rio de Janeiro, nem em lugar nenhum, e até o Carnaval está mais enrolado que serpentina

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Nem estou podendo usar o dedo do meio da mão direita, o conhecido “dedo-do-palavrão”, pai-de-todos, dedo maior. À esta altura em praticamente todos os anos que vivi, e são muitos, logo em janeiro a gente já sabia qual era ou ia ser “a do verão”. Teve, para lembrar alguns,  o “da lata”, quando as latas do Solana Star vieram dar alegria às praias, o do “apito” que a moçada usava para alertar sobre a chegada da polícia, o do topless, no qual as garotas liberavam a torturante parte de cima dos biquínis.

Já estamos em pleno fevereiro, o Sol anda mesmo sumido aqui do Sudeste. As chuvas de verão, às quais até já estávamos acostumados, fortes, mas rápidas e refrescantes, só estão trazendo a parte das desgraças, das mortes em desabamentos, deslizamentos, acidentes, e o Estado de Minas Gerais anda premiado. A falta de saneamento básico, o descuido com algo tão importante, vem se mostrando a cada nuvem carregada que desaba.

Nas praias, nos livramos do óleo, ainda inexplicado. Mas no Rio de Janeiro hoje, que anda sem graça, e até sem moda, se perguntarmos qual é a do verão, a resposta será “o da água fedida, turva, contaminada”, o verão da “geosmina” bactéria produzida por algas. Um verão do baixo astral.

Não bastassem os inglórios problemas nacionais, chegou o temor com o novo coronavírus detectado na China, se espalhando e ligando o alerta mundial. A contaminação pessoa a pessoa apavora e se aproxima, inclusive de nosso Carnaval, justamente a época que se canta e dança para exorcizar os demônios anuais, com alegria; o tal ópio do povo.

Verão esquisito esse de 2020 … é o mínimo que se pode falar dele até agora, embora meu otimismo siga até 20 de março junto com as nossas esperanças que até lá melhore esse astral. O que incomoda é lembrar que, pensando bem, desde antes, certa eleição e posterior posse, já passamos por um outro verão, outono, inverno, primavera e todo dia um aborrecimento vindo de algum canto do Brasil nos agoniou.  Como um mal que se espalha, uma geosmina comportamental que turva tudo o que encontra. Incentivados por quem imaginam ser líder, os mais estapafúrdios pensamentos saem das cavernas, puxando nossos pés e ânimos, e enquanto estamos acordados. Estamos? Mesmo?

Só para efeito de demonstração das últimas 48 horas anteriores a esse momento em que escrevo. Secretário da Educação de Rondônia permite que se ouse fazer, imaginar, listar 42 obras literárias nacionais e internacionais para censurar, classificando-as como impróprias para crianças e adolescentes. A tempo não foi executado, mas a lista incluía clássicos como Macunaíma, Os Sertões, e sobrou até para Machado de Assis, entre outros bambas.

Quer outra? O novo coordenador da FUNAI no Mato Grosso do Sul, José Magalhães Filho, falou em entrevista sobre a ‘integração do índio à sociedade brasileira’. Disse como funcionaria essa política de “integração”: ‘Nós temos que preparar essa criança, esse indiozinho, essa indiazinha, para frequentar a escola urbana. E assim a namorar com um pretinho, um branquinho. E essa integração vem surgindo automaticamente. Desta forma é que nossa política será implantada’.

Socorro! Chega, né? Tá bom. Não vou nem lembrar da série de sandices disparadas esses dias pelo presidente da República, o general dessa banda desafinada, que tanto atravessa nosso samba na avenida, sacolejando nossa harmonia.

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ARTIGO -De repente…Por Marli Gonçalves

 

De repente, fevereiro. De repente a gente está aí, às voltas com um vírus internacional. De repente, tudo pode acontecer – de um segundo a outro, e isso é de pirar. De repente, olhei minha mão e meu dedo médio da mão direita estava com a ponta caída, muito esquisito, sem atender ao meu comando, o que eles, médicos, chamam de pescoço de cisne, uma parte do dedo chamada distal. Hospital, raio-X, tala por meses e mais um problema a resolver, que chega de repente, como todos os problemas, esses infiltrados em nossas vidas

Tenho horror a isso, isso do “de repente”. E não é que meu dedo ficou mesmo igual ao tal pescoço de cisne? Aliás, um formato bastante conhecido e de outras coisas também… (sem gracinhas, hein?). Não bati em nada, não quebrou nada…De repente, a ponta do dedo “caiu”. Não, não o enfiei em lugar nenhum. Nem o usei, embora seja exatamente aquele dedo médio que a gente usa para… bem, vocês sabem. E também sabem que temos sempre um monte de razões para mostrá-lo para um monte de gente que nos perturba. Mas não foi o caso.

Já senti que o problema é interno, coisa, creio, de ligamentos, artrose, que vou rezar muito para que não seja sério e que a tala que o imobiliza, o dedo, mas também a mão e o meu humor, resolva. Como precisei largar tudo que estava fazendo para ir ao pronto-socorro, agora que voltei o tema que desenvolvia para essa semana ganhou até mais sentido. Mais realidade. De repente, fevereiro! De repente, enfaixada. De repente, puxa se pudéssemos antever as coisas quanto poderíamos fazer? Poderíamos? Temos esse poder?  Pior é que creio que não mesmo. Só podemos evitar um pouco das coisas; nosso corpo é muito louco e com vontade própria.

Então, de repente é fevereiro, já. De repente estamos ligados no vírus internacional, no estado de emergência global, torcendo para que a China seja bem mais longe do que já é. De repente, as chuvas engrossam e fazem o estrago que já fizeram em Minas Gerais e Espírito Santo, com tantas mortes, destruição, desabamentos, afogamentos que ocorrem não em rios ou lagos ou mar, mas nas ruas que explodem com as ondas que as tomam completamente.

De repente, quem ia viajar não vai mais, porque não pode, porque tem medo, ou porque está proibido de ir ao lugar que planejaram por tanto tempo. Ninguém vai à China ou ao Oriente assim, de estalo. De repente quem estava lá não pode voltar – até porque o nosso governo não quer ajudar, prefere manter todo mundo lá. De repente, nossas preocupações com Trump, guerra, Oriente Médio, ficaram pequeninas. Voltamos a ficar mais atentos, sim, mas ao nosso céu, se as nuvens estão carregadas, aos macacos que voltam a aparecer mortos por febre amarela, e atentos a aqueles mosquitinhos bundudos que espetam, que causam a dengue que matou quase 700 brasileiros o ano passado. Quer que eu repita? 700. Oficialmente, 689 pessoas. Mortas. Fim.

Fevereiro vem com tudo, sambando na avenida. Com todo o seu calor, mais um carnaval de dúvidas, mês bissexto, diferente. Tudo bem que eu nem precisava ter avisado porque as contas que já chegaram aí para você, também já chegaram para mim. Aquele monte de “is”, Iptu, Ipva, mais os Iss e outros nada isentos que recebemos com grande tristeza até por não vermos nunca os valores que neles dispomos serem utilizados sem nosso bem-estar e em melhorias nas nossas regiões. Se prepara para o pior, aquele “i” do leão, o do IR, do Imposto de Renda.

