ARTIGO – Destemperos e descalabros. Por Marli Gonçalves

 

Ai, ai, ai, ai, ai. Cinco doloridos ais contra o AI-5. Cinco minutos de sua atenção para entender porque a situação já há muito vem perdendo qualquer graça, e se tornando perigosamente um flerte com o que há de mais atrasado, como se um pote do passado, esse sim “conservado” fechado, estivesse sendo destampado

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Quando tudo começou, de verdade, consumado, e que tivemos de acreditar que não havia nada mais que pudesse ser feito – até porque o leite já estava derramado, não houve ninguém com capacidade para competir melhor para evitar o desastre – nos resignamos. Pensamos que, quem sabe? – o homem que assumiria a Presidência poderia se adequar, entender o que é Estado, Nação, o papel que lhe cabia. Que serenaria seus ímpetos de baixo clero, seus matutos, desinformados e inflamados discursos, em prol de governar para todos, pela pátria, e como ele próprio repetia, pelo Brasil acima de tudo.

Não se passaram muitos dias para que a nossa resignação virasse preocupação, susto após susto, quase que diariamente. O rol dos ministros escolhidos, as postagens nas redes sociais, as “lives” toscas, os comentários desairosos, a compra de briga com importantes setores da sociedade civil, as ameaças e ataques à imprensa, aos repórteres. A lista é já de início impressionante. Some-se censura a obras de arte, falta de compromisso com o meio ambiente e com todas as tragédias – de Brumadinho, queimadas, óleo nas praias, violência nas ruas, acidentes.

Como um carro sem freio acelerando numa ladeira íngreme, e tentando fazer uma curva à direita, os descalabros foram se avolumando. Ministro colombiano, astrólogo filósofo palpiteiro, teses escalafobéticas como a da Terra ser plana, meninas de rosa, meninos de azul, indicação de ministro “terrivelmente evangélico”, “golden shower”, erros crassos em portarias governamentais. Logo vieram as encrencas e grosserias nas relações internacionais, as trocas de ministros por outros piores ainda, os cortes de verbas nas áreas sociais, as dificuldades nas negociações políticas, o atraso em atender às promessas eleitorais, os ataques à oposição, mesmo estando essa engessada, múmia, como ainda parece estar.  Mais imóvel até do que o próprio e rebelado partido que caiu da cama onde dormitava, o partido do presidente.

Seguiram-se ainda revelações que associavam o sobrenome Bolsonaro à corrupção, às milícias, a um sem fim de tudo de ruim que parece ter sido juntado em um grupo só, para nos desanimar a todos ( todos, claro, sem contar os seus iguais que ainda batem pé, cantando hinos com a mão no coração): os da maioria que votou nele, os que não votaram, os que escolheram outros, os que se abstiveram, mas todos em busca apenas de um país que saísse da paradeira após o desastre já vivido nas últimas administrações, do PT, de Lula, Lava Jato, Dilma, do impeachment, de Temer.

Logo percebemos outro grande problema que se agravaria muito no decorrer do ano, desses até agora dez terríveis meses de 2019: os Filhos do Capitão, os 00s, 01,02,03, Huguinho, Zezinho e Luizinho, ops! – Carlos, Flávio e Eduardo. Todos com cargos parlamentares, pela ordem, vereador no Rio de Janeiro, senador, deputado federal, os dois últimos eleitos agora na esteira do pai.

Eles são motor de crises, que agora chegam ao auge com a desfaçatez de Eduardo Bolsonaro ameaçando com AI-5 quem pensar em “derrubar” o pai, como afirmou. O AI-5, o mais devastador ato da ditadura militar que cobriu esse país por 21 anos. Nesta mesma semana, estupefatos, vimos os meninos divulgando o vídeo do leão atacado por hienas etiquetadas como se fôssemos nós todos, ao fim e ao cabo. Ouvimos o próprio pai, em viagem ao Oriente, ousar dizer, na Arábia Saudita, onde se encontraria com um sanguinário filho de monarca, que todas as mulheres “adorariam passar a tarde com um príncipe”, referindo-se ao príncipe Mohamed bin Salman, entre outras acusado de mandar esquartejar e matar (nessa ordem, a que parece que foi executada) o jornalista Jamal Kashoggi.

Só se fossem loucas essas mulheres, que ali já são vítimas das maiores proibições, atrocidades e desrespeitos.

