ARTIGO – Matemática da cilada. Por Marli Gonçalves

 Ô mania que grudou na imprensa! Você fica lá prestando a maior atenção e aparecem aquelas tabelas e tabelas torturando números, comparados a algum lugar do passado, para o bem ou para o mal.  São os percentuais, ou porcentuais, que dá na mesma, e você entendeu do que estou falando. Os coitados dos números, surrados, dizem qualquer coisa quando obrigados

É muito chato mesmo. Mas virou mania. Querem dar uma notícia, por exemplo, que tal situação melhorou. E lá se vai em busca do número usado em algum lugar do passado, e que provavelmente foi o último dado por alguém ou algum. Chegam as manchetes! Diminuiu em tantos porcentos o número de acidentes nas estradas. Se parar para prestar atenção mesmo, com caneta e papel ou calculadora, vai perceber que teve decréscimo de umas migalhinhas. Tipo eram 12, e esse ano 10. Condições do tempo, das estradas, dos veículos e dos etceteras? Eram as mesmas?

Não costumo assistir a jogos de futebol, mas quando assisto dá uma irritação danada ouvir os locutores falando, falando – e lá atrás na imagem você vê que está acontecendo uma jogada bem importante que fica sufocada – e derramando números sobre dribles, jogos do século passado, enfrentamentos da história recente. Isso tudo piorou muito na era dos computadores, que fazem cálculos e cálculos, como se todos fôssemos e pensássemos como tabelas de Excel.

Engraçado. Embora tenha tido boas notas na época nas aulas de Estatística, nunca gostei muito dessa matéria. Na faculdade, no Diretório Acadêmico, acabei como “representante dos alunos no Departamento de Métodos Quantitativos”. O que valeu foi uma enorme dor de cabeça e mais uma inscrição na ficha do Dops dos terríveis tempos da ditadura. Como os caras não sabiam do que se tratava, esse fato está lá na minha ficha de “subversiva”. Mal sabiam ou sabem eles que fui parar aí porque eu era a única boa aluna que conseguia tratar melhorzinho com o professor dessa matéria na faculdade, e que era um horror. Vai explicar! Bem que tentei, mas creio até hoje que acharam que eu era guerrilheira e estrategista de alguma célula especializada em manufatura de bombas, ou alguma outra coisa desse jaez.

Hoje mesmo tive a sensação de ter ouvido que diminuiu em num sei quantos porcentos o número de notificações de violência contra as mulheres. Só se for porque elas morreram antes de denunciar. Todo dia, toda hora, das formas mais grotescas e cruéis as mulheres estão morrendo, assassinadas por ciúmes, por causa da loucura humana e do destempero das relações.

Essa semana, repara – aliás, já estamos ouvindo essa ladainha há quase um mês – tem a tal da Black Friday, onde se quer aparentar uma maravilha, mágica, onde todos os produtos ficarão mais baratos do dia para a noite, os comerciantes resolveram dar uma força e se desapegar de seus lucros, uma coisa impressionante – para onde olhar vai ver números gigantescos de descontos, com o percentual do lado. Pega o óculos, a lente, o binóculo, a lupa. Perto dele, ali bem pequenininho, vai ter também uma palavrinha: “Até”. Esse “até” é a grande questão. Faz o teste. Procura o que é exatamente que vai ter desconto de “até” 80%, 90% na lista ofertada.

Propaganda já foi a alma do negócio. Vem sendo usada – de braços dados com o marketing, que é mais complexo – de forma indiscriminada e enganosa, sem que providências sejam tomadas contra isso.  E para não acharem que estou tentando me desviar da política, vou citar duas coisinhas dessa semana, que serviram apenas para cilada.

Uma, a do deputadozinho que me recuso terminantemente a dar o nome, que resolveu prestar homenagem para o ditador Augusto Pinochet na Assembleia de São Paulo. Queria apenas ficar conhecido, esse indigesto. Para ir contra, fomos obrigados a falar dele, saber se sua vil existência.

number_ball_tMais conhecido, talvez, entre esse grupo de – dizem, mas vamos esperar as próximas pesquisas – cerca de 30% (!!!) que parece que ainda apoiam a loucura que se estabeleceu no governo de nosso país. Esse do “38”, o número do partido que pretendem criar com suas balas e dedinhos em forma de arminha, borrando o verde e amarelo de nossa Nação com seus pensamentos de baixíssimo calibre.

Mais uma 100% cilada.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Site Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano- Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO – Vem, Inverno, vem, inverno. Vai, Inverno. Por Marli Gonçalves

torcida brasielria frioNinguém verá uma linda moça rebolante carregando cerveja de mesa em mesa, indo e vindo. Muda a estação. Agora é ele, essa masculina estação. Ele está aí, praticamente chegou. Inverno é estação para sofrer mais, tempo de ficar mais carente querendo cobertor de orelha, meia para os pés, algo quente para esquentar a garganta, um lugar para pôr a mão. Por outro lado, com a situação como anda só nos resta desejar também que logo nos vejamos na primavera que há de brotar, fazer desabrochar algum país melhor do que esse que se nos apresentatorcida brasielria frio

Prepare seu coração. Às 13h38 do domingo, dia 21 de junho de 2015, Lua crescente, ele adentrará o gramado com todas as suas idiossincrasias, ele, o inverno que, se fosse gente, eu veria como um arrogante senhor esnobe vestido com um sobretudo de peles raras -a estação que mais a gente precisa e pensa em dinheiro. Mais até do que no verão, roupinha leve, quando com qualquer coisa vamos batendo chinelinho, chupando gelo, molhando a nuca. No inverno não – é preciso ter algum, para vestir, para comer, para gastar, para comer chocolate, derreter queijo, beber um bom vinho. Espertos são os ursos, que hibernam. Abrem um parêntese. Uma pausa. Uma ausência.