Outro dia assistindo a um documentário na GloboNews, “Desacelera”, me auto percebi talvez estar acometida do que eles falavam, psicólogos, psiquiatras, pacientes, etc.: transtorno de ansiedade generalizada. Sintomas? Preocupações e medos excessivos, visão muitas vezes irreal de problemas, inquietação ou nervosismo, sem paciência com gente lenta, entre outros.

Mas dá, me digam, por favor, para não ficar chateado ou nervoso, por exemplo, com a lentidão das pessoas e ações que devem tomar, principalmente as que nos governam?

Não dá. Até porque a lentidão deles sempre vem acompanhada de trapalhadas de toda a sorte.

E a gente querendo um fevereiro de verão, de calor, de carnaval, de frevo, dançar com a sombrinha. E acabamos, de repente, só sambando na mão deles.

Com o dedo enfaixado como estou agora, de repente não posso nem mais mostrar para eles meu desencanto…mas ainda posso batucar aqui nas pretinhas.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO – Piro, espirro, respiro, Pirro. Por Marli Gonçalves

Milhões de pessoas totalmente isoladas em cidades na China, o chabu total do maior e mais movimentado e festejado feriado deles, o Ano Novo Lunar. Aeroportos que viraram termômetros gigantes, com a temperatura de todos sendo medida. Pessoas sem rostos, cobertos por máscaras como os véus a que mulheres são obrigadas em diversos locais. O mundo se apavora e se ajoelha diante de uma coroa, mas a de um vírus sobre o qual ainda pouco se sabe

  Saúde! Sabia que o hábito de responder com “Saúde!”, logo, para quem espirra, vem de que havia uma crença que o coração para quando a gente espirra?  (Calma, só dá uma diminuída no batimento; o ritmo desacelera). Uns acreditavam que quando a pessoa espirrava, a alma saia de seu corpo; então se gritava “saúde” (poderia ser outra coisa, falando alto, dita de forma positiva), para que quem espirrou não fosse tocado por algum espírito do mal.

O coração não para, mas as gotinhas podem voar bem longe, chegando até a inacreditáveis 150 km/hora, isso segundo alguns pesquisadores. E podem alcançar um raio de um metro e meio; mas já teve quem conseguisse olimpicamente espirrar e alcançar medidos nove metros de distância.

Eu não sabia – ou melhor, não tinha reparado – que não dá para espirrar de olhos abertos, vejam só. Daí o perigo de espirrar por exemplo quando se está guiando. Pior é que dá vontade de espirrar justamente quando a gente não pode, está fazendo alguma coisa que necessita precisão, ou, claro, no cinema, no teatro…

Espirrar seguidamente é normal. Conheço quem espirra exatamente sete vezes, e admito que sempre gostei de ficar contando, principalmente porque isso sempre acontece depois de um delicioso momento de prazer. Tem quem acenda um cigarro. Tem quem durma. Tem quem espirre sete vezes. E isso até seja um bom sinal.

Melhor não tentar conter o tal espirro, o atchim, que isso pode fazer, dependendo da força, estourar vasos sanguíneos – não, o olho não cai, não é tão fácil assim ele sair voando.

Brincadeiras e informações quase inúteis à parte, o assunto geral é sério, e de pirar saber o quanto estamos expostos ao que acontece na esquina e ao que acontece lá do outro lado do mundo. O coronavírus da vez é só mais um exemplo de como tudo hoje se propaga de forma veloz.  Queimam florestas na Amazônia e a cidade de São Paulo já se viu avermelhada como nos melhores filmes de ficção futurista.  A fumaça dos incêndios na Austrália chegou ao Sul do país. Alguém espirrou lá na China e…

Inventam uma mentira e ela se espalha como verdade, mesmo que nem tenha sido dita mil vezes, mas compartilhada por dedinhos nervosos e que não se consegue rastrear a digital inicial. Não é mais boca a boca. É o respirar. E se o ser humano pode sobreviver no máximo, máximo, sete minutos, sem respirar, há seres que não resistem a segundos para mandar para a frente informações que levam anos para serem curadas.

E o que é o Pirro tem a ver com isso? Rimas e coincidências. Estamos vivendo um momento muito tenso, provocado inclusive por informações oficiais dadas de dia, e desfeitas de noite, ou mesmo poucas horas depois. Eles jogam, colhem os louros da vitória, até entenderem que na verdade foi uma derrota e tanto, que só admitem quando o mal já está feito, e o vírus da discórdia já circula, lépido, alimentando o medo e a divisão que reina sobre nós, atônitos. Igual ao coronavírus, de contágio pessoa a pessoa.

Virou forma de governo, e testando nossos nervos. Nos deixando isolados.

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ARTIGO – Os normais dias seguintes. Por Marli Gonçalves

 

 À esta altura você já deve ter se dado conta – assim como eu – de como é dura a realidade dos fatos, e que ano após ano a gente acredita que eles vão mudar como mágica à meia noite de um Ano Novo. E assim levamos a vida, dia após dia.

Teve mais uma vez quem pulou sete ondinhas, vestiu branco, saiu carregando uma mala em volta do quarteirão para chamar viagens, comeu lentilhas, chupou caroço de romã. Fora a calcinha, que essa é de praxe. A minha deste ano foi amarela. E a sua? Ah, você usa cuecas? Coloridas? Acredita que já tentei praticamente de todas as cores nessa longa vida? Testei até não usar. Nunca veio, nem o amor da vermelha, nem o dinheiro da amarela, nem…  Esse ano para o ano que vem, andei pensando, vou tentar a verde, da esperança. Qualquer coisa direi que estava lutando pelo meio ambiente, contra o aquecimento global, pela legalização, coisas assim…

 Tem também a de acender velas, tomar passes, oferecer oferendas, de não comer nada que cisca pra trás, e o que mais? Banho de ervas? Roupa nova? Estourou uma champagne, viu a rolha voar, com aquele estampido bom, abraçou e beijou quem estava por perto, e assim foi a tal noite feliz – sempre acho que é essa a Noite Feliz, não a de Natal, sempre mais envolta em tristezas.

Espero que não tenha acreditado na possibilidade de fogos de artifício não terem barulho. Balela! Só o dia que forem apenas virtuais, projetados, e acredite, a gente vai odiar. Nada como vê-los como são, sempre foram, explodindo em cores, formatos – aquele momento, aqueles poucos minutos especiais em que viramos crianças de novo.

Fez lista de decisões? Escreveu ou ficou só na cabeça, na intenção? Aliás, já pensou ou olhou para ela nesses poucos, mas longos dias, que já correram e ocorreram de forma assustadora? Devo perguntar ainda se já desistiu de algum item e sacou que tinha exagerado, exigindo muito de você mesmo. Acontece. A gente se promete cada coisa!