Chega. Não tem mais nenhuma graça. Não podemos mais achar normal, não tem mais quaquaraquaquá, memes, piadinhas ou qualquer outra insinuação que aplaque a agonia. E o que é pior: até os militares que o cercam já percebem que Bolsonaro está mais para o atrapalhado Sargento Tainha e seus recrutas Zeros, do que para Popeye.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Site Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano- Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – A urgência do tempo. Marli Gonçalves

 

 Baques. Baques terríveis essa semana. Duas mortes. Duas mulheres à frente do seu tempo, e que farão muita falta. Para mim, para o mundo, e especialmente no momento em que vivemos. Duas revolucionárias, destemidas, realizadoras. A escritora, realizadora, roteirista, atriz e muito mais que tudo isso Fernanda Young, primeiro, e dias depois, Sonia Abreu, a pioneira, a primeira DJ do Brasil. Isso nos faz pensar na urgência das coisas. No tempo…

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…Pensar na vida, às vezes é bom, em outras dá uma certa amargura. É o caso desses dias nos quais essas perdas foram tão sentidas. Especialmente a de Fernanda Young: parece que de repente do nada abriu um buraco no chão e ela se foi, vítima de asma. Fico imaginando seus minutos finais. Toda aquela energia vibrante sem conseguir respirar, procurando ajuda médica em uma região distante onde estava, a propósito descansando no seu sítio. Aos 49 anos. De repente estava inesperadamente morta.

A morte de Sonia Abreu, por outro lado, pode até ter sido um alívio para essa notável mulher. Sofrendo de ELA, Esclerose Lateral Amiotrófica, que vai causando a perda das funções, as atrofias, a paralisia do corpo, ela já estava com graves dificuldades. Uma mulher que viveu para a música, dançando, para a alegria, fazendo o bem a todos, que botava para dançar. 68 anos. Após sofrer uma fadiga respiratória, Sonia não resistiu.

As duas grandes mulheres, enfim, morreram igual, coincidentemente por de alguma forma não conseguirem mais respirar esse ar que nos mantêm. Fiquei – ainda estou- muito impactada com essas e mais tantas outras mortes recentes ou não e que sempre sacodem a gente para a finitude da vida. E para a total imprevisibilidade dessa finitude.

Surge o tempo e sua urgência. Surge – e não adianta tentar afastar, que volta – o pensamento do que é que deixaremos de legado, o que a menção de nosso nome significará, e o tanto que há ainda a fazer para considerá-lo importante, para que fique bem frisada a nossa passagem por aqui, a influência que poderemos ter no dia seguinte, no futuro, e em novas gerações que serão a real forma de renascimento, independente de nossas crenças religiosas. As palavras que dissemos, escrevemos, os atos que ensinamos, os momentos que criamos, cada vez mais registrados, se não por nós mesmos, pelos que estão à nossa volta, ou ainda nas ruas, com os vigilantes big brothers que nos acompanham onde quer que passemos.

A urgência não é emergência, e vice-versa. Que coisa: na emergência a vida está em risco, e a nossa urgência, não, essa pode esperar, embora sempre urgências necessitem de ação imediata, a mais rápida possível. Precisam ser resolvidas. Daí estarmos sempre correndo atrás do tempo. E cada vez mais, principalmente nas zonas mais urbanas. Para não vivermos emergências. Dá para entender?

Acabamos filosofando muito mais a partir disso e de uma só pergunta: “Vale a pena?”

Por que corremos tanto, e porque ao mesmo tempo perdemos tanto tempo com assuntos imbecis e esperando, apelando, por amor de quem talvez só vá sentir nossa falta só bem depois de lágrimas de crocodilo caírem dos seus olhos?

E o tal tempo correndo de nossos pés. Respondo que, como as amigas que saíram de cena fizeram, corremos, perdemos tempo correndo atrás do próprio tempo porque a vida é uma só, e ela é propriedade particular única e que jamais será recriada por outra pessoa nem nos mais longínquos sonhos de ficção. Há de ser exemplar, que sigamos corajosamente buscando a transformação, o avanço, a solidariedade, o bem de todos e o conhecimento.

Principalmente busquemos que o ar que respiramos para viver, mesmo que apenas em sentido figurado, seja o mais limpo e puro possível.

No momento está tudo muito denso, quase irrespirável. E o tique-taque de nosso coração, o tumtumtum de suas batidas, precisa continuar.

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#ADEHOJE – UM TERÇO DE BRUCUTUS NO PAÍS

#ADEHOJE – UM TERÇO DE BRUCUTUS NO PAÍS

 

Só um minuto – Depois de dias de um ataque de declarações estapafúrdias do homem que nos desgoverna, vamos começando outra semana, agora com a volta dos trabalhos nos Parlamentos e no Judiciário e nas escolas… Eles param, nós continuamos sempre. Matérias hoje mostram o óbvio, 1/3 dos brasileiros pensa igual ao presidente, dessa forma tosca, em relação ao meio ambiente, direitos humanos, tudo o que nos é tão caro. Esse um terço será sempre o que ele guardará sob a asa que esperamos não se espalhe. Ao contrário, diminua a cada dia, o que de alguma forma já estamos vendo, porque bom senso não faz mal e precisamos que o país seja melhor.

