ARTIGO – Papai faria 100 anos. Por Marli Gonçalves

Parece título de Gabriel Garcia Márquez, mas na verdade é porque andei lembrando que o meu pai completaria 100 anos nessa próxima semana. Chegou só aos 98, cansado da vida que viu.  Um Século, e a sensação que agora estamos voltando, mas a um tempo errado

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Que século foi esse! Visto 100 anos para trás poderia parecer que o mundo ali entraria apenas em desenvolvimento e progresso, com a arte imperando, invenções importantes, um ciclo de glórias, inovações. Em paz, depois da tristeza da Primeira Guerra Mundial que atingiu em cheio a Europa, e que buscava renascer de suas cinzas. Os “Loucos Anos 20” eram vividos com alegria, com importantes transformações de costumes, e a vida parecia ter adquirido novos sentidos. Os Estados Unidos tornara-se uma das maiores potências e era também centro de irradiação de novidades em todos os setores.

O cinema florescia, a música – o jazz e o blues envolviam a exuberante vida noturna, a moda libertava mais o corpo da mulher, que deixava de ser mera coadjuvante. Já votava, se fazia presente e atuante nos acontecimentos, na opinião, na literatura, na pintura. Espetáculos, movimentos como o Surrealismo, o Dadaísmo, na moda, Coco Chanel. Foi a era das inovações tecnológicas, da eletricidade, da modernização das fábricas, do rádio e do início do cinema falado, entre tantas outras descobertas e avanços.

No Brasil, os reflexos são simbolizados na Semana de Arte Moderna, embora sempre seja a política um fator de atraso, e aqui não foi diferente. Mas havia a reação, as pessoas estavam felizes e parecia que um mundo novo chegaria, com igualdade, deixando pra trás a crueldade.

Triste sina. Com a quebra da Bolsa de Nova York, a 24 de outubro de 1929, deu-se a Grande Depressão e uma nuvem carregada pairou, finalizando o período dos sonhos. De lá para cá, outros vieram, foram, vieram, insistiram.

Mas as promessas de que os horrores das guerras não se repetiriam, que o desenvolvimento acabaria com a fome e com a miséria, que a ciência triunfaria, que os homens e mulheres se respeitariam, tantas promessas… vêm ficando pelo caminho. Que cessariam as perseguições por etnias, credos, raças, gêneros, que direitos civis e humanos seriam respeitados, quantas promessas! Estamos no espaço, mas destruindo a Terra que habitamos.

Tudo isso e muito mais passa diante de meus olhos quando lembro de meu pai, com quem convivi bem de perto nos últimos anos de sua vida. Hoje vejo por que ele era tão cético – já tinha vivido quase um século para saber, ter certeza, que os “papagaios de botina”, só assim se referia aos políticos e líderes, não têm palavra e pouco pensam no bem-estar geral. Com sua pouca cultura, mas muita vivência, acompanhou as ondas do tempo que chegou aos nossos dias.

Tristeza de ver o país disputado por toscos, de esquerda, centro e direita, que nos deixaram completamente sem opções em todas as esferas. Angústia de assistir ao desfile de falsos e hipócritas buscando manipular a opinião pública com moralismos, como se ela própria não pudesse ver e sentir com clareza o ambiente em que vive, não tivesse discernimento nem carregasse de memória a enorme lista do que precisa realmente de atenção e de construção.

Estamos voltando, regredindo, e diretamente ao que de pior houve nesses últimos cem anos.

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 – Marli Gonçalves, jornalista – Como gostaria agora de ver os nossos Anos 20 com outro ângulo, para querer viver até os 100 e poder contar novas histórias de outras gerações.

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Brasil 2019, limiar

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ARTIGO – Eu vejo. Por Marli Gonçalves

Eu Vejo

Por Marli Gonçalves
Pelos bigodes de Salvador Dali! Eu vejo, mas tem coisas que não queria estar vendo. Vejo ao vivo e em cores. Eu vejo o que todo mundo pode ver, mas talvez eu seja ou esteja mais atenta com essa minha mania de reportar, de reparar. Coisas de jornalista. Como diria nosso Cazuza, o próprio, que deve bem ter visto onde tudo isso ia dar e se mandou: eu vejo o futuro repetir o passado.