Ano após ano parece que tudo se acelera, e que os efeitos de Ano Novo estão cada vez mais efêmeros. Antes, aliás, costumava-se dizer por aqui que o ano só começava depois do Carnaval, mas já faz algum tempo que isso mudou, creio que desde que a globalização se instalou de vez entre nós, fazendo o país acelerar para não ficar mais trás ainda do que já está. Fica aí esperando, sem fazer nada, trabalha não, pra ver se as coisas caem do céu.

Bem, você também já ter conferido: que eu saiba, não ganhou a tal Mega da Virada. Esse ano, joguei – e eu nunca jogo na loteria, mas a mulher do horóscopo falou que podia ser, que havia propensão, probabilidades. Não custava nada acreditar. Um ponto, e olhe lá, em cada aposta.

Enfim, as rédeas do destino a gente até segura, mas o cavalo empina sempre em mais direções do que a vã consciência pode explicar. Passou a meia-noite, e já na outra meia-noite estávamos preocupados com o luto da guerra, com o que os dirigentes mundiais se divertem, com os botões que apertam, as ordens que gritam, com as bobagens que proferem aos borbotões, isso sim. Descobrimos ou lembramos que não somos os únicos agentes de nossos caminhos, onde inclusive andamos deparando com tantos seres do mal que dá vontade de nem sair de casa e passar o ano é gritando socorro.

Aguenta firme aí, temos mais 50 semanas. E pelo que já vimos, assunto não vai faltar.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO – Papai faria 100 anos. Por Marli Gonçalves

Parece título de Gabriel Garcia Márquez, mas na verdade é porque andei lembrando que o meu pai completaria 100 anos nessa próxima semana. Chegou só aos 98, cansado da vida que viu.  Um Século, e a sensação que agora estamos voltando, mas a um tempo errado

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Que século foi esse! Visto 100 anos para trás poderia parecer que o mundo ali entraria apenas em desenvolvimento e progresso, com a arte imperando, invenções importantes, um ciclo de glórias, inovações. Em paz, depois da tristeza da Primeira Guerra Mundial que atingiu em cheio a Europa, e que buscava renascer de suas cinzas. Os “Loucos Anos 20” eram vividos com alegria, com importantes transformações de costumes, e a vida parecia ter adquirido novos sentidos. Os Estados Unidos tornara-se uma das maiores potências e era também centro de irradiação de novidades em todos os setores.

O cinema florescia, a música – o jazz e o blues envolviam a exuberante vida noturna, a moda libertava mais o corpo da mulher, que deixava de ser mera coadjuvante. Já votava, se fazia presente e atuante nos acontecimentos, na opinião, na literatura, na pintura. Espetáculos, movimentos como o Surrealismo, o Dadaísmo, na moda, Coco Chanel. Foi a era das inovações tecnológicas, da eletricidade, da modernização das fábricas, do rádio e do início do cinema falado, entre tantas outras descobertas e avanços.

No Brasil, os reflexos são simbolizados na Semana de Arte Moderna, embora sempre seja a política um fator de atraso, e aqui não foi diferente. Mas havia a reação, as pessoas estavam felizes e parecia que um mundo novo chegaria, com igualdade, deixando pra trás a crueldade.

Triste sina. Com a quebra da Bolsa de Nova York, a 24 de outubro de 1929, deu-se a Grande Depressão e uma nuvem carregada pairou, finalizando o período dos sonhos. De lá para cá, outros vieram, foram, vieram, insistiram.

Mas as promessas de que os horrores das guerras não se repetiriam, que o desenvolvimento acabaria com a fome e com a miséria, que a ciência triunfaria, que os homens e mulheres se respeitariam, tantas promessas… vêm ficando pelo caminho. Que cessariam as perseguições por etnias, credos, raças, gêneros, que direitos civis e humanos seriam respeitados, quantas promessas! Estamos no espaço, mas destruindo a Terra que habitamos.

Tudo isso e muito mais passa diante de meus olhos quando lembro de meu pai, com quem convivi bem de perto nos últimos anos de sua vida. Hoje vejo por que ele era tão cético – já tinha vivido quase um século para saber, ter certeza, que os “papagaios de botina”, só assim se referia aos políticos e líderes, não têm palavra e pouco pensam no bem-estar geral. Com sua pouca cultura, mas muita vivência, acompanhou as ondas do tempo que chegou aos nossos dias.

Tristeza de ver o país disputado por toscos, de esquerda, centro e direita, que nos deixaram completamente sem opções em todas as esferas. Angústia de assistir ao desfile de falsos e hipócritas buscando manipular a opinião pública com moralismos, como se ela própria não pudesse ver e sentir com clareza o ambiente em que vive, não tivesse discernimento nem carregasse de memória a enorme lista do que precisa realmente de atenção e de construção.

Estamos voltando, regredindo, e diretamente ao que de pior houve nesses últimos cem anos.

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 – Marli Gonçalves, jornalista – Como gostaria agora de ver os nossos Anos 20 com outro ângulo, para querer viver até os 100 e poder contar novas histórias de outras gerações.

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

Brasil 2019, limiar

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ARTIGO – Utopias, Distopias. Realidade. Por Marli Gonçalves

“O que é comumente chamado utopia é demasiado bom para ser praticável; mas o que eles parecem defender é demasiado mau para ser praticável”.

[John Stuart Mill, 1868, em discurso no parlamento britânico]

 Que será de nosso futuro? Poderemos continuar sonhando os nossos sonhos ou seremos ainda testemunhas de horrores sem fim? O mundo todo se vê diante desse dilema. E são seriados de tevê que batem os sinos do perigo para acordar nossas mentes, em ficções que, mais do que científicas, são políticas. Já assistiu The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia)? Pois fiquei apavorada com a clareza do seu recado, descrito como uma distopia.

Você também sabe e deve ter ouvido por aí. Verdade. Foi notícia. Já soube de mulheres apedrejadas até a morte? De outras que tiveram o clitóris extraído para inibir o prazer? De locais onde mulheres são obrigadas a gerar filhos, mesmo sem querer? Lugares onde só se toleram os padrões de gênero convencionais, e que penalizam com prisão e morte quem ousa o espelho? Sei que há quem pense que se armar é a solução. E que no mundo todo existe muita gente que escarafuncha na religião e na Bíblia até achar algum desígnio ou versículo que justifique qualquer de seus atos violentos.

Há quem queira uma sociedade organizada por líderes sedentos de poder, propondo sim um novo governo, mas militarizado, hierárquico, não laico e no qual as mulheres parecem ser vistas ou como erros ou como ideais para formar família com papai. Menino, menina. Rosa. Azul.

Já se chama Realidade.

Então é isso a distopia? Na definição: “lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação; representação ou descrição de uma organização social futura caracterizada por condições de vida insuportáveis, com o objetivo de criticar tendências da sociedade atual”.

As aias da série baseada em romance escrito em 1985 pela canadense Margaret Atwood têm os olhos marejados com olheiras profundas que em si falam de uma tristeza universal. Andam em pares, sempre uniformizadas em candentes e longas vestes vermelhas. Um chapéu-touca branco, engomado, oculta os seus rostos e cabelos. Observadas por soldados fortemente armados vestidos de negro saem apenas quando mandam ou para fazer compras em lugares assépticos. “Aos seus Olhos”, como se homens pudessem ser os olhos de Deus.