O SÉRIO DESMATAMENTO QUE PRETENDEM ENCOBRIR TRAZ NOVOS CAPÍTULOS. Agora querem por um militar no Inpe e mudar a forma de monitoramento.

Trump, depois de dois ataques em apenas um fim de semana, com dezenas de mortos e feridos, reage. Promete pena de morte! Como se quem atira estivesse preocupado com isso.

#ADEHOJE – FALOU O QUE PENSA? DEMITIDO

#ADEHOJE – FALOU O QUE PENSA? DEMITIDO

 

SÓ UM MINUTO – Esse grupo que está no comando do Governo de Jair Bolsonaro não sabe diferenciar o que é Governo e o que é Estado. Não respeita suas próprias agências e institutos. Não acolhe (e nem pergunta, na verdade) suas opiniões. O resultado é algo como o que ouvimos hoje. Diretor do INPE, Ricardo Galvão, exonerado após fala sobre o Presidente Bolsonaro. Fala essa, inclusive, absolutamente verdadeira. Mas hoje, em reunião como o Ministro da Ciência e Tecnologia, o astronauta Marcos Pontes, foi saído, embora seu mandato terminasse só o ano que vem.

A pendenga foi direta com o Bolsonaro e com o Ministro do Desambiente, Ricardo Salles, envolvendo os dados terríveis sobre o desmatamento, que chocam o mundo inteiro e nos levam a mais um problema internacional. Ô, gente! ÓXENTE, Feliz dia dos Nordestinos.

#ADEHOJE – OLHA O SINAL. BOLSONARO AGORA REAFIRMA SER DE DIREITA

#ADEHOJE – OLHA O SINAL. BOLSONARO AGORA REAFIRMA SER DE DIREITA

 

SÓ UM MINUTO – A GENTE JÁ SABIA, MAS AGORA ELE FALOU. Vamos falar sério? A coisa está se avolumando e ficando muito séria mais rapidamente do que supúnhamos. O Diário Oficial da União de hoje trouxe troca de quatro membros da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos políticos. Coisa de Bolsonaro com a Damares. Pior, dois dos substituídos serão raposas, ops, militares, vêm do Exército. E aí, ao ser perguntado, ouvimos isso do homem que nos desgoverna: “O motivo é que mudou o presidente, agora é o Jair Bolsonaro, de direita. Ponto final. Quando eles botavam terrorista lá, ninguém falava nada. Agora mudou o presidente. Igual mudou a questão ambiental também”.

Socorro! Isso tudo ainda depois do despautério das declarações sobre a morte do presidente da OAB. E do que estamos vendo fazerem de nossos verdes.

O presidente resolveu cutucar a onça, com sua vara curta. Precisamos mostrar os dentes.

 

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#ADEHOJE – RESSUSCITADOS: DILMA E LAVA JATO

#ADEHOJE – RESSUSCITADOS: DILMA E LAVA JATO

 

SÓ UM MINUTO – A coisa está tão louca que foram até tentar ressuscitar a Dilma Rousseff que deu entrevista longa para o Leonardo Sakamoto, do UOL. Entre iguais. O que ela disse, bem, vocês imaginam, mas nada que vá nos salvar da catástrofe criada com a eleição de Jair Bolsonaro pelo ódio cultivado ao PT. Que tantas fez, especialmente no Governo Dilma, que conseguiu essa polarização desgraçada que estamos vivendo. Estão violentos os ataques insanos de quem não consegue pensar – e já que não pensam são brucutus igual que nem…

Hoje deflagrou-se a 62ª fase da Lava Jato, e foram atrás da cervejaria Petrópolis …O dono, Walter Faria, sumiu, caiu no mundo.

Sobre a carnificina no presídio em Altamira, no Pará: além dos 58 presos mortos na guerra das facções, mais 4 morreram, vejam só, asfixiados, enquanto eram transferidos. A política jura que eles estavam bem, separados entre si, etc, dentro do caminhão que os levava.

NÃO ESQUECE! Lançamento do meu livro Feminismo no Cotidiano, dia 20 de agosto, terça-feira, na Livraria da Vila, Alameda Lorena, sp

 

#ADEHOJE – O QUE BOLSONARO REALMENTE PRETENDE?

#ADEHOJE – O QUE BOLSONARO REALMENTE PRETENDE?

Só um minuto – Essa é a questão. Por que ele está esticando o elástico? 54 mortos no presídio de Altamira, no Pará; líder indígena assassinado; o mundo caindo e o Homem que nos desgoverna brincando para ver até onde vão nossos nervos, que já chegam nos limites com suas declarações e afirmações estapafúrdias. Agora, a declaração infeliz, eu diria até escrota, sobre o pai do presidente da OAB, assassinado pela ditadura, envergou o copo de boa parte da sociedade civil. Sociedade esta que parece estar letárgica. Bolsonaro nega ainda as amplas investigações da Comissão da Verdade. Todo dia, toda hora…

Faz um live cortando o cabelo, depois de desmarcar encontro importante com um representante da França, e aparece meio Hitler, com cabelinho caindo, e reafirma os seus próprios despropósitos.