  Eu vejo gente, antes de tudo. Gente falindo, quebrando, sem esperanças, gente agoniada com o rumo dessa toada. Sendo derrubadas como as vacas pelo rabo nas vaquejadas. Levando rasteiras. Vejo a minha gente dividida e sem noção.

Com que frequência? O tempo inteiro, como respondeu o menino do filme de cinema que, apavorado, via gente morta.

Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome. Nem de frio, jogado numa rua movimentada de São Paulo – o dia inteiro morto, ali, até que alguém percebesse que aquele corpo já não se mexia, ali morto jazia.  São tantos corpos jogados pela cidade que poucos param para ver se ainda se mexem, se tremem, se têm fome, ou se apenas estão decididos a se consumir a si próprios acelerando verem-se livres da existência.

Eu não posso, embora tente, ver beleza em tudo. As coisas estão feias, ultrapassadas, caindo aos pedaços porque ninguém consegue ver, nem sentir, renovação.

Eu vejo isso por cima de um muro, muro cheio de políticos sem ideal, amontoados, se reunindo para decidir quando se reunirão para decidir que ali vão ficar. Em cima do muro. Mas de lá eles não avistam o que eu vejo, nem conseguem ouvir os apelos dos que eu vejo por aí tentando sobreviver. Mantendo um mínimo de dignidade, cada dia mais rala.

Eu vejo tudo enquadrado para onde dirijo o olhar – de uma vista cansada que a cada ano aumenta um grau. Talvez  até para não serem vistas,  as próprias coisas se embacem, se distanciem. Essa semana atualizei as lentes dos meus óculos para ver de perto. E os de para ver de longe. Dois, que um só para tudo – bifocal -não acompanha o movimento rápido que faço pra não perder de ver nada, me confunde e tonteia. Não posso me dar ao luxo de não enxergar para qualquer lado que olhe. Nem que seja só para contar a vocês algumas das minhas observações.

Tem de ser um para ver bem de perto; outro para avistar de longe. E não são mais as letrinhas do cartaz do consultório do oftalmologista o que tenho de decifrar. O que não quero é ver pontos negros, nem pontinhos brilhantes, nem a luz cegando meus olhos quando vem em direção contrária. Luz é para iluminar, não ofuscar a gente.

Não vire o rosto. Olhe também o que está havendo e não dá para negar. Negue que me pertenceu, Que eu mostro a boca molhada. E ainda marcada pelo beijo seu.

Eu vejo flores em você. E foi o aroma delas que me fez lembrar de um outro e do que eu vi esses dias caminhando um pouco na grande cidade onde vivo; e o que ouvi; o gosto amargo que veio na minha boca; o terrível cheiro de esgoto que senti vindo da água podre de esgotos escorrendo pelas calçadas de um dos seus bairros mais nobres, e o que me fez imaginar como andará o resto do território nacional.

Ver é sentido. Houve uma vez uma canção que falava perto do coração. O que os olhos não veem o coração não sente, uma forma de tentar explicar nossa própria distração, nossa própria cegueira.

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Marli Gonçalves, jornalista – Vejo você amanhã, ou depois. Tudo bem. Vejo a porta abrir. Cheia de esperança.

Os Estados desse país, 2017

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ARTIGO – Precipício, por Marli Gonçalves

cobrinhaAs pernas vibram “por dentro”, querendo se vergar, como quando um caminhão passa na rua e treme tudo, o chão. Uma leve tontura. Palpitação. Toda vez que me vejo diante de um precipício – e que não é exatamente um, mas o futuro – me sinto como quem tem medo de altura e alguém manda olhar lá para baixo, forçando, para ver se o apavorado acaba logo com o problema. Pula! Pula! Pula! no abismo