Uma vez por mês, em seu período fértil, são encaixadas entre as coxas de suas senhoras que lhes seguram as mãos enquanto assistem silenciosas ao que chamam “Cerimônia”. As pernas das aias são abertas e elas estupradas até que fiquem grávidas. Então, por nove meses as tratam bem, depois as jogam fora. Ainda estão vivas, aliás, apenas porque são férteis. Ali são obrigadas a ter filhos, que logo lhes são retirados, e aí seu futuro fica ainda mais incerto. Se não o fossem, já teriam sido mortas ou logo morreriam em colônias de trabalho forçado e tóxico, o destino das infiéis, ou que tenham feito qualquer coisa não aprovada em sua vida anterior. A que tinham antes dessa “revolução”, ou golpe, que matou e mata ou tortura sem dó. Em nome do Senhor

Chama-se República de Gilead essa sociedade retratada na série. Em um futuro que não parece distante – porque há detalhes que neles nos reconhecemos – um grupo cristão fundamentalista toma o poder nos EUA e lá estabelece esse terrível e cruel regime totalitário. Embora texto escrito há mais de 30 anos aponta para o mundo onde já estamos de certa forma plantados.

Por que é que eu estou falando disso? Achei que talvez fosse bom sugerir que assista antes da eleição. Procure. Quem tem NET, no Now e na Paramount. É de uma beleza emocionante, não por menos tem ganhado vários prêmios. Está na terceira temporada (aqui, ainda na segunda). Sem spoiler. Não sei ainda no que vai dar, estou muito curiosa e ansiosa para saber. Igual a nós todos aqui por esses dias.

The Handmaid`s Tale vale – principalmente para as mulheres – uma reflexão e tanto, muito além de nossas utopias ou de distopias. Muito real. Já vimos algumas partes desse filme. E dessas guerras.

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Marli Gonçalves, jornalista – Gostei de escrever sobre um seriado de tevê. Mas não consegui deixar de pensar nos paralelos.

marligo@uol.com.br e marli@brickmann.com.br

Brasil, 1,2,3…Era uma vez…

ARTIGO – Consulte aqui nossas previsões certeiras. Por Marli Gonçalves

Conjecturas, suposições, adivinhações, augúrios, palpites, prognósticos, profecias, presságios, vaticínios, pressentimentos, predições. E, claro, um pouco de obviedades, sinais, indícios, palpites, estimativas. Com precisão, precisão mesmo, não dá nem pra prever o tempo que fará daqui a pouco, mas a gente quer sempre saber mais pra frente.

2018: qual vai ser a do ano? Fui dar uma olhada. Aliás, eu, você, milhões de pessoas nesse momento tentando achar os fios de otimismo que possam costurar nossos retalhos de vida. Nos dar alguma confiança, esperança, forças, ativar nosso otimismo que foi bombardeado nos últimos tempos. Saber se vamos amar e ser amados, se será mais fácil ou difícil, que riscos correremos. Adoraríamos poder quebrar as surpresas para que elas não nos surpreendam, pelo menos não tanto. Até porque se soubéssemos mesmo o futuro, se nos fosse dado esse poder, iríamos brigar tanto com ele, interferir tanto, que de nada adiantaria. Assim é o destino, que traçamos dia a dia.

Por isso não é bom ficar atentando. Dizem que só se deve buscar essas predições – principalmente as pessoais – com videntes, bruxas, magos, seja quem for tão iluminado que você acredite ou pague para ouvir, com intervalo de, no mínimo, seis meses. Justamente porque tentamos ir ao encontro ou delas desviar, e mudamos tudo. Igual entrar numa rua em vez de outra, escolher uma estrada. Tudo o que passamos os dias a decidir. Pensa: quase tudo poderia ser mudado de um segundo a outro, de um minuto a outro, um dia, um mês. Um ano.

Essa é a realidade, jogada por búzios, cartas de baralho, pedrinhas ou palitinhos. Calculada pela Numerologia. Antevista em bolas de cristal, ou na difícil interpretação do I-Ching. Haverá sempre significativas mudanças políticas, sociais e econômicas nesse mundo em constante mutação. O meio ambiente gritará por socorro da única forma que sabe, em catástrofes, já que seus apelos lentos e silenciosos não fazem mais efeito.

Muita gente nascerá. E muita gente morrerá, inclusive algumas personalidades, aquelas pessoas que são mais notícia que outras, e mais uma vez teremos a sensação de perder gente boa com os ruins ficando. Em geral, quando as pessoas morrem, imediatamente conseguem a redenção de suas falhas, dependendo de quem são ou foram. De herança, ficarão os registros de seus feitos no Google e os seus perfis nas redes sociais se ninguém puder apagá-los.

Sobre se a gente vai ganhar a Copa do Mundo, quem será eleito, preso, julgado, condenado, quem vai ganhar o Carnaval, qual será a situação econômica, qual cura será encontrada, as dezenas de videntes, cartomantes, astrólogos, esotéricos e afins que li se dividem bastante. Dizem que estaremos nas ruas protestando, bateremos panelas novamente, que novos atos terroristas ocorrerão. Claro que o Trump vai fazer “trumpices” brincando de guerra com a Coreia do Norte e com o Oriente Médio. Enfim, tudo o que é óbvio ocorrerá.

Contudo, busquei os fatos incontestes desse ano que chega, e que você poderá usar de acordo com seu entendimento, fé, crença. Às 13h15 de 20 de março, Saturno, bem cansado, passará o bastão para Júpiter. É o maior planeta do sistema. Por isso tudo será grande, explicam. Interessante…

16 de fevereiro, o Ano Novo Chinês chegará latindo, sob a regência do Cão – Cão de Terra, para ser mais específica. Ficará de guarda até 5 de fevereiro de 2019. Lealdade, vigilância e conquista são suas marcas.

O grande Xangô, da Justiça, governará nossas cabeças. Mas será auxiliado por Yansã, Nanã e Exu, numa combinação nada comum, que até para santo arrumar essa bagunça do ano que se vai não será nada fácil.

Creio que também poderemos ajudar. Feliz Ano Novo! Boa Sorte. Em branco, dourado, na cor que puder pintar esse mundo.

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  Marli Gonçalves, jornalista – Ah! Esqueci-me de mencionar que a China avançará a passos mais largos ainda para se tornar a maior potência mundial e o que pode modificar o eixo do planeta. Tá bom pra você? Consulte a “Mãe Marli“ todas as semanas para saber mais.

 

 2018, a gente está aqui agoniado esperando você ser melhor

marligo@uol.com.br
marli@brickmann.com.br

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RIP EWALDO DANTAS FERREIRA. O REPÓRTER ETERNO.

JONALISTA 2ATENÇÃO – ATUALIZADO

ÀS 0H52 DO DIA 23 -06:


Tanto o velório quanto o enterro serão no Cemitério de Congonhas.

O velório começa às oito da manhã e o enterro está marcado para as 16h.

 

Atualização:

velabrancaonVelório a partir das 8h , enterro às 16 horas no Cemitério de Congonhas.