Aí tem. Fiquemos alertas.

ARTIGO – Vulneráveis. Por Marli Gonçalves

Ameaças chegam de todos os lados e a cada dia parece mais desesperador o simples ato de viver. Não bastassem as ameaças físicas, agora também temos as virtuais, cibernéticas, digitais, intrometidas, sórdidas e perigosas. Para completar, as mulheres ainda são as maiores vítimas de ameaças de exposição de fotos íntimas, sequestro de dados e extorsões

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Invasão, vazamentos, hackers, apps de mensagem, comunicação, criptografia, Telegram… saudades do tempo em que só ouvíamos falar em vírus, que a gente imaginava como pequenos insetos ou bactérias contaminando nossos computadores. Agora o problema são ratos e vermes cibernéticos, em forma humana, escondidos em algum canto escuro. Nossos celulares, tão tecnológicos, esses aparelhinhos que viraram os verdadeiros “pets” digitais que carregamos para cima e para baixo na mão, na coleira, no bolso, na bolsa, com lindas capinhas cada vez mais variadas, chamativas  e sofisticadas – já repararam que loucura está isso? – se viram contra nós, quase que literalmente. E não é para tirar foto selfie com a câmera da frente.

Nossa vida está toda ali.

Nunca ouvimos falar tanto, tão frequentemente, e de forma tão espalhada, desse assunto que, se você pensar bem, não precisa ser autoridade, importante, celebridade, coisas assim, para ser “invadido”. É, inicialmente, gente que se diverte tentando enganar os outros, atrapalhar o serviço, armados até os dentes, mas – incrível – a arma é alguma forma de inteligência nesse campo da informática que ainda age, fala e se comunica em uma língua estranha à grande maioria de nós. Já tentou ler algum desses manuais? E as orientações para nós, pobres mortais, que quem mexe com isso acha que é tudo fácil, mas que a gente não consegue entender a sopa de letras, comandos, o que falam, os termos técnicos, uma nova língua aborígene e extraterrestre para os leigos. Principalmente quando tentam dizer o que é que temos de fazer. Que normalmente dizem que é fácil e se irritam, abruptos, com nossa total lentidão frente aos dedos ágeis deles quando se movimentam nos dispositivos.

Essa semana nosso site Chumbo Gordo ficou fora do ar por quase 48 horas. Fiquei quase esse tempo todo tentando resolver, isso ainda depois de descobrir que havia sido um ataque hacker. Foi uma dor de cabeça. Como se um bando de formigas atacasse um açucareiro ao mesmo tempo e ele tombasse (eu explico bem mais simples, né?).  Eles chamam isso de derrubar. Outro dia tínhamos sofrido um ataque, mas no site da empresa, e foi identificado que vinha de provedores instalados na Rússia. Garantimos: nós não conhecemos ninguém lá, muito menos inimigos. Os ratos não têm terra, se espalham – justamente para não serem localizados. Os caras, em geral, são contratados para o serviço sujo, ou ganham enganando trouxas com páginas falsas, ofertas mirabolantes, e-mails que se forem abertos pescam coisas e senhas dentro do seu computador. Assim como você já deve saber que tem quem venda, e bem caro, perfis, robôs, curtidas, seguidores.  Eles vivem disso. O que vem ajudando a divulgação maciça de fake news, e a defesa ardorosa de “certas” coisas, pessoas e poderes nas redes sociais.

Virou tudo território de ninguém.

Nesse território vimos a prisão de quatro cidadãos do interior de São Paulo acusados de, por meios difusos, entrarem na conta de mil pessoas, grande parte, autoridades. Não está claro ainda se roubaram as pessoas comuns e se, das tais autoridades, pegaram o que lhes é de mais valioso: a intimidade, as conversas, as decisões. Até o presidente teria sido “invadido”, mas daí nada de bom sairia mesmo…Já pensaram as conversas dele? Com os “meninos”, Filhos do Capitão, ou mandando a esposa preparar um ragu? Descendo a lenha em alguém que o contrariou?

Brincadeiras à parte, esse assunto é muito sério, está cada dia pior e não enxergamos como resolvê-lo exatamente. Ainda vamos saber muito, a não ser que seja, como quer o ministro da Justiça, todo o material apreendido destruído, queimado, “desaparecido”. Quem são mesmo esses presos? Venderam? Deram de graça? Qual interesse? Político, de verdade, de ideologia, não está parecendo, e devem estar sendo escarafunchados.