Prepare seu coração porque nessa época a coisa fica tão assim que aumenta de 30 a 40% o risco de complicações nesse amigo do nosso lado do peito que bombeia nossa vida. No inverno nosso vermelho gordinho e compassado sofre mais porque trabalha mais, como eu dizia, por amor para sentir e aquecer, bombeia mais para nos botar ativos forçando-nos a sair do quentinho para ganhar a vida. Talvez esse índice também se deva em grande parte à preocupação – afinal já se passaram alguns meses daquele dia em que boa parte da população se vestiu de branco, acreditou que tudo seria diferente, pulou ondinhas. Aqui e ali as decepções, alguma coisa que até piorou e a perspectiva do fim de ano já chega, assim que o primeiro semestre apita na curva e se vai.

Ainda tem uma tal constrição, essa palavra que lembra fé, mas desta vez no inverno é a constrição dos vasos sanguíneos, aquela sensação gelada das extremidades. Ponta de nariz sem esquimó para beijar esfregando; os pés, os pés de orelha e os próprios com todos os seus dedos, e ainda os dedos das mãos.

O corpo humano é um mecanismo sofisticado, complicado, mas frágil. No inverno a gente vai tampando aqui, ali, até virar mesmo uma cebola. Uma cebola que se monta e se descasca durante o dia, para dar a deselegância discreta de nossas meninas, como diria o Caetano, em Sampa, beleza composta certamente em um passeio de inverno em São Paulo.

Os conservadores que andam eriçados, de plantão, praguejando, vão dar pulinhos porque ouvirão falar muito dos invertidos, com os quais invocam muito. Mas estes invertidos serão os dias com poluição e inversão térmica, aqueles dias maravilhosos, azuis, e ao mesmo tempo, secos, sufocantes, laranjas, desérticos. Dias que nos tornam a todos meio invertidos também. Enviesados, até!

Inverno é bom para algumas coisas, além da sopa, do banho quente, das pantufas, do sono debaixo das cobertas, da pipoca pulando na panela. Fora as mais safadas, serve bem para quem quer fazer tratamento estético, cortar aqui e ali puxar um pouco, de pele que fica mais coberta, protegida. Não mostra. Não mancha.

E aí, vamos falar sério? O que nós vamos fazer nesse inverno? Continuar reclamando? Sentar e esperar que alguma luz radiante ilumine nossas cabeças, que bata algum vento que nos faça espirrar soluções? Ou vamos continuar tossindo, aos soquinhos, como os carros velhos em manhãs geladas, vendo o filme de terror das sessões especiais? O tempo que temos são os próximos três meses, até 23 de setembro, embora essa precisão estanque entre estações – até isso – aqui seja meio bagunçado.

Tem mais um detalhe de inverno que preciso alertar – é época de aumentar o número de ratos querendo entrar, invadir as casas e empresas à procura de locais quentes e com alimentos, onde possam se obrigar e procriar. Entende a metáfora?

Sinceramente, acho mesmo que devemos é nos agasalhar e sair de novo por aí, para esquentar certas orelhas gritando umas coisas, organizando a primavera, vendo se desta vez a gente consegue fazer brotar a nação, semeando direito na época certa.

São Paulo, cuidado com friagem, 2015

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Marli Gonçalves é jornalista – – Mão quente, coração frio: amor vadio – diz um provérbio português. Mãos quentes, amores ausentes – diz um outro.
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Bela ideia para combater a violência infantil. Anúncio que a criança, pequena, alcança.

FONTE:
http://gizmodo.uol.com.br/este-anuncio-tem-uma-mensagem-anti-abuso-secreta-que-so-criancas-conseguem-ver/


Este anúncio tem uma mensagem antiabuso secreta que só crianças conseguem ver

Por – 06 mai, 2013 – 04:57

Em uma tentativa de dar a crianças que sofrem abuso uma forma segura de pedir ajuda, uma organização espanhola chamada Aid to Children and Adolescents at Risk Foundation, ou ANAR, criou um anúncio que mostra mensagens diferentes para crianças e adultos ao mesmo tempo.

O segredo por trás da magia é uma camada superior lenticular, que mostra imagens diferentes dependendo do ângulo de visão. Assim, quando um adulto – ou qualquer pessoa com mais de 1,35m – olhar vai ver apenas uma imagem de uma criança triste e uma mensagem: “às vezes, o abuso infantil só é visível para a criança que sofre.” Mas quando a criança olha para o anúncio, ela vê feridas no rosto do garoto e uma mensagem diferente: “se alguém te machucar, ligue e nós ajudaremos” junto com o telefone da fundação.

O anúncio foi desenvolvido para ajudar crianças, especialmente àquelas cujo abusador está parado ao seu lado. E por mais que seja uma forma espetacular de usar imagens lenticulares, quanto tempo será que demorará para empresas de brinquedos começarem a fazer a mesma coisa para divulgar seus produtos diretamente para crianças? [YouTube via PetaPixel via DIY
Photography
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