*_______**************_______*

UM DOS MAIORES JORNALISTAS DA HISTORIA DO PAÍS, EWALDO DANTAS, MORREU ESTA NOITE.

VOU PEGAR MAIS INFORMAÇÕES, MAS POR ENQUANTO FIQUEM COM UMA DAS MUITAS ENTREVISTAS DESSE GRANDE REPÓRTER  – À REVISTA BRASILEIROS, EM 2007

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Ewaldo Dantas, o jornalista que descobriu Klaus Barbie, fala de sua trajetória profissional

CECÍLIA PRADA


Ewaldo Dantas / Foto: Célia Thomé

Ewaldo Dantas Ferreira é um dos mais importantes repórteres brasileiros. Em 1972 descobriu e colheu o depoimento do carrasco nazista Klaus Barbie na Bolívia – onde vivia como um comerciante abastado, sob seu verdadeiro nome, Klaus Altmann. Essa reportagem é considerada, até hoje, a matéria jornalística brasileira que obteve maior repercussão internacional. Foi lançada como uma série de dez capítulos diários, a partir de 23 de maio de 1972, simultaneamente em “O Estado de S. Paulo” e por um pool dos maiores jornais europeus e teve repercussões que foram dos Estados Unidos à União Soviética. Sua conseqüência imediata foi o pedido de extradição de Altmann, enviado ao governo boliviano pelo presidente da França, Georges Pompidou. Foi o primeiro passo para um processo que levou o ex-oficial nazista para a França em 1983, para ser julgado e condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade, e onde morreu, na prisão, em 1991.

Nascido em Catanduva (SP) em 1926, Ewaldo fez sua formação no Seminário Jesuíta de Nova Friburgo (RJ). Deixando o seminário aos 18 anos, trabalhou um pouco como revisor de um jornal do Rio de Janeiro. Matriculou-se no primeiro curso de jornalismo do país, na Faculdade Nacional de Filosofia, e mais tarde transferiu-se para a Escola de Jornalismo Cásper Líbero, em São Paulo. Extremamente versátil, grande repórter sempre, senhor de um texto seguro e fluente, ocupou desde cedo cargos de chefia em vários jornais, rádios e TVs, mas quando podia voltava à reportagem – cobriu os mais importantes acontecimentos, nacionais e internacionais, como a Guerra de Suez, a queda de Perón, o desembarque americano no Líbano, o lançamento da Apolo 11, que levou o homem à Lua, conflitos raciais e religiosos no bairro nova-yorkino do Harlem, na Irlanda, no Oriente Médio, e entrevistou as mais destacadas personalidades. Como presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo organizou em 1961 uma greve que mudaria o jornalismo brasileiro – conseguiu, pela primeira vez no Brasil, a instituição do piso salarial, exemplo depois seguido por outros sindicatos. Foi correspondente de diversas revistas estrangeiras e diretor de jornalismo da Rede Bandeirantes. Foi também professor de jornalismo em várias faculdades.

Aos 81 anos, Ewaldo continua ativo e dedica-se à organização de dois livros: um deles abrangerá o conjunto das principais reportagens que realizou, em cinco décadas de vida profissional. O segundo reúne material que utilizou e divulgou durante os vários anos em que se dedicou ao ensino do jornalismo.

PB – Como foi produzida sua matéria sobre Klaus Barbie?
Ewaldo – Em janeiro de 1972 um jornal francês, “L’Aurore”, levantou a suspeita de que o criminoso de guerra conhecido como “o carrasco de Lyon”, Klaus Altmann (Barbie), estaria vivendo na Bolívia, onde tinha grandes negócios e contava com a cumplicidade de membros do governo. A repercussão internacional da notícia foi enorme. Para lá afluíram jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas das maiores redes internacionais, que passaram a segui-lo aonde quer que fosse. Acossado, Barbie só queria fugir, tinha medo de ser assassinado ou seqüestrado.

PB – Como conseguiu descobrir seu refúgio, e por que ele resolveu falar especialmente a você?
Ewaldo – Fui enviado em abril, por “O Estado de S. Paulo”. Não posso ainda dizer quais as pessoas que me ajudaram a achar Barbie – há uns velhinhos vivos por aí… Eu me meti em um fusquinha dirigido por ele, um homem que estava sendo caçado para ser assassinado, participando de sua louca fuga pelo altiplano boliviano. Parávamos aqui e ali, para dormir, ou para tomar um prato de sopa que as índias serviam em latas de querosene. Uma grande aventura, trabalhando à noite, fugindo de madrugada e ouvindo as revelações de um homem que matara milhares de pessoas, mas que continuava convicto do trabalho que fizera.

PB – Como conquistou sua confiança?
Ewaldo – Àquela altura da vida, Barbie estava ansioso para dar sua própria versão de tudo o que fizera. Via-se como um soldado, um patriota que cumprira seu dever, em uma situação de guerra. E eu encarava meu trabalho como um serviço, e consegui ser bem objetivo, registrando fielmente o que ele me dizia. Fiz questão de fazê-lo autenticar, página por página, tudo o que eu escrevia. Com isso ficou provado, sem dúvida alguma, que sob a identidade de um pacífico comerciante boliviano, de fala mansa e aparência cordial, estava realmente o carrasco nazista.

PB – Qual a repercussão imediata da sua matéria?
Ewaldo – No dia seguinte à publicação do primeiro capítulo da série, o governo Pompidou pediu a extradição de Barbie ao governo boliviano. Mas a repercussão da matéria começou mesmo antes dela ser publicada, enquanto eu a fazia. Apesar de todo o sigilo, a notícia de que um repórter brasileiro conseguira entrevistar Barbie transpirou logo para o plano internacional, em primeiro lugar através da agência France Presse. No dia 5 de maio de 1972 entreguei à redação a matéria pronta e fui embora para casa. À uma da madrugada fui acordado por um telefonema de Paris, a radiotelevisão de Luxemburgo pedia confirmação de meu trabalho e queria entrevistar-me. Seguiu-se uma verdadeira avalanche de ligações internacionais. Tive de fugir para o litoral, mas de nada adiantou, na manhã do dia seguinte uma equipe da radiotelevisão francesa estacionava diante de minha casa, em Ubatuba. Nas duas semanas seguintes, enquanto o grupo Estado negociava a publicação simultânea com um pool de jornais internacionais, as notícias foram as mais desencontradas. O governo boliviano negava a autenticidade da entrevista, o jornal francês “L’Aurore” dizia que ela existia, só que fora feita por um conde francês… enquanto o prestigioso “Le Monde” a confirmava, em artigo assinado por seu editor político, bem como o correspondente do “New York Times”. Enfim, no dia 23 de maio de 1972 começou a publicação simultânea – e uma outra inflamada controvérsia…

PB – Como assim?
Ewaldo – A imprensa mundial continuou durante os dez dias da publicação da matéria, e muito depois, a discuti-la, enquanto na França velhas tensões entre facções políticas da própria Resistência eram reavivadas. Uma famosa heroína do movimento, Marie-Madeleine Fourcade, disse que ficara indignada com o texto publicado, bem como todos os ex-membros da Resistência. Essa campanha foi liderada pelo jornal “Le Figaro” e duraria muito tempo. Não é difícil saber a razão disso: Barbie contara com detalhes como se dera a prisão e morte do chefe da Resistência, Jean Moulin. Foi um caso de traição, cometida por um dos mais destacados membros do movimento, Didot, que era o chefe da equipe de sabotagem. O próprio “France-Soir”, que comprara os direitos de reprodução, começou a sentir o clima de hostilidade – Barbie falara mesmo que “muitos franceses querem salvar a história, depois de terem perdido a guerra”… e então o jornal resolveu fazer vários cortes no texto integral.