Sobre a nossa vulnerabilidade, especialmente a das mulheres, surgiram leis, mas que só funcionam – se é que funcionam – depois do leite bem derramado e das fotos espalhadas pelo vento virtual que ninguém consegue ensacar. Tenho pensado muito nestas questões e estou convencida, inclusive, que grande parte dos feminicídios que estão ocorrendo, esse verdadeiro horror, são decorrência de problemas com celulares, mensagens, privacidade invadida. Uma mensagem ingênua pode ser lida e entendida de qualquer forma por alguém contaminado pelos ciúmes e pela insegurança. Já tive, e de alguma forma ainda tenho, problemas por causa disso, e que me impedem de mandar mensagens para alguém na hora que gostaria. Pode ser interceptada, a palavra do momento, e causar barulho, que não desejo para ninguém.

Dá medo. E cada vez mais homens e mulheres se comunicam por esses meios, inclusive por trabalho e necessidade.

Sabem que ando até com receio de mandar beijos no final das mensagens?

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Marli Gonçalves, jornalista – Consultora de Comunicação, editora do site Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para as mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. Lançamento oficial dia 20 de agosto, terça-feira, a partir das 19 horas, na Livraria da Vila, da Alameda Lorena. Já está nas livrarias e à venda online, pela Editora e pela Amazon.


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ARTIGO – Natureza humana e o Feminismo. Por Marli Gonçalves

 

A paixão é da natureza humana. Por ela, enlouquecemos, nos transformamos, às vezes até nos subestimamos. Muitas coisas são da natureza humana, mas é importante pensar sobre elas para modificar essa natureza, especialmente quando mostram seu lado escuro. As mulheres têm uma importância enorme nessa criação e é preciso fazer todos compreenderem muitas das questões que nos diferenciam para que haja paz nessa relação. Simples de entender e apoiar, desde que não haja preconceitos. Muito prazer, esse é o Feminismo.

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Feminismo é para todos. Embora seja um movimento predominantemente feminino, pela igualdade de direitos em todas as áreas, luta por questões relacionadas às mulheres e às suas características inclusive físicas, por toda uma série de coisas que deveriam já estar há muito reconhecidas – mas que ainda não estão – diz respeito a todos. A toda a sociedade. Todos os sexos, idades, raças, classes sociais, gêneros. O feminismo trata do aprimoramento da natureza humana. É preciso acabar com os clichês e estereótipos que o envolvem, para que venha à luz. Quando nela chegar e puder ser visto claramente, não haverá dúvida: todos seremos feministas. Quem não for, bom sujeito ou sujeita não é… Não será.

Não é radicalismo. É a lógica. Quem pode ser contra a igualdade salarial entre homens e mulheres exercendo a mesma função? Quem pode limitar – e cada dia mais as mulheres conseguem glórias em novas e espetaculares áreas – as suas atividades, seu avanço? Quem lhes pode negar proteção em suas fragilidades? Quem lhes pode negar seus direitos e necessidades em saúde, justiça, participação na vida pública, tantos passos ainda a serem dados e respeitados?

 Apenas os que pregarem a dominação, a injustiça, o machismo, a incompreensão e a violência. E cada dia fica mais claro quem é parte desse grupo que dissemina o ódio, encobre a violência, ainda tenta manter o controle bruscamente, porque percebe que sua derrota se torna inevitável, rápida. Esses se isolarão.

Andam falando muito em mandar as mulheres nas missões espaciais à Lua. Bom. Mas demorou, hein?!? Agora há pouco bateram palmas para a nossa Seleção Feminina de futebol, mas elas há muito estão nessa batalha, e com muitas vitórias, vide Marta, que arrasou mais ainda ao jogar com a sua boca pintada, mulher, ironizando as velhas falas. Conhecemos mulheres interessantíssimas, do mundo inteiro, fortes, corajosas, e enfrentando poderosos.

Informação é fundamental. Mas as mulheres infelizmente, ainda não integram naturalmente as pautas de imprensa, embora vejamos que cada dia mais nela trabalhem, numerosas. Ainda aparecemos, sim, destacadas, mas como ETs e aí todo mundo se surpreende como esta ou aquela mulher chegou tão longe, seja no feito, no poder, no comando. A primeira mulher isso, aquilo vira manchete. Tantas outras passam despercebidas.

Há muito as mulheres vêm sendo assassinadas, violentadas, assediadas, cruelmente, mas foi só em 2015 que se moldou o termo feminicídio, que agora conta essas mortes às centenas; e precisou que estrelas de cinema abrissem as cortinas do espetáculo para que se percebesse o que ocorre todos os dias no trabalho, nos transportes, dentro das casas, nas relações. Assim por diante. Quem pensa nas crianças, que já devem ser educadas para esse novo mundo de igualdades? Quem pensa nas mulheres velhas e sem viço que vagam pelas ruas? Homens podem envelhecer com muito mais tranquilidade e sem cobranças – e vejam que até a Xuxa anda falando muito sobre isso.