Um grande amigo meu tinha muito, mas muito medo de altura, paúra. Tanto, a ponto de passar anos sem ir ao meu apartamento quando eu estava no 11º andar, porque só de pensar em pegar o elevador tinha um ataque de pânico. Um dia ele me chamou para irmos ao topo de um dos prédios mais altos da Avenida Paulista, tão alto que tem uma torre dessas de tevê, grandona e toda colorida. Lá fui eu, mãos dadas com ele, num daqueles rompantes de solidariedade fraternal. Mais: ele não só subiu ao terraço, como deu até uma esticadinha, um pulinho, na tal torre, rindo, só que agora do meu pânico, do meu limite. Nunca esqueci essa cena: naquele dia aprendi que enfrentar o medo realmente ajuda a coragem e a solução, ou pelo menos adaptação, principalmente para quem não tem, como eu diria, recursos para análises e terapias.

Faz muitos anos. A cena veio à mente esses dias e não foi porque eu estivesse ou pretendesse estar em qualquer lugar alto, até porque não sou a mais medrosa, sem exageros, embora ninguém vá nunca me ver nem fazendo rapel, nem pulando de uma ponte com aquela cordinha ridícula ou muito menos me jogando de um teco-teco com paraquedas. Lembrei da cena porque estou sentindo o mesmo tremor nas pernas, e precisando – na verdade até já tomando aquele impulso – dar um salto enorme, mas em decisões, justamente para tentar chegar mais segura ao outro lado, pulando o tal precipício, mas para seguir firme no caminho.

magnetismoDá para fazer essa mesma analogia com várias coisas. Você fica ali, na frente do buracão, parado e postergando, postergando. Até que tem uma hora que chega, ou um maluco que empurra, ou um touro bravo nos seus calcanhares, e não há mais tempo de pensar muito. A prisão dos líderes políticos e empresários condenados no julgamento do chamado mensalão me deu também essa impressão. Agora vai. Fico imaginando como andava a vida desses e dessas, a expectativa se aconteceria ou não. Vendo, entre outros, Genoino visivelmente doente e perdido, a ponto de sair de casa para se entregar vestido com uma capinha e conclamando multidões, vendo o Roberto Jefferson, ex-gordinho, definhado, ainda desafiando seus próprios instantes de liberdade com palavras fortes, e vendo, ainda, o estado da ex-presidente do banco, quase irreconhecível, pequena, perdida e sem a altivez de bailarina que ostentava. Notei o quanto essa espera deve ter sido amargurada. A prisão será o de menos.

homem acha coraçãoAs voltas que o mundo dá são suficientes para envergar qualquer um, já cansei de ver. Sacolejam a estabilidade. Causam pequenos tremores e, também, às vezes, terremotos, que fazem necessário que se reconstrua tudo, mesmo que usando bases antigas para economizar. Não diga desta água não beberei, até porque nem sabe de onde vêm muitas das águas que saciam. Tem ainda um pau, que bate em Chico e Francisco – e que vimos bater até em Gil e Veloso recentemente.

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Já inventaram de um tudo, tanto que daqui a pouco vão dispensar até os humanos, correndo essa toada. Mas não inventaram nada que veja o Futuro, embora uma bola de cristal possa até ajudar, mostrando entre névoas o que quiser ver, e dificilmente provar que viu. Daí ainda ter tanta gente que apregoa nos postes e vive de dizer que pode até juntar amores partidos.

A gente tenta. Mas todas as estradas acabam em algum ponto, obrigando que uma hora ou outra, ou várias durante a existência, pulemos o tal precipício. Alguns caem. Outros se jogam, justamente por não dominar ou entender as tais pernas que vibram que me referi no começo.

Quero ser sempre a que pula. Conto com sua torcida. Nesta hora parece que ninguém entende a gente.

pedindo desculpasSão Paulo, 2013 

Marli Gonçalves é jornalista – A cada dia aprende mais sobre quanto uma coisa que é muito pessoal, quando escrita e lida, pode também ser muito pessoal e compreendida por outra pessoa que nem ao menos conhecemos. Uma magia. Como se desse para psicografar o inconsciente coletivo.

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