PB – O que, além do relato dessa traição, provocou a ira dos franceses, no depoimento de Barbie?
Ewaldo – Quando a guerra terminou, todas as divergências políticas pareciam se dissolver – exceto, é óbvio, para os colaboracionistas declarados do governo de Vichy, que foram fuzilados. Mas dentro da própria Resistência havia lutas internas, que Barbie desvendou. Dizendo, por exemplo, que De Gaulle, que chefiou a libertação a partir da Inglaterra, era tido como “covarde” e chamado até de “Madame Pompadour” pelos que lutavam na frente. E falando sobre as divergências reais e profundas entre comunistas e anticomunistas, dentro da própria Resistência, que atrapalharam muito os esforços do movimento – dizia Barbie que “Jean Moulin (que queria ser presidente da França) era contra os comunistas”, enquanto De Gaulle “tratava com eles”. Outros trechos cortados pelo “France-Soir” foram: referências ao pacto entre a União Soviética de Stálin e a Alemanha de Hitler, em 1939, e a destruição da frota francesa em Mers el Kébir, em junho de 1940, por ordem de Churchill… Todos assuntos muito explosivos.

PB – Está organizando um livro com as principais reportagens que fez. Pode nos dar alguns exemplos ?
Ewaldo – Foi uma idéia que tive nos anos em que lecionei em cursos de jornalismo, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Fiz reportagens de todo tipo, das policiais às sociais, econômicas, de guerra, desastres, incêndios. Estou selecionando algumas que poderão ser úteis aos estudantes, são um registro de acontecimentos históricos. Uma que fiz no Harlem, por exemplo, no final dos anos 1960 – eu, repórter branco, pisando em território onde o branco americano não ousava mais entrar, a não ser dentro de um ônibus fechado, turístico, e se possível com a proteção da polícia. A primeira coisa que aconteceu foi levar uma cusparada… mas depois consegui ser aceito. Hospedei-me em um hotel do bairro e minha guia foi uma socióloga mulata, Angela Gillian. Como brasileiro, fui bem recebido, diziam que eu era um soul brothersoul era uma espécie de chave no Harlem, de palavra-símbolo do negro, da vida, da luta, de todo o conjunto de emoções, sentimentos e paixões, e do ódio ao branco opressor. O movimento Black Power assumia todo o ressentimento racial represado, exacerbado pelo assassinato do líder pacifista Martin Luther King. Seus membros diziam: “Estou disposto a morrer, não tenho mais nada a perder; e a matar também, é claro”. Foi a época do black is beautiful. Renegavam toda a cultura branca, a moda, os penteados, diziam: “Branco não tem jeito, para ele entender só queimando a casa dele, só rachando a cabeça dele para meter lá dentro uma idéia de respeito ao negro”. A desigualdade social e econômica entre brancos e negros era gritante; basta dizer que, para 450 mil negros vivendo naquele gueto, havia somente uma escola secundária.

PB – Na Irlanda, esteve em Belfast em uma época muito perigosa…
Ewaldo – Eu me encontrava na Inglaterra em 1970, quando o conflito permanente entre Inglaterra e Irlanda, uma guerra fundamentalista, multissecular, entre populações católicas e protestantes, teve um recrudescimento. Uma guinada – a ala radical do IRA, o exército revolucionário irlandês, chamada Provisional, resolveu partir para o terrorismo, a violência total. Basta dizer que, de janeiro a dezembro daquele ano, foram registradas 935 ações terroristas, com cerca de 800 vítimas, civis ou agentes de segurança, entre mortos e feridos gravemente por bombas ou tiros – nos hospitais diziam que era enorme o número dos que ficavam permanentemente desfigurados ou com distúrbios mentais irreversíveis. Eu só tive um ímpeto: “Vou ver de perto”. E atravessei o canal. Só que não tinha uma máquina fotográfica, e o que fui vendo assim que desembarquei, casas, lojas e fábricas, hospitais destruídos, população aterrorizada, grupos de soldados com metralhadora percorrendo a cidade, tudo isso tinha que ser fotografado. A sorte foi que encontrei logo o pintor Antonio Henrique Amaral. Pedi emprestada sua máquina e consegui uma reportagem de impacto.

PB – Como viveu o tempo da ditadura militar no Brasil?
Ewaldo – Sofrendo as limitações, a censura, como todos. Cheguei a ser chamado a Brasília, para conversar com o general Golbery. Muita coisa que escrevi nunca pôde ser publicada… Mas houve duas reportagens que fiz, logo após o golpe, que conseguiram passar e tiveram muita repercussão. A primeira contou a história de Joaquim Romão, um pescador de Tabatinga, no litoral paulista, preso logo no dia 19 de abril por um delegado que queria mostrar serviço – seu crime era ser o único que sabia assinar o nome, e como tal ter sido sempre o “representante” dos habitantes do povoado. Ninguém sabia de seu paradeiro, para grande desespero da família – mulher, cinco filhos pequenos. A matéria saiu com muito destaque na “Folha de S. Paulo”, foi um exemplo de toda a violência policial que desabara sobre o país. Íamos dar suíte, e eu já preparara outra extensa matéria, quando veio a ordem, nada mais poderia ser publicado sobre o assunto. O jornal negociou a soltura do homem em troca do silêncio, e Joaquim Romão pôde voltar para a família. Então, usamos um truque: eu escrevi um “recado” ao secretário de redação, na verdade uma pequena matéria, dizendo por que não haveria necessidade de descrever a festa que Joaquim Romão recebera; “após 26 dias de prisão”, seria uma “pieguice desnecessária”, pois “fizemos aquela [matéria] que atingiu tão bem todos os seus objetivos, tocou – e nós sabemos como – a opinião pública, alertou as autoridades, virou símbolo de toda a situação nacional e, principalmente, pôs o homem em liberdade. Agora, que mais?” O meu “recado” foi publicado, e ninguém disse nada.