Por isso e outras que tenho horror ao termo “empoderamento” que virou chiclete, uma espécie de adesivo. Ninguém precisar dar poder às mulheres, aos homens, aliás, a ninguém. Cada de um de nós o detém. E da natureza humana e de caráter individual encontrá-lo. Seja para ser como se quiser ser, seja para chegar cada vez mais longe.

Falo mais uma vez sobre esse assunto – que quem me acompanha sabe que está sempre na minha mira – porque agora escrevi um livro que chega nas livrarias esta semana, e que lanço oficialmente dia 20 de agosto, aqui em São Paulo: Feminismo no Cotidiano – Bom para as mulheres. E para homens também. Pela editora Contexto, que me convidou para esse que é o segundo livro da coleção “Cotidiano”. O primeiro foi de Luiz Felipe Pondé, Filosofia no Cotidiano.

Escrevi sobre o que vejo, vivo, e sei que viveremos ainda por um bom tempo. Realidades, sem teorias, mostrando o que se passou e o que se passa. Voltado para homens e mulheres. Hoje o movimento feminista se apresenta vibrante e abrangente – e talvez por isso mesmo estejamos assistindo a um recrudescimento contra ele, e com teses estapafúrdias. Não precisa se embandeirar.  É só ser. Viver. Deixar viver. Melhorando essa terrível natureza humana que parece sempre buscar conflitos.

Apresento a vocês, com orgulho, meu livro, e a fé de que passemos a andar um pouco mais rápido nesse assunto, ainda com conquistas tão lentas.

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Marli Gonçalves, jornalistaConsultora de Comunicação, editora do site Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para as mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto, e que está nas livrarias e à venda online, pela Editora e pela Amazon

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#ADEHOJE – – INSISTÊNCIAS DAS COISAS

#ADEHOJE – – INSISTÊNCIAS DAS COISAS

SÓ UM MINUTO – Olhos abertos! O presidente insiste em indicar o filho Eduardo Bolsonaro à embaixada do Brasil nos EUA. Pelo que vi o Senado, que é a instância que deve aprovar ou não a indicação, está em polvorosa, e promete reagir. Ao mesmo tempo, claro que já tem lá também os espíritos de porco que querem voto secreto. Precisamos ficar atentos… Isso são golpes.

Outra insistência que temos ouvido falar nos últimos dias também é sobre a criação de outra CPMF, que sempre como vocês sabem de provisória não tem é nada. Imposto vem e fica; cria raiz.

O que digo hoje é o quanto precisaremos ficar atentos para não tomarmos essas pauladas.

ARTIGO – Papai faria 100 anos. Por Marli Gonçalves

Parece título de Gabriel Garcia Márquez, mas na verdade é porque andei lembrando que o meu pai completaria 100 anos nessa próxima semana. Chegou só aos 98, cansado da vida que viu.  Um Século, e a sensação que agora estamos voltando, mas a um tempo errado

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Que século foi esse! Visto 100 anos para trás poderia parecer que o mundo ali entraria apenas em desenvolvimento e progresso, com a arte imperando, invenções importantes, um ciclo de glórias, inovações. Em paz, depois da tristeza da Primeira Guerra Mundial que atingiu em cheio a Europa, e que buscava renascer de suas cinzas. Os “Loucos Anos 20” eram vividos com alegria, com importantes transformações de costumes, e a vida parecia ter adquirido novos sentidos. Os Estados Unidos tornara-se uma das maiores potências e era também centro de irradiação de novidades em todos os setores.

O cinema florescia, a música – o jazz e o blues envolviam a exuberante vida noturna, a moda libertava mais o corpo da mulher, que deixava de ser mera coadjuvante. Já votava, se fazia presente e atuante nos acontecimentos, na opinião, na literatura, na pintura. Espetáculos, movimentos como o Surrealismo, o Dadaísmo, na moda, Coco Chanel. Foi a era das inovações tecnológicas, da eletricidade, da modernização das fábricas, do rádio e do início do cinema falado, entre tantas outras descobertas e avanços.

No Brasil, os reflexos são simbolizados na Semana de Arte Moderna, embora sempre seja a política um fator de atraso, e aqui não foi diferente. Mas havia a reação, as pessoas estavam felizes e parecia que um mundo novo chegaria, com igualdade, deixando pra trás a crueldade.

Triste sina. Com a quebra da Bolsa de Nova York, a 24 de outubro de 1929, deu-se a Grande Depressão e uma nuvem carregada pairou, finalizando o período dos sonhos. De lá para cá, outros vieram, foram, vieram, insistiram.

Mas as promessas de que os horrores das guerras não se repetiriam, que o desenvolvimento acabaria com a fome e com a miséria, que a ciência triunfaria, que os homens e mulheres se respeitariam, tantas promessas… vêm ficando pelo caminho. Que cessariam as perseguições por etnias, credos, raças, gêneros, que direitos civis e humanos seriam respeitados, quantas promessas! Estamos no espaço, mas destruindo a Terra que habitamos.