PB – E a outra matéria?
Ewaldo – Na manhã de 9 de setembro de 1964 aconteceu a invasão da Universidade de Brasília, por 900 homens armados de fuzis, baionetas e metralhadoras, do exército e da polícia. Uma verdadeira operação de campanha, com carros de radiopatrulha, carros-prisão e até ambulâncias. Os professores e alunos que foram presos, mais tarde acusados de “crime continuado contra a segurança do Estado”, tiveram de passar entre alas de baionetas caladas e metralhadoras portáteis. Só que por acaso um operador de uma grande rede televisiva dos Estados Unidos estava no campus e filmou tudo – a repercussão internacional foi imediata e enorme. Depois, os presos foram submetidos a toda espécie de humilhação, como revistas no pátio do quartel, todos nus – cena testemunhada por altos funcionários diplomáticos ingleses… No Brasil, esses eventos ficaram ignorados. Então a “Folha” publicou no dia 19 de setembro, na primeira página, com destaque de editorial, uma extensa, minuciosa matéria minha – “Universidade: revolução posta à prova” – que descrevia toda a operação militar desenvolvida na UnB como se esta fosse um “país inimigo”. Eu expunha o verdadeiro desmantelamento do ensino universitário e da pesquisa científica no país, e reproduzia dois documentos: uma carta assinada por 70 professores brasileiros, protestando contra a cassação sumária e a demissão de 28 colegas da UnB, logo no dia 1º de abril de 1964 – carta essa que o presidente Castelo Branco se recusara a receber. E também um telegrama em que cientistas e presidentes de universidades americanas, tendo à frente três detentores do Prêmio Nobel, protestavam contra a prisão do cientista Isaías Raw, de reputação internacional. Essa matéria é um documento histórico, foi afixada nos quadros das universidades. Então a polícia ia lá, proibia, rasgava… os estudantes arranjavam outra cópia, improvisavam lugares para expô-la… Bem, isso foi ainda no início da ditadura. Depois do AI-5, em 1968, com a censura prévia, não foi possível escrever mais nada assim.

PB – Quais as situações de maior envolvimento emocional que viveu, no exercício da sua profissão?
Ewaldo – Foram algumas em que vi o sofrimento humano, a morte, mais de perto. Teve um desastre de avião, por exemplo, que não consigo esquecer. Foi em novembro de 1967. Um avião da Sadia caiu, de noite, perto do pico do Marumbi, no Paraná. Um lugar quase inacessível, mas veio uma turma de homens do Serviço de Busca e Salvamento, atletas com treinamento intensivo, formaram cadeias, todos de mãos dadas para a escalada dificílima, e fui junto com eles. A subida era vertical, a mata fechada, meia hora depois já não havia luz, tínhamos de ir de gatinhas, nos arrastando, naquela escuridão. A chuva e o vento não davam descanso, ficamos todos ensopados. Mas, de repente, o vento trouxe um grito: “Socorro!” O espanto foi geral, ninguém esperava encontrar sobreviventes. Continuamos a subida mas só conseguimos chegar ao cume às seis e meia da manhã, para ver um espetáculo quase impossível de descrever – os destroços do avião, os mortos espalhados, havia uns poucos vivos, mas agonizantes. Uma moça bonita, deitada, composta, aparentemente bem, era filha de um milionário. Falava com muita clareza, sem parar, em um tom absolutamente calmo, contava quem era, que o marido e os filhos pequenos que também viajavam estavam mortos. Dizia: “Foi a primeira vez que levei meus filhos para pegar um avião”, depois mudava a voz para continuar: “Acho que estou esperando outro nenê”… O médico pedia que ficasse quieta mas ela não conseguia, e assim, como se contasse uma história que não fosse a sua própria, via sua vida esvair-se… A um dado momento pergunta à equipe de salvamento: “Quem é o chefe de vocês?”, e quando o homem aparece diz: “Olhe, perdi um brilhante de 12 quilates, se por acaso acharem quero que distribuam entre vocês”… Nunca me esqueci dessa cena, foi uma das coisas que mais me impressionou, registrei tudo o que ela dizia, e chamei essa reportagem de “A sobrevivente”.

PB – Algumas de suas reportagens tornaram-se conhecidas pela linguagem um tanto diferente usada, mais “literária”. Pode comentar?
Ewaldo – Sim, às vezes é bom fugir do estilo habitual da reportagem. Mesmo sem se afastar dos fatos, o repórter pode contá-los como se fosse uma história – como Truman Capote fez em A sangue frio. Houve um texto meu sobre a tragédia do Joelma, que abordei de um ângulo um tanto diferente, não de quem vê um incêndio, mas de quem trabalha para combatê-lo, do ponto de vista do bombeiro. Colei-me a eles, consegui descrever minuciosamente seu trabalho. Em uma reportagem sobre Porto Seguro, em 1970, fui reproduzindo todo o texto da carta de Pero Vaz de Caminha – estabelecendo uma comparação, literalmente passo a passo, para mostrar que a população estabelecida ali, de caboclos, vivia praticamente como os índios da época de Cabral, no mesmo atraso, como se estivesse à parte da civilização. Chamei essa matéria de “Livro último do descobrimento do Brasil”. Em outras ocasiões, consegui reconstituir de memória certas conversas que tive, usando a primeira pessoa, como se fosse um monólogo. Uma vez eu estava viajando de carro, vindo da Suazilândia, um enclave dentro da África do Sul. No percurso um soldado português foi contando como era sua vida, o que se passava na cabeça de um militar estacionado em Moçambique, o tempo todo enfrentando terroristas. Seu apelido era Turra, e me parecia um verdadeiro personagem de romance. Procurei memorizar o que me dizia, cheguei ao hotel e escrevi tudo de uma assentada. Eu gostava muito de fazer esse tipo de matéria.

PB – Última pergunta: acha que o diploma de jornalismo é supérfluo, ou deveria ser obrigatório?
Ewaldo – Nem obrigatório nem supérfluo. Por exemplo, nos Estados Unidos não é obrigatório, mas, quando se entra nas redações dos grandes jornais, não há ninguém que não seja diplomado por uma grande faculdade. Na Universidade de Columbia, por exemplo, há cursos especiais, de longa duração, com grande exigência curricular e treinamento prático diário em matérias jornalísticas e televisivas. Quando sai da faculdade, o aluno está plenamente habilitado para ocupar cargos importantes e bem remunerados. 

Coreia X Coreia. Do Norte X do Sul. E no Rio de Janeiro…

Guerra à vista? Coreias se estranham. Mas causam menos mortes do que os absurdos que estão acontecendo no Rio de Janeiro.

Coreias trocam acusações após ataque em ilha que deixou dois mortos

Do UOL Notícias* /Em São Paulo

 

  • Coluna de fumaça é vista na ilha sul-coreana de Yeonpyeong após ataque; VEJA MAIS FOTOS Atualizado às 12h25

O Ministério da Defesa da Coreia do Sul disse nesta terça-feira que o disparo de projéteis efetuado pela Coreia do Norte e que deixou no mínimo dois mortos foi uma violação clara do armistício entre os dois países, e que o governo norte-coreano havia planejado os ataques intencionalmente. “Esse é um ataque intencional e planejado… e é claramente uma violação do armistício”, disse Lee Hong-ki, autoridade do Ministério da Defesa, a jornalistas. Já o presidente sul-coreano Lee Myung-bak disse que o ataque da Coreia do Norte é imperdoável. “Ataques indiscriminados contra civis são imperdoáveis, também em um sentido humanitário”, disse.