Tudo isso e muito mais passa diante de meus olhos quando lembro de meu pai, com quem convivi bem de perto nos últimos anos de sua vida. Hoje vejo por que ele era tão cético – já tinha vivido quase um século para saber, ter certeza, que os “papagaios de botina”, só assim se referia aos políticos e líderes, não têm palavra e pouco pensam no bem-estar geral. Com sua pouca cultura, mas muita vivência, acompanhou as ondas do tempo que chegou aos nossos dias.

Tristeza de ver o país disputado por toscos, de esquerda, centro e direita, que nos deixaram completamente sem opções em todas as esferas. Angústia de assistir ao desfile de falsos e hipócritas buscando manipular a opinião pública com moralismos, como se ela própria não pudesse ver e sentir com clareza o ambiente em que vive, não tivesse discernimento nem carregasse de memória a enorme lista do que precisa realmente de atenção e de construção.

Estamos voltando, regredindo, e diretamente ao que de pior houve nesses últimos cem anos.

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 – Marli Gonçalves, jornalista – Como gostaria agora de ver os nossos Anos 20 com outro ângulo, para querer viver até os 100 e poder contar novas histórias de outras gerações.

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Brasil 2019, limiar

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ARTIGO – Eu vejo. Por Marli Gonçalves

Eu Vejo

Por Marli Gonçalves
Pelos bigodes de Salvador Dali! Eu vejo, mas tem coisas que não queria estar vendo. Vejo ao vivo e em cores. Eu vejo o que todo mundo pode ver, mas talvez eu seja ou esteja mais atenta com essa minha mania de reportar, de reparar. Coisas de jornalista. Como diria nosso Cazuza, o próprio, que deve bem ter visto onde tudo isso ia dar e se mandou: eu vejo o futuro repetir o passado.

  Eu vejo gente, antes de tudo. Gente falindo, quebrando, sem esperanças, gente agoniada com o rumo dessa toada. Sendo derrubadas como as vacas pelo rabo nas vaquejadas. Levando rasteiras. Vejo a minha gente dividida e sem noção.

Com que frequência? O tempo inteiro, como respondeu o menino do filme de cinema que, apavorado, via gente morta.

Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome. Nem de frio, jogado numa rua movimentada de São Paulo – o dia inteiro morto, ali, até que alguém percebesse que aquele corpo já não se mexia, ali morto jazia.  São tantos corpos jogados pela cidade que poucos param para ver se ainda se mexem, se tremem, se têm fome, ou se apenas estão decididos a se consumir a si próprios acelerando verem-se livres da existência.

Eu não posso, embora tente, ver beleza em tudo. As coisas estão feias, ultrapassadas, caindo aos pedaços porque ninguém consegue ver, nem sentir, renovação.

Eu vejo isso por cima de um muro, muro cheio de políticos sem ideal, amontoados, se reunindo para decidir quando se reunirão para decidir que ali vão ficar. Em cima do muro. Mas de lá eles não avistam o que eu vejo, nem conseguem ouvir os apelos dos que eu vejo por aí tentando sobreviver. Mantendo um mínimo de dignidade, cada dia mais rala.

Eu vejo tudo enquadrado para onde dirijo o olhar – de uma vista cansada que a cada ano aumenta um grau. Talvez  até para não serem vistas,  as próprias coisas se embacem, se distanciem. Essa semana atualizei as lentes dos meus óculos para ver de perto. E os de para ver de longe. Dois, que um só para tudo – bifocal -não acompanha o movimento rápido que faço pra não perder de ver nada, me confunde e tonteia. Não posso me dar ao luxo de não enxergar para qualquer lado que olhe. Nem que seja só para contar a vocês algumas das minhas observações.

Tem de ser um para ver bem de perto; outro para avistar de longe. E não são mais as letrinhas do cartaz do consultório do oftalmologista o que tenho de decifrar. O que não quero é ver pontos negros, nem pontinhos brilhantes, nem a luz cegando meus olhos quando vem em direção contrária. Luz é para iluminar, não ofuscar a gente.

Não vire o rosto. Olhe também o que está havendo e não dá para negar. Negue que me pertenceu, Que eu mostro a boca molhada. E ainda marcada pelo beijo seu.

Eu vejo flores em você. E foi o aroma delas que me fez lembrar de um outro e do que eu vi esses dias caminhando um pouco na grande cidade onde vivo; e o que ouvi; o gosto amargo que veio na minha boca; o terrível cheiro de esgoto que senti vindo da água podre de esgotos escorrendo pelas calçadas de um dos seus bairros mais nobres, e o que me fez imaginar como andará o resto do território nacional.

Ver é sentido. Houve uma vez uma canção que falava perto do coração. O que os olhos não veem o coração não sente, uma forma de tentar explicar nossa própria distração, nossa própria cegueira.