A Coreia do Norte acusou nesta terça-feira a Coreia do Sul de ter disparado primeiro, informou a agência oficial norte-coreana KCNA.

“O inimigo sul-coreano, apesar de nossas reiteradas advertências, realizou provocações militares com disparos de artilharia contra nosso território marítimo ao lado da ilha de Yeonpyeong, a partir das 13h00 (04h00 GMT)”, indicou o comando do exército norte-coreano em um comunicado divulgado pela KCNA.

“O Exército norte-coreano continuará sem hesitar seus ataques militares se o inimigo sul-coreano se atrever a invadir nosso território, nem que seja 0,001 milímetro”, segundo o comunicado.

A artilharia da Coreia do Norte disparou nesta terça-feira (23) dezenas de projéteis contra uma ilha sul-coreana, em um dos mais pesados bombardeios contra o sul desde a Guerra da Coreia (1950-1953). Pelo menos dois soldados morreram  e 15 ficaram feridos, alguns em estado grave, segundo o ministério da Defesa sul-coreana. Forças sul-coreanas revidaram e enviaram um jato de combate para a área.

A ilha de Yeonpyeong fica ao sul da linha de fronteira decretada pela ONU após a Guerra da Coreia (1950-1953), mas fica ao norte da linha reivindicada por Pyongyang.

Conheça a localização da ilha

  • Arte UOL

Uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU está em preparação após o ataque da Coreia do Norte a uma ilha da Coreia do Sul, informou em Paris uma fonte diplomática francesa à agência de notícias AFP. Segundo fonte diplomática entrevistada pela agência de notícias Reuters, a reunião estaria sendo preparada para ocorrer entre “hoje e amanhã”.

A Casa Branca condenou fortemente o ataque e exigiu o fim das ações. “Os Estados Unidos condenam fortemente um ataque de artilharia desfechado pela Coreia do Norte contra uma ilha da Coreia do Sul e pedem à Coreia do Norte que interrompa suas ações beligerantes”, disse a Casa Branca em um comunicado.

A União Europeia (UE) condenou “firmemente” o ataque da Coreia do Norte. “Estou profundamente preocupada com os acontecimentos de hoje na península coreana, que provocou vítimas entre militares e civis sul-coreanos”, disse Catherine Ashton, chefe da diplomacia europeia. “Condeno com firmeza este ataque”, acrescentou.

O ministro britânico das Relações Exteriores, William Hague, condenou “energicamente” o ataque norte-coreano. “O Reino Unido condena energicamente o ataque não provocado pela Coreia do Norte à ilha sul-coreana Yeonpyeong. Estes ataques não provocados só conduzem a mais tensões na península coreana”, disse o ministro.

O ministro alemão das Relações Exteriores, Guido Westerwelle, disse estar “extremamente preocupado” com a escalada da tensão na península coreana. “Esta nova provocação militar ameaça a paz da região”, disse. “Esta tensa situação exige uma atuação sensata de todos os implicado e celebro os esforços do presidente sul-coreano Lee para que a situação se acalme”, acrescentou. “O governo da Alemanha assegura seu apoio e transmite suas condolências aos cidadãos da República da Coreia e seu governo nesta situação difícil”.

Michèle Alliot-Marie, chefe da diplomacia francesa, pediu a Pyongyang que acabe com as “provocações”. “Condeno com a maior firmeza os disparos de artilharia norte-coreanos dirigidos à ilha de Yeonpyeong”, declarou a ministra em comunicado.

“A França apela à Coreia do Norte que termine com as provocações e se abstenha de qualquer novo ato suscetível de aumentar a tensão na região”, acrescentou.

A Rússia vê “um perigo colossal” na escalada da violência na península coreana, disse o ministro do Exterior Sergei Lavrov. “É necessário encerrar imediatamente todos os ataques. Há um perigo colossal que deve ser evitado. A tensão na região está aumentando”, disse Lavrov a jornalistas durante visita ao Belarus.

A China expressou preocupação com as informações sobre o ataque norte-coreano a uma ilha sul-coreana nesta terça-feira, no último incidente na escalada de tensões na península que faz fronteira com o território chinês.

Um porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da China, Hong Lei, disse em entrevista à imprensa que os dois lados da península deveriam “fazer mais para contribuir para a paz” e que é imperativo o retorno às conversações envolvendo seis países, com o objetivo de por fim ao programa nuclear da Coreia do Norte.

“Ouvimos as notícias e expressamos nossa preocupação. A situação ainda precisa ser confirmada”, disse Hong, respondendo a uma pergunta sobre o ataque de artilharia desfechado pela Coreia do Norte.

A China é o único aliado expressivo da Coreia do Norte. A ajuda econômica e o apoio diplomático chinês são importantes para o isolado país comunista, cujo líder, Kim Jong-il, visitou a China duas vezes este ano para fortalecer as relações bilaterais.

Ataque a ilha

A TV sul-coreana YTN afirmou que pelo menos 200 tiros foram disparados contra Yeonpyeong, que fica na costa ocidental da península dividida entre as duas Coreias. A maioria dos projéteis caiu em uma base militar sul-coreana.

“As casas e montanhas estão sob fogo e as pessoas estão sendo removidas. Não dá para enxergar direito por causa das nuvens de fumaça”, disse uma testemunha na ilha à TV YTN. “As pessoas estão apavoradas. Enquanto falamos, os disparos continuam.”

As autoridades pediram aos 1.700 habitantes da ilha que evacuem a área, enquanto as imagens de televisão mostram altas colunas de fumaça e casas em chamas.

Os disparos norte-coreanos iniciaram por surpresa às 14h34 local (3h34 de Brasília) sobre a ilha de Yeonpyeong, na zona fronteiriça do Mar Amarelo.

Imediatamente depois, o Estado-Maior sul-coreano enviou uma mensagem telefônica à Coreia do Norte através de uma linha especial para pedir que o vizinho cessasse os disparos, que não voltaram a se repetir até o momento.

O exército da Coreia do Sul se encontra em estado de alerta máximo e já mobilizou caças de combate F-15 e F-16 na região. O presidente, Lee Myung-bak, pediu contenção para evitar uma perigosa escalada da violência.

O presidente sul-coreano disse que é preciso ser dada uma resposta firme ao ataque contra a ilha de Yeonpyeong, situada a apenas 120 quilômetros da capital, Seul. Desde que foi eleito presidente, há cerca de três anos, Lee vem adotando uma linha política dura em relação ao Norte.

Os disparos coincidem com a presença na região do enviado americano para a Coreia do Norte, Stephen Bosworth, que deve viajar de Tóquio a Pequim nesta terça-feira para debater com as autoridades chinesas a política nuclear norte-coreana, depois das revelações de uma nova usina de enriquecimento de urânio de Pyongyang.

As duas Coreias ainda estão tecnicamente em guerra, já que o conflito dos anos 50 terminou sem a assinatura de um acordo de paz, mas apenas com um armistício.

No começo do ano, a tensão na península coreana subiu drasticamente, depois que o governo sul-coreano acusou o Norte de ter torpedeado uma de suas embarcações navais, causando a morte de 46 marinheiros.