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Marli Gonçalves, jornalista – Vejo você amanhã, ou depois. Tudo bem. Vejo a porta abrir. Cheia de esperança.

Os Estados desse país, 2017

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ARTIGO – Precipício, por Marli Gonçalves

cobrinhaAs pernas vibram “por dentro”, querendo se vergar, como quando um caminhão passa na rua e treme tudo, o chão. Uma leve tontura. Palpitação. Toda vez que me vejo diante de um precipício – e que não é exatamente um, mas o futuro – me sinto como quem tem medo de altura e alguém manda olhar lá para baixo, forçando, para ver se o apavorado acaba logo com o problema. Pula! Pula! Pula! no abismo

Um grande amigo meu tinha muito, mas muito medo de altura, paúra. Tanto, a ponto de passar anos sem ir ao meu apartamento quando eu estava no 11º andar, porque só de pensar em pegar o elevador tinha um ataque de pânico. Um dia ele me chamou para irmos ao topo de um dos prédios mais altos da Avenida Paulista, tão alto que tem uma torre dessas de tevê, grandona e toda colorida. Lá fui eu, mãos dadas com ele, num daqueles rompantes de solidariedade fraternal. Mais: ele não só subiu ao terraço, como deu até uma esticadinha, um pulinho, na tal torre, rindo, só que agora do meu pânico, do meu limite. Nunca esqueci essa cena: naquele dia aprendi que enfrentar o medo realmente ajuda a coragem e a solução, ou pelo menos adaptação, principalmente para quem não tem, como eu diria, recursos para análises e terapias.

Faz muitos anos. A cena veio à mente esses dias e não foi porque eu estivesse ou pretendesse estar em qualquer lugar alto, até porque não sou a mais medrosa, sem exageros, embora ninguém vá nunca me ver nem fazendo rapel, nem pulando de uma ponte com aquela cordinha ridícula ou muito menos me jogando de um teco-teco com paraquedas. Lembrei da cena porque estou sentindo o mesmo tremor nas pernas, e precisando – na verdade até já tomando aquele impulso – dar um salto enorme, mas em decisões, justamente para tentar chegar mais segura ao outro lado, pulando o tal precipício, mas para seguir firme no caminho.

magnetismoDá para fazer essa mesma analogia com várias coisas. Você fica ali, na frente do buracão, parado e postergando, postergando. Até que tem uma hora que chega, ou um maluco que empurra, ou um touro bravo nos seus calcanhares, e não há mais tempo de pensar muito. A prisão dos líderes políticos e empresários condenados no julgamento do chamado mensalão me deu também essa impressão. Agora vai. Fico imaginando como andava a vida desses e dessas, a expectativa se aconteceria ou não. Vendo, entre outros, Genoino visivelmente doente e perdido, a ponto de sair de casa para se entregar vestido com uma capinha e conclamando multidões, vendo o Roberto Jefferson, ex-gordinho, definhado, ainda desafiando seus próprios instantes de liberdade com palavras fortes, e vendo, ainda, o estado da ex-presidente do banco, quase irreconhecível, pequena, perdida e sem a altivez de bailarina que ostentava. Notei o quanto essa espera deve ter sido amargurada. A prisão será o de menos.

homem acha coraçãoAs voltas que o mundo dá são suficientes para envergar qualquer um, já cansei de ver. Sacolejam a estabilidade. Causam pequenos tremores e, também, às vezes, terremotos, que fazem necessário que se reconstrua tudo, mesmo que usando bases antigas para economizar. Não diga desta água não beberei, até porque nem sabe de onde vêm muitas das águas que saciam. Tem ainda um pau, que bate em Chico e Francisco – e que vimos bater até em Gil e Veloso recentemente.

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Já inventaram de um tudo, tanto que daqui a pouco vão dispensar até os humanos, correndo essa toada. Mas não inventaram nada que veja o Futuro, embora uma bola de cristal possa até ajudar, mostrando entre névoas o que quiser ver, e dificilmente provar que viu. Daí ainda ter tanta gente que apregoa nos postes e vive de dizer que pode até juntar amores partidos.

A gente tenta. Mas todas as estradas acabam em algum ponto, obrigando que uma hora ou outra, ou várias durante a existência, pulemos o tal precipício. Alguns caem. Outros se jogam, justamente por não dominar ou entender as tais pernas que vibram que me referi no começo.

Quero ser sempre a que pula. Conto com sua torcida. Nesta hora parece que ninguém entende a gente.

pedindo desculpasSão Paulo, 2013 

Marli Gonçalves é jornalista – A cada dia aprende mais sobre quanto uma coisa que é muito pessoal, quando escrita e lida, pode também ser muito pessoal e compreendida por outra pessoa que nem ao menos conhecemos. Uma magia. Como se desse para psicografar o inconsciente coletivo